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Nascido no fim do século
XIX, Mário de Sá-Carneiro pertence à geração de
Orpheu, a revista que pretendia comunicar a nova
mensagem europeia, preocupada apenas com a
beleza exprimível pela poesia.
Preconizava a arte pela arte mas ao mesmo tempo
a busca ansiosa do "eu" e a fixação da agitada
idade moderna. No Orpheu podiam publicar as suas
peças de escândalo: poesias sem metro revelando
as profundezas do subconsciente sem passar pelo
crivo da razão. O primeiro número, saído em
Abril de 1915, esgotou-se em três semanas:
compravam-no para se horrorizarem com o seu
conteúdo e se encolerizarem com os seus
colaboradores.
Mas o que não é menos verdade é que todos, ou
quase todos, tinham a consciência da grandeza
que é ser poeta. Dois deles sobretudo: Fernando
Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. E o estarem à
mesma altura, bem acima dos outros, aproximou-os
numa amizade feita de compreensão, carinho e
admiração mútua.
Dias antes do suicídio, Sá-Carneiro enviara a
Pessoa o manuscrito do seu livro inédito de
poesias - Indícios de Oiro, para que o amigo o
publicasse "onde, quando e como lhe parecesse
melhor". Em 1914 já publicara outros doze poemas
com o título de Dispersão. Estes dois volumes e
mais Os Últimos Poemas constituem toda a obra
poética daquele que, como previra, só seria
entendido vinte anos mais tarde. São cinquenta e
um poemas, todos escritos de 1913 a 1916, na
maioria datados de Paris, onde o poeta levava
uma vida dissipada, sempre recorrendo à bolsa
paterna.
Durante esses três anos de Paris - os últimos da
sua vida - voltará duas vezes a lisboa, por
alguns meses: em fins de 1913 e em princípio de
1915. É então que dirige com Pessoa o segundo
número de Orpheu, por cuja impressão se
responsabiliza, esperando que mais uma vez o pai
lhe salde as contas. Este, porém, premido por
sérias dificuldades financeiras, seguira para
Lourenço Marques com a segunda mulher, numa
tentativa de recuperar o equilíbrio económico.
Sá Carneiro foge para Paris, sem deixar o
endereço nem mesmo a Fernando Pessoa. Quando
chega, escreve-lhe, dizendo que aguarda a
resposta do pai pedindo-lhe que lhe remeta
urgentemente o produto da venda de Céu em Fogo.
Daí em diante, as suas cartas a Pessoa
tornar-se-ão sempre mais reveladoras do estado
de angústia e desalento que o levará ao
suicídio.
A sua última carta a Fernando Pessoa é, talvez,
o derradeiro esforço de reacção: as palavras
saem-lhe desconexas, apressadas, nos intervalos
de uma respiração arfante: "Doido! Doido! Doido!
Tenha muita pena de mim...".O pobre Sá-Carneiro
aproximava-se do fim: ía seguir o que ele
chamava o seu egoísmo, ía superar o seu medo da
ausência e lançar-se na morte.
A sua inadaptação à vida, a sua irrealização, a
busca e a dispersão de si mesmo, o desejo de
equilíbrio, de não ser quase, o narcisismo
enternecido que por fim se tranformará em
desprezo por aqueloutro, o seu ideal de poeta e
a renúncia que dele exige, tudo o que constitui
o mundo de dúvidas, de ânsias, de angustias do
poeta, é a mesma essência da sua poesia.
Poeta profundamente original, não ficou,
contudo, isento das influências da sua época.
Aproxima-o do simbolismo não só culto da palavra
rara e eufónica e da rima rica, o emprego das
maísculas alegorizantes, mas, e sobretudo o
gosto natural pelo que é precioso - pedras,
metais, estofos -, a ansia de captar cores,
formas, cheiros, sons, que funde com admiráveis
sinestesias.
Foi a impossibilidade de equilíbrio que o levou
ao suicídio. Como homem, não se realizou, nem na
vida nem na morte. No fracasso do homem, o
artista deitou raízes e floresceu em Beleza. O
poeta amou e cantou a sua Alma.
- "Um pouco mais de sol
- e fôra brasa,
Um pouco mais de azul - e fôra além." -.
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MÁRIO DE SÁ CARNEIRO
NOSSA SENHORA DE PARIS
Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde
acoitar-me?...
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar...
Um cheiro a maresia
Vem me refrescar,
Longínqua melodia
Toda saudosa a Mar...
Mirtos e tamarindos
Odoram a lonjura;
Resvalam sonhos lindos...
Mas o oiro não perdura
E a noite cresce agora a desabar catedrais...
Fico sepulto sob círios,
Escureço-me em delírios
Mas ressurjo de Ideais...
- Os meus sentidos a escoarem-se...
Altares e velas...
Orgulho... Estrelas...
Vitrais! Vitrais!
Flores de Liz...
Manchas de cor a ogivarem-se...
As grandes naves a sagrarem-se...
- Nossa Senhora de Paris!...
MÁRIO DE SÁ CARNEIRO
QUASE
Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo ... e tudo errou...
- Ai a dor de ser - quase, dor sem fim...
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Listas de som avançam para mim a fustigar-me
Em luz.
Todo a vibrar, quero fugir... Onde
acoitar-me?...
Os braços duma cruz
Anseiam-se-me, e eu fujo também ao luar...
MÁRIO DE SÁ CARNEIRO
CARANGUEJOLA
Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!...
Que a porta do meu quarto fique para sempre
fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!
Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado...
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira...
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.
Não, não estou para mais; não quero mesmo
brinquedos.
Pra quê? Até se mos dessem não saberia
brincar...
Que querem fazer de mim com estes enleios e
medos?
Não fui feito pra festas. Larguem-me! Deixem-me
sossegar!...
Noite sempre plo meu quarto. As cortinas
corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho- que
amor!...
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar
bolor -
Plo menos era o sossego completo... História!
Era a melhor das vidas...
Se me doem os pés e não sei andar direito,
Pra que hei-de teimar em ir para as salas, de
Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito...
De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha
delicadeza?...
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom
fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com
franqueza...
Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me
levará.
Pra que hei-de então andar aos tombos, numa
inútil correria?
Tenham dó de mim. Co'a breca! levem-me prá
enfermaria! -
Isto é, pra um quarto particular que o meu Pai
pagará..
Justo. Um quarto de hospital, higiénico, todo
branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda...
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez
se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris fica bem, tem
certo estilo...
Quanto a ti, meu amor, podes vir às
quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo
com as melhores maneiras...
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o
mais
MÁRIO DE SÁ CARNEIRO
AQUELOUTRO
O dúbio mascarado o mentiroso
Afinal, que passou na vida incógnito
O Rei-lua postiço, o falso atónito;
Bem no fundo o covarde rigoroso.
Em vez de Pajem bobo presunçoso.
Sua Ama de neve asco de um vómito.
Seu ânimo cantado como indómito
Um lacaio invertido e pressuroso.
O sem nervos nem ânsia - o papa- açorda,
(Seu coração talvez movido a corda...)
Apesar de seus berros ao Ideal
O corrido, o raimoso, o desleal
O balofo arrotando Império astral
O mago sem condão, o Esfinge Gorda.
MÁRIO DE SÁ CARNEIRO
FIM
Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!
Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.
MÁRIO DE SÁ CARNEIRO
SALOMÉ
Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais Alma do que lua...
Ela dança, ela range. A carne, alcool de nus,
Alastra-se para mim num espasmo de segredo...
Tudo é capricho ao seu redor, em sombras
fátuas...
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou...
Tenho frio... Alabastro! A minha Alma parou...
E o seu corpo resvala a projectar estátuas...
Ela chama-me em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto...
Timbres, elmos, punhais... A doida quer
morrer-me:
Mordoura-se a chorar - há sexos no seu pranto...
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo...
MÁRIO DE SÁ CARNEIRO
ÚLTIMO SONETO
Que rosas fugitivas foste ali:
Requeriam-te os tapetes - e vieste...
- Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.
Em que seda de afagos me envolvi
Quando entraste, nas tardes que apareceste -
Como fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar, que remordi...
Pensei que fosse o meu o teu cansaço -
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava...
E fugiste... Que importa ? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste
Onde a minha saudade a Cor se trava?...
MÁRIO DE SÁ CARNEIRO
DISTANTE MELODIA
Num sonho de Íris morto a oiro e brasa,
Vem-me lembranças doutro Tempo azul
Que me oscilava entre véus de tule -
Um tempo esguio e leve, um tempo-Asa.
Então os meus sentidos eram cores,
Nasciam num jardim as minhas ânsias,
Havia na minha alma Outras distâncias -
Distâncias que o segui-las era flores...
Caía Oiro se pensava Estrelas,
O luar batia sobre o meu alhear-me...
- Noites-lagoas, como éreis belas
Sob terraços-lis de recordar-me!...
Idade acorde de Inter-sonho e Lua,
Onde as horas corriam sempre jade,
Onde a neblina era uma saudade,
E a luz - anseios de Princesa nua...
Balaústres de som, arcos de Amar,
Pontes de brilho, ogivas de perfume...
Domínio inexprimível de Ópio e lume
Que nunca mais, em cor, hei-de habitar...
Tapetes de outras Pérsias mais Oriente...
Cortinados de Chinas mais marfim...
Áureos Templos de ritos de cetim...
Fontes correndo sombra, mansamente...
Zimbórios-panteões de nostalgias,
Catedrais de ser-Eu por sobre o mar...
Escadas de honra, escadas só, ao ar...
Novas Bizâncios-Alma, outras Turquias...
Lembranças fluidas... Cinza de brocado...
Irrealidade anil que em mim ondeia...
- Ao meu redor eu sou Rei exilado,
Vagabundo dum sonho de sereia...
MÁRIO DE SÁ CARNEIRO
A INEGUALÁVEL
Ai, como eu te queria toda de violetas
E flébil de setim...
Teus dedos longos, de marfim,
Que os sombreassem jóias pretas...
E tão febril e delicada
Que não pudesse dar um passo -
Sonhando estrelas, transtornada,
Com estampas de cor no regaço...
Queria-te nua e friorenta,
Aconchegando-te em zibelinas -
Sonolenta,
Ruiva de éteres e morfinas...
Ah! que as tuas nostalgias fossem guisos de
prata -
Teus frenesis, lantejoulas;
E os ócios em que estiolas,
Luar que se desbarata...
Teus beijos, queria-os de tule,
Transparecendo carmim -
Os teus espasmos, de seda...
- Água fria e clara numa noite azul,
Água, devia ser o teu amor por mim...
MÁRIO DE SÁ CARNEIRO
SETE CANÇÕES DE DECLÍNIO
I
Um vago tom de opala debelou
Prolixos funerais de luto de Astro
E pelo espaço, a Oiro se enfolou
O estandarte real - livre, sem mastro.
Fantástica bandeira sem suporte,
Incerta, nevoenta, recamada -
A desdobrar-se como a minha Sorte
Predita por ciganos numa estrada ...
II
Atapetemos a vida
Contra nós e contra o mundo.
- Desçamos panos de fundo
A cada hora vivida.
Desfiles, danças - embora
Mal sejam uma ilusão.
Cenários de mutação
Pela minha vida fora!
Quero ser Eu plenamente:
Eu, o possesso do Pasmo.
- Todo o meu entusiasmo,
Ah! que seja o meu Oriente!
O grande doido, o varrido,
O perdulário do Instante
O amante sem amante,
Ora amado ora traído...
Lançar os barcos ao Mar -
De névoa, em rumo de incerto...
- Pra mim o longe é mais perto
Do que o presente lugar.
...E as minhas unhas polidas -
Idéia de olhos pintados...
Meus sentidos maquilados
A tintas desconhecidas...
Mistério duma incerteza
Que nunca se há-de fixar...
Sonhador em frente ao mar
Duma olvidada riqueza...
- Num programa de teatro
Suceda-se a minha vida
Escada de Oiro descida
Aos pinotes, quatro a quatro!...
III
- Embora num funeral
Desfraldemos as bandeiras:
Só as cores são verdadeiras -
Siga sempre o festival!
Kermesse - eia! - e ruído!
Louça quebrada! Tropel!
(Defronte do carroussel,
Eu, em ternura esquecido...).
Fitas de cor, vozearia -
Os automóveis repletos:
Seus chauffeurs - os meus afectos
Com librés de fantasia!
Ser bom... Gostaria tanto
De o ser... Mas como? Afinal
Só se me fizesse mal
Eu fruiria esse encanto.
- Afectos?... Divagações...
Amigo dos meus amigos...
Amizades são castigos,
Não me embaraço em prisões!
Fiz deles os meus criados,
Com muita pena - decerto.
Mas quero o Salão aberto,
E os meus braços repousados,
IV
As grandes Horas! - vivê-las
A preço mesmo dum crime!
Só a beleza redime -
Sacrifícios são novelas.
«Ganhar o pão do seu dia
Com o suor do seu rosto...»
- Mas não há maior desgosto
Nem há maior vilania!
E quem for Grande não venha
Dizer-me que passa fome:
Nada há que se não dome
Quando a Estrela for tamanha!
Nem receios nem temores,
Mesmo que sofra por nós
Quem nos faz bem. Esses dós
Impeçam os inferiores.
Os Grandes, partam - dominem
Sua sorte em suas mãos:
- Toldados, inúteis, vãos,
Que o seu Destino imaginem!
Nada nos pode deter;
O nosso caminho é de Astro!
Luto - embora! - o nosso rastro,
Se pra nós Oiro há-de ser!...
V
Vaga lenda facetada
A imprevisto e miragens -
Um grande livro de imagens,
Uma toalha bordada...
Um baile russo a mil cores,
Um Domingo de Paris -
Cofre de Imperatriz
Roubado por malfeitores...
Antiga quinta deserta
Em que os donos faleceram -
Porta de cristal aberta
Sobre sonhos que esqueceram...
Um lago à luz do luar
Com um barquinho de corda...
Saudade que não recorda -
Bola de tennis no ar...
Um leque que se rasgou -
Anel perdido no parque -
Lenço que acenou no embarque
De Aquela que não voltou...
Praia de banhos do sul
Com meninos a brincar
Descalços, à beira-mar,
Em tardes de céu azul...
Viagem circulatória
Num expresso de wagons-leitos -
Balão aceso - defeitos
De instalação provisória...
Palace cosmopolita
De rastaquoères e cocottes -
Audaciosos decotes
Duma francesa bonita...
Confusão de music-hall,
Aplausos e brou-u-ha -
Interminável sofá
Dum estofo profundo e mole...
Pinturas a «ripolin»,
Anúncios pelos telhados -
O barulho dos teclados
Das Lynotyp do «Matin»...
Manchette de sensação
Transmitida a todo o mundo -
Famoso artigo de fundo
Que acende uma revolução...
Um sobrescrito lacrado
Que transviou no correio,
E nos chega sujo - cheio
De carimbos, lado a lado...
Nobre ponte citadina
De intranqüila capital -
A humidade outonal
De uma manhã de neblina...
Uma bebida gelada -
Presentes todos os dias...
Champanha em taças esguias
Ou água ao sol entornada...
Uma gaveta secreta
Com segredos de adultérios...
Porta falsa de mistérios -
Toda uma estante repleta:
Seja enfim a minha vida
Tarada de ócios e Lua:
vida de Café e rua,
Dolorosa, suspendida -
Ah! mas de enlevo tão grande
Que outra nem sonho ou prevejo...
- A eterna mágoa dum beijo,
Essa mesma, ela me expande...
VI
Um frenesi hialino arrepiou
Pra sempre a minha carne e a minha vida.
Fui um barco de vela que parou
Em súbita baía adormecida ...
Baía embandeirada de miragem,
Dormente de ópio, de cristal e anil,
Na idéia de um país de gaze e Abril,
Em duvidosa e tremulante imagem ...
Parou ali a barca - e, ou fosse encanto,
Ou preguiça, ou delírio, ou esquecimento,
Não mais aparelhou... - ou fosse o vento
Propício que faltasse: ágil e santo...
...Frente ao porto esboçara-se a cidade,
Descendo enlanguescida e preciosa:
As cúpulas de sombra cor-de-rosa,
As torres de platina e de saudade.
Avenidas de seda deslizando,
Praças de honra libertas sobre o mar -
Jardins onde as flores fossem luar;
Lagos - carícias de âmbar flutuando...
Os palácios a rendas e escumalha,
De filigrana e cinza as catedrais -
Sobre a cidade a luz - esquiva poalha
Tingindo-se através longos vitrais...
Vitrais de sonho a debruá-la em volta,
A isolá-la em lenda marchetada:
Uma Veneza de capricho - solta,
Instável, dúbia, pressentida, alada...
Exílio branco - a sua atmosfera,
Murmúrio de aplausos - seu brou-u-ha...
E na Praça mais larga, em frágil cera,
Eu - a estátua «que nunca tombará»...
VII
Meu alvoroço de oiro e lua
Tinha por fim que transbordar...
- Caíu-me a Alma ao meio da rua,
E não a posso ir apanhar!
Mário de Sá Carneiro
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Iracema Zanetti |