BIOGRAFIA

Paulo Leminski (Curitiba PR, 1944-1989)

 

Publicou seus primeiros poemas em 1964, na revista Invenção, porta-voz da poesia concreta paulista.

No período, trabalhava como Professor de História e Redação em cursos pré-vestibulares e professor de judô.

Músico e letrista, nos anos de 1970 teve canções gravadas por

A Cor do Som, Paulinho Boca de Cantor, Moraes Moreira.

Em 1975 publicou o romance experimental Catatau.

Na década de 1980, trabalhou como colaborador em periódicos, tradutor e redator de publicidade.

Seu primeiro livro de poesia, "Não fosse isso e era menos. Não fosse tanto e era quase", saiu em 1980.

Seguiram-se Caprichos e Relaxos (1983) e Distraídos Venceremos (1987).

Entre suas obras póstumas estão La vie en close (1991) e Winterverno (1994).

Leminski fez parte da geração de "poetas marginais" que, nos anos de 1970, publicava em revistas alternativas; a partir dos anos 80, no entanto, tornou-se um dos nomes mais populares da poesia contemporânea brasileira.

Sua obra assimilou elementos da primeira fase do modernismo, como o coloquialismo e o bom-humor, do concretismo e também da poesia oriental, que inspirou a criação de seus famosos haicais.

LEMINSKI
FRASE


Inveja é pecado
e papai do céu castiga
na próxima encarnação
você vai viver em Curitiba.
Paulo Leminski

Publicada no jornal Correio de Notícias,
em Curitiba, no dia 27 ou 28 de março de 1987.
Enviada pelo Ignácio, de Santa Catarina

POEMAS
Paulo Leminski I
Bem no Fundo

No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela - silêncio perpétuo

extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.


Paulo Leminski II
E

eu
quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora

quem está por fora
não segura
um olhar que demora

de dentro de meu centro
este poema me olha


Paulo Leminski III
Distâncias Mínimas

um texto morcego
se guia por ecos
um texto texto cego
um eco anti anti anti antigo
um grito na parede rede rede
volta verde verde verde
com mim com com consigo
ouvir é ver se se se se se
ou se se me lhe te sigo?


Paulo Leminski IV
Haicai

a estrela cadente
me caiu ainda quente
na palma da mão

cortinas de seda
o vento entra
sem pedir licença


Paulo Leminski V
Amor Bastante

quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante
um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto


Paulo Leminski VI
Acordei Bemol

acordei bemol
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido


Paulo Leminski VII
Ali

ali

ali
se

se alice
ali se visse
quanto alice viu
e não disse

se ali
ali se dissesse
quanta palavra
veio e não desce

ali
bem ali
dentro da alice
só alice
com alice
ali se parece


Paulo Leminski VIII
Nada me Demove

nada me demove
ainda vou ser
o pai dos irmãos Karamazov


Paulo Leminski IX
Se

se
nem
for
terra

se
trans
for
mar


Paulo Leminski X
Não Discuto

não discuto
com o destino

o que pintar
eu assino


Paulo Leminski XI
Um Homem Com Uma Dor

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegasse atrasado
andasse mais adiante


Paulo Leminski XII
Rosa Rilke Raimundo Correia

Uma pálpebra,
Mais uma, mais outras,
Enfim, dezenas
De pálpebras sobre pálpebras
Tentando fazer
Das minhas trevas
Alguma coisa a mais
Que lágrimas


Paulo Leminski
09 Poemetos

Poemeto I

É quando a vida vase
É quando como quase.
Ou não, quem sabe.


Poemeto II

Vim pelo caminho difícil,
a linha que nunca termina,
a linha bate na pedra,
a palavra quebra uma esquina,
mínima linha vazia,
a linha, uma vida inteira,
palavra, palavra minha.


Poemeto III

O pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhadaputa
de fazer chover
em nosso piquenique


Poemeto IV

Manchete
Chutes de Poeta
Não levam perigo à meta


Poemeto V

apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme


Poemeto VI

uma carta uma brasa através
por dentro do texto
nuvem cheia da minha chuva
cruza o deserto por mim
a montanha caminha
o mar ente os dois
uma sílaba um soluço
um sim um não um ai
sinais dizendo nós
quando não estamos mais


Poemeto VII

pariso
novayorquizo
moscoviteio
sem sair do bar
só não levanto e vou embora
porque tem países
que eu nem chego a madagascar


Poemeto VIII

nunca quis ser freguês distinto
pedindo isso e aquilo
vinho tinto
vinho tinto
obrigado
hasta la vista
queria entrar
com os dois pés
no peito dos porteiros
dizendo pro espelho
- cala a boca
e pro relógio
- abaixo os ponteiros


Poemeto IX

nem toda hora
é obra
nem toda obra
é prima
algumas são mães
outras irmãs
algumas
clima


Paulo Leminski
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BIOGRAFIA
FONTE
www.releituras.com/pleminski_menu.asp


POEMAS
FONTE
www.secrel.com.br/jpoesia/pl.html
seges@e-net.com.br



Pesquisa e Edição
Iracema Zanetti

Edição: Delasnieve Daspet

Música: Clair de Lune

 

 
 


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