(Para pais de adolescentes)
Dra. Elane Tomich

 

 

As contradições do nosso comportamento cotidiano, nem sempre nos permitem refletir sobre nossas ações.

Agimos às vezes com impulsividade, vacilações, raiva, etc..., pois nossas emoções e os hormônios que estas liberam, influem fortemente na nossa tomada de atitudes diárias.

Nem sempre agimos como queremos e às vezes, por culpa, ou exaustão exageramos no contraponto da nossa ação. "Às vezes o remendo é pior do que o soneto".

Quando adultos, nossos compromissos crescem em proporção geométrica e tornamo-nos exaustos demais para certas tomadas de decisões. Com efeito, a repetição da nossa exaustão pode tornar-se uma displicência.

No auge da idade dos compromissos e da produtividade, geralmente nos tornamos pais de adolescentes.

A adolescência, embora não seja a única crise do desenvolvimento, é uma das mais aparentes e significativas.

Os adolescentes vivem numa situação de conflito constante com seu pais e instituições sociais. Isto por questões psicológicas, biológicas e econômicas, situadas dentro do próprio contexto existencial do adolescente. Tais conflitos podem ser favorecidos pelos próprios pais, que por suas dificuldades pessoais, stress, falta de auto-conhecimento, rigidez ou complacência exagerada, não conseguem amenizar tais conflitos. É importante que os pais saibam como e quando dizer sim e não aos próprios filhos adolescentes, conscientizando-os sobre a importância dos compromissos para com os valores implícitos, que favoreçam a boa convivência coletiva. Essa frase tão simples é de imensa dificuldade de execução, pelos motivos acima expostos. Como exemplo, temos uma situação típica:

- Mãe, posso sair hoje à noite?

- Não! Estamos no meio da semana e amanhã você tem prova cedo.

No caso supracitado, percebe-se uma postura lúcida da mãe, ressaltando um princípio de valor. Mostra que certos compromissos devem ser cumpridos pelo seu ganho futuro.

- Ah, mãe! Deixa!

- Não! Porque amanhã você tem prova.

Imagine esse diálogo repetido vinte vezes com as frases cada vez mais curtas.

Desfecho:

- Mãe! DEIXA EU SAIR À NOITE!

- POOOODDEEEE! E NÃO ME ENCHA MAIS A PACIÊNCIA!!!!!!!

Aqui, o discurso sereno permite-se vencer pela repetição e insistência. Nota-se a mãe à beira de um ataque de nervos.

O sim é dito como não e o não é dito como sim. Este é um processo constante na educação que confunde os seres humanos na compreensão de suas emoções: a explicitação confusa de regras e emoções acaba confundindo timidez com condescendência; submissão com tolerância; negação de si com solidariedade, indecisão com ponderação. É o que chamamos de baixa auto-estima.

A tranqüilidade inicial da mãe ou do pai acabam sendo rompidas pela grande insistência (com toda energia juvenil) dos filhos que aprendem o mecanismo da chantagem.

O ideal seria encurtar essa conversa, após a segunda explicação de regras de valores, ou contratos mínimos de convivência compromissada, ainda que doa nos ouvidos. Apesar da insistência do filho, orienta-se que os pais não respondam mais. O estabelecimento dos limites deixa apenas momentaneamente o adolescente insatisfeito, mas prepara-o para decisões de futuro. Para mim é comum ver adolescentes se referindo aos pais como "feras", mas com imenso orgulho: - "Pô!!! Meu pai é fera! É legal! Vai no jogo comigo. Me dá o maior apoio. Mas quando diz não é não mesmo."

É importante que os pais informem-se sobre a crise da adolescência e treinem sua paciência e argumentos. O elogio na hora certa também é importante. A coerência de ações e exemplos dos pais valem mais que mil palavras. E não devemos confundir estabelecer limites com coerção e intolerância. Existem certos hábitos, comportamentos e modismos de grupos que todo adolescente terá. E como diz Winiccott, para os pais de adolescentes: "Não se assustem tanto, mas sobrevivam", pois tirando algumas patologias e desvios de comportamento que devem ser tratados por especialistas, as situações são muito parecidas em todos os lares.

 

 
Música: End of Time
 
 


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