BIOGRAFIA

Poeta Luso
Cavalheiro Fidalgo da Casa Real
 

Luís de Camões nasceu por 1524 ou 25, provavelmente em Lisboa.

Seus pais eram Simão Vaz de Camões e Ana de Sá.

Tudo parece indicar, embora a questão se mantenha controversa, que Camões pertencia à pequena nobreza. Um dos documentos oficiais que se lhe refere, a carta de perdão datada de 1553, dá-o como «cavaleiro fidalgo» da Casa Real. A situação de nobre não constituía qualquer garantia econômica. O fidalgo pobre é, aliás, um tipo bem comum na literatura da época. São especialmente certeiras, e baseadas num estudo argutíssimo e bem fundamentado, as palavras de Jorge de Sena, segundo as quais Camões seria e se sentia «nobre» «mas perdido numa massa enorme de aristocratas socialmente sem estado, e para sustentar os quais não havia Índias que chegassem, nem comendas, tenças, capitanias, etc.».

É difícil explicar a vastíssima e profunda cultura do poeta sem partir do princípio de que freqüentou estudos de nível superior. O fato de se referir, na lírica, a «longo tempo» passado nas margens do Mondego, ligado à circunstância de , pela época que seria a dos estudos, um parente de Camões, D. Bento, ter ocupado os cargos de prior do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra e de cancelário da Universidade, levou à construção da hipótese de ter Camões estudado em Coimbra, freqüentando o mosteiro de Santa Cruz.

Mas nenhum documento atesta a veracidade desta hipótese; e é fora de dúvida que não passou pela Universidade.

Antes de 1550 estava a viver em Lisboa, onde permaneceu até 1553. Essa estadia foi interrompida por uma expedição a Ceuta onde foi ferido e perdeu um dos olhos.

Em Lisboa, participou com diversas poesias nos divertimentos poéticos a que se entregavam os cortesãos; relacionou-se através desta atividade literária com damas de elevada situação social, entre as quais D. Francisca de Ararão (a quem dedica um poema antecedido de uma carta requintada e subtil galanteria); e com fidalgos de alta nobreza, com alguns dos quais manteve relações de amizade. Representa-se por esta época um auto seu, El-rei Seleuco, em casa de uma importante figura da corte.

Estes contactos palacianos não devem contudo representar mais do que aspectos episódicos da sua vida, pois a faceta principal desta época parece ser aquela de que dão testemunho as cartas (escritas de Lisboa e da Índia).

Através do calão conceituoso, retorcido e sarcástico, descobre-se-nos um homem que escreve ao sabor de uma irónica despreocupação, vivendo ao deus-dará, boémio e desregrado. Divide-se entre uma incansável actividade amatória (sem pruridos sobre a qualidade das mulheres com quem priva) e a estroinice de bandos de rufiões, ansiosos por rixas de taberna ou brigas de rua onde possam dar largas ao espírito valentão, sem preocupações com a nobreza das causas por que se batem.

Não parece, por esta época, ter modo de vida; e esta leviandade a descambar para a dissolução está de acordo com os documentos através dos quais podemos reconstruir as circunstâncias da sua partida para a Índia.

Na sequência de uma desordem ocorrida no Rossio, em dia do Corpo de Deus, na qual feriu um tal Gonçalvo Borges, foi preso por largos meses na cadeia do Tronco e só saiu - apesar de perdoado pelo ofendido - com a promessa de embarcar para a Índia. Além de provável condição de libertação, é bem possível que Camões tenha visto nesta aventura - a mais comum entre os portugueses de então - uma forma de ganhar a vida ou mesmo de enriquecer. Aliás, uma das poucas compatíveis com a sua condição social de fidalgo, a quem os preconceitos vedavam o exercício de outras profissões.

Foi soldado durante três anos e participou em expedições militares que ficaram recordadas na elegia O poeta Simónides, falando (expedição ao Malabar, em Novembro de 1553, para auxiliar os reis de Porcá) e na canção Junto de um seco, fero, estéril monte (expedição ao estreito de Meca, em 1555).

Esteve também em Macau, ou noutros pontos dos confins do Império. Desempenhando as funções de provedor dos bens dos ausentes e defuntos, como informa Mariz?

Não é ponto assente. Mas o que se sabe é que a nau em que regressava naufragou e o poeta perdeu o que tinha amealhado, salvando a nado Os Lusíadas na foz do rio Mecon, episódio a que alude na estância 128 do Canto X.

Para cúmulo da desgraça foi preso à chegada a Goa pelo governador Francisco Barreto.

Ao fim de catorze anos de vida desafortunada(pelo menos ainda uma outra vez esteve preso por dívidas), intervalada certamente por períodos mais folgados, sobretudo quando foi vice-rei D. Francisco Coutinho, conde de Redondo (a quem dedicou diversos poemas que atestam relações amistosas), empreende o regresso a Portugal. Vem até Moçambique a expensas do capitão Pero Barreto Rolim, mas em breve entra em conflito com ele e fica preso por dívidas. Diogo do Couto relata mais este lamentável episódio, contando que foram ainda os amigos que vinham da Índia que - ao encontrá-lo na miséria - se cotizaram para o desempenharem e lhe pagarem o regresso a Lisboa.

Diz-nos ainda que, nessa altura, além dos últimos retoques n’Os Lusíadas, trabalhava numa obra lírica, o Parnaso, que lhe roubaram - o que, em parte, explica que não tenha publicado a lírica em vida.

Chega a Lisboa em 1569 e publica Os Lusíadas em 1572, conseguindo uma censura excepcionalmente benévola.

Apesar do enorme êxito do poema e de lhe ter sido atribuída uma tença anual de 15000 réis, parece ter continuado a viver pobre, talvez pela razão apontada por Pedro Mariz: «como era grande gastador, muito liberal e magnífico, não lhe duravam os bens temporais mais que enquanto ele não via ocasião de os despender a seu bel-prazer.» Verídica ou legendária, esta é a nota marcante dos últimos anos (e aliás o signo sob o qual Mariz escreve toda a biografia).

Morreu em 10 de Junho de 1580. Algum tempo mais tarde, D. Gonçalo Coutinho mandou gravar uma lápide para a sua campa com os dizeres: «Aqui jaz Luís de Camões, Príncipe dos Poetas de seu tempo. Viveu pobre e miseravelmente, e assi morreu.»

As incertezas e lacunas desta biografia, ligadas ao carácter dramático de alguns episódios famosos (reais ou fictícios): amores impossíveis, amadas ilustres, desterros, a miséria, o criado jau mendigando de noite para o seu senhor; e a outros acontecimentos cheios de valor simbólico: Os Lusíadas salvos a nado, no naufrágio; a morte em 1580 - tudo isto proporcionou a criação de um ambiente lendário à roda de Camões que se torna bandeira de um país humilhado.

Mais tarde, o Romantismo divulgou uma imagem que salienta em Camões o poeta-maldito, perseguido pelo infortúnio e incompreendido pelos contemporâneos, desterrado e errante por ditame de um fado inexorável, chorando os desgostos amorosos e morrendo na pátria abandonado e reduzido à miséria.

Não há dúvida de que os poucos dados conhecidos e muito do conteúdo autobiográfico da obra autorizam essa imagem. Mas ela esquece em Camões outras facetas não menos verdadeiras da personalidade riquíssima, complexa, paradoxal que foi a sua: o humanista, o homem do «honesto estudo» e da imensa curiosidade intelectual aberta quer à cultura mais requintada do seu tempo, quer às coisas tais como se lhe davam e que a arguta observação descobria, mesmo que contradissessem os preconceitos culturais vigentes; o pensador que infatigavelmente vai reflectido sobre os acontecimentos - sociais, políticos, culturais, individuais... - movido por uma sôfrega necessidade de compreender, de «achar razões»: graves reflexões sobre o destino da pátria; meditações sobre o amor, o saber, o tempo, a salvação... Ainda o homem da dura experiência (viagens, naufrágios, prisões, desprezos ou perseguições, humilhações e pobreza) que constitui um suporte vital autêntico do desconcerto referido na obra (o que aliás nada acrescenta ao mérito literário dela).

Revela-se vincadamente na sua obra a lúcida e orgulhosa consciência que vai formando da sua genialidade como poeta, da sua superioridade como homem. Apaixonado, violento, impetuoso, sabe-se grande, independente das honras e riquezas que não lhe deram e que também nada alterariam ao valor intrínseco da sua obra e da sua alta missão cívica; por isso, de forma fidalga, generosa, esbanja os seus bens (económicos ou intelectuais) e ganha essa fama de «liberal e magnífico».

A imagem final que nos fica de Camões é feita de fragmentos paradoxais: o cortesão galante; o boémio arruaceiro; o ressentido; o homem que se entrega a um erotismo pagão; o cristão da mais ascética severidade. Fragmentos que se reflectem e refractam na obra, que por sua vez revela e oculta um conteúdo autobiográfico ambíguo, deliberadamente enigmático.

Camões publicou em vida apenas uma parte dos seus poemas, o que deu origem a grandes problemas sobre a fixação do conjunto da obra.

Além d’Os Lusíadas editados em 1572, da lírica apenas foram impressas algumas composições que introduziam livros que o poeta pretendia recomendar ou apresentar: os Colóquios dos Simples e drogas e coisas medicinais da Índia, do Dr.Garcia de Orta, publicado em Goa em 1563 e a História da Província de Santa Cruz de Pero de Magalhães Gândavo de 1576.

Toda a restante obra foi publicada postumamente, o que não é para estranhar demasiado, já que a circulação das obras - sobretudo líricas - se fazia correntemente em manuscritos, recolhidos com frequência em «cancioneiros de mão», muitos dos quais chegaram até nós e constituem as principais fontes para as edições camonianas.

Em 1587 foram editados os autos Enfatriões e Filodemo.

Em 1595 tem lugar a primeira edição das Rimas e logo em 1598 a segunda.

Seguiram-se muitas outras e veio a lume, na de 1645, o auto de El-Rei Seleuco, a obra dramática de Camões que restava publicar.

Quanto às cartas, duas delas apareceram na edição de 1598, e as outras duas são já descobertas no século XX.

SONETOS E POESIAS
LUÍS VAZ DE CAMÕES

I
AMOR É FOGO QUE ARDE SEM SE VER

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões


II
VERDES SÃO OS CAMPOS

Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,

De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;

Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.

Luís de Camões


III
SE TANTA PENA TENHO MERECIDA

Se tanta pena tenho merecida
Em pago de sofrer tantas durezas,
Provai, Senhora, em mim vossas cruezas,
Que aqui tendes ua alma oferecida.

Nela experimentai, se sois servida,
Desprezos, desfavores e asperezas,
Que mores sofrimentos e firmezas
Sustentarei na guerra desta vida.

Mas contra vosso olhos quais serão?
Forçado é que tudo se lhe renda,
Mas porei por escudo o coração.

Porque, em tão dura e áspera contenda,
é bem que, pois não acho defensão,
Com me meter nas lanças me defenda.

Luís de Camões


IV
BUSQUE AMOR NOVAS ARTES, NOVO ENGENHO

Busque Amor novas artes, novo engenho
PAra matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê,

Que dias há que n´alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como e dói não sei porquê.

Luís de Camões


V
ENQUANTO QUIS FORTUNA QUE TIVESSE

Enquanto quis Fortuna que tivesse
Esperança de algum contentamento,
O gosto de um suave pensamento
Me fez que seus efeitos escrevesse.

Porém, temendo Amor que aviso desse
Minha escritura a algum juízo isento,
Escureceu-me o engenho co tormento,
Para que seus enganos não dissesse

Ó vós que Amor obriga a ser sujeitos
A diversas vontades! Quando lerdes
Num breve livro casos tão diversos,

Verdades puras são e não defeitos;
E sabei que, segundo o amor tiverdes,
Tereis o entendimento de meus versos.

Luís de Camões


VI
TOMOU-ME VOSSA VISTA SOBERANA

Tomou-me vossa vista soberana
Aonde tinha as armas mais à mão,
Por mostrar que quem busca defensão
Contra esses belos olhos, que se engana.

Por ficar da vitória mais ufana,
Deixou-me armar primeiro da Razão;
Cuidei de me salvar, mas foi em vão,
Que contra o Céu não vale defensa humana.

Mas porém, se vos tinha prometido
O vosso alto destino esta vitória,
Ser-vos tudo bem pouco está sabido.

Que posto que estivesse apercebido,
Não levais de vencer-me grande glória;
Maior a levo eu de ser vencido.

Luís de Camões


VII
QUEM PODE LIVRE SER, GENTIL SENHORA

Quem pode livre ser, gentil Senhora,
Vendo-vos com juízo sossegado,
Se o Menino que de olhos é privado
Nas meninas de vossos olhos mora?

Ali manda, ali reina, ali namora,
Ali vive das gentes venerado;
Que o vivo lume e o rosto delicado
Imagens são nas quais o Amor se adora.

Quem vê que em branca neve nascem rosas
Que fios crespos de ouro vão cercando,
Se por entre esta luz a vista passa,

Raios de ouro verá, que as duvidosas
Almas estão no peito trespassando
Assim como um cristal o Sol trespassa.

Luís de Camões


VIII
O FOGO QUE NA BRANDA CERA ARDIA

O fogo que na branda cera ardia,
Vendo o rosto gentil que n´alma vejo.
Se acendeu de outro fogo do desejo,
Por alcançar a luz que vence o dia.

Como de dois ardores se incendia,
Da grande impaciência fez despejo,
E, remetendo com furor sobejo,
Vos foi beijar na parte onde se via.

Ditosa aquela flama, que se atreve
Apagar seus ardores e tormentos
Na vista do que o mundo tremer deve!

Namoram-se, Senhora, os Elementos
De vós, e queima o fogo aquela nave
Que queima corações e pensamentos.

Luís de Camões


IX
TANTO DE MEU ESTADO ME ACHO INCERTO

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Num´hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar ü'hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

Luís de Camões


X
ALMA MINHA GENTIL QUE TE PARTISTE

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Algüa cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

Luís de Camões


XI
QUANDO DE MINHAS MÁGOAS A COMPRIDA

Quando de minhas mágoas a comprida
Maginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquela alma me aparece
Que pAra mim foi sonho nesta vida.

Lá numa saudade, onde estendida
A vista pelo campo desfalece,
Corro pAra ela; e ela então parece
Que mais de mim se alonga, compelida.

Brado: Não me fujais, sombra benina!
Ela, (os olhos em mim c'um brando pejo,
Como quem diz que já não pode ser),

Torna a fugir-me; e eu gritando: Dina...
Antes que diga: mene, acordo, e vejo
Que nem um breve engano posso ter.

Luís de Camões


XII
ENDECHAS À BÁRBARA ESCRAVA

Aquela cativa
Que me tem cativo,
Porque nela vivo
Já não quer que viva.
Eu nunca vi rosa
Em suaves molhos,
Que pera meus olhos
Fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,
Nem no céu estrelas
Me parecem belas
Como os meus amores.
Rosto singular,
Olhos sossegados,
Pretos e cansados,
Mas não de matar.

Uma graça viva,
Que neles lhe mora,
Pera ser senhora
De quem é cativa.
Pretos os cabelos,
Onde o povo vão
Perde opinião
Que os louros são belos.

Pretidão de Amor,
Tão doce a figura,
Que a neve lhe jura
Que trocara a cor.
Leda mansidão,
Que o siso acompanha;
Bem parece estranha,
Mas bárbara não.

Presença serena
Que a tormenta amansa;
Nela, enfim, descansa
Toda a minha pena.
Esta é a cativa
Que me tem cativo;
E. pois nela vivo,
É força que viva.

Luís de Camões


Xlll
DESCALÇA VAI PARA A FONTE

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O cesto nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.

Luís de Camões



ODES
LUÍS VAZ DE CAMÕES

ODE À LUA

Detém um pouco, Musa, o largo pranto
que Amor te abre do peito;
e vestida de rico e ledo manto,
dêmos honra e respeito
àquela cujo objeito
todo o mundo alumia,
e quando escuro está é mais que o dia.

Ó Délia, que, apesar da névoa grossa,
cos teus raios de prata
a escura noite fazes, que não possa
encontrar o que trata,
e o que nalma retrata,
Amor por teu divino
rosto, por que endoudeço e desatino:

Tu, que de fermosíssimas estrelas
coroas e rodeias
teus cabelos d'argento e faces belas,
e os campos fermoseias
co as rosas que semeias,
co as boninas que gera
o teu celeste amor na Primavera:

Pois, Délia, dos teus céus vendo estás quantos
furtos de puridades,
suspiros, mágoas, ais, músicas, prantos,
as amantes vontades,
üas por saudades,
outras por crus indícios,
fazem das próprias vidas sacrifícios;

vejo teu Endimião por estes montes,
suspenso o Céu, olhando,
e o teu nome, cos olhos feitos fontes,
embalde e em vão chamando,
pedindo e suspirando,
mercês à tua beldade
sem em ti achar üa hora piedade.

Por ti feito pastor de branco armento,
as selvas solitárias
acompanhado só do pensamento,
conversa as alimárias,
de todo amor contrárias,
mas não como ti duras,
onde lamenta e chora desventuras.

Por ti guarda o sitio fresco d'Ílio
suas sombras fermosas;
para ti, Erimanto e o lindo Epilio
as mais purpúreas rosas;
e as drogas cheirosas
deste nosso Oriente
também Arábia Felix eminente.

De que pantera, tigre, ou leopardo
as ásperas entranhas
não temeram o agudo e fero dardo,
quando pelas montanhas
mui remotas e estranhas
ligeira atravessavas,
tão fermosa que Amor de amor matavas?

Das castas virgens sempre os altos gritos,
clara Lucina, ouviste,
renovando lhe a força e os espritos;
mas os daquele triste
já nunca consentiste
ouvi los um momento,
para ser menos grave seu tormento.

Não fujas de mim assi, nem assi te escondas
dum tão fiel amante!
Olha como suspiram estas ondas,
e como o velho Atlante
o seu colo arrogante
move piadosamente,
ouvindo a minha voz fraca e doente.

Triste de mim, que o pior é queixar-me,
pois minhas queixas digo
a quem já ergue as mãos para matar-me,
como a crue imigo;
mas eu meu fado sigo,
que a isto me destina
e isto só pretende e só me ensina.

Quantos dias há que o Céu me desengana,
e eu sempre porfio
cada vez mais na minha teima insana!
Tendo livre alvedrio,
não fujo o desvario;
e este, que em mim vejo,
para esperança minha e meu desejo.

Oh! quanto milhor fora que dormissem
um sono perenal
estes meus olhos tristes, e não vissem
a causa de seu mal
fugir, a tempo tal,
mais que dantes, por teima,
mais cruel que ussa fera, mais que ema.

Ai de mim, que me abraso em fogo vivo,
com mil mortes ao lado,
e, quando mouro mais, então mais vivo!
Porque assi me há ordenado
meu infelice estado
que, quando mais me convida
a morte, para a morte tenha vida.

Minha secreta amiga, mansa noite,
estas rosas (porquanto
ouviste meus queixumes) ora dou te
este fresco adianto,
húmido ainda do pranto
e lágrimas da esposa
do cioso Titã, branca e fermosa



OITAVAS

OITAVA I

A DOM ANTÓNIO DE NORONHA
SOBRE O DESCONCERTO DO MUNDO

Quem pode ser no mundo tão quieto,
Ou quem terá tão livre o pensamento,
Quem tão experimentado e tão discreto,
Tão fora, enfim, de humano entendimento
Que, ou com público efeito, ou com secreto,
Lhe não revolva e espante o sentimento,
Deixando-lhe o juízo quase incerto,
Ver e notar do mundo o desconcerto?

Quem há que veja aquele que vivia
De latrocínios, mortes e adultérios,
Que ao juízo das gentes merecia
Perpétua pena, imensos vitupérios,
Se a Fortuna em contrário o leva e guia,
Mostrando, enfim, que tudo são mistérios,
Em alteza de estados triunfante,
Que, por livre que seja, não se espante?

Quem há que veja aquele que tão clara
Teve a vida que em tudo por perfeito
O próprio Momo às gentes o julgara,
Ainda que lhe vira aberto o peito,
Se a má Fortuna, ao bem somente avara,
O reprime e lhe nega seu direito,
Que lhe não fique o peito congelado,
Por mais e mais que seja experimentado?

Demócrito dos deuses proferia
Que eram só dous: a Pena e Beneficio.
Segredo algum será da fantasia,
De que eu achar não posso claro indício;
Que, se ambos vêm por não cuidada via
A quem os não merece, é grande vício
Em deuses sem justiça e sem razão.
Mas Demócrito o disse, e Paulo não.

Dir-me-heis que, se este estranho desconcerto
Novamente no mundo se mostrasse,
Que, por livre que fosse e mui experto,
Não era de espantar se me espantasse;
Mas que, se já de Sócrates foi certo
Que nenhum grande caso lhe mudasse
O vulto, ou de prudente, ou de constante,
Que tome exemplo dele, e não me espante.

Parece a razão boa; mas eu digo
Que este uso da Fortuna tão danado
Que, quanto mais usado e mais antigo,
Tanto é mais estranhado e blasfemado!
Porque se o Céu, das gentes tão amigo,
Não dá à Fortuna tempo limitado,
Não é pera causar mui grande espanto
Que mal tão mal olhado dure tanto.

Outro espanto maior aqui me enleia:
Que, conquanto Fortuna tão profana
Com estes desconcertos senhoreia,
A nenhũa pessoa desengana;
Não há ninguém que assente nem que creia
Este discurso vão da vida humana,
Por mais que filosofe nem que entenda,
Que algum pouco do mundo não pretenda.

Diógenes pisava de Platão,
Com seus sórdidos pés, o rico estrado,
Mostrando outra mais alta presunção
Em desprezar o fausto tão prezado.
Diógenes, não vês que extremos são
Esses que segues de mais alto estado,
Que se de desprezar te prezas muito,
Já pretendes do mundo fama e fruto?

Deixo agora reis grandes, cujo estudo
É fartar esta sede cobiçosa
De querer dominar e mandar tudo,
Com fama larga e pompa sumptuosa.
Deixo aqueles que tomam por escudo
De seus vícios e vida vergonhosa
A nobreza de seus antecessores,
E não cuidam de si que são piores.

Aquele deixo a quem o sono esperta
O grão favor do rei que serve e adora,
E se mantém desta aura falsa e incerta,
Que de corações tantos é senhora.
Deixo aqueles que estão co'a boca aberta,
Por se encher de tesouros, de hora em hora,
Doentes desta falsa hidropesia
Que, quanto mais alcança, mais queria.

Deixo outras obras vãs de vulgo errado,
A quem não há ninguém que contradiga,
Nem doutra cousa algũa é subjugado
Que dũa opinião e usança antiga.
Mas pergunto ora a César esforçado,
Ou a Platão divino, que me diga,
Este, das muitas terras em que andou,
Aquele, de vencê-las que alcançou?

César dirá: – Sou digno de memória;
Vencendo vários povos e esforçados,
Fui monarca do mundo; e larga história
Ficará dos meus feitos sublimados.
É verdade; mas esse mando e glória
Lograste-os muito tempo? Os conjurados
Bruto e Cássio o dirão que, se venceste,
Enfim, enfim, às mãos dos teus morreste.

Dirá Platão: – Por ver o Etna e o Nilo
Fui a Sicília, ao Egipto e a outras partes,
Só por ver e escrever em alto estilo
Da natural ciência em muitas artes.
– O tempo é breve e queres consumi-lo,
Platão, todo em trabalhos? E repartes
Tão mal de teu estudo as breves horas
Que, enfim, do falso Febo o filho adoras?

Pois depois que do mundo está apartada
A alma desta prisão terreste e escura,
Está em tamanhas cousas ocupada,
Que da fama que fica nada cura.
Pois se o corpo terreno sinta nada,
O Cínico o dirá, se porventura
No campo, onde deitado morto estava,
De si os cães e as aves enxotava.

Quem tão baixa tivesse a fantasia
Que nunca em mores cousas a metesse
Que em só levar seu gado à fonte fria
E mugir-lhe o leite que bebesse!
Quão bem-aventurado que seria!
Que, por mais que Fortuna revolvesse,
Nunca em si sentiria maior pena
Que pesar-lhe da vida ser pequena.

Veria erguer do Sol a roxa face,
Veria correr sempre a clara fonte,
Sem imaginar a água donde nasce,
Nem quem a luz esconde no horizonte.
Tangendo a frauta donde o gado pasce,
Conheceria as ervas do alto monte;
Em Deus creria, simples e quieto,
Sem mais especular nenhum secreto.

De um certo Trasilau se lê e escreve,
Entre as cousas da velha Antiguidade,
Que perdido um grão tempo o siso teve
Por causa dũa grande enfermidade;
E enquanto, de si fora, doudo esteve,
Tinha por teima e cria por verdade,
Que eram suas as naus que navegavam,
Quantas no porto Píreo ancoravam.

Por um senhor mui grande se teria
(Além da vida alegre que passava),
Pois nas que se perdiam não perdia,
E das que vinham salvas se alegrava.
Não tardou muito tempo quando, um dia,
Um Crito, seu irmão, que ausente estava,
À terra chega; e vendo o irmão perdido,
Do fraternal amor foi comovido.

Aos médicos o entrega, e com aviso
O faz estar à cura recusada.
Triste, que, por tornar lhe o caro siso
Lhe tira a doce vida descansada!
As ervas apolíneas, de improviso,
O tornam à saúde atrás passada.
Sesudo, Trasilau ao caro irmão
Agradece a vontade, a obra não.

Porque, depois de ver-se no perigo
Dos trabalhos que o siso lhe obrigava,
E depois de não ver o estado antigo
Que a vã opinião lhe apresentava,
– Ó inimigo irmão, com cor de amigo!
Pera que me tiraste (suspirava)
Da mais quieta vida e livre em tudo
Que nunca pôde ter nenhum sisudo?

Por que rei, por que duque me trocara?
Por que senhor de grande fortaleza?
Que me dava que o mundo se acabara,
Ou que a ordem mudasse a Natureza?
Agora é-me pesada a vida cara;
Sei que cousa é trabalho, e que tristeza.
Torna-me a meu estado, que eu te aviso
Que na doudice só consiste o siso.

Vedes aqui, Senhor, mui claramente,
Como Fortuna em todos tem poder,
Senão só no que menos sabe e sente,
Em quem nenhum desejo pode haver.
Este se pode rir da cega gente;
Neste não pode nada acontecer;
Nem estará suspenso na balança
Do temor mau, da pérfida esperança.

Mas se o sereno Céu me concedera
Qualquer quieto, humilde e doce estado,
Onde com minhas Musas só vivera,
Sem ver-me em terra alheia degradado;
E ali outrem ninguém me conhecera,
Nem eu conhecera outrem mais honrado,
Senão a vós, também como eu contente,
Que bem sei que o seríeis facilmente;

E ao longo dũa clara e pura fonte,
Que, em borbulhas nascendo, convidasse
Ao doce passarinho que nos conte
Quem da cara consorte o apartasse;
Depois, cobrindo a neve o verde monte,
Ao gasalhado o frio nos levasse,
Avivando o juízo ao doce estudo,
Mais certo manjar de alma, enfim, que tudo;

Cantara-nos aquele que tão claro
O fez o fogo da árvore febeia,
A qual ele, em estilo grande e raro
Louvando, o cristalino Sorga enfreia;
Tangera-nos na frauta Sannazaro,
Ora nos montes, ora pela areia;
Passara celebrando o Tejo ufano
O brando e doce Laso castelhano.

E connosco também se achara aquela
Cuja lembrança e cujo claro gesto
Na alma somente vejo, porque nela
Está em essência, puro e manifesto;
Por alta influição de minha estrela,
Mitigando o firme peito honesto,
Entretecendo rosas nos cabelos,
De que tomasse a luz o Sol em vê-los;

E ali, enquanto as flores acolhesse,
Ou pelo Inverno ao fogo acomodado,
Quanto de mim sentira nos dissesse,
De puro amor o peito salteado:
Não pedira eu então que Amor me desse
De Trasilau o insano e doudo estado,
Mas que então me dobrasse o entendimento,
Por ter de tanto bem conhecimento.

Mas pera onde me leva a fantasia?
Porque imagino em bem-aventuranças,
Se tão longe a Fortuna me desvia
Que inda me não consente as esperanças?
Se um novo pensamento Amor me cria
Onde o lugar, o tempo, as esquivanças
Do bem me fazem tão desamparado
Que não pode ser mais que imaginado?

Fortuna, enfim, co'o Amor se conjurou
Contra mim, porque mais me magoasse:
Amor a um vão desejo me obrigou,
Só para que a Fortuna mo negasse.
A este estado o tempo me achegou,
E nele quis que a vida se acabasse;
Se há em mim acabar-se, que eu não creio,
Que até da muita vida me receio.


OITAVA II

A DOM CONSTANTINO, VICE REI DA ÍNDIA

Como nos vossos ombros tão constantes,
Príncipe ilustre e raro, sustenteis
Tantos negócios árduos e importantes
Dignos do largo império que regeis;
Como sempre nas armas rutilantes
Vestido, o mar e a terra segureis
Do pirata insolente e do tirano
Jugo do potentíssimo Otomano;

E como, com virtude necessária,
Mal entendida do juízo alheio,
À desordem do vulgo temerária
Na santa paz ponhais o duro freio;
Se com minha escritura longa e vária
Vos ocupasse o tempo, certo creio
Que com ridiculosa fantasia
Contra o comum proveito pecaria.

E não menos seria reputado
Por doce adulador, sagaz e agudo,
Que contra meu tão baixo e triste estado
Busco favor em vós, que podeis tudo:
Se, contra a opinião do vulgo errado,
Vos celebrasse em verso humilde e rudo,
Dirão que com lisonja ajuda peço
Contra a miséria injusta que padeço.

Porém, porque a virtude pode tanto
No livre arbítrio (como disse bem
A Dário rei o moço sábio e santo
Que foi reedificar Hierusalém),
Esta me obriga que, em humilde canto,
Contra a tenção que a plebe ignara tem,
Vos faça claro a quem vos não alcança,
E não de prémio algum vil esperança.

Rómulo, Baco e outros que alcançaram
Nomes de semideuses soberanos,
Enquanto pelo mundo exercitaram
Altos feitos e quase mais que humanos,
Com justíssima causa se queixaram
Que não lhe responderam os mundanos
Favores do rumor, justos e iguais
A seus merecimentos imortais.

Aquele que nos braços poderosos
Tirou a vida ao tingitano Anteu,
A quem os seus trabalhos tão famosos
Fizeram cidadão do alto Céu,
Achou que a má tenção dos invejosos
Não se doma senão depois que o véu
Se rompe corporal; porque na vida
Ninguém alcança a glória merecida.

Pois, logo, se varões tão excelentes
Foram do baixo vulgo molestados,
O vitupério vil das rudes gentes
É louvor dos reais e sublimados.
Quem no lume dos vossos ascendentes
Poderá pôr os olhos, que abalados
Lhe não fiquem da luz, vendo os maiores
Vossos passados, Reis e Imperadores?

Quem verá aquele pai da pátria sua,
Açoute do soberbo Castelhano,
Que o duro jugo, só, co'a espada nua
Removeu do pescoço lusitano,
Que não diga: Ó grão Nuno, a eterna tua
Memória causará, se não me engano,
Que qualquer teu menor tanto se estime
Que nunca possas ser senão sublime!

Nisto não falo mais, porque conheço
Que da matéria se me abaixa o engenho.
Mas, pois que a dizer tudo me ofereço,
Que dias há que no desejo o tenho,
Sendo vós de tão alto e ilustre preço
A vida fostes pôr num fraco lenho,
Por largo mar e undosa tempestade
Só por servir a régia Majestade.

E depois de tomar a rédea dura
Na mão, do povo indómito que estava
Costumado a larguezas e à soltura
Do pesado governo que acabava;
Quem não terá por santa e justa cura,
Qual de vosso conceito se esperava,
A tão desenfreada enfirmidade
Aplicar-lhe contrária qualidade?

Não é muito, Senhor, se o moderado
Governo se blasfema e se desama;
Porque o povo, a larguezas costumado,
À lei serena e justa dura chama.
Pois o zelo, em virtude só fundado,
De salvar almas da tartárea flama,
Co'a água salutífera de Cristo,
Poderá porventura ser malquisto?

Quem quisesse negar tão grão verdade
Qual é o seu efeito santo e pio,
Negue também ao Sol a claridade,
E certifique mais que o fogo é frio.
Que o sucesso é contrário da vontade;
As obras, que são boas, e o desvio,
Está nas mãos dos homens cometê-las,
E nas de Deus está o sucesso delas.

Sei eu e sabem todos que os futuros
Verão por vós o Estado acrescentado;
Serão memória vossa os fortes muros
Do cambaico Damão bem sustentado;
Da ruína mortal serão seguros,
Tendo todo o alicerce seu fundado
Sobre órfãs emparadas com maridos,
E pagos os serviços bem devidos.

Tamanha infâmia ao príncipe é perder-se
Ponto do Estado seu, que inteiro herdou,
Por tão célebre glória pode ter,se
Se acrescentado e próspero o deixou.
Nunca consentiu Roma enobrecer-se
Com triunfo ninguém, se não ganhou
Província que o Império acrescentasse,
Por maiores vitórias que alcançasse.

Pode tomar o vosso nome digno
Damão, por honra sua clara e pura,
Como já do primeiro Constantino
Tomou Bizâncio aquele que inda dura.
E tu, Rei, que no reino neptunino,
Lá no seio gangético, a Natura
Te aposentou, de seres inimigo
Deste Estado, não ficas sem castigo.

Bem viste contra ti nadantes naves
Cortar a espumosa água, navegando;
Ouviste o som das tubas, não suaves,
Mas com temor horrífero soando;
Sentiste os golpes ásperos e graves
Do braço lusitano, nunca brando;
Não sofreste o grão brado penetrante,
Que os trovões imitava do Tonante.

Mas antes, dando as costas e a vitória
À bragancês ventura, não corrido,
Deste bem a entender tamanha glória
É de tal vencedor seres vencido.
Quem fez obras tão dignas de memória,
Sempre será famoso e conhecido
Onde os juízos altos se estimarem,
Que estes só têm poder de fama darem.

Não vos temais, Senhor, do povo ignaro
E ingrato a quem tanto fez por ele;
Mas sabei que é sinal de serdes claro
Serdes agora tão malquisto dele.
Temístocles, da pátria sua amparo,
O forte e liberal Címon, e aquele
Que leis ao povo deu de Esparta antigo,
Testemunhas serão disto que digo.

Pois ao justo Aristides um robusto,
Votando no ostracismo costumado,
Lhe disse claro assi: – Porque era justo
Desejava que fosse desterrado. –
Paquitas, por fugir do povo injusto,
Calunioso, dando no Senado
Conta de Lesbos, que ele já mandara,
Se tirou com sua espada a vida cara.

Demóstenes, deitado das tormentas
Populares, a Palas foi dizendo:
– De que três monstros grandes te contentas:
Do drago e mocho, e do vil povo horrendo! –
Que glórias imortais houve, que isentas
Do veneno vulgar fossem vivendo?
Pois mil exemplos deixo de Romanos,
E vós também sois um dos Lusitanos.



SEXTINA


Foge-me pouco a pouco, a curta vida,
E por caso é verdade que inda vivo;
Vai-se-me o breve tempo de ante os olhos;
Choro pelo passado; e, enquanto falo,
Se me passam os dias passo a passo,
Vai-se-me, enfim, a idade e fica a pena.

Que maneira tão áspera de pena!
Que nunca ũa hora viu tão longa vida
Em que possa do mal mover-se um passo.
Que mais me monta ser morto que vivo?
Pera que choro, enfim? pera que falo,
Se lograr-me não pude de meus olhos?

Ó fermosos, gentis e claros olhos,
Cuja ausência me move a tanta pena,
Quanta se não compreende enquanto falo!
Se, no fim de tão longa e curta vida,
De vós me inda inflamasse o raio vivo,
Por bem teria tudo quanto passo.

Mas bem sei que primeiro o extremo passo
Me há-de vir a cerrar os tristes olhos,
Que Amor me mostre aqueles por que vivo.
Testemunhas serão a tinta e pena,
Que escreverão de tão molesta vida
O menos que passei, e o mais que falo.

Oh! que não sei que escrevo, nem que falo!
Que se de um pensamento noutro passo,
Vejo tão triste género de vida
Que, se lhe não valerem tanto os olhos,
Não posso imaginar qual seja a pena
Que traslade esta pena com que vivo.

Na alma tenho confino um fogo vivo,
Que, se não respirasse no que falo,
Estaria já feita cinza a pena;
Mas, sobre a maior dor que sofro e passo
Me temperam as lágrimas dos olhos,
Com que, fugindo, não se acaba a vida.

Morrendo estou na vida, e em morte vivo;
Vejo sem olhos e sem língua falo;
E juntamente passo glória e pena.



OS LUSÍADAS
Canto I

As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;


E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.


Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.


E vós, Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi um novo engenho ardente,
Se sempre em verso humilde celebrado
Foi de mi vosso rio alegremente,
Dai-me agora um som alto e sublimado,
Um estilo grandíloco e corrente,
Por que de vossas águas Febo ordene
Que não tenham enveja às de Hipocrene.


Dai-me ũa fúria grande e sonorosa,
E não de agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba canora e belicosa,
Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual canto aos feitos da famosa
Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
Que se espalhe e se cante no universo,
Se tão sublime preço cabe em verso.


E vós, ó bem nascida segurança
Da Lusitana antiga liberdade,
E não menos certíssima esperança
De aumento da pequena Cristandade;
Vós, ó novo temor da Maura lança,
Maravilha fatal da nossa idade,
Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
Pera do mundo a Deus dar parte grande;


Vós, tenro e novo ramo florecente
De ũa árvore, de Cristo mais amada
Que nenhua nascida no Ocidente,
Cesárea ou Cristianíssima chamada
(Vede-o no vosso escudo, que presente
Vos amostra a vitória já passada,
Na qual vos deu por armas e deixou
As que Ele pera si na Cruz tomou);


Vós, poderoso Rei, cujo alto Império
O Sol, logo em nascendo, vê primeiro,
Vê-o também no meio do Hemisfério,
E quando dece o deixa derradeiro;
Vós, que esperamos jugo e vitupério
Do torpe Ismaelita cavaleiro,
Do Turco Oriental e do Gentio
Que inda bebe o licor do santo Rio:


Inclinai por um pouco a majestade
Que nesse tenro gesto vos contemplo,
Que já se mostra qual na inteira idade,
Quando subindo ireis ao eterno templo;
Os olhos da real benignidade
Ponde no chão: vereis um novo exemplo
De amor dos pátrios feitos valerosos,
Em versos divulgado numerosos.


Vereis amor da pátria, não movido
De prémio vil, mas alto e quási eterno;
Que não é prémio vil ser conhecido
Por um pregão do ninho meu paterno.
Ouvi: vereis o nome engrandecido
Daqueles de quem sois senhor superno,
E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de tal gente.


Ouvi, que não vereis com vãs façanhas,
Fantásticas, fingidas, mentirosas,
Louvar os vossos, como nas estranhas
Musas, de engrandecer-se desejosas:
As verdadeiras vossas são tamanhas
Que excedem as sonhadas, fabulosas,
Que excedem Rodamonte e o vão Rugeiro
E Orlando, inda que fora verdadeiro.


Por estes vos darei um Nuno fero,
Que fez ao Rei e ao Reino tal serviço,
Um Egas e um Dom Fuas, que de Homero
A cítara par' eles só cobiço;
Pois polos Doze Pares dar-vos quero
Os Doze de Inglaterra e o seu Magriço;
Dou-vos também aquele ilustre Gama,
Que para si de Eneias toma a fama.


Pois se a troco de Carlos, Rei de França,
Ou de César, quereis igual memória,
Vede o primeiro Afonso, cuja lança
Escura faz qualquer estranha glória;
E aquele que a seu Reino a segurança
Deixou, com a grande e próspera vitória;
Outro Joane, invicto cavaleiro;
O quarto e quinto Afonsos e o terceiro.


Nem deixarão meus versos esquecidos
Aqueles que nos Reinos lá da Aurora
Se fizeram por armas tão subidos,
Vossa bandeira sempre vencedora:
Um Pacheco fortíssimo e os temidos
Almeidas, por quem sempre o Tejo chora,
Albuquerque terríbil, Castro forte,
E outros em quem poder não teve a morte.


E, enquanto eu estes canto – e a vós não posso,
Sublime Rei, que não me atrevo a tanto –,
Tomai as rédeas vós do Reino vosso:
Dareis matéria a nunca ouvido canto.
Comecem a sentir o peso grosso
(Que polo mundo todo faça espanto)
De exércitos e feitos singulares,
De África as terras e do Oriente os mares.


Em vós os olhos tem o Mouro frio,
Em quem vê seu exício afigurado;
Só com vos ver, o bárbaro Gentio
Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;
Tétis todo o cerúleo senhorio
Tem pera vós por dote aparelhado,
Que, afeiçoada ao gesto belo e tenro,
Deseja de comprar-vos pera genro.


Em vós se vêm, da Olímpica morada,
Dos dous avós as almas cá famosas;
Ũa, na paz angélica dourada,
Outra, pelas batalhas sanguinosas.
Em vós esperam ver-se renovada
Sua memória e obras valerosas;
E lá vos têm lugar, no fim da idade,
No templo da suprema Eternidade.


Mas, enquanto este tempo passa lento
De regerdes os povos, que o desejam,
Dai vós favor ao novo atrevimento,
Pera que estes meus versos vossos sejam,
E vereis ir cortando o salso argento
Os vossos Argonautas, por que vejam
Que são vistos de vós no mar irado,
E costumai-vos já a ser invocado.


Já no largo Oceano navegavam,
As inquietas ondas apartando;
Os ventos brandamente respiravam,
Das naus as velas côncavas inchando;
Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Próteu são cortadas,


Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
Onde o governo está da humana gente,
Se ajuntam em consílio glorioso,
Sobre as cousas futuras do Oriente.
Pisando o cristalino Céu fermoso,
Vêm pela Via Láctea juntamente,
Convocados, da parte de Tonante,
Pelo neto gentil do velho Atlante.


Deixam dos sete Céus o regimento,
Que do poder mais alto lhe foi dado,
Alto poder, que só co pensamento
Governa o Céu, a Terra e o Mar irado.
Ali se acharam juntos num momento
Os que habitam o Arcturo congelado
E os que o Austro têm e as partes onde
A Aurora nasce e o claro Sol se esconde.


Estava o Padre ali, sublime e dino,
Que vibra os feros raios de Vulcano,
Num assento de estrelas cristalino,
Com gesto alto, severo e soberano;
Do rosto respirava um ar divino,
Que divino tornara um corpo humano;
Com ũa coroa e ceptro rutilante,
De outra pedra mais clara que diamante.


Em luzentes assentos, marchetados
De ouro e de perlas, mais abaixo estavam
Os outros Deuses, todos assentados
Como a Razão e a Ordem concertavam
(Precedem os antigos, mais honrados,
Mais abaixo os menores se assentavam);
Quando Júpiter alto, assi dizendo,
Cum tom de voz começa grave e horrendo:


– «Eternos moradores do luzente,
Estelífero Pólo e claro Assento:
Se do grande valor da forte gente
De Luso não perdeis o pensamento,
Deveis de ter sabido claramente
Como é dos Fados grandes certo intento
Que por ela se esqueçam os humanos
De Assírios, Persas, Gregos e Romanos.


«Já lhe foi (bem o vistes) concedido,
Cum poder tão singelo e tão pequeno,
Tomar ao Mouro forte e guarnecido
Toda a terra que rega o Tejo ameno.
Pois contra o Castelhano tão temido
Sempre alcançou favor do Céu sereno:
Assi que sempre, enfim, com fama e glória,
Teve os troféus pendentes da vitória.


«Deixo, Deuses, atrás a fama antiga,
Que co a gente de Rómulo alcançaram,
Quando com Viriato, na inimiga
Guerra Romana, tanto se afamaram;
Também deixo a memória que os obriga
A grande nome, quando alevantaram
Um por seu capitão, que, peregrino,
Fingiu na cerva espírito divino.


«Agora vedes bem que, cometendo
O duvidoso mar num lenho leve,
Por vias nunca usadas, não temendo
de Áfrico e Noto a força, a mais s'atreve:
Que, havendo tanto já que as partes vendo
Onde o dia é comprido e onde breve,
Inclinam seu propósito e perfia
A ver os berços onde nasce o dia.


«Prometido lhe está do Fado eterno,
Cuja alta lei não pode ser quebrada,
Que tenham longos tempos o governo
Do mar que vê do Sol a roxa entrada.
Nas águas têm passado o duro Inverno;
A gente vem perdida e trabalhada;
Já parece bem feito que lhe seja
Mostrada a nova terra que deseja.


«E porque, como vistes, têm passados
Na viagem tão ásperos perigos,
Tantos climas e céus exprimentados,
Tanto furor de ventos inimigos,
Que sejam, determino, agasalhados
Nesta costa Africana como amigos;
E, tendo guarnecido a lassa frota,
Tornarão a seguir sua longa rota.»


Estas palavras Júpiter dizia,
Quando os Deuses, por ordem respondendo,
Na sentença um do outro diferia,
Razões diversas dando e recebendo.
O padre Baco ali não consentia
No que Júpiter disse, conhecendo
Que esquecerão seus feitos no Oriente
Se lá passar a Lusitana gente.


Ouvido tinha aos Fados que viria
Ũa gente fortíssima de Espanha
Pelo mar alto, a qual sujeitaria
Da Índia tudo quanto Dóris banha,
E com novas vitórias venceria
A fama antiga, ou sua ou fosse estranha.
Altamente lhe dói perder a glória
De que Nisa celebra inda a memória.

Vê que já teve o Indo sojugado
E nunca lhe tirou Fortuna ou caso
Por vencedor da Índia ser cantado
De quantos bebem a água de Parnaso.
Teme agora que seja sepultado
Seu tão célebre nome em negro vaso
D' água do esquecimento, se lá chegam
Os fortes Portugueses que navegam.


Sustentava contra ele Vénus bela,
Afeiçoada à gente Lusitana
Por quantas qualidades via nela
Da antiga, tão amada, sua Romana;
Nos fortes corações, na grande estrela
Que mostraram na terra Tingitana,
E na língua, na qual quando imagina,
Com pouca corrupção crê que é a Latina.

Estas causas moviam Citereia,
E mais, porque das Parcas claro entende
Que há-de ser celebrada a clara Deia
Onde a gente belígera se estende.
Assi que, um, pela infâmia que arreceia,
E o outro, pelas honras que pretende,
Debatem, e na perfia permanecem;
A qualquer seus amigos favorecem.


Qual Austro fero ou Bóreas na espessura
De silvestre arvoredo abastecida,
Rompendo os ramos vão da mata escura
Com impeto e braveza desmedida,
Brama toda montanha, o som murmura,
Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:
Tal andava o tumulto, levantado
Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.

Mas Marte, que da Deusa sustentava
Entre todos as partes em porfia,
Ou porque o amor antigo o obrigava,
Ou porque a gente forte o merecia,
De antre os Deuses em pé se levantava:
Merencório no gesto parecia;
O forte escudo, ao colo pendurado,
Deitando pera trás, medonho e irado;


A viseira do elmo de diamante
Alevantando um pouco, mui seguro,
Por dar seu parecer se pôs diante
De Júpiter, armado, forte e duro;
E dando ũa pancada penetrante
Co conto do bastão no sólio puro,
O Céu tremeu, e Apolo, de torvado,
Um pouco a luz perdeu, como enfiado;

E disse assi: – «Ó Padre, a cujo império
Tudo aquilo obedece que criaste:
Se esta gente que busca outro Hemisfério,
Cuja valia e obras tanto amaste,
Não queres que padeçam vitupério,
Como há já tanto tempo que ordenaste,
Não ouças mais, pois és juiz direito,
Razões de quem parece que é suspeito.


«Que, se aqui a razão se não mostrasse
Vencida do temor demasiado,
Bem fora que aqui Baco os sustentasse,
Pois que de Luso vêm, seu tão privado;
Mas esta tenção sua agora passe,
Porque enfim vem de estâmago danado;
Que nunca tirará alheia enveja
O bem que outrem merece e o Céu deseja.

«E tu, Padre de grande fortaleza,
Da determinação que tens tomada
Não tornes por detrás, pois é fraqueza
Desistir-se da cousa começada.
Mercúrio, pois excede em ligeireza
Ao vento leve e à seta bem talhada,
Lhe vá mostrar a terra onde se informe
Da Índia, e onde a gente se reforme.»


Como isto disse, o Padre poderoso,
A cabeça inclinando, consentiu
No que disse Mavorte valeroso
E néctar sobre todos esparziu.
Pelo caminho Lácteo glorioso
Logo cada um dos Deuses se partiu,
Fazendo seus reais acatamentos,
Pera os determinados apousentos.

Enquanto isto se passa na fermosa
Casa etérea do Olimpo omnipotente,
Cortava o mar a gente belicosa
Já lá da banda do Austro e do Oriente,
Entre a costa Etiópica e a famosa
Ilha de São Lourenço; e o Sol ardente
Queimava então os Deuses que Tifeu
Co temor grande em pexes converteu.


Tão brandamente os ventos os levavam
Como quem o Céu tinha por amigo;
Sereno o ar e os tempos se mostravam,
Sem nuvens, sem receio de perigo.
O promontório Prasso já passavam
Na costa de Etiópia, nome antigo,
Quando o mar, descobrindo, lhe mostrava
Novas ilhas, que em torno cerca e lava.

Vasco da Gama, o forte Capitão,
Que a tamanhas empresas se oferece,
De soberbo e de altivo coração,
A quem Fortuna sempre favorece,
Pêra se aqui deter não vê razão,
Que inabitada a terra lhe parece.
Por diante passar determinava,
Mas não lhe sucedeu como cuidava.


Eis aparecem logo em companhia
Uns pequenos batéis, que vêm daquela
Que mais chegada à terra parecia,
Cortando o longo mar com larga vela.
A gente se alvoroça e, de alegria,
Não sabe mais que olhar a causa dela.
– «Que gente será esta? » (em si diziam)
«Que costumes, que Lei, que Rei teriam?»

As embarcações eram na maneira
Mui veloces, estreitas e compridas;
As velas com que vêm eram de esteira,
Dũas folhas de palma, bem tecidas;
A gente da cor era verdadeira
Que Fáëton, nas terras acendidas,
Ao mundo deu, de ousado e não prudente
(O Pado o sabe e Lampetusa o sente).


De panos de algodão vinham vestidos,
De várias cores, brancos e listrados;
Uns trazem derredor de si cingidos,
Outros em modo airoso sobraçados;
Das cintas pêra cima vêm despidos;
Por armas têm adagas e tarçados;
Com toucas na cabeça; e, navegando,
Anafis sonorosos vão tocando.

Cos panos e cos braços acenavam
Às gentes Lusitanas, que esperassem;
Mas já as proas ligeiras se inclinavam,
Pera que junto às Ilhas amainassem.
A gente e marinheiros trabalhavam
Como se aqui os trabalhos s' acabassem:
Tomam velas, amaina-se a verga alta,
Da âncora o mar ferido em cima salta.


Não eram ancorados, quando a gente
Estranha polas cordas já subia.
No gesto ledos vêm, e humanamente
O Capitão sublime os recebia.
As mesas manda pôr em continente;
Do licor que Lieu prantado havia
Enchem vasos de vidro; e do que deitam
Os de Fáeton queimados nada enjeitam.

Comendo alegremente, perguntavam,
Pela Arábica língua, donde vinham,
Quem eram, de que terra, que buscavam,
Ou que partes do mar corrido tinham?
Os fortes Lusitanos lhe tornavam
As discretas repostas que convinham:
– «Os Portugueses somos do Ocidente,
Imos buscando as terras do Oriente.


«Do mar temos corrido e navegado
Toda a parte do Antártico e Calisto,
Toda a costa Africana rodeado;
Diversos céus e terras temos visto;
Dum Rei potente somos, tão amado,
Tão querido de todos e benquisto,
Que não no largo mar, com leda fronte,
Mas no lago entraremos de Aqueronte.

«E, por mandado seu, buscando andamos
A terra Oriental que o Indo rega;
Por ele o mar remoto navegamos,
Que só dos feios focas se navega.
Mas já razão parece que saibamos
(Se entre vós a verdade não se nega),
Quem sois, que terra é esta que habitais,
Ou se tendes da Índia alguns sinais?»


– «Somos (um dos das Ilhas lhe tornou)
Estrangeiros na terra, Lei e nação;
Que os próprios são aqueles que criou
A Natura, sem Lei e sem Razão.
Nós temos a Lei certa que ensinou
O claro descendente de Abraão,
Que agora tem do mundo o senhorio;
A mãe Hebreia teve e o pai, Gentio.

«Esta Ilha pequena, que habitamos,
É em toda esta terra certa escala
De todos os que as ondas navegamos,
De Quíloa, de Mombaça e de Sofala;
E, por ser necessária, procuramos,
Como próprios da terra, de habitá-la;
E por que tudo enfim vos notifique,
Chama-se a pequena Ilha – Moçambique.


«E já que de tão longe navegais,
Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,
Piloto aqui tereis, por quem sejais
Guiados pelas ondas sàbiamente.
Também será bem feito que tenhais
Da terra algum refresco, e que o Regente
Que esta terra governa, que vos veja
E do mais necessário vos proveja.»

Isto dizendo, o Mouro se tornou
A seus batéis com toda a companhia;
Do Capitão e gente se apartou
Com mostras de devida cortesia.
Nisto Febo nas águas encerrou
Co carro de cristal, o claro dia,
Dando cargo à Irmã que alumiasse
O largo mundo, enquanto repousasse.


A noite se passou na lassa frota
Com estranha alegria e não cuidada,
Por acharem da terra tão remota
Nova de tanto tempo desejada.
Qualquer então consigo cuida e nota
Na gente e na maneira desusada,
E como os que na errada Seita creram,
Tanto por todo o mundo se estenderam.

Da Lũa os claros raios rutilavam
Polas argênteas ondas Neptuninas;
As Estrelas os Céus acompanhavam,
Qual campo revestido de boninas;
Os furiosos ventos repousavam
Polas covas escuras peregrinas;
Porém da armada a gente vigiava,
Como por longo tempo costumava.


Mas, assi como a Aurora marchetada
Os fermosos cabelos espalhou
No Céu sereno, abrindo a roxa entrada
Ao claro Hiperiónio, que acordou,
Começa a embandeirar-se toda a armada
E de toldos alegres se adornou,
Por receber com festas e alegria
O Regedor das Ilhas, que partia.

Partia, alegremente navegando,
A ver as naus ligeiras Lusitanas,
Com refresco da terra, em si cuidando
Que são aquelas gentes inumanas
Que, os apousentos Cáspios habitando,
A conquistar as terras Asianas
Vieram e, por ordem do Destino,
O Império tomaram a Costantino.


Recebe o Capitão alegremente
O Mouro e toda sua companhia;
Dá-lhe de ricas peças um presente,
Que só pera este efeito já trazia;
Dá-lhe conserva doce e dá-lhe o ardente,
Não usado licor, que dá alegria.
Tudo o Mouro contente bem recebe,
E muito mais contente come e bebe.

Está a gente marítima de Luso
Subida pela enxárcia, de admirada,
Notando o estrangeiro modo e uso
E a linguagem tão bárbara e enteada.
Também o Mouro astuto está confuso,
Olhando a cor, o trajo e a forte armada;
E, perguntando tudo, lhe dizia
Se porventura vinham de Turquia.


E mais lhe diz também que ver deseja
Os livros de sua Lei, preceito ou fé,
Pera ver se conforme à sua seja,
Ou se são dos de Cristo, como crê;
E por que tudo note e tudo veja,
Ao Capitão pedia que lhe dê
Mostra das fortes armas de que usavam
Quando cos inimigos pelejavam.

Responde o valeroso Capitão,
Por um que a língua escura bem sabia:
– «Dar-te-ei, Senhor ilustre, relação
De mi, da Lei, das armas que trazia.
Nem sou da terra, nem da geração
Das gentes enojosas de Turquia,
Mas sou da forte Europa belicosa;
Busco as terras da Índia tão famosa.


«A Lei tenho d' Aquele a cujo império
Obedece o visíbil e invisíbil,
Aquele que criou todo o Hemisfério,
Tudo o que sente e todo o insensíbil;
Que padeceu desonra e vitupério,
Sofrendo morte injusta e insofríbil,
E que do Céu à Terra enfim deceu,
Por subir os mortais da Terra ao Céu.

«Deste Deus-Homem, alto e infinito,
Os livros que tu pedes não trazia,
Que bem posso escusar trazer escrito
Em papel o que na alma andar devia.
Se as armas queres ver, como tens dito,
Cumprido esse desejo te seria;
Como amigo as verás, porque eu me obrigo
Que nunca as queiras ver como inimigo.»


Isto dizendo, manda os diligentes
Ministros amostrar as armaduras:
Vêm arneses e peitos reluzentes,
Malhas finas e lâminas seguras,
Escudos de pinturas diferentes,
Pelouros, espingardas de aço puras,
Arcos e sagitíferas aljavas,
Partazanas agudas, chuças bravas.

As bombas vêm de fogo, e juntamente
As panelas sulfúreas, tão danosas;
Porém aos de Vulcano não consente
Que dêm fogo às bombardas temerosas;
Porque o generoso ânimo e valente,
Entre gentes tão poucas e medrosas,
Não mostra quanto pode; e com razão,
Que é fraqueza entre ovelhas ser lião.