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Poeta, compositor,
intérprete e diplomata brasileiro, nasceu no Rio
e faleceu na mesma cidade em 09/07/80.
Escreveu seu primeiro poema aos sete anos. Fez
curso de Direito no Rio e de Literatura Inglesa
em Oxford. Ingressou na carreira diplomática,
por concurso, em 1943, tendo servido como
vice-cônsul em Los Angeles (1947-50), o que
abriu sua temática, posteriormente enriquecida
pelo seu interesse em teatro e cinema. Serviu
também em Paris (duas vezes) e Montevidéu.
Interessado em cinema desde estudante, foi
crítico e censor cinematográfico. Como delegado
brasileiro, participou de vários festivais
internacionais de cinema (Cannes, Berlim,
Locarno, Veneza e Punta del Leste) e, em 1966,
foi membro do Júri Internacional de Cannes).
Aos 19 anos publica seu primeiro livro de
versos, Caminho para a Distância, e aos 22,
Forma e Exegese (ganhador do Prêmio Felipe
d'Oliveira de 1935). Em 1936 sai Ariana, a
Mulher, que é o apogeu de sua primeira fase,
impregnada de sentido místico. Começou então a
usar uma sintaxe mais popular, e sua lírica se
carrega de sensualismo a partir de Cinco Elegias
(1938) e Poemas, Sonetos e Baladas (1948),
enriquecendo-se depois com temas de sentido
social. Publica também Livro de Sonetos,
Procura-se uma Rosa e Para Viver um Grande Amor.
O lirismo (muitas vezes sensual) é a sua marca
registrada.
Seu drama Orfeu da Conceição (1953), montado
para o teatro em 1956 e transposto para o cinema
por Macel Camus em 1959 (como Orfeu Negro),
ganhou neste ano a Palma de Ouro do Festival de
Cannes e o Oscar de Hollywood como o melhor
filme estrangeiro.
Na década de 60 junta-se a jovens músicos no
movimento conhecido como Bossa Nova, mesclando
elementos de samba e jazz.
Comporia, junto com Tom Jobim, a música Garota
de Ipanema, símbolo de uma época. Uma grande
quantidade de poemas seus foi posteriormente
musicada.
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ANTOLOGIA
POÉTICA
Vinícius De Moraes
Ausência
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os
teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me
veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como
a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e
em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu
ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como
a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota
de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne
como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e
encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros
dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te
colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da
noite.
Porque eu encostei minha face na
face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os
dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa
essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros
nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém
porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar,
do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua
voz ausente, a tua voz serenizada.
POESIAS
Vinícius De Moraes
Rosário
E eu que era um menino puro
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!
Dizia que era morena
Sabendo que era mulata
Dizia que era donzela
Nem isso não era ela
Era uma moça que dava.
Deixava... mesmo no mar
Onde se fazia em água
Onde de um peixe que era
Em mil se multiplicava
Onde suas mãos de alga
Sobre o meu corpo boiavam
Trazendo à tona águas-vivas
Onde antes não tinha nada.
Quanto meus olhos não viram
No céu da areia da praia
Duas estrelas escuras
Brilhando entre aquelas duas
Nebulosas desmanchadas
E não beberam meus beijos
Aqueles olhos noturnos
Luzindo de luz parada
Na imensa noite da ilha!
Era minha namorada
Primeiro nome de amada
Primeiro chamar de filha
Grande filha de uma vaca!
Como não me seduzia
Como não me alucinava
Como deixava, fingindo
Fingindo que não deixava!
Aquela noite entre todas
Que cica os cajus! Travavam!
Como era quieto o sossego
Cheirando a jasmim-do-Cabo!
Lembro que nem se mexia
O luar esverdeado.
Lembro que longe, nos longes
Um gramofone tocava.
Lembro dos seus anos vinte
Junto aos meus quinze deitados
Sob a luz verde da lua.
Ergueu a saia de um gesto
Por sobre a perna dobrada
Mordendo a carne da mão
Me olhando sem dizer nada
Enquanto jazente eu via
Como uma anêmona n'água
A coisa que se movia
Ao vento que a farfalhava.
Toquei-lhe a dura pevide
Entre o pêlo que a guardava
Beijando-lhe a coxa fria
Com gosto de cana-brava.
Senti, à pressão do dedo
Desfazer-se desmanchada
Como um dedal de segredo
A pequenina castanha
Gulosa de ser tocada.
Era uma dança morena
Era uma dança mulata
Era o cheiro de amarugem
Era a lua cor de prata
Mas foi só aquela noite!
Passava dando risada
Carregando os peitos loucos
Quem sabe pra quem, quem sabe!
Mas como me perseguia
A negra visão escrava
Daquele feixe de águas
Que sabia ela guardava
No fundo das coxas frias!
Mas como me desbragava
Na areia mole e macia!
A areia me recebia
E eu baixinho me entregava
Com medo que Deus ouvisse
Os gemidos que não dava!
Os gemidos que não dava
Por amor do que ela dava
Aos outros de mais idade
Que a carregaram da ilha
Para as ruas da cidade.
Meu grande sonho da infância
Angústia da mocidade.
Vinícius De Moraes
A Rosa de Hiroxima
Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
Vinícius De Moraes
Dialética
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas
simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...
Vinícius De Moraes
Soneto da Separação
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o
espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Vinícius De Moraes
Marcha de Quarta-feira de Cinzas
Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou.
Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri, se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor.
E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade...
A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir, voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar.
Porque são tantas coisas azuis
Há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a
gente nem sabe...
Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz.
Vinícius De Moraes
A Volta da Mulher Morena
Meus amigos, meus irmãos, cegai
os olhos da mulher morena
Que os olhos da mulher morena
estão me envolvendo
E estão me despertando de noite.
Meus amigos, meus irmãos, cortai
os lábios da mulher morena
Eles são maduros e úmidos e inquietos
E sabem tirar a volúpia de todos os frios.
Meus amigos, meus irmãos, e vós
que amais a poesia da minha alma
Cortai os peitos da mulher morena
Que os peitos da mulher morena
sufocam o meu sono
E trazem cores tristes para os meus olhos.
Jovem camponesa que me namoras
quando eu passo nas tardes
Traze-me para o contato casto de
tuas vestes
Salva-me dos braços da mulher morena
Eles são lassos, ficam
estendidos imóveis ao longo de mim
São como raízes recendendo
resina fresca
São como dois silêncios que me
paralisam.
Aventureira do Rio da Vida,
compra o meu corpo da mulher morena
Livra-me do seu ventre como a
campina matinal
Livra-me do seu dorso como a
água escorrendo fria.
Branca avozinha dos caminhos,
reza para ir embora a mulher morena
Reza para murcharem as pernas da
mulher morena
Reza para a velhice roer dentro
da mulher morena
Que a mulher morena está
encurvando os meus ombros
E está trazendo tosse má para o
meu peito.
Meus amigos, meus irmãos, e vós
todos que guardais
ainda meus últimos cantos
Dai morte cruel à mulher morena!
Vinícius de Moraes
A Legião dos Úrias
Quando a meia-noite surge nas
estradas vertiginosas das montanhas
Uns após os outros, beirando os
grotões enluarados sobre cavalos lívidos
Passam os olhos brilhantes de
rostos invisíveis na noite
Que fixam o vento gelado sem
estremecimento.
São os prisioneiros da Lua. Às
vezes, se a tempestade
Apaga no céu a languidez imóvel
da grande princesa
Dizem os camponeses ouvir os
uivos tétricos e distantes
Dos Cavaleiros Úrias que pingam
sangue das partes amaldiçoadas.
São os escravos da Lua. Vieram
também de ventos brancos e puros
Tiveram também olhos azuis e
cachos louros sobre a fronte . . .
Mas um dia a grande princesa os
fez enlouquecidos, e eles foram escurecendo
Em muitos ventres que eram
também brancos mas que eram impuros.
E desde então nas noites claras
eles aparecem
Sobre os cavalos lívidos que
conhecem todos os caminhos
E vão pelas fazendas arrancando
o sexo das meninas e das mães sozinhas
E das éguas e das vacas que
dormem afastadas dos machos fortes.
Aos olhos das velhas paralíticas
murchadas que esperam a morte noturna
Eles descobrem solenemente as
netas e as filhas deliqüescentes
E com garras fortes arrancam do
último pano os nervos flácidos e abertos
Que em suas unhas agudas vivem
ainda longas palpitações de sangue.
Depois amontoam a presa
sangrenta sob a luz pálida da deusa
E acendem fogueiras brancas de
onde se erguem chamas desconhecidas e fumos
Que vão ferir as narinas
trêmulas dos adolescentes adormecidos
Que acordam inquietos nas
cidades sentindo náuseas e convulsões mornas.
E então, após colherem as
vibrações de leitos fremindo distantes
E os rinchos de animais
seminando no solo endurecido
Eles erguem cantos à grande
princesa crispada no alto
E voltam silenciosos para as
regiões selvagens onde vagam.
Volta a Legião dos Úrias pelos
caminhos enluarados
Uns após os outros, somente os
olhos negros sobre cavalos lívidos
Deles foge o abutre que conhece
todas as carniças
E a hiena que já provou de todos
os cadáveres.
São eles que deixam dentro do
espaço emocionado
O estranho fluido todo feito de
plácidas lembranças
Que traz às donzelas imagens
suaves de outras donzelas
Que traz aos meninos figuras
formosas de outros meninos.
São eles que fazem penetrar nos
lares adormecidos
Onde o novilúnio tomba como um
olhar desatinado
O incenso perturbador das rubras
vísceras queimadas
Que traz à irmã o corpo mais
forte da outra irmã.
São eles que abrem os olhos
inexperientes e inquietos
Das crianças apenas lançadas no
regaço do mundo
Para o sangue misterioso
esquecido em panos amontoados
Onde ainda brilha o rubro olhar
implacável da grande princesa.
Não há anátema para a Legião dos
Cavaleiros Úrias
Passa o inevitável onde passam
os Cavaleiros Úrias
Por que a fatalidade dos
Cavaleiros Úrias?
Por que, por que os Cavaleiros
Úrias?
Oh, se a tempestade boiasse
eternamente no céu trágico
Oh, se fossem apagados os raios
da louca estéril
Oh, se o sangue pingado do
desespero dos Cavaleiros Úrias
Afogasse toda a região
amaldiçoada!
Seria talvez belo - seria apenas
o sofrimento do amor puro
Seria o pranto correndo dos
olhos de todos os jovens
Mas a legião dos Úrias está
espiando a altura imóvel
Fechai as portas, fechai as
janelas, fechai-vos meninas!
Eles virão, uns após os outros,
os olhos brilhando no escuro
Fixando a lua gelada sem
estremecimento
Chegarão os Úrias, beirando os
grotões enluarados sobre cavalos lívidos
Quando a meia-noite surgir nas
estradas vertiginosas das montanhas.
Vinícius De Moraes
Procura-se um Amigo
Não precisa ser homem, basta ser
humano, basta ter sentimentos, basta ter
coração. Precisa saber falar e
calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de
poesia, de madrugada, de
pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e
das canções da brisa. Deve
ter amor, um grande amor por alguém, ou então
sentir falta de não ter esse
amor.. Deve amar o próximo e respeitar a dor que
os passantes levam consigo.
Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja de
primeira mão, nem é imprescindível que seja de
segunda mão. Pode já ter sido
enganado, pois todos os amigos são enganados.
Não é preciso que seja puro,
nem que seja todo impuro, mas não deve ser
vulgar. Deve ter um ideal e medo
de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve
sentir o grande vácuo que isso
deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu
principal objetivo deve ser o
de amigo. Deve sentir pena das pessoa tristes e
compreender o imenso vazio
dos solitários. Deve gostar de crianças e
lastimar as que não puderam nascer.
Procura-se um amigo para
gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando
chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas
simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das
recordações de infância. Precisa-se de um amigo
para não se enlouquecer,
para contar o que se viu de belo e triste
durante o dia, dos anseios e das
realizações, dos sonhos e da realidade. Deve
gostar de ruas desertas, de
poças de água e de caminhos molhados, de beira
de estrada, de mato depois da
chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que
diga que vale a pena viver, não porque a vida é
bela, mas porque já se tem
um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar
de chorar. Para não se viver
debruçado no passado em busca de memórias
perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou
chorando, mas que nos chame de amigo, para
ter-se a consciência de que ainda se vive.
Vinícius De Moraes
Balada Feroz
Canta uma esperança desatinada
para que enfureçam silenciosamente os cadáveres
dos afogados
Canta para que grasne
sarcasticamente o corvo que tens pousado sobre
tua omoplata atlética
Canta como um louco enquanto
teus pés vão penetrando a massa sequiosa de
lesmas
Canta! para esse formoso pássaro
azul que ainda uma vez sujaria sobre o teu
êxtase.
Arranca do mais fundo a tua pureza e lança-a
sobre o corpo felpudo das aranhas
Ri dos touros selvagens
carregando nos chifres virgens nuas para o
estupro nas montanhas
Pula sobre o leito cru dos sádicos, dos
histéricos, dos masturbados e dança!
Dança para a lua que está escorrendo lentamente
pelo ventre das menstruadas.
Lança teu poema inocente sobre o
rio venéreo engolindo as cidades
Sobre os casebres onde os escorpiões se matam à
visão dos amores miseráveis
Deita a tua alma sobre a
podridão das latrinas e das fossas
Por onde passou a miséria da
condição dos escravos e dos gênios.
Dança, ó desvairado! Dança pelos
campos aos rinchos dolorosos das éguas parindo
Mergulha a algidez deste lago
onde os nenúfares apodrecem e onde a água
floresce em miasmas
Fende o fundo viscoso e espreme
com tuas fortes mãos a carne flácida das medusas
E com teu sorriso inexcedível surge como um deus
amarelo da imunda pomada.
Amarra-te aos pés das garças e
solta-as para que te levem
E quando a decomposição dos
campos de guerra te ferir as narinas, lança-te
sobre a cidade mortuária
Cava a terra por entre as
tumefações e se encontrares um velho canhão
soterrado, volta
E vem atirar sobre as borboletas
cintilando cores que comem as fezes verdes das
estradas.
Salta como um fauno puro ou como um sapo de ouro
por entre os raios do sol frenético
Faz rugir com o teu calão o eco
dos vales e das montanhas
Mija sobre o lugar dos mendigos
nas escadarias sórdidas dos templos
E escarra sobre todos os que se
proclamarem miseráveis.
Canta! canta demais! Nada há
como o amor para matar a vida
Amor que é bem o amor da
inocência primeira!
Canta! - o coração da donzela ficará queimando
eternamente a cinza morta
Para o horror dos monges, dos cortesãos, das
prostitutas e dos pederastas.
Transforma-te por um segundo num
mosquito gigante e passeias de noite sobre as
grandes cidades
Espalhando o terror por onde
quer que pousem tuas antenas impalpáveis.
Suga aos cínicos o cinismo, aos
covardes o medo, aos avaros o ouro
E para que apodreçam como
porcos, injeta-os de pureza!
E com todo esse pus, faz um poema puro
E deixa-o ir, armado cavaleiro, pela vida
E ri e canta dos que pasmados o abrigarem
E dos que por medo dele te derem
em troca a mulher e o pão.
Canta! canta, porque cantar é a
missão do poeta
E dança, porque dançar é o
destino da pureza
Faz para os cemitérios e para os
lares o teu grande gesto obsceno
Carne morta ou carne viva -
toma! Agora falo eu que sou um!
Vinícius De Moraes
Soneto de Intimidade
Nas tardes da fazenda há muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.
Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de
uma aurora
Vou cuspindo-lhe o sangue em
torno dos currais.
Fico ali respirando o cheiro bom
do estrume
Entre as vacas e os bois que me
olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada
ferve
Seguida de um olhar não sem
malícia e verve
Nós todos, animais sem comoção
nenhuma
Mijamos em comum numa festa de
espuma.
Vinícius De Moraes
A Mulher que Passa
Meu Deus, eu quero a mulher que passa
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me concontrava se te perdias?
Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacífica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.
Vinícius De Moraes
Soneto da Fidelidade
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor que tive:
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
Vinícius De Moraes
Soneto da Separação
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o
espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
Vinícius De Moraes
Poema Enjoadinho
Filhos . . . Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como os queremos!
Banho de mar
Diz que é um porrete ...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.
E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.
Filhos? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!
Filhos são o demo
Melhor não tê-los . . .
Mas se não os temos
Como sabê-los?
Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão
Porém que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!
Vinícius De Moraes
Receita de Mulher
As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental.
É preciso
Que haja qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize
elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível.
É preciso
Que tudo isso seja belo. É
preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma
garça apenas pousada
e que um rosto
Adquira de vez em quando essa
cor só encontrável
no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja
sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens.
É preciso, é absolutamente preciso
Que tudo seja belo e inesperado.
É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que
se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde.
Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que
ali está como a corola
ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um
rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de
nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas.
Nádegas é importantíssimo.
Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa
maldade inocente.
Uma boca
Fresca (nunca úmida!)
e também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades
sejam magras;
que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no
cruzar das pernas,
e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é, porém, o problema
das saboneteiras:
uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes.
Indispensável
Que haja uma hipótese de
barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e
que seus seios
Sejam uma expressão
greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com
uma capacidade mínima de 5 velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a
caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista
um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como
hastes, mas bem haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e
cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia
em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce
relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de
produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os
pescoços longos
De forma que a cabeça dê por
vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e
a mulher não lembre
Flores sem mistério.
Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos.
A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços,
no dorso e na face
Mas que as concavidades e
reentrâncias tenham uma temperatura nunca
inferior
A 37° centígrados podendo
eventualmente provocar queimaduras
Do 1° grau. Os olhos, que sejam
de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão
lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá
de um invisível muro da paixão
Que é preciso ultrapassar.
Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a
atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a
impressão de que, se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas.
Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa
capacidade de emudecer subitamente e nos fazer
beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não
importa em que mundo
Não importa em que
circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no
fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder
sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante
sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de
ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua
incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e
mais perfeita de toda a criação inumerável.
Jornal de Poesia - Vinícius De Moraes
Remetido por Paulo Torquato Tasso
seges@e-net.com.br
Vinícius de Moraes
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FONTE
Jornal De Poesia
www.secrel.com.br/jpoesia/vm.html
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