|
São
Paulo - Inesquecível Viagem
Existem passagens de nossas vidas que ficam marcadas
pra sempre mesmo que o tempo passe. São momentos
importantes que fizeram sua história e chegam
sempre em nossas lembranças como se o fato
ocorrido estivesse acontecendo no agora.
E um desses fatos marcantes, que jamais esqueci, foram
meus passeios a São Paulo, quando ainda era
criança. Lembro bem dos passeios feitos com a
minha família, como viagens, em alguns finais de
semana.
Era como uma grande festa todo o preparativo arrumado.
Na sexta chegava da escola e já ia direto pro
banho. Não o banho de todo dia, mas aquele
supervisionado onde tudo tinha que ser muito do
bem lavado.
Depois vinha a roupa de gala aquela escalada pra festa:
vestido cinturado de laise com forro de tafetá e
uma faixa de cetim terminada em laço nas costas.
Por baixo, sempre uma anágua daquelas que eram armadas.
Sapatos tipo boneca branco, muito do bem
engraxado. Não podia esquecer de usar, as
benditas meias três quartos. O cabelo bem
penteado com cachos ou maria chiquinha amarrado
com laçarotes combinados com o vestido. E lá ia
eu toda enfeitada, feliz, com toda a família
direto para a Estação Leopoldina para pegar o
trem noturno direto rumo a São Paulo.
Que coisa boa era o passeio cadenciado no balanço do
trem! Pegávamos sempre uma cabine grande com
bancos virando camas. O cobrador quando vinha
ver as passagens, sempre era o seu João, um
senhor escuro, grandão e simpático com um dentão
de ouro na frente que fazia seu sorriso
espontâneo brilhar. Do seu bolso feito mágica
quando via criança tirava, balas toffe de
chocolate que com muito carinho ofertava.
Tinha o carro restaurante onde todos nós jantávamos.
Serviam sorvetes enormes para toda a criançada.
E o mais gostoso de tudo era que o refrigerante,
sempre o fruto proibido, neste dia enfim
liberado. Eu logo tomava dois guaranás Antártica,
da garrafa pequenina chamado de caçulinha. Era
uma verdadeira farra.
Amanhecíamos em São Paulo depois de uma noite de
sonhos, dormindo ninada como que em rede no
balanço, feito anjo. Estação da Luz, que
esplendor! Parecia até um palácio daqueles que
se via em filmes ou nos livros de conto de fadas.
A gente se hospedava no apartamento mobiliado de um
amigo de papai, bem no centro da cidade.
Não havia diferença, sempre era o mesmo roteiro todas
as vezes que se chegava a São Paulo. Sábado,
depois de acomodados, saíamos pra passear.
Primeiro, passeio na rua Augusta ou na Rua 25 de
Março, ruas das compras, onde se encontrava de
tudo que se podia imaginar. Tinha até uma rua
cheia de noivas, com elas em manequins, em casas
diversas, uma do lado da outra, em ambos os
lados da rua. Eram lindos os vestidos, parecia
até um sonho de gala.
Depois, no almoço, o lugar era certo e sempre o mesmo,
no restaurante perto da Av. São João, de nome
Restaurante do Papai. O prato escolhido era
sempre o de praxe chamado Virado à Paulista
semelhante a tutu com feijão mulatinho com couve
mineira e linguiça. Depois do almoço,
descansávamos no apartamento emprestado.
Mais tarde, perto das três horas, lá íamos nós de novo
pra rua. Agora, rumo ao Cine Comodoro situado no
final da Av. São João. Com os bilhetes
adquiridos com antecedência na mão, lá estávamos
prontos para assistir ao Cinerama, que eram
filmes em terceira dimensão.
Nossa! era uma coisa muito louca vista com os
óculos especiais, que produziam mil sensações
entre o pavor e a euforia. Era tão real tudo que
acontecia, que muitas das vezes caíamos
literalmente da cadeira pensando estar
despencando ribanceiras ou estar caindo
juntamente com o avião.
Ali foi a primeira vez que andei numa montanha russa
sem ser, será que dá pra entender? Pois é,
quando apagavam-se as luzes surgia na tela um
trenzinho subindo onde não se viam as pessoas e
a impressão que tínhamos é que estávamos
sentados nele subindo. Quando chegava no alto
parava, quase que proposital, como para causar
impacto. E aí acontecia...sua queda vertiginosa
com um som límpido, estrondoso, que parecia
surreal, grande o envolvimento de todos. Todas
as pessoas gritando como se realmente ali, no
filme estivéssemos, dentro do espetáculo
mostrado.
Fazendo loopings, subindo, descendo, subindo,
descendo em alta velocidade. Era tão real a
situação que nos agarrávamos uns aos outros, de
olhos fechados para não ver nada, enfim...,
andando de montanha russa. Depois vinha um
intervalo e outro filme começava.
Quando o filme terminava saíamos todos de pernas bambas,
maravilhados com tão grande autenticidade.
Coração descompassado, completamente emocionados
com tudo o que foi visto então. Depois disso só
a cama para aplacar tanta emoção.
No domingo o mesmo passeio de sempre, antes de
voltarmos pra casa.
Íamos ao Viaduto do Chá, até a Praça da Sé visitar a
Catedral e de retorno findando no Parque da Luz,
bem perto da Estação de trem num completo ritual
ecológico. Comíamos sanduíches como num
piquenique admirando o verde, respirando o ar
puro, fazendo hora, para pegarmos o trem noturno
de volta ao Rio de Janeiro.
E o fim de semana de festa acabava, com gostinho de
saudade e a esperança latente que o próximo
passeio chegasse logo sem tardar.
E pudéssemos enfim, outra vez a São Paulo de
passeio regressar.
Neli Neto

|