JÁ NADA EXISTE?!
Márcia Possar

A inculpabilidade dos meus olhos sonhosos
pedem o abandonar absoluto da tua sina dolorida.
Será que dói em ti o meu pesar pela falta de tempo
que não vai permitir o nosso abraço secular?
Será que sentes alguma coisa parecida
ao que meu olhar ainda espera de ti?

Nada que não for purificado pela chuva,
para então poder ouvir os nossos versos
de dentro de um cofre,
num choro de fazer moçar todas
e quaisquer formas que se plantam
no teu peito de homem,
pode sobreviver às chances de recuperação
desse infinito amor?

A tua passagem pelas linhas do meu horizonte
faz-me despertar
para um sonho sem possibilidades?
Eu quero me lembrar da verdade
que existiu naquele momento de ontem
e do que sobrou com gosto de ainda existir,
nisso tudo, hoje.
Mas quero, muito mais, saber-te laços,
quero muito saber-te leme,
quero saber-te em traços,
uns adiante dos outros formando-te
na virtude do regresso.
A tua volta para casa!

Tira-me por favor,
tira-me para sempre desta soleira!
Eu não quero mais
ver-te a admirar a minha sutileza
e não ter tempo para te curvares
às coisas que trago dentro do coração.
Não sou deusa, não sou musa, não sou nada.
Sou somente a moça errada
abeirando todos os enganos teus
e pedindo brandura para todos os enganos meus.
Presa,
porque assim me fizeste, ao teu viver,
que dá vida a cada um
dos riscos de querer ter-te

Nessa realidade sem testemunhas,
ser é não saber-te jamais?
E saber-te não é ter experimentado
aquele mínimo de angústia
por um terno e eterno momento
em que me engoliste
e eu fiquei marcada para sempre?

Tira-me por favor,
tira-me deste viver errante que não me reconheço...
Limpa-me desta espera sem vida
que não me salva nem me redime.
Leva-me nas asas da tua jornada de ida
e cuida das probabilidades
e acontecer o nosso amor.
Quero dar nome a essa coisa de amar,
porque neste intervalo não me posso saber,
fico sem o contato,
fico sem ti na ilusão de que vais voltar.

Teu coração já não quer continuar,
ou sempre existiu em mim
e ainda não vieste buscá-lo?


Fevereiro/2005
Música: O Mio Bambino Caro - Puccini

 

 
 
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