BIOGRAFIA

 

Soares Feitosa, Francisco José - 19.01.44, Ipu, CE, órfão de pai no mesmo dia em que nasceu, é filho único. Infância na cidadezinha de Monsenhor Tabosa, também no Ceará; Seminário de Sobral, aos 13 anos. Dos 14 aos 15, morou em Nova Russas, na mesma região norte do Ceará, na casa do tio, padre Leitão. Toda a infância e juventude permeadas com os matos, os campos, os sertões, a caatinga, a Seca e os invernos: fazendola Catuana, às margens do rio Macacos, de sua mãe viúva, Anísia, parteira. Foi jornalista na juventude, em Fortaleza; caixeiro-viajante no Piauí; depois funcionário do Banco do Brasil. Aos 20 anos já era Fiscal do Consumo. Sempre por concurso. Aos 22 anos, casou com uma serrana, Glaucineide, e com ela tem cinco filhos.

Soares Feitosa: Até a primeira vez. quase aos 50 anos, que escrevi no "devocional" - e já explico o que entendo por devocional - só havia escrito pareceres, do obrigacional, despachos, coisas da burocracia, como fiscal do imposto de renda. Na juventude, fui jornalista, mas nunca escrevi exclusivamente por prazer. Sempre por obrigação, mas isto de ser obrigado nunca me causou desprazer algum. De modo que, até mesmo no obrigacional, o devocional já estava presente, no mínimo latente. Sempre escrevi meu burocratês com grande satisfação. Depois, quando me estabeleci poeta, passei a escrever pelo puro prazer interior. Interior? Sim! Gosto de ler o que escrevi. Releio-me, mas se disser que não me agrada um elogio, estarei mentindo. Agora, aposentado do cargo de fiscal, continuo escrevendo no obrigacional: um escritório de advocacia tributária que tanjo com dois filhos e alguns advogados. Contudo, a viagem atual do juridiquês também passa por perto da poesia. Vez por outra, cito algum poeta numa petição e isto tem um efeito muito interessante. Atrevo-me a dizer que "moro" dentro de um computador. Se não estou nos escritos do escritório, estou no devocional do Jornal de Poesia, e ambos me tomam todo o tempo. Tenho a comentar que ambas as escritas me dão grande prazer e alguns acréscimos. A poesia, despesas; o judiquês, alguns trocados fundamentais a completar a aposentadoria.

Soares Feitosa entrevistado Por Izacyl Guimarães Ferreira. Entrevista Publicada No Jornal da UBE, de Julho 2002

Caro poeta

Eis as perguntas:

Izacyl: Por que e para que escrever poesia?

Soares Feitosa: Até a primeira vez. quase aos 50 anos, que escrevi no "devocional" - e já explico o que entendo por devocional - só havia escrito pareceres, do obrigacional, despachos, coisas da burocracia, como fiscal do imposto de renda. Na juventude, fui jornalista, mas nunca escrevi exclusivamente por prazer. Sempre por obrigação, mas isto de ser obrigado nunca me causou desprazer algum. De modo que, até mesmo no obrigacional, o devocional já estava presente, no mínimo latente. Sempre escrevi meu burocratês com grande satisfação. Depois, quando me estabeleci poeta, passei a escrever pelo puro prazer interior. Interior? Sim! Gosto de ler o que escrevi. Releio-me, mas se disser que não me agrada um elogio, estarei mentindo. Agora, aposentado do cargo de fiscal, continuo escrevendo no obrigacional: um escritório de advocacia tributária que tanjo com dois filhos e alguns advogados. Contudo, a viagem atual do juridiquês também passa por perto da poesia. Vez por outra, cito algum poeta numa petição e isto tem um efeito muito interessante. Atrevo-me a dizer que "moro" dentro de um computador. Se não estou nos escritos do escritório, estou no devocional do Jornal de Poesia, e ambos me tomam todo o tempo. Tenho a comentar que ambas as escritas me dão grande prazer e alguns acréscimos. A poesia, despesas; o judiquês, alguns trocados fundamentais a completar a aposentadoria.

Izacyl : Como você processa o seu poema?

Soares Feitosa: Nunca os processei. Eles é que me processam. Nunca tive um projeto, um poema em curso. Passo meses e meses sem escrever uma linha. Aliás, passei exatos 49 anos de 9 meses para escrever a primeira. Nem tenho certeza de que voltarei a escrever, porque, a rigor, não tenho nada pendente para escrever. Se fosse espírita, diria que escrevo por "encosto": um belo dia, sem ver nem porque, o poema chega. Pronto! Chegou o poema pronto. É só botar no papel. Algumas revisões ligeiras, mas está pronto.

Izacyl: Como avalia a atual poesia que se escreve no Brasil?

Soares Feitosa: Claro que tem muita coisa! Lugar de vasta fauna e flora, bichos e paus para todos os gostos. Quer concretista? Estão aí os Campos e seus rebentos. Quer poesia? Está aí o Alberto da Costa e Silva e toda sua torrente de infâncias a cavalo, a pé, de jegue ou de bicicleta. Tem havido uma pequena guerra de classificações. Carlos Graieb, um grande taxonomista, lançou a primeira classificação de "famílias' na fauna poética, pela revista Veja. Depois, os Lineus tupininquins têm classificado à vontade. Uns gostam, outras não. A última "chiada" foi de Alexei Bueno através de uma "Carta a um jovem poeta", ricamente comentada e malhada nas rodas de poesia, virtuais e alcoólicas.

Izacyl: Que orientação daria a um jovem poeta que a pedisse a você?

Soares Feitosa: Que ele cuide de trabalhar! Um belo concurso. Aí, sim, vidinha feita, vá cuidar do devocional. Foi assim que fiz: tenho estudado a vida toda e ainda hoje trabalho feito um bicho-bruto. Sou o primeiro a chegar ao escritório. O último a sair. E, como tudo, ainda que obrigatório, é regido pelo devocional, não me canso nem um pouco. A propósito, veja Uma carta a um jovem poeta, deste seu criado.

Izacyl : Crítica, reconhecimento? Tradição, modelos?

Soares Feitosa: Wilson Martins, um cara extremamente sério. Pois pasme, istrudia (isto, outro dia), um boçal, nem lhe gravei o nome de tanta raiva que fiquei, desceu a lenha em velho Wilson. No demais, predomina o cupinchato. Nada contra o cupinchato. Sou a favor dele também, tanto que meus amigos são todos excelentes poetas!

Izacyl : O que mais falta à nossa poesia?

Soares Feitosa: Falta nada não! Tem lugar para todo mundo. Cordelistas, concretistas, minimalistas e mais uma meia centena de outros "istas", está todo mundo bem empregadinho. Os reclamões querem apenas dominar. Só isto. E com eles à frente, é claro. Por mim, deixem como está e não mudem nada!

Izacyl: "Inventores", novidade? Tudo isso? Nada disso? O quê?

Soares Feitosa: Inventar o quê? A poesia continua sendo a mesma desde os tempos! Basta abrir qualquer poema bíblico ou a história de um certo domador de cavalos (Heitor) e a gente chega a conclusão que aquilo, quando "lido" enleva. Se enleva é poesia! Precisa inventar, sim, um instrumento, um "poetímetro", mecânico, digital, sei lá como, para expurgar tanto bobajéu que se vê por aí sob a forma de versos, livres ou presos. Sem o enlevo não há poesia, presumo.

POESIA HERÓICA
Soares Feitosa

Salomão
Primeiro Movimento
O Cometa

[...]
porque o presente é todo
o passado e todo o futuro
e há Platão e Virgílio dentro das máquinas
e das luzes eléctricas
só porque houve outrora e foram
humanos Virgílio e Platão,
e pedaços do Alexandre Magno
do século talvez cinqüenta,
átomos que hão-de ir ter febre
para o cérebro do Ésquilo do século cem [...]
Antônio Fernando, in Ode Triunfal.
Ésquilo, o teu cometa acabou de passar por nós
deixou avisado que voltará;
século cem, para receber o Ésquilo
do Século Cem,
de Ésquilo a Ésquilo
(siglo - isto é uma profecia).
- Existiria o tempo?
- Existiria o homem?
Que diferença faria eliminar
trinta e três ou até mais, tanto faz,
50 séculos, 55, pois os ciúmes, os ódios,
os aleitamentos,
os teus olhos tristes, meu amor:
coisas de sobrar, o que a mais haveria?
Sobrariam alguns riscos nas paredes,
galerias de Altamira,
Piracuruca; uma boneca de plástico
de braço arrancado,
na maré vem-e-vai de Long Island; sobrariam
talvez umas esporas de prata, minhas;
uns dentes de ouro, do meu negro negreiro;
o meu canto sobraria, o meu gibão de couro -
porque só a arte fica -,
porque os profetas ficam... e voltam...,
as bonecas morrem e se saciam.
De onde vem, meu senhor Coronel?
Boa-noite!
Não reconhece o seu negro-moleque
por quem pagou uma partida de farinha
e carne-seca?
Sou eu, Coronel,
seu eterno moleque Salomão e suas queixas
dos três outros moleques
extraviados de minha escolha!
Ah, Salomão, meu negro,
salve a alegria de te ver, Deus te abençoe!
Dentro da bruma dos olhos baços,
porque a aurora do Século Cem pertence
ao cometa Hale-Bopp;
isto também não tem nenhuma importância
depois dos moleques que me perdeste errado;
os tempos me confundem, não há tempo,
há todo o tempo, um tempo só:
O Século Cem,
de Ésquilo.
Coronel, do primeiro moleque a culpa minha
é pequena, já lhe contei cem vezes:
chegaram os homens do Norte e botaram
preço, mais panos-da-costa,
mais rum, mais panos eles botaram,
e o traficante desfez a venda
embarcada e mandou descer os negros, fortes;
as negras, belíssimas,
que jamais escolhi diferente;
no meio das negras jovens,
da minha escolha, a escolha do Capitão,
os dentes risonhos, os gestos de chã,
desceu, meu Coronel,
no meio delas, o tal negrinho desceu,
que o senhor nunca deixou de reclamar;
que depois me disseram,
disseram também ao senhor,
o molequinho bailava,
bailava de beija-flor.
Mera questão de preço, Coronel,
não pude pagar
do dinheiro que o senhor me deu;
os gringos pagaram,
ainda botaram preço
em mim, como se eu soubesse trair,
que nunca traí;
eles levaram, me levariam também.
Voltei,
as mãos abanavam,
o senhor me reclama,
80 séculos que me reclama, Coronel!
(O abraço à minha madrinha!).
E os outros dois moleques, Salomão,
por que os vendeste?
Dos outros dois, Coronel, um tossia demais;
o outro começava a aleijar, e o troquei;
foi numa troca de burros que viajou às Geraes,
o negrinho aleijava, viajou e ficou.
E aleijou.

O mais mofino, Coronel, troquei num jogo de malas,
das suas viagens para as Europas, muitas;
o negrinho da tosse foi metido a remos
no rumo do Sul, estrelas do Cruzeiro,
lugar Desterro, parece que foi,
Desterro, faz tempo,
Coronel!

Era falador o moleque, Coronel, mesmo mofino;
tossia, o moleque tossia;
o senhor me perdoe, qu'eu me enganei,
porque tossir, o Menino também tossiu.
E nem por isso!


Soares Feitosa
Salomão
Segundo Movimento
Os Cantares de Pulso

Um dia, Hiberia, era mar
um mar de poente,
e me arribei de ti.
Data? - por que me queres com data?,
quem sabe de datas!? Os pinhos,
os vinhedos,
os montes, aquela aldeia moira -
e tu, Portugal, s'escondiam
calmos à risca do mar;
e o areal - era África.

Às minhas costas,
num bracejo - bracejar de dias e dias:
era escuro o mar ibérico,
também escuras as águas mouras
porque nelas (occidente)
se depõe
o Sol.

Cem dias,
370 milhas - não eram léguas? -
braças, alqueires, eiras, planos? -
sei lá de que palmos;
eis os perdidos elos, inútil achá-los:
os porões, o tombadilho;
o que mais importa? - datas a quê?
Desliguei todos os relógios,
entortei-lhes os ponteiros,
joguei-os ao mar.
Este corpo, este fardo - despejei-me à súbita manhã
da aurora, onde um roçado líquido,
riscado de Sol:
(é lindo, Portugal!,
o meu bracejo de sol, de mar a mar, este,
o meu, Siarah Grande, terra minha, este mar
à manhã nascedoira, aqui).
Aí, Portugal, em tuas terras moiras,
o Sol nasce de dentro dos montes e se apaga
dentro das águas;
aqui, ele se rasga aos céus, de dentro do mar,
surgindo.
Nesta manhã de rubros, rastejo a manhã
e de joelhos,
as conchas do mar me informam:
o minho o Douro, la plaza, os toiros
estão em ângulo de grau,
à frente e à esquerda estão;
é longe, sim, Hiberia - recuerdos:
- Navigate, Hiberia!
- Navigamus.
O mar é longo.
Longas as águas verdes,
longos os olhos verdes às barrancas do meu rio:
a ti, Antônia, que diferença houvera de fazer
me nascesse o Sol à esquerda ou à direita
se, bem dentro dos teus olhos, só
o desterro da noite?
Esta a minha Tróia, agora:
este mar de sol, Siarah, onde
touro e mameluco navego o dia;
branco e mouro a noite navego;
negro e cinza enfrento
a tragédia e a aurora:
tanto faz, a tragédia, a aurora - tanto faz:

Exmo. Antônio, dito Conselheiro,
dito Antônio dos Mares,
venho-lhe pedir que inscreva
a Francisco no livro dos que não crêem
na noite.

E tu, Calíope, permite que no rol,
uma lista exígua, continuem os nomes -
[aqueles nomes, sempre serão poucos, crê!]:
porque os homens caem direto dos homens;
direto dos deuses
alguns poucos homens caem;
levanta-se uma raça de homens;
levanta-se uma raça de deuses.
Ignacio y Pizarro,
«Ite, Incendiate!».
y Cortés y El Cordobés,
«Canudos não se rendeu».
y Moscardó y El Consejero
«Tudo cierto en Alcázar,
mi General!».
O touro,
o louco,
o mar absoluto:
«Mi general, le entrego el Alcázar destruído, pero
el honor queda intacto».
Sabedores da morte, sabedores do criar,
despregados da verdade,
eles da morte sabem, da morte destemem.
Sim, meu caro Pilatos, eles sabem,
eles descreem, mera tarefa de mais crer:
«Canudos não se rendeu».
Bêbados, senhor Procurador,
completamente bêbados,
meu caro Pilatos,
(hemos de saber, sabemos),
porque eles sabem a verdade que tanto
inquiriste inutilmente:
aos escombros,
o touro,
o santo,
o louco,
o mártir,
o herói,
o bandido:
Canudos não se rendeu.
Exemplo único em toda a História,
resistiu até o esgotamento completo.
Expugnado palmo a palmo,
na precisão integral do termo,
caiu no dia 5, ao entardecer,
quando caíram seus últimos
defensores, que todos morreram.

Eram apenas quatro:
um velho, dous homens feitos e uma
criança, na frente dos quais rugiam
raivosamente cinco mil soldados.
Destes lugares, muitos:
mouro, touro, mameluco, franceses,
holandas, chegados, idos, fugidos,
voltados às terras índias, e fui ficando,
Siarah, Siarah Grande, pisando venho
estes caminhos ásperos -
filho de Anísia e de Francisco,
no Ipu fui nascido
[...]
em prol da tragédia...,
- de que me acodem, úteis, as tragédias? -
se desta barranca, as águas escassas
só me refletem o entardecer da tua voz?
José Moscardó Ituarte, apud Toledo:
Toledo escombros, o filho fuzilado:
Toledo, este livro,
Toledo história:
«Tudo cierto en Alcázar, mi General!»
Eles berram, berramos
sob a Verdade absoluta:
este grito jugular -
¡Arrrrrrrriba España!
Amar, nascer, nem tanto mais;
à montanha, o mirro grão de ouro há de ecoar
nos escombros da noite o grito da noite:
gente que não teme a noite.
Calendários? Não temos o costume.

Atira, forasteiro,
as alpercatas ao pé da porta;
vais penetrar num templo de auroras,
porque só os deuses sabem da Aurora,
porque os sabedores da Aurora
tangem, no pulso certeiro, entre mão e olho, a força do crear;
porque deles a certeza da morte
certa, da certeza retiram todas as setas da audácia:
Os que criam são puros.
Os que imitam, escravos.
Era uma manhã de beira de cais,
desabaram uma montanha de pedras,
e aquele monte de pedras soltas
acompanhava o chaos de Deus -
pedr'alguma era igual.

E ali, diziam que iriam levantar
um paredão a uma cidade-lá-em-cima.
E as pedras soltas,
uma e outra se encaixavam,
porque uma mão tomando cada qual de qual,
pedra e mão nascidas uma da outra,
assim os deuses! -
sob o olho artífice:

Nesta junta,
neste calo,
nesta cal,
aqui,
ali,
nesta frincha,
assim,
esta,
mais esta,
agora aquela,
lá.
Vejam!
A muralha,
o caminho!
A viagem!
E minha vista de Coronel de vista larga
se destaca num negro jovem; mesmo cautivo
trazia ele no gesto o gesto;
à eloqüência de sua mão de pedra
a pedra se entregava -
ao logaritmo, à curva e à senóide,
que as parábolas na mente do negro,
em cima daquela montanha de pedras,
pedregulhos e a montanha desmanchada,
bastava um olhar - o mar profundo -
porque ao olho do criar a força do crear;
à dúvida do crear, à certeza do matar,
Porque esta, certa, apenas esta:
a certeza de morrer - ...ninguém acredita.
No mesmo instante comprei o moleque.
E mandei batizá-lo na fé de Cristo
e disse:
Negro, teu nome a partir de hoje é Salomão,
da casa deste teu Coronel e de tua madrinha,
porque os meus braços e os meus olhos serão
poupados para o Século Cem,
de Ésquilo.

E os teus braços e os teus olhos, Salomão,
serão os meus braços, os meus olhos em terras longas,
e a tua palavra será minha boca honrada,
palavra de Coronel!
- Vai!

E mandei abastecer um veleiro,
porque dali os negros longínquos,
naquela mão do crear,
no olho do medir, seriam a escolha certa,
a Escolha do Capitão!,
mercadoria de qualidade, a Feitoria do Coronel!

"E me traze, Salomão,
negra nova, que seja de riso,
ainda que de seus olhos navegue um mar profundo;
que tenha alma grande; que grandes e roliças
também as pernas;
não me tragas gente seca nem mal-encarada,
que tu já sabes das medidas do meu cabedal,
da fartura da minha casa,
da tirania da minha unha:
- Vai, negro
E da minha crônica negreira botei velas e velo
neste mar bravio as minhas bandeiras velo,
algumas perdidas, de lucros vastos porém -
sob uma marca registrada se fundou,
para as delícias, às algibeiras deste Coronel,
uma marca se fundou de Comércio & Indústria:

Os Negros do Capitão, as Negras de Chã®
As Escolhidas do Capitão, as Amadas do Coronel®
E delas, Carla; e delas, Sandra;
e delas, Marga; e delas, todas,
porque no olhar, porque muito mais.
Salomão Capitão jamais me enganou;
queixas só tenho dos três moleques:
o que aleijava, o que tossia, o que bailava,
porque Salomão, de uma raça de deuses,
um único dia se enganou.
- Eles também se enganam, Coronel -
dizia-me Salomão.
(Porque deuses e demônios:
Moscardó, Hernán y
Pizarro, Ygnácio y
Quijote y los toreros,
él toro y las plazas y
Don António, el Mendes Maciel, Concejero y
el profesor sin bracios y Francisco
gente que não teme a noite
gente da mesma parelha, deuses -
deuses e demônios, à mesma laia).
Sim, Calíope, não te esqueças, hei de pedir
às outras oito a coragem... de fugir.

- Fugir, senhora musa?

Elas dirão que não!
Clio à frente, troando História,
Clio atrás, apalpando história;
porque entre enlevo e ódio,
Urânia numa noite me dissera:
A onda é alta, Coronel, mirai os céus.

- Vai, negro, o veleiro é teu!
(Fumo, aguardente, panos;
o azougue, o jugo, o jogo, e a ferros-gentes,
e todo o ódio
e as nossas almas -
pracejamos).


Soares Feitosa
Salomão
Terceiro Movimento:
Em Língua Teuta

Temi Salomão, que um dia o Século
de Ésquilo
se escrevesse em língua bárbara,
porque os rapazes do Reno ousavam
todo o ouro do Reno
e erigiam na noite dos deuses
um punho de ódio;
crepúsculo;
Eles arrogavam de mil anos; aurora:
era crepúsculo.
Berlim!
1936!
Eu te vi lá, negro!
O Capitão,
orgulho da minha escolha,
ao pé da montanha de pedras,
erigida em muralha do teu pulso altivo:
uma vitória,
duas vitórias, três vitórias,
quantas vitórias fossem, ganharias todas;
e o tirano bateu em retirada
sob o grito dos teus olhos;
os campeões de tapioca
tombaram, um a um,
sob o ódio do teu pulso!

Estrugiam as fanfarras,
Wagner tocava...
à tua "derrota" Capitão.

Toda a orquestra em silêncio,
era para ti, Capitão!
Contra tuas vitórias,
ao silêncio do teu pulso, todo o silêncio.

Sob o olhar assombrado das Valquírias,
todo o ouro do Reno, no punho fechado,
de puro ódio, fechado - caladas -,
a mordaça do teu punho, fechado!
Capitão Jesse "Wotan" Cleveland Owens.

Porque todo o ouro do Reno, de suas peles
alvíssimas, aquele ouro tivera
destino de partida, um dia, Jesse;
teve destino de chegada, outro dia, Cassius;
tu foste lá entregá-lo, Apolo-Estafeta,
todo o ouro:
Berlim-Atlanta!
E um negro trêmulo,
como se fosse uma vara verde, daquelas de açoitar negro,
e acendias a tocha do fogo grego,
e as medalhas de todo o ouro do Reno
pendiam de teu peito largo,
de teu sorriso pendiam, e a teus pés pendiam
todos os que um dia:
Auschwitz-Birkenau...
Arbeit Macht Frei
"O trabalho traz a liberdade"
era o selo-sinal à Porta Inferi -
Rudolf, Adolf - quem é Rudolf?
Que deles é deles?
Resta,
restam,
hão de restar:
o Capitão negro, Jesse -
o Capitão negro, Cassius:
Não vou, Coronel, não vou brigar
contra quem
jamais me fez mal; tomem,
eu devolvo!
E o negro bailava nas sapatilhas:
- Sou o homem mais bonito do universo!
O tagarela, o borboleta...
Tomem de volta a medalha,
os títulos que conquistei, tomem...
(Preso?) Isto não tem importância...
Quem é livre-de-dentro-de-si
jamais é preso, em si!
O soco do Capitão era
de-pluma-e-de-vulcão:
47 segundos,
nocaute em Sonny Liston.
No auge, toda a fama, todo o ouro
aos pés do Capitão, toda a orquestra,
Valquírias mil,
ele disse: - "Não vou!".
(Os meros outros só dizem que sim).
Mas não te esqueças, Capitão,
a estirpe é esta, bem mais larga:
Rosa,
a estirpe rosa, de raiz e flor,
sentada estava, sentada ficou,
uma mulher e era negra,
borraram-lhe os dedos
de tinta
negra;
o carcereiro não supunha - aquele papel imundo
dos dedos da negra
valesse muito mais
que toda a Carta do Mundo -
Rosa, a estirpe Rosa;
a Suprema Corte disse:
- Sim, minha Senhora, raiz e flor.
E mais um, Luther, brigou a briga inteira;
o outro era um branco,
era padre e disse
que ia primeiro,
que precisava ir à frente,
era Kolbe;
e a jovenzinha anotava tudo,
[...]
-o caderno, talvez um álbum-
Ana,
Ana Francisca;
foram na frente, à nossa frente,
eles, os primeiros,
da estirpe dos que dizem "não!",
dos que na frente vão
ao Século Cem, de Ésquilo!
À estirpe, Capitão!
Dona Rosa,
o padre,
a jovenzinha,
esta parelha de negros:
Traze deles, sim,
traze só deles, Capitão!
Dos que à frente vão,
dos que só sabem ir à frente,
dos que precisam ir à frente,
dos que vão ao não!
À frente,
o Capitão Cassius Marcellus "Millennium" Clay!
Olimpicamente
ao Século Cem,
de Ésquilo.
- Vai, negro, o veleiro é teu!


Soares Feitosa
Salomão
Quarto Movimento
O Estupro Das Àguas

'Stamos em pleno mar!
Antônio, in O Navio.

Coronel, nas minhas marinhagens
os ímpios perguntam por que o Menino
colocou na porta da Catedral
um Estamos cortado, tirando o
e os ímpios me zombam:
"Recurso,
recurso poético,
para dar certo
nos metros."
Foi não, Capitão! Ajuntei
meus cantadores, profetas e violeiros
e mandei apurar.
O Menino não precisava cortar
palavras;
nem o Capitão jamais precisou cortar caminhos;
quem sabe, sabe: numa muralha,
as pedras, as coloca inteiras;
do ponto de chegar, do ponto de partir;
em partida, em chegada -
a hora, Capitão!
Assim te ensinei: - o mar, a terra.
É assim mesmo, Coronel:
sempre risquei no olho
o monte de pedras; o largo dos caminhos,
o dorso do mar que também risquei;
a muralha obscura - risquei-os todos
entre olho de riscar e mão do fazer,
sempre tracei
o prumo de não pender, assim!

Porque, Coronel,
o prumo de afiar, o prumo de segurar
têm de estarem "lá dentro"...,
de fora, as muralhas;
as viagens morrem na chegada porque de dentro
é o rumo.

Porque, Coronel, se no meu brigue tem
astrolábio,
tem, claro que tem, do melhor;
capitão-Capitão, no espinhaço do mar,
navega de ouvido,
zombando à noite larga,
por mais que se aflijam os aflitos...
olha os céus, olha os caminhos,
só de deleite, quando quer.
Como se fosse, Coronel, o falcão-gavião
voando atrás da juriti, o vôo da morte
entre as penedias, o rapinento a lhe medir
as distâncias, no bico curvo, o bote vil:
(os dentes crivados por entre os dentes)
assim!, Coronel!

É assim mesmo, Capitão:
às feras, o caminho de romper;
à juriti, o caminho da espera!
Também às muralha, Coronel;
as negras desembarcadas
(dinheiro, Coronel, muito dinheiro!):
nos olhos levo, nos olhos trago,
carrego comigo o dia da volta.
Agora me diga, Coronel, o segredo,
por que, afinal, o menino
riscou o "E"?
Capitão Salomão,
capitão meu de meus negreiros,
nenhuma palavra é mais forte
do que esta:
Tãm!
Escuta, Capitão,
o baque da montanha avalanchada
é assim:
Tãm!
O baque da ave de rapina despencada
dos céus, sob o meu seteiro rijo
é assim:
Tãm!
O baque do negro que desaba na água,
de tua mão terrível, jogado aos peixes
no avanço do brigue viageiro,
é assim:
Tãm!
Vê, Capitão,
o Menino não adejava canto macio
porque o momento não era macio;
ele rompe as rochas do Tempo,
rasga a cortina do Mundo,
assim:
Tãm!
'Tamos em pleno mar, Capitão!
Naquele instante, Capitão,
nos quengos do Menino,
formou-se o estupro das águas...
Assim:
Tãm!

E um colosso de matéria líquida
explodiu
em todos os trons, Capitão:
Tãm!

'Tamos em pleno mar, Capitão!
Dize, Capitão,
quem maior lhe foi?
Só se foi, Capitão, o rasgão do véu,
o ensurdecer do dia em pleno dia, o Templo,
o rebentar das sepulturas,
os mortos lívidos de susto,
as rochas se esmigalhando ao meio,
as paredes em pedregulho,
o esturro dos Céus:
- Expirou o Crucificado!

Ah, meu senhor Coronel, agora eu já sei!
Estava em pleno mar!
Um estrupício d'água,
uma montanha líquida
subiu
aos céus;
o mar secava, Coronel,
e enchia outra vez;
quando me cuidei,
o veleiro, cheio de negros (era
uma bela partida,
mercadoria de primeira, a marca
de Comércio & Indústria,
a Feitoria do Coronel, os escolhidos
do Capitão®, as negras do Capitão®,
seriam de lucro vasto!)
quando me dei conta
o brigue baloiçava em terra súbita:
- Varrei os mares, tufão! -

Porque a ventania, Coronel,
de tão medonha,
arrancou todos os negreiros,
os viajados e os viageiros,
negreiros que nem existiam mais;
ajuntou outros que estavam por vir, outros
que nem construídos estavam;
ajuntou-os a todos, como se os pegasse
numa mão de ferro, e os barcos com todos os negros,
e os barcos com todas as negras,
arrmetidos foram
nos morros da cidade-lá-em-cima.
Nenhuma diferença agora, Coronel:
de mar --e-- morro!
Não há mais veleiros, Coronel, encerrei
a carreira de mar;
velejo hoje em terra falsa,
nuns charqueados também velejo;
às palafitas, invado rios, invado mangues,
paliças minhas... o mar em seco.
E os negros pendem,
e as negras pendem,
das mesmas amuradas pendem,
os elementos detonados do Menino
pendem...

É vento, é água:
pendem!

É água, é vento:
pendem!

Tudo coisa de mar-alto:
pendem!

Agora no alto os veleiros
pendem!

E da cidade-lá-em-cima
é o baque da noite!
Tãmos em pleno morro!
E a terra me corre
me falta nos pés,
extravia-se a terra,
embaixo a paliça,
os negros correm,
as negras correm,
trêmulos da noite,
horrendos da festa,
o açoite do vento,
o ronco das águas
e na manhã, Coronel,
cavoucamos os mortos!

'Tãmos em pleno morro!


Soares Feitosa
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FONTE
JORNAL DE POESIA
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www.secrel.com.br/jpoesia/feito.html


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Edição: Delasnieve Daspet

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