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Foi-se o tempo da vindima
do amor semeado no peito,
colhendo o fruto perfeito
da intenção emocional
– quando amar fazia rima
com qualquer coisa que afaga,
e "amor com amor se paga"
era crença universal.
Tempo de crença é curtinho
– bem o sabem os que amaram
nessa forma: hoje mudaram
os sinais da identidade
do amor – e é outro o caminho
a ser feito e percorrido
para que exista um sentido
real na amorosidade.
Já vivemos nossa infância
de amor – de sonhos, de gozos;
já fomos até famosos
– na galhardia ou na fossa –,
quando a nossa tolerância
sentimental nos bastava:
a gente ria ou chorava,
mas tudo era coisa nossa.
Hoje, no entanto, crescidos,
mesmo que não o queiramos,
de perto ou longe, avistamos
num mundo torpe, mesquinho,
brotos de sonhos perdidos
na aridez da humanidade
que relegou à orfandade
rebentos de um mesmo ninho.
São famintos, são doentes,
são imorais e são réus
do crime de vir dos céus
para a terra, sem licença.
E eu penso que eram só crentes
que ainda tinham, no agora,
a mesma crença do outrora
– e vieram... crendo na crença.
São os frutos da semente
de um pretérito rebanho
– onde ninguém era estranho
(assim dizem os anais
da fé...); embora, realmente,
não tenha havido na história
um tempo de amor e glória
para todos os mortais.
Amor maduro é lealdade
ao sangue humano que as teias
da vida vertem nas veias
de qualquer um coração!
Virtude é virilidade;
não, beatitude passiva
– essa humildade ostensiva
dos herdeiros da opressão.
Portanto, poetas, sejamos
faróis neste mundo escuro,
antecipando o futuro
através de um festival
onde as musas convertamos
em aliadas da eqüidade:
cesse a voz da caridade
– haja justiça social!


27.08.07
Música:
Serenata Nightingale birds |