Na verdade, exceto alguns
raros, a maioria dos poetas brasileiros se
entregou ao desafio de escrever pelo menos um ou
alguns sonetos. Entre os bardos antigos,
principalmente, poucos deixaram de fazê-lo. J. G.
de Araújo Jorge (observe que seu nome usual compõe
um verso de oito sílabas, com tônicas na 3ª, 6ª e
8ª), grande entusiasta e pesquisador da Literatura,
em especial da poesia, particularmente dos sonetos,
aponta nomes que devem ser lembrados como bons
sonetistas: 1- mais antigos:
Cláudio Manuel da Costa, Guimarães Passos, Vicente
de Carvalho, Emílio de Menezes, Cruz e Sousa (já
referido), Alberto de Oliveira, Benedito Lopes,
Belmiro Braga, e outros; 2- mais recentes:
Moacir de Almeida, Jorge de Lima, Júlio Salusse,
Alceu Wamosy, Raul Machado, Gilka Machado, Martins
Fontes, Gustava Teixeira, Augusto Frederico
Schmidt, Nilo Aparecida Pinto, Mauro Mota, Paulo
Bonfim, Ledo Ivo, Vinicius de Morais, entre tantos.
Ele próprio, também sonetista, devemos ao J.G. de
Araújo Jorge a rica e trabalhosa coletânea “Os
Mais Belos Sonetos Que o Amor Inspirou”,
distribuída em quatro volumes: I – Poesia
Brasileira (com cerca de 400 sonetos, de mais de
200 poetas); II – Poesia Universal (Européia,
africana e oriental); III- Poesia Universal (Européia
e americana); IV – Meus Sonetos de Amor (Reunindo
sonetos dele mesmo, J.G.).
Obs: Desta
coleção, de que tanto me orgulhava e enciumava, só
me resta o Volume II – os demais voaram com as
asas dos sonhos de amigos, a quem os emprestei.
Por isso, faço um apelo a você, paciente leitor
destes apontamentos, para que, se dispuser ou
conhecer alguém que disponha de algum outro
volume, entre em contato comigo (geralvan@terra.com.br),
para que a gente tente conseguir uma cópia (respeitados
os direitos autorais), já que, segundo me consta,
não há edição atualizada à venda (Antiga edição:
Casa Editora Vecchi Ltda, Rua do Resende, 144 –
Rio de Janeiro, GB – 2ª edição, 1965) – Tal firma
ainda existe? Com que nome?... Endereço?...
Tornemos, a seguir, a algumas curiosidades sobre
os sonetistas brasileiros. Existem aqueles que, a
despeito de terem nos legado uma obra
significativa, notabilizaram-se apenas por um ou
mais sonetos. É o caso de Raimundo Correia, com
“As Pombas” e “Mal Secreto”; Júlio Salusse, poeta
fluminense de Bom Jardim, que ficou conhecido como
o poeta de “Os Cisnes”; Alceu Wamosy, poeta gaúcho,
sempre lembrado pelo soneto “Duas Almas”; Machado
de Assis, não fosse o singular prosador que é,
imortalizar-se-ia somente com seu “A Carolina”,
soneto dedicado in memoriam
a sua esposa; para citar apenas mais
um, Da Costa e Silva, piauiense, que é o poeta de
“Saudade”, soneto cuja “cauda de escorpião” ou
“fecho de ouro” é esse belo terceto:
“Saudade! O Paraíba – velho monge
as barbas brancas alongando... E ao longe
o mugido dos bois da minha te terra...”
Houve poetas, como Raul de Leoni, que deixaram
apenas dois sonetos, entretanto, ambos obras
prima: “História Antiga” e “Perfeição”. Por outro
lado, alguns poetas escreveram muitos sonetos
lindos, no entanto, bastaria tão somente um deles
para torná-los imortais – é o caso de Olavo Bilac,
cujo “Ouvir Estrelas” já o eleva aos píncaros
celestes; Alceu Wamosy, que não precisaria
escrever mais nada depois de “Duas Almas”, e
outros mais.
Parece-me que a produção relativamente pequena de
sonetos, por muitos de nossos poetas mais antigos,
justifica-se pelo fato de haverem cultuado com
esmerada obsessão, à custa de paciência e tempo, a
forma clássica, logrando assim maravilhosas
produções literárias, porém, via de regra a
qualidade suplantando a quantidade; já os vates
mais recentes, habituados às facilidades e
liberdades peculiares à vida moderna, nem sempre
“pagam o mico” de tentar acomodar, em quatorze
versos apenas, com técnica, bom vocabulário e
palavras certas, suas idéias e sentimentos. Estes,
na maioria das vezes voláteis e eivados de
efemeridade (o soneto engasta o eterno), são mais
adaptáveis à metamorfose intrínseca, espontânea e
contínua dos versos brancos e soltos.
Observe-se porém que, por ser uma combinação
perfeita entre conteúdo e forma, visando ao êxtase
poético, um pequeno bom soneto, até por sua
densidade emocional, é a forma de poesia mais
passível de perenidade. A tradição literária, ao
longo dos tempos, tem-nos mostrado isso.