Ode à São PAULO
("NON DUCOR DUCO")
Romeu Prisco

Uma cidade completando 450 anos
Outrora feudo dos barões do café
Quando então reinavam soberanos
Sem a presença dos camelôs da Sé.

Às margens do grande rio fundada
Agora, coitado, quase todo poluído
Do imponente Tietê não sobrou nada
Salvo um desaguar lento e inibido.

Ao longo cortada por duas marginais
Com a do Pinheiros também exibindo
Um leito flumíneo cercado de capinzais
Que nem assim deixa o rival sorrindo.

Trânsito caótico dando o que falar
De veículos a rodar sempre atrasados
De pés e mãos em posição de acelerar
De motoristas cada vez mais apressados.

Terra da garoa, capital da fumaça
Acusada até de ser túmulo do samba
Quando Adoniran deu o ar da graça
Para mostrar que nela havia bamba.

Berço de movimentos nacionalistas
Alavanca de sentimentos e ideais
Não tem preconceitos regionalistas
E nem manifesta interesses materiais.

Do Brasil é bravo e forte coração
Determinado no incansável bater
Nele o sangue de uma valente nação
Se põe incessantemente a correr.

Urbe cheia de contrastes e contradições
De ricos e pobres, de fartos e carentes
Sobra trabalho mas faltam colocações
Sobra alimento mas faltam clementes.

Já foi bucólica, romântica, lírica, vaidosa
Com brancos e negros desfilando elegantes
Belas damas fingindo não querer ouvir prosa
De nobres cavalheiros, educados e galantes.

Hoje é agitada, volúvel, atrevida, insegura
Seus pichados edifícios, casas e favelas
Estão à mercê de bandidos, que loucura
Moradores trancados entre portas e janelas.

Padre Manoel da Nóbrega sua história começou
Denominando-a aldeia de Piratininga no batismo
Padre José de Anchieta seu nascimento registrou
Ambos preservando vivos os ideais do cristianismo.

Mas não foi dádiva de Deus aos olhos humanos
Pois é dádiva dos homens aos olhos de Deus
De brasileiros, lusitanos e escravos africanos
A imigrantes italianos, japoneses, árabes e judeus.

Dessa autêntica miscelânea de raças e religiões
Formada à luz da obra do jesuíta missionário
Criou-se uma sociedade de múltiplas opções
Que bem justifica a composição do seu cenário.

Dele participam os ônibus elétricos da Aclimação
O Brás, com seu comércio de máquinas e madeiras
O Bexiga, satisfazendo o apetite do bom glutão
O Cambuci com as suas costumeiras brincadeiras.

A Vila Maria, quem diria, já foi reduto de cartolas
Na ironia de políticos em acirrada disputa eleitoral
A Vila Mariana, nem se fala, prima por suas escolas
Desde o ensino primário ao mais elevado grau cultural.

O Paraíso e o Pacaembu se unem pela Avenida Paulista
Maior centro financeiro do país e notório cartão postal
Onde o MASP(*) se põe ao lado do regime capitalista
E as emissoras instalam suas antenas de alcance mundial.

O cruzamento das Avenidas Ipiranga e São João
Imortalizado pelo compositor baiano Caetano Veloso
Deixou até o tradicional paulistano quatrocentão
Do seu torrão natal mais ainda orgulhoso.

"Non ducor duco", sucede o brasão da sua bandeira
"Não me conduzem, conduzo", assim se traduz
O lema da metrópole que despontou altaneira
Talhada para ser a líder que a todos conduz.

São Paulo: amar-te passou a ser um grande sacrifício
Odiar-te significa cometer enorme sacrilégio
Mantenha-se acesa a chama fulgurante do teu início
Conserve-se eterno teu sonho do Pátio do Colégio.


Romeu Prisco
(25.01.2004)
 

(*) Museu de Artes de São Paulo.
Publicado no "newsletter Direto da Redação", dos jornalistas Leila Cordeiro e Eliakim Araújo, editado em português na cidade de Miami, Flórida, EUA.

 

 

Música de Tunico e Tinoco - Ê! São Paulo...

 


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