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Thomas Stearns Eliot
nasceu em St. Louis, Missouri, Estados Unidos, a
26 de setembro de 1888, e faleceu em Londres,
com 76 anos de idade, a 4 de janeiro de 1965.
Descendentes de emigrantes ingleses que, em
meados do século XVIII, se estabeleceram em
Massachusetts, Nova Inglaterra, os Eliot
estiveram desde sempre fundamente vinculados às
tradições da Igreja Unitária, destacando-se
ainda por sua intensa atividade cultural. O mais
notável dentre tais antepassados foi o Rvdo.
Andrew Eliot ( 1718-78), ministro da Igreja
Congregacionalista e quase reitor da
Universidade de Harvard, cargo que não assumiu
por deliberação voluntária. Cerca de dois
séculos transcorreram até que o primeiro dos
Eliot se transferisse para o Missouri. Foi ele o
Rvdo. William Greenleaf Eliot (1811-87), avô do
poeta e fundador da Igreja Unitária de St.
Louis, bem como da Universidade de Washington,
de que se tornou depois presidente. William
Greenleaf distinguiu-se ainda por seu papel na
Guerra de Secessão, quando pugnou pelos ideais
federativos dos Estados do Norte, e pelos
diversos opúsculos didático-morais que publicou.
Henry Ware Eliot e Charlotte Chauncey Stearns,
pais do poeta, casaram-se em 1868. Henry Ware
diplomou-se pela Universidade de Washington, mas
acabou por dedicar quase toda a sua vida aos
interesses industriais da família, tendo chegado
inclusive à presidência da Hydraulic Press Brick
Company of St. Louis. A mãe, de rica família
pertencente à aristocracia mercantil de Boston,
era mulher intelectualmente dotada, possuidora
de boa cultura humanística e de algum pendor
literário. De sua autoria, aliás, são um estudo
biográfico do sogro e um longo poema, também de
caráter biográfico, sobre Savonarola. Thomas
Stearns Eliot é o sétimo e último filho desse
matrimônio.
Serpente de lama e fúrias ancestrais, o Rio
Mississippi corre veloz rente à face leste de St.
Louis, a principal cidade do Estado de Missouri
e um dos maiores centros industriais do Middle
East norte-americano. Aí viveu Eliot sua
infância e grande parte da juventude, aprendendo
os segredos e mistérios do grande rio. Ainda em
St. Louis, realizou seus primeiros estudos na
Academia Smith, concluindo-os em Massachusetts,
na Academia Milton. Em 1906, aos 18 anos de
idade, seguiu para Boston a fim de iniciar sua
formação universitária em Harvard. Nesse
tradicional estabelecimento de ensino superior -
o mais antigo e influente dos Estados Unidos -,
Eliot consagrou-se aos estudos literários e,
sobretudo, filosóficos, sob a orientação de
alguns ilustres mestres, entre os quais Irving
Babbitt e George Santayana. Já por esse tempo
era grande a sua atividade no setor das letras
não só como poeta, mas também na qualidade de um
dos editores da revista universitária The
Harvard Advocate, onde publicou alguns trabaIhos
e em cuja redação conheceu Conrad Aiken, desde
então seu amigo e admirador, além de responsável
pela apresentação do autor de The Waste Land ao
poeta e crítico Ezra Pound, quando de uma visita
que ambos fizeram a Londres em 1914. Esse
encontro com Pound teria decisiva influência na
vida e na carreira literária de Eliot, para quem
o poeta de The Cantos era, além de il miglior
fabbro, "um crítico maravilhoso, porque não
transformava a obra alheia numa imitação dele
mesmo." O acesso, ainda que breve e superficial,
à correspondência de Pound permite-nos concluir,
aliás, o quanto foi vertical e benéfica sua
intervenção em alguns dos manuscritos de Eliot,
sobretudo no de The Waste Land, que constitui
uma verdadeira aula de poética. Ainda que em
pólo totalmente distinto, é também curioso
observar - como atestam depoimentos de alguns de
seus contemporâneos em Harvard, entre os quais
Stuart Chase e Walter Lippmann -, que, já nessa
época, Eliot se distinguia pelo fato de
comportar-se como "um inglês em tudo e por tudo,
a não ser pelo sotaque e pela nacionalidade".
Era como se o poeta já trouxesse dentro de si as
matrizes espirituais e culturais de sua futura
cidadania britânica e de seu visceral
anglicismo.
Após diplomar-se em letras clássicas por
Harvard, em 1909, Eliot rumou a Paris,
estagiando por um ano (1910-11) na Sorbonne,
onde realizou os cursos de língua e literatura
francesas (então sob a direção de Alain-Fournier)
e de filosofia contemporânea. De volta a
Harvard, retomou seus estudos filosóficos e
lingüístico-filológicos, com ênfase particular
em questões de literatura sânscrita e de
filologia indiana, o que o ocupou de 1911 a
1913. Pouco depois, obtinha o título de doutor
em filosofia, com teses sobre o pensamento do
idealista inglês Francis Herbert Bradley e de A.
von Meinong. Nunca, porém, chegaria a colar
grau, e são dele as palavras de que suas teses
apenas lograram aceitação "porque eram
ilegíveis". De 1913 a 1914, ainda em Harvard,
Eliot serviu como assistente do curso de
filosofia e, durante o verão de 1914, esteve de
visita à Alemanha. Com a eclosão da Primeira
Guerra Mundial, partiu para Londres e, depois,
para Oxford, onde passou todo o inverno dedicado
às pesquisas filosóficas como lector do Merton
College.
O ano de 1915 marca o aparecimento do primeiro
poema importante de Eliot, "The Love Song of
John Alfred Prufrock", publicado na revista
Poetry, de Chicago, e posteriormente incluído
por Ezra Pound em sua Catholic Anthology. É
também durante esse ano que o poeta se casa com
Vivienne Haigh-Wood, da sociedade londrina. A
seguir, exerce as funções de professor no
Highgate College, pequena escola para crianças
situada nos arredores de Londres, onde, segundo
seu próprio depoimento, lecionou "latim,
francês, matemáticas elementares, desenho,
natação, geografia, história e beisebol".
Abandonou o magistério para empregar-se no
Lloyds Bank Ltd., de Londres, e, de 1917 a 1919,
foi editor-assistente do Egoist, além de assíduo
colaborador de outras publicações literárias,
entre as quais The Athenaeum, então dirigido por
J. Middleton Murry, e até mesmo de periódicos
especializados em política e economia bancárias,
como a Lloyds Bank Economic Review. Ainda em
1917 publicaria o seu primeiro volume de versos:
Prufrock and other Observations. Um ano depois,
devido à falta de condições físicas, Eliot
viu-se desobrigado do serviço militar que teria
de cumprir na Marinha dos Estados Unidos. Com
isso, rompia-se mais um elo da cadeia que o
mantinha ligado às exigências da vida pública
norte-americana. A partir daí, estreitam-se seus
vínculos com a Inglaterra, e o poeta resolve
fixar residência em Londres, onde já
estabelecera sólidas relações nos meios
literários e editoriais.
Em 1920, um ano após a publicação de um pequeno
estudo sobre Ezra Pound, his Metric and Poetry,
aparece The Sacred Wood, coletânea que reúne
alguns de seus melhores textos críticos da
juventude, e, transcorridos dois anos do
lançamento desta última, The Waste Land, obra de
decisiva importância para a formação da
mentalidade poética contemporânea e que o
consagra como um dos expoentes da literatura de
língua inglesa deste século. Outro fato de
grande significação em 1922 - o mesmo ano,
aliás, da publicação do Ulysses, de James Joyce
- foi o aparecimento de The Criterion, revista
trimestral de literatura e filosofia criada pelo
poeta e que, por cerca de 17 anos, desempenhou
relevante papel nos círculos artísticos e
culturais europeus, somente deixando de ser
editada às vésperas da Segunda Guerra Mundial,
por decisão exclusiva de seu fundador. The
Criterion abre a Eliot as portas dos negócios
editoriais, e já em 1923 ei-lo guindado à
diretoria da Faber & Faber, à frente da qual se
manteve até a morte. Como editor, terá sido ele
menos um homem de empresa do que um patrono das
vanguardas literárias de língua inglesa, que lhe
deverão para sempre o reconhecimento e o
incentivo às suas pesquisas estético-formais.
Em 1927, Eliot adota finalmente a cidadania
inglesa, proclamando-se no ano seguinte, através
de sua famosa declaração, "an Anglo-Catholic in
religion, a classicist in literature, and a
royalist in politics". Após 18 anos de ausência,
retorna aos Estados Unidos, a convite da
Universidade de Harvard, para ministrar o ciclo
de conferências "Charles Eliot Norton"
(1932-33). Posteriormente, voltaria por diversas
vezes a seu país de origem, ora em simples
visita, ora por motivos de caráter estritamente
cultural. Em 1957, dez anos depois de haver
perdido a esposa, Eliot contrai novas núpcias
com Valerie Fletcher, sua..jovem secretária na
Faber & Faber, em companhia da qual viverá os
últimos anos de vida, cada vez mais recolhido à
intimidade de sua pequena residência no bairro
londrino de Kensington.
Entre os títulos honoríficos, diplomas,
condecorações e comendas outorgados ao autor dos
Four Quartets, contam-se, além dos já citados:
Doutor em Filosofia pela Universidade de
Cambridge, Doutor Honoris Causa pelas
universidades de Princeton e de Yale, Ordem do
Mérito do Império Britânico e Prêmio Nobel de
Literatura, ambos em 1948, Medalha de Ouro de
Dante, Cruz de Comendador das Artes e Letras,
Prêmio Goethe ( 1954) e Medalha da Amizade dos
Estados Unidos da América ( 1964).
A obra poética de Eliot compreende uma produção
que se estende de 1909 até pouco antes de sua
morte, período em que apenas ocasionalmente
cultivou ele o verso e que se caracteriza por
uma escassa e já esporádica atividade, da qual
resultaram três coletâneas que pouco acrescentam
à sua obra anterior: os Occasional Verses,
incluídos nos Collected Poems 1909-1962; The
Cultivation of the Christmas Trees (1954); e,
fìnalmente, os Poems Written in Early Youth,
cuja publicaçâo já é póstuma. Dentre os mais
importantes poemas ou coletâneas poéticas do
autor, figuram: "The Love Song of J. Alfred
Prufrock", "Portrait of a Lady", "Preludes" e "Conversation
Galante", de Prufrock and other Observations (
1917) ; "Gerontion", "Sweeney Erect" e "Sweeney
among the Nightingales", de Poems (1920); The
Waste Land (1922); The Hollow Men (1925);
Ash-Wednesday (1930); Ariel Poems e Unfinished
Poems, ambos incluídos nos Collected Poems
1909-1935 (1936); The Rock (1934); e,
finalmente, os Four Quartets (1943). Cumpre
citar ainda as fantasias humorísticas que, em
1939, publicou Eliot sob o título de Old
Possum's Book oj Practical Cats, que não
integram este volume. A produção poética de T.
S. Eliot foi por quatro vezes reunida: Selected
Poems 1909-1925 (1925), Collected Poems
1909-1935 (1936), Collected Poems 1909-1953
(1954) e Collected Poems 1909-1962 (1963).
Ivan Junqueira para o livro Poesia, de T.S.
Eliot, traduzido do original Collected Poems
1909-1962, Editora Nova Fronteira, 1981.
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THOMAS STEARNS ELIOT
POEMA
QUARTA-FEIRA DE CINZAS
I
Porque não mais espero retornar
Porque não espero
Porque não espero retornar
A este invejando-lhe o dom e àquele o seu
projeto
Não mais me empenho no .empenho de tais coisas
(Por que abriria a velha águia suas asas?)
Por que lamentaria eu, afinal,
O esvaído poder do reino trivial?
Porque não mais espero conhecer
A vacilante glória da hora positiva
Porque não penso mais
Porque sei que nada saberei
Do único poder fugaz e verdadeiro
Porque não posso beber
Lá, onde as árvores florescem e as fontes
rumorejam,
Pois lá nada retorna à sua forma
Porque sei que o tempo é sempre o tempo
E que o espaço é sempre o espaço apenas
E que o real somente o é dentro de um tempo
E apenas para o espaço que o contém
Alegro-me de serem as coisas o que são
E renuncio à face abençoada
E renuncio à voz
Porque esperar não posso mais
E assim me alegro, por ter de alguma coisa
edificar
De que me possa depois rejubilar
E rogo a Deus que de nós se compadeça
E rogo a Deus porque esquecer desejo
Estas coisas que comigo por demais discuto
Por demais explico
Porque não mais espero retornar
Que estas palavras afinal respondam
Por tudo o que foi feito e que refeito não será
E que a sentença por demais não pese sobre nós
Porque estas asas de voar já se esqueceram
E no ar apenas são andrajos que se arqueiam
No ar agora cabalmente exíguo e seco
Mais exíguo e mais seco que o desejo
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego.
Rogai por nós pecadores agora
e na hora de nossa morte
II
Senhora, três leopardos brancos sob um zimbro
Ao frescor do dia repousavam, saciados
De meus braços meu coração meu fígado e do que
havia
Na esfera oca do meu crânio. E disse Deus:
Viverão tais ossos? Tais ossos
Viverão? E o que pulsara outrora
Nos ossos (secos agora) disse num cicio:
~raças à bondade desta Dama
E à sua beleza, e porque ela
A meditar venera a Virgem,
É que em fulgor resplandecemos.
E eu que estou aqui dissimulado
Meus feitos ofereço ao esquecimento, e consagro
meu amor
Aos herdeiros do deserto e aos frutos
ressequidos.
Isto é o que preserva
Minhas vísceras a fonte de meus olhos e as
partes indigestas
Que os leopardos rejeitaram. A Dama retirou-se
De branco vestida, orando, de branco vestida.
Que a brancura dos ossos resgate o esquecimento.
A vida os excluiu. Como esquecido fui
E preferi que o fosse, também quero esquecer
Assim contrito, absorto em devoção. E disse
Deus:
Profetiza ao vento e ao vento apenas, pois
somente
O vento escutará. E os ossos cantaram em
uníssono
Com o estribilho dos grilos, sussurrando:
Senhora dos silêncios
Serena e aflita
Lacerada e indivisa
Rosa da memória
Rosa do oblívio
Exânime e instigante
Atormentada tranqüila
A única Rosa em que
Consiste agora o jardim
ONde todo amor termina
Extinto o tormento
Do amor insatisfeito
Da aflição maior ainda
Do amor já satisfeito
Fim da infinita
jornada sem termo
Conclusão de tudo
O que não finda
Fala sem palavra
E palavra sem fala
Louvemos a Mãe
Pelo Jardim
Onde todo amor termina.
Cantavam os ossos sob um zimbro, dispersos e
alvadios,
Alegramo-nos de estar aqui dispersos,
Pois uns aos outros bem nenhum fazíamos,
Sob uma árvore ao frescor do ~a, com a bênção
das areias,
Esquecendo uns aos outros e a nós próprios,
reunidos
Na quietude do deserto. Eis a terra
Que dividireis conforme a sorte. E partilha ou
comunhão
Não importam. Eis a terra. Nossa herança.
III
Na primeira volta da segunda escada
Voltei-me e vi lá embaixo
O mesmo vulto enrodilhado ao corrimão
Sob os miasmas que no fétido ar boiavam
Combatendo o demônio das escadas, oculto
Em dúbia face de esperança e desespero.
Na segunda volta da segunda escada
Deixei-os entrançados, rodopiando lá embaixo;
Nenhuma face mais na escada em trevas,
Carcomida e úmida, como a boca
Imprestável e babugenta de um ancião,
Ou a goela serrilhada de um velho tubarão.
Na primeira volta da terceira escada
Uma túmida ventana se rompia como um figo
E além do espinheiro em flor e da cena pastoril
A silhueta espadaúda de verde e azul vestida
Encantava maio com uma flauta antiga.
Doce é o cabelo em desalinho, os fios castanhos
Tangidos por um sopro sobre os lábios,
Cabelos castanhos e lilases;
Frêmito, música de flauta, pausas e passos
Do espírito a subir pela terceira escada,
Esmorecendo, esmorecendo; esforço
Para além da esperança e do desespero
Galgando a terça escala.
Senhor, eu não sou digno
Senhor, eu não sou digno
mas dizei somente uma palavra.
IV
Quem caminhou entre o violeta e o violeta
Quem caminhou por entre
Os vários renques de verdes diferentes
De azul e branco, as cores de Maria,
Falando sobre coisas triviais
Na ignorância e no saber da dor eterna
Quem se moveu por entre os outros e como eles
caminhou
Quem pois revigorou as fontes e as nascentes
tornou puras
Tornou fresca a rocha seca e solidez deu às
areias
De azul das esporinhas, a azul cor de Maria,
Sovegna vos
Eis os anos que permeiam, arrebatando
Flautas e violinos, restituindo
Àquela que no tempo flui entre o sono e a
vigília, oculta
Nas brancas dobras de luz que em torno dela se
embainham.
Os novos anos se avizinham, revivendo
Através de uma faiscante nuvem de lágrimas, os
anos, resgatando
Com um verso novo antigas rimas. Redimem
O tempo, redimem
A indecifrada visão do sonho mais sublime
Enquanto ajaezados unicórnios a essa de ouro
conduzem.
A irmã silenciosa em véus brancos e azuis
Por entre os teixos, atrás do deus do jardim,
Cuja flauta emudeceu, inclina a fronte e
persigna-se
Mas sem dizer palavra alguma
Mas a fonte jorrou e rente ao solo o pássaro
cantou
Redimem o tempo, redimem o sonho
O indício da palavra inaudita, inexpressa
Até que o vento, sacudindo o teixo,
Acorde um coro de murmúrios
E depois disto nosso exílio
V
Se a palavra perdida se perdeu, se a palavra
usada se gastou
Se a palavra inaudita e inexpressa
Inexpressa e inaudita permanece, então
Inexpressa a palavra ainda perdura, o inaudito
Verbo,
O Verbo sem palavra, o Verbo
Nas entranhas do mundo e ao mundo oferto;
E a luz nas trevas fulgurou
E contra o Verbo o mundo inquieto ainda arremete
Rodopiando em torno do silente Verbo.
Ó meu povo, que te fiz eu.
Onde encontrar a palavra, onde a palavra
Ressoará? Não aqui, onde o silêncio foi-lhe
escasso
Não sobre o mar ou sobre as ilhas,
Ou sobre o continente, não no deserto ou na
úmida planície.
Para aqueles que nas trevas caminham noite e dia
Tempo justo e justo espaço aqui não existem
Nenhum sítio abençoado para os que a face evitam
Nenhum tempo de júbilo para os que caminham
A renegar a voz em meio aos uivos do alarido
Rezará a irmã velada por aqueles
Que nas trevas caminham, que escolhem e depois
te desafiam,
Dilacerados entre estação e estação, entre tempo
e tempo, entre
Hora e hora, palavra e palavra, poder e poder,
por aqueles
Que esperam na escuridão? Rezará a irmã velada
Pelas crianças no portão
Por aqueles que se querem imóveis e orar não
podem:
Orai por aqueles que escolhem e desafiam
Ó meu povo, que te fiz eu.
Rezará a irmã velada, entre os esguios
Teixos, por aqueles que a ofendem
E sem poder arrepender-se ao pânico se rendem
E o mundo afrontam e entre as rochas negam?
No derradeiro deserto entre as últimas rochas
azuis
O deserto no jardim o jardim no deserto
Da secura, cuspindo a murcha semente da maçã.
Ó meu povo.
VI
Conquanto não espere mais voltar
Conquanto não espere
Conquanto não espere voltar
Flutuando entre o lucro e o prejuízo
Neste breve trânsito em que os sonhos se
entrecruzam
No crepúsculo encruzilhado de sonhos entre o
nascimento
E a morte
( Abençoai-me pai) conquanto agora
Já não deseje mais tais coisas desejar
Da janela debruçada sobre a margem de granito
Brancas velas voam para o mar, voando rumo ao
largo
Invioladas asas
E o perdido coração enrija e rejubila-se
No lilás perdido e nas perdidas vozes do mar
E o quebradiço espírito se anima em rebeldia
Ante a arqueada virga-áurea e a perdida maresia
Anima-se a reconquistar
O grito da codorniz e o corrupio da pildra
E o olho cego então concebe
Formas vazias entre as partas de marfim
E a maresia reaviva o odor salgado das areias
Eis o tempo da tensão entre nascimento e morte
O lugar de solidão em que três sonhos se cruzam
Entre rochas azuis
Mas quando as vozes do instigado teixo
emudecerem
Que outro teixo sacudido seja e possa responder.
Irmã bendita, santa mãe, espírito da fonte e do
jardim,
Não permiti que entre calúnias a nós próprios
enganemos
Ensinai-nos o desvelo e o menosprezo
Ensinai-nos a estar postos em sossego
Mesmo entre estas rochas,
Nossa paz em Sua vontade
E mesmo entre estas rochas
Mãe, irmã
O espírito do rio, espírito do mar,
Não permiti que separado eu seja
E que meu grito chegue a Ti.
Tradução de Ivan Junqueira,
Do original: Collected Poems 1909-1962,
para a Editora Nova Fronteira em 1981.
Thomas Stesrns Eliot
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www.opoema.linet.com.br/tseliot.htm
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