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Nascido em Uiraúna,
Paraíba, Brasil, em 18 de maio de 1951
Jornalista:
"Diário da Borborema",
Campina Grande, PB - Repórter (1968/69)
"Folha de S. Paulo" - Repórter (1970/75)
"Jornal do Brasil" - Repórter da sucursal de São
Paulo (1975/83) -
Secretário de redação (1983) - Chefe da redação
(1984) - Repórter especial da sucursal de São
Paulo (1985/86)
"O Estado de S. Paulo" - Editor de política
(1986/88) - Editor de opinião (1988/89) -
Editorialista (1989/91)
Assessor político e ghost writer do senador José
Eduardo de Andrade Vieira, ex-ministro da
Indústria, do Comércio e do Turismo e da
Agricultura (1991/96)
Sistema Brasileiro de Televisão (SBT) -
comentarista político e econônomico no
programete diário "Direto ao assunto" (1996-67).
"Jornal da Tarde" - Editorialista (desde 1996)
Rádio Jovem Pan - comentarista: coluna "Direto
ao assunto" no "Jornal da Manhã" e na "Hora da
Verdade" (desde 1996)
Prêmios:
Prêmio Esso de
Jornalismo Econômico (com Maria Inês Caravaggi)
em 1975, pela série "Perfil do Operário
Brasileiro Hoje" ("Jornal do Brasil")
Troféu Imprensa de Reportagem Esportiva (com
Paulo Mattiussi) em 1975, pela reportagem "Éder
Jofre e o Boxe Brasileiro" ("Jornal do Brasil")
Escritor:
Co-autor dos livros:
Partidos e Políticos -
Editora JB, Rio de Janeiro, RJ (1986)
A Constituição que nós Queremos - Editora
Salamandra, Rio de Janeiro, RJ, (1988)
Jornalismo é... - Zenon, Associação Brasileira
de Anunciantes e Associação Brasileira de
Imprensa, São Paulo, SP (1997)
Livros
publicados:
Mengele, a Natureza do
Mal - romance-reportagem - EMW Editores, São
Paulo, SP (1985)
As Tábuas do Sol - poemas - Secretaria da
Cultura do Estado da Paraíba, João Pessoa, PB
(1986)
Erundina, a Mulher que Veio com a Chuva - perfil
biográfico - Editora Espaço e Tempo, Rio de
Janeiro, RJ (1989)
Atrás do Palanque - Bastidores da eleição
presidencial de 1989 - reportagem - Editora
Siciliano, São Paulo, SP (1989)
Reféns do Passado - coletânea de artigos e
ensaios políticos - Editora Siciliano, São
Paulo, SP (1992)
A República na Lama - Uma Tragédia Brasileira -
reportagem - Geração Editorial, São Paulo, SP
(1992)
Barcelona, Borborema - poesia - Geração
Editorial - São Paulo, SP (1992)
Veneno na Veia - romance policial - Editora
Siciliano, São Paulo, SP (1995)
Solos do Silêncio - poesia reunida - Geração
Editorial, São Paulo, SP (1996)
Página editada por
Alisson de Castro,
Jornal de Poesia, 01 de Junho de 1998
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POEMAS
JOSÉ NÊUMANN PINTO
POEMA I
FUNDAÇÃO AO PAI
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Desembarquei na vida
a bordo de teu corpo. Em algum lugar
incerto do passado mais remoto, antes de
ser este pedaço de carne inquieto e
buliçoso, intranqüilo e belicoso, fui um
naco de algum sonho teu. Eras meu elo com
o passado, o cordão umbilical que me
ligava às origens do planeta e das
estrelas.
Perdi a memória ainda no útero de tua
amada, pai. Não me lembro mais das priscas
eras em que navegava em teus neurônios.
Nem sei das vezes sem conta em que fui
engendrado na cerveja que bebias e fui
expelido no trovão de teus arrotos e
reincorporado a ti no ar fresco da manhã,
que sorvias. Ah, eu não me lembro mais,
mas sei que estava lá. Antes de estar
contido na gosma que expeliste num espasmo
de amor sem fim e de prazer sem início, eu
era um tique teu, um tico teu, um taco
teu, existindo plenamente na minha
inexistência. Sim, inexistente ainda, eu
existia em ti, era teus planos, cometi
teus enganos, me dissolvi em teu pranto,
me perdi em teus passos.
Tu não me sabias ainda, mas eu já era teu,
então, quando ainda nem havia. Era o ainda
não, mas já era, sim, o prolongamento de
tua vida, a seqüência de tua morte, o
produto de teu orgasmo. Eu não te via,
então, meu pai, naquele tempo, o tempo em
que eras apenas filho. De certa forma, um
filho meu, que havia chegado antes de mim.
Pois, sim, eras fruto de meu ventre
estéril, única testemunha, então, de meu
futuro. Não havia ainda eu, era impróprio,
assim, chamarmo-nos de nós e, no entanto,
eu já era o sentido de tua existência. Um
entre tantos. Um sentido entre todos os
significados que uma vida pode ter, para
que a morte não venha a ser apenas o
vazio, como sabia Otávio Augusto,
imperador e soldado, e escreveu outro
Octavio, o Paz, guerreiro da luz.
Quando desembarcaste da matéria, foi aí
que percebi, eu mesmo, que antes nada
havia percebido, que eu fui tu, antes de
ser eu mesmo. Só que não me multipliquei,
eu mesmo, em tantos, como tu fizeste - tu
mesmo, eu e todos os meus irmãos. Tu
mesmo, eu e os filhos. Eu mesmo, tu e os
filhos de meus filhos, os que virão e os
que ficarão apenas no projeto, no desenho
caprichoso da vida, esta vida de
caprichos.
Quando te fizeste matéria, na
consubstanciação definitiva, nesta
comunhão mineral da origem e do
perecimento, foi de repente que me senti
só. Eu, sozinho, e tu, também sozinho. Tu,
mineral a meu lado, teu rosto
imperturbável, no rictus definitivo. Eu,
animal a teu lado, eu, mais morto, e tu,
mais vivo do que nunca. Tu, vivo em mim,
manifestando-te no oxigênio que eu
inspirava. Eu, morto em ti, tornado
fluido, o gás carbônico, que nem mais
expiravas.
Naquele momento, veio-me uma imagem da
infância. Andávamos nós dois - e, então,
já podia usar este pronome pessoal direto
plural, pois existíamos mesmo, éramos
matéria em movimento, almas em harmonia -,
pisávamos a calçada de pedras, como se
fosse um tapete. Seguravas-me pela palma
da mão. Vinha dela uma tepidez de útero,
um calor vital, uma temperatura profana,
como só a cumplicidade incestuosa daquele
instante poderia propiciar. Tu pisavas nos
ladrilhos, distraído, e eu prestava
atenção em tudo. O mundo, em meu redor,
ganhava uma ordem, capaz de superar
qualquer caos, um caos qualquer. O mundo
em meu redor não admitia desordem alguma,
nem a dos teus passos desiguais, nem a da
luz difusa do sol, esmagando letras
pintadas em placas de rua.
E, de repente, fez-se o caos, no instante
exato, no qual a mão que me guiava se
soltou, me soltou. Pousou em mim a sombra
fria de Hal, o computador enlouquecido de
Arthur Clarke, tornado imagem por Sanley
Kubrick. Sim, a imagem de Hal, a máquina
doida, na aurora do século 21.Tu não te
lembrarás de Hal, personagem de Clarke e
Kubrick. Não leste o livro. Não viste o
filme. Li o livro por ti. Vi o filme por
ti. Mas me soltaste, como Hal. Mergulhei
no vazio do caos, no mundo desordenado que
meus filhos, nossos filhos, herdarão. Os
meus, os teus, os nossos.
Perdi-me de Neanderthal. Faltei ao
encontro com Cro Magnon. Sem ti, como
chegar ao paleolítico? Hoje, sem ti, ou
seja, sem mim mesmo, sem o eu, que existia
antes de existir, o passado é mais
misterioso do que pode ser o futuro. O
passado é um poço escuro, sem água. Um
poço vazio. Sem ti, meu pai, gênese e
deuteronômio, fui deserdado da genética.
E, agora, tua inexistência é que existe em
mim. Sísifo, dobro-me ao peso inexorável
da pedra de viver, da pedra de rolar, da
pedra de deitar a cabeça para dormir,
encostar a cabeça para chorar. Encosta tua
cabecinha no meu ombro e chora! Sinto-me
um estranho médium, te transportando em
minhas veias adocicadas, minhas veias
erodidas pelo açúcar, a usina de tua
herança. Assim como, antes de eu existir,
tu me transportavas nas tuas, também
açucaradas. Agora, sim, eu carrego, sem
ônus, o peso leve de tua inexistência. És
o sal de minhas lágrimas, o timbre de
minha voz, o ritmo de minhas gargalhadas.
Testemunhas meus erros, acompanhas meus
passos, os nossos, te perdes nos becos
escuros de minhas perplexidades, as
nossas.
Encaras-me sem rancor. Não vês, mas as
maçãs de meu rosto estão dependuradas nos
galhos de tua macieira, no Éden perdido.
Não ouves, mas meus gritos de dor percutem
nos tambores de tuas angústias. Se gozo,
ris. Se gemo, soluças. Quando me resfrio,
espirras. Agora, que não estás mais aqui,
és a mais acabada presença de minha
ausência. Quando chegaste, eu não te
esperava. E, no entanto, de certa forma,
de todas as formas, das formas mais
primitivas, eu cheguei contigo, desci
contigo das trompas de minha avó, dos
canais lacrimais de minha avó, dos braços
alvos de minha avó, do sorriso furtivo de
minha avó. Eu cheguei contigo, eu chorei
contigo, eu chamei contigo. Chegaste e eu
vinha chegando, esboço inacabado, esbulho
tramado, esforço clamado.
Berraste e este foi meu berro mais primevo,
meu primeiro berro, meu berro primal. Se
Freud não explicasse, Darwin explicava.
Choraste, eu berrei. Bebês, os dois,
mamamos, fartos, nas tetas de minha avó,
tua mãe.
Agora, que não estás mais aqui, sou a mais
primitiva ausência de tua presença. Quando
cheguei de vez, tu me esperavas. Tu
esperavas tua vez. Eu fui a vez que
esperavas. Chorei e riste. Berrei e
suaste. Quando sorri, aquele riso, um
sorriso todo de gengivas, tomaste cachaça
com mel de jandaíra, cuspiste no chão e me
chamaste de maganão. Beijaste o rosto
iluminado de minha mãe, como se ela
tivesse parido o menino-deus naqueles
ermos da geografia e da história do
Brasil, naqueles capítulos sem número,
naqueles textos sem autor. Aí, balbuciei
sílabas sem nexo e tua vida ganhou um nexo
inesperado. Meu primeiro dente te garantiu
a eternidade. A primeira palavra que falei
te brindou com a consciência de que até
mesmo o infinito não dura para sempre, mas
é apenas um lugar incerto, onde se
encontram as paralelas na geometria.
Agora, que não estamos mais aqui, somos
apenas presenças ausentes ou ausências
presentes, já que a ordem dos fatores não
altera o produto. O produto, este produto,
foste tu, tocando trompete nas tardes
emboloradas de calor do sertão distante.
Tu, sim, foste produto de teu pai, o
sátiro meu avô, o língua de trapo, o boca
de sapo. E eu, produto de teu produto,
sangue de teu sangue, osso de teu osso,
carne de tua carne.
Agora, que tua carne já não cobre mais
teus ossos, transpiras pelos meus poros,
suas uma velha camiseta do Flamengo, o
manto sagrado, que não visita mais minha
tia, que não visita mais os estádios de
futebol, que não visita mais a sede da
banda de música, que não visita mais quem
havia de visitar. Percebo-te no espelho,
toda manhã. A espuma de barbear descortina
o brotar disforme dos pelos sobre meu
queixo. Percebo-te no ângulo do mesmo
queixo. Se me irrito, é uma forma de te
imitar. Se faço mal feito, um jeito meu de
criticar teu perfeccionismo ultrapassado,
obsoleto. Minha garganta emite sons,
constrói palavras, que já pronunciaste,
sem nunca as ter falado.
Sim, senhor, aqui estás, rei de minhas
idiossincrasias, começo e fim de meus
afetos. Ainda me repreendes, quando dou
passos em falso, e me incentivas, quando
caminho para frente, como sempre gostaste
que eu fizesse. Sinto-o na própria pele.
Quando Dudu morreu, o pai, Toninho,
mistura de terno e mau, disse que, com a
partida do filho, ele passava a ser mais,
a ser dois. Isso também vale para a
partida do pai. Quando parte o pai, o
filho passa a ser o dobro de si mesmo, o
primeiro elo da cadeia, a corda jogada
sobre o precipício, o nó górdio, que
envolve o pesado fardo de viver. Minha
mão, estendida sobre o abismo, é extensão
da tua. Minha pele, esticada no curtume, é
o mapa de tuas trajetórias, entradas e
bandeiras, percursos e paradas. Quando
sigo, arfas. Quando paro, repousas. A
ponte, que lançaste sobre o canyon, ainda
está lá, rija e flexível, pronta para me
amparar, mas só se eu ainda tiver forças
para seguir pendurado nela.
Lembro-me do nascimento de meu filho, teu
neto, teu filho com açúcar, teu filho
dobrado. A enfermeira o exibia. Pela
vidraça do berçário, seu rosto
encarquilhado fazia uma careta disforme e
profana. Mas eu não pensei em meu filho,
teu neto, teu filho vezes dois. Pensei,
sim, foi em ti, nas noites em que as
incertezas da vida roubaram teu sono.
Aquele talvez tenha sido o dia mais
importante de minha vida incomum, e da
nossa comum, que começava ainda ali a
viver por ti, pois o bebê, ainda meio
melado de placenta doce, me transmitia, em
seus esgares, laivos de lucidez sobre este
nosso imperdoável, este nosso inexorável
exercício de guerrear à sombra, nesta
Termópilas de cadáveres empilhados,
secando no solo, tradução inexata da falta
de sentido de nosso trajeto pelo planeta.
Entre pai e filho não há segredos nem
mistérios. Entre pai e filho há uma
relação de fundadores. Falamos a língua da
gênese. Fundamos lares, cidades, destinos.
Somos todos primogênitos, não nos vendemos
por um prato de lentilhas. Nós dois, nós
três, nós mil, nós milhões - e mais Paul
Auster, mais Philip Roth, mais todos
aqueles que escreveram sobre ti e sobre
mim e sobre nosso filho comum, meu filho,
teu neto. Nós todos, os pródigos do mundo,
voltamos à casa avoenga e debatemos o
destino e a política, a valsa e o fado, a
economia e a monotonia, sentados em
cadeiras que giram, com o rosto cheio de
espuma e o coração gordo de esperança,
esquálido de medo, músculo que se contrai
e se distrai, carne de abrir e de fechar,
chave de viver e de dançar o tango
argentino, no cofre do peito.
Estamos congelados, pai, nós, os
sem-mistério, os gozados gozosos. Vamos
voltar, quando Hal for sucata. Vamos estar
aqui novamente, nós dois e o mundo, nós
três e as cidades povoadas de pais
solteiros e filhos casados, pais vários e
filhos únicos - como Aquele que bebeu o
fel servido pelo centurião, como Aquele
que debateu com os doutores no templo,
como Aquele que sabia que eles não sabiam
o que faziam. O mundo, este grande deserto
de caçulas, será, uma vez mais, um ponto
de partida e de parada, nosso porto de
desembarque, amanhã, quando, de novo,
nossa matéria mineral se tornar orgânica e
o calor derreter a gordura de nossos
ossos.
Nós estávamos aqui, com os polegares
erguidos, a exigir pão e circo, quando
Marco Aurélio, o imperador-filósofo,
engendrou Cômodo, o monstro, o gladiador.
E estaremos rondando por aí, quando mundos
novos se dispersarem numa poeira de
estrelas, que se fundirem num gás,
engendrando novas galáxias e um universo
novinho em folha, novinho em fé, novinho
em falhas. Presenciamos Paulo, o apóstolo,
parir a Europa inteira - aquele judeuzinho
quase sírio e helenizado, cidadão do
império, cidadão do mundo, cidadão da Ásia
Menor, a criar toda uma civilização. E não
faltaremos ao encontro marcado com o
futuro - nós, que voltaremos a inexistir,
exatamente por termos existido, já que a
única condição para a inexistência é haver
existido. Cada qual na hora de cada qual:
Guilherme Tell espetando a maçã na ponta
da seta; Heitor defendendo a ara, a tribo,
a cidade; Abraão conduzindo Isaac pela mão
ao altar dos acrifícios; o pai da fábula
matando um boi para alimentar o rebento
estróina de volta ao lar.
Chegaste para fundar destinos: chegamos. E
partiste, partimos - eu mesmo fundado, tu
mesmo fundando, ambos fundadores de nós
próprios e dos outros, o inferno, o
inverno de nossas vis desesperanças.
Freqüentas meus sonhos, porque velas meu
sono.
Não descansas, enquanto eu mesmo velar.
Adeus, pai. Até a volta. |
POEMA
II
Ode Ao Pó
Açúcar é assim:
brilho vermelho na melancia,
mancha verde na uva-itália
e na maçã verde,
mas todo branco quando só
e branco inteiro enquanto pó
(força de fortes
droga de débeis).
Gelado e molenga
no sorvete de açaí;
a cara-metade do caramelo,
embebido em compressas,
tostado em fogo lento.
Há açúcar na polpa
e açúcar na papa.
Há açúcar do engenho,
de forno e fornalha.
Açúcar é assado:
o suor do camponês pulverizado,
sacos de cristal na prateleira,
valendo ouro no mercado,
virando merda no organismo,
bela merda,
doce merda,
...merda...
Açúcar é assombro:
à sombra do Hades,
as águas do Ganges;
panacéia do avesso
e dor das paixões
e cor das paixões
se esparramando, líquida,
na esclerose de minhas veias,
minhas veias velhas.
Veneno e garapa,
a mó, o mel, o mal,
a morte feito gosto
invade meu sonho,
me habita o pesadelo
num aviso de sol morno:
o passo lerdo,
o pinto casto,
o cuco morto.
E dá sinais de olho posto:
a vida breve,
a arte curta,
o gole brusco,
a cinza fria,
um dó de peito
e o pó sem fundo,
ao qual haveremos
de tornar
- todos.
Poema III
Beijo No Olho
O mundo inteiro que tu vês
atrás das pálpebras que beijei
é isso mesmo, menina:
um vale raso só de tédio
e um poço fundo de mistérios,
uma ave é abatida em pleno vôo
e nasce uma flor no cemitério,
um riso estala na manhã,
com o cheiro morno de café moído,
e um pranto escorre no ocaso,
como visgo mofado nas paredes.
Aqui arde o fogo da paixão sem nome
e lá estala o gelo da indiferença vã,
um sorriso de bebê paira no espelho
e um punho hostil te fere a face.
O mundo em pedaços que tu vês
dentro das pálpebras que fechas
é assim mesmo, mocinha:
uma bomba explode no jardim
e o ser amado se despe no chuveiro;
um cálculo duro te macera o rim
e a brisa da noite, com cheiro de jasmim;
colhes um beijo sem dono na rua
e no quarto destilas o fel desse pavor;
pulas um frevo de celebração
e choras um cadáver em cantochão;
chove forte nas palmas dos oásis
e o sol te invade as praias do deserto;
mordes o pão com enxofre da desgraça
e te embriagas com o vinho da consolação.
O mundo incerto que tu vês
diante das pálpebras que abrirás
é nosso mesmo, mulher:
ei-lo, o tempo esparramado no solo
e o espaço, imenso como um grão
- muita companhia , toda a solidão.
Pedes um pouco de guerra
na paz de uma canção;
entregas um gole a quem te pede água,
mas negas um naco a quem te pede um pão.
Esse mundo sem porteira ou rumo,
um saco de merda, um frasco de luz,
é um mundo velho, novo e sem segredo,
parece uma peneira, cabe num pandeiro
e bate ao ritmo de teu coração.
POEMA IV
Que És Fonte Nesta Noite Estrangeira
Nesta noite estrangeira,
aporto em teu leito
como quem chega de viagem
(a longa viagem da vida):
o bagaço dos músculos,
o cansaço dos séculos,
o espaço dos vínculos.
É o peso da paixão
que lança a âncora
no cais do teu ventre;
desembarco sorrateiro,
como um ladrão,
esgueiro-me nas sombras,
fujo à face da lua,
tal flauta sem som,
qual nauta sem sono.
Pulo no escuro,
feito um gato,
entre pé e areia
um abismo,
agarro-me a teus cabelos
(um salto abissal,
sem rede),
bebo um pântano sem fundo,
profundo.
Dentro de ti,
que és porto,
faz noite ainda
(o mar é mancha móvel,
teus seios, dois faróis).
A distância de léguas,
ocultas um bote
em conchas
(muito a caminhar
até os remos
de tuas pernas brancas)
Dentro de ti,
que és ilha e plana,
a mina verde
dos tesouros submersos;
e os sóis rubros
das fogueiras profanas.
Ato o massame firme
a teu travesseiro:
queimas asas de Ícaro,
derretes coração de cera.
Assim mergulho em teus lençóis
com o peito em brasa
e as mãos limpas
(lavadas dentro de ti,
que és vento e fonte).
POEMA V
Quando Chove
Quando chove, danço só,
vestido de ouro, algas e escama,
sou peixe do Açude Velho,
navego pelo canal
nas bandas do Buraco da Jia,
nos tempos em que o lugar
não se chamava Rosa Mística
e era reduto de bandidos.
Passo pelo Ponto-de-Cem-Réis,
uma bicada de Rainha
na bodega de seu Aluísio,
defronte do posto de seu Gaston.
Quando chove, deslizo rápido,
como os casais do Ypiranga,
carregadores da feira-livre
e empregadinhas do Alto Branco,
forrobodó, chula e lundu.
Se não chove, dá no mesmo,
patino na lama da Rua Boa,
escapo para as bandas de Esperança
e me escondo do amor divino
e da fúria dos homens
nos contrafortes da Borborema.
POEMA VI
Ontem Foi Amanhã
Ontem foi amanhã
e já será hoje
quando eu caminhar
para trás,
no rumo do que deixei
e do que me largou.
No brilho da lembrança
de uma imagem qualquer,
a saudade de certo instante:
casas, ruas e ladeiras
escapam com o tempo,
que as cobre de pó.
Cada dia repete o anterior
de forma diferente;
irrepetível, toda hora
repete outras horas.
Do berço ao túmulo,
apenas o rio interminável
e o banho em suas águas
mesmas, conquanto mutantes.
A memória não imita
a cidade construída:
inventa a cidade mítica
e a funda novamente,
pedra sobre pedra,
sonho sobre sonho.
POEMA VII
Agora
Agora, que volto já de tantas coisas,
preciso aprender
que desta cidade ninguém parte,
pois a Campina só se chega,
sempre.
Quando você navega no vapor Natchez,
embarca na Jackson Square
e desembarca no Açude Novo,
que nem água tem mais.
Se você cruzou o Muro de Berlim,
em plena Guerra Fria,
na estação de Alexanderplatz,
acabou tomando sorvete de graviola
na Praça da Bandeira
cagada de pombos.
O bondinho do Pão de Açúcar
tem um ramal que desemboca
no bairro de José Pinheiro.
Todas as viagens do mundo
terminam no Alto do Serrotão.
O Expresso do Oriente
pára na estação ferroviária,
hoje Museu do São João.
Dela não partem trens,
pois para cá só se volta
de todas as coisas,
do pão que o diabo amassou
ou do maná caído do céu.
POEMA VIII
Madeiro
Meu pai está no céu
e me mandou o dom da vida
pousar do beijo de um colibri.
Quando a semente caiu,
o ventre virgem de minha mãe a estreitou.
Debaixo do regaço da terra,
me nutri da lava dos vulcões,
bebi a água limpa dos lençóis
e suguei a força fétida
da matéria apodrecida.
Cresci no seio da relva,
vesti as cascas do tempo.
Soprei ventos primevos,
trazidos dos campos,
onde o trigo fenece.
Destilei o perfume das flores
e o sabor dos frutos da estação.
Refresquei com o orvalho de meu pranto
o asfalto que me queimava os pés.
À sombra de minha presença,
abriguei carícias alheias
e em meus membros
espalhei ninhos e espinhos.
Cantei canções ancestrais
nas línguas mortas das aves,
que não me deixam calar.
Fixaram com cravos minhas pernas
neste bosque de piche e aço.
Agora, eis-me aqui, de novo,
disposto ao perdão,
pois para isso fui pregado.
Abro bem os braços
e deixo o peito à vista:
meu velho coração vegetal
só carece de um olhar caridoso
para pulsar sua compaixão.
Olha bem pra mim,
transeunte urbano
de minha agonia!
Enquanto me encontrares,
teu pulmão de cristal
não vai se estilhaçar.
POEMA IX
Poeira Das Estrelas
Do norte do norte
as águias decolam
para vôos sem volta.
Lá, tudo começa:
a voz do mudo,
a vez do mundo.
No norte do norte
as águas brotam do solo
e o fogo se consome,
queimando a cera do tempo.
No norte do norte,
mora Deus,
o dono da sorte,
pelo menos à noite.
Lá se consuma o pecado
de cada um,
surgido do zero.
No norte do norte,
da terra é soprado
o barro humano,
bafo de vida.
Ao sul do sul
as águias sempre voltam
de vôos sem ida.
Lá se chega sempre ao nada,
ao nenhum talvez,
decerto a ninguém.
No sul do sul,
as águas se lavam
em si mesmas.
E o fogo se extingue
em cinza morna.
No sul do sul,
Deus vive de dia,
na casa de sempre,
erguida sobre ocos do vazio.
Lá, se colhe
a semente da morte
na seara das virtudes
de todos,
abrigados no sem fim
do infinito.
No sul do sul,
o último sopro,
matéria divina,
solfeja adeuses
em lábios selados.
Entre o sul do sul
e o norte do norte
a leste e oeste, o medo
traça o destino parco
de quem se sente imenso.
Entre o começo do fim
e o fim do começo,
o compasso do verso.
Lá Deus repousa
a sesta do guerreiro da paz
à sombra da luz das estrelas.
O sono divino
vela a angústia do homem
de não se saber
apenas um sonho,
nem sempre um pesadelo,
mas inevitavelmente
uma miragem de fumaça,
uma nuvem opaca
de pó seco
e denso mistério.
POEMA X
Será Uma Vez
No dia em que chegar o dia,
nem é preciso que eu esteja pronto,
enfatiotado para a viagem de rumo incerto
e com bagagem feita, além de minha nudez.
Na hora em que chegar a hora,
a hora incerta, a que não tem seguinte,
pretendo apenas estar sóbrio e lúcido,
para me servir de boa companhia,
pois longa será a travessia
e não haverá a chance de chamar alguém.
Quando chegar a visita que não se espera,
não lhe servirei café na xícara
em terei palavras para lhe saudar a entrada.
Quero estar mudo como a matéria, que serei de
novo,
pois quanto mais houver silêncio num adeus,
mais comovido será o momento.
Não importa quanto o tempo vivido,
pois será sempre escasso.
Nem a saudade que fica conta,
pois sempre haverá o vazio imenso...
Quando o dia chegar, sem aviso,
não haverá testamentos a assinar
nem encontros combinados a confirmar,
muito menos o testemunho de minha ausência.
Será, como sempre, numa hora precária,
pois, afinal, precárias são todas as horas
e, pelo menos para quem fica, ela terá
a vaga importância que têm todas as horas.
Reservo-me apenas o direito de sonhar sozinho
o sonho definitivo do último sono,
o delírio final da razão partindo
e o último alento da visão, que escapa.
Não é lícito escrever tanto sobre estas coisas
nem cabe aqui descrever o não sabido,
Que, no entanto, é só o que se sabe.
Sei apenas que sou pó
e, quando voltar ao pó, de onde venho,
gostarei de ter passado como um cometa,
não apenas um meteorito tonto
a esmagar as pedras que rolam no caminho.
Quando eu passar, definitivamente,
mesmo tendo sido em vão o meu desfile,
quero que meu amor guarde de mim os doces
instantes
e os inimigos eventuais tenham cebolas a cortar.
Quando hoje houver, mas amanhã nem talvez,
quem tiver cruz a transportar nas costas
que a fixe sobre o chão que me abrigar
e meus filhos me possam lembrar
como a semente que teimou em germinar.
Quando mergulhar no mar vazio,
de onde vim, também sem o saber,
estarei, como nunca, melado
da placenta pastosa das palavras,
berrando o urro primevo e primal
de todo inexistente que alguma vez tenha
existido.
POETA E JORNALISTA
JOSÉ NÊUMANNE PINTO
José Nêumanne Pinto
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Fonte
JORNAL DE POESIA-JOSÉ NÊUMANNE
www.secrel.com.br/jpoesia/jneumanne.html
Biografia por
PAULO TORQUATO TASSO
seges@e-net.com.br
Pesquisa e Edição
Iracema Zanetti |