|
|
Gilberto Mendonça Teles
é de Bela Vista, GO, 30.5.1931. Curso de Direito
e Letras neolatinas. Especialização na
Universidade de Coimbra. Doutor em letras e
Livre-Docente em Literatura Brasileira.
Professor-Titular da PUC-RJ e fundador das duas
universidades de Goiás. Lecionou no Uruguai e
nas universidades de Lisboa, Rennes e Mantes
(França) e Chicago. Dedica-se à poesia (quinze
livros). Tem livros publicados no Uruguai, em
Portugal, na França e na Espanha. Prêmio Machado
de Assis " (conjunto de obras da A.B.L.) Gosta
de pescar.
|

POEMAS
GILBERTO MENDONÇA TELES
POEMA I
45
A Domingos Carvalho da Silva
Sou da geração
de quarenta e cinco
ou tenho na mão
a porta sem trinco?
(Nem sei quantas são
as telhas de zinco
que cobrem meu chão
de quarenta e cinco.)
Semeei meu grão?
fui ao fim do afinco?
pesquei a paixão
de quarenta e cinco?
Tudo é sim e não
em quarenta e cinco.
E a melhor lição
forma sempre um vinco
de interrogação
no tempo, onde brinco
procurando um vão
entre o 4 e o 5.
POEMA II
NO CURSO DO DIA
Agora que me vou é que me deixo
ficar perdidamente nesta estrada:
vou numa roda viva, mas sem eixo,
numa coisa futura, mas passada.
Vou e não vou e assim se vai compondo
o que me está aos poucos dividindo:
não a zoada azul de um marimbondo,
mas a certeza de um amor tão lindo.
Alguma coisa vai ficando, além do
tempo em que me dou e me reparto:
ficou meu coração, ficou batendo,
batendo na penumbra de algum quarto.
Ficou o que mais quero e vai comigo:
molharam nalgum curso os seus cabelos
para compor as novas semifusas
dos meus silêncios, dos meus atropelos.
Mas no curso dos dias que há por dentro
de cada um de nós, na nossa história,
alguém por certo encontrará o centro
de tudo que ficou na trajetória.
E o que ficou, ficou: raiz noctuma
enterrada nas ruas, nos quintais;
vento varrendo o pó de alguma furna,
chuvas de pedra, alguns trovões, Goiás.
POEMA III
MODERNISMO
No fundo, eu sou mesmo é um romântico
inveterado.
No fundo, nada: eu sou romântico de todo jeito.
Eu sou romântico de corpo e alma,
de dentro e fora,
de alto e baixo, de todo lado: do esquerdo e do
direito.
Eu sou romântico de todo o jeito.
Sou um sujeito sem jeito que tem medo de avião,
um individualista confesso, que adora luares,
que gosta de piqueniques e noitadas festivas,
mas que vai se esconder no fundo dos
restaurantes.
Um sujeito que nesta recta de chegada dos
cinquenta
sente que seu coração bate tão velozmente
que já nem agüenta esperar mais as moças
da geração incerta dos dois mil.
Vejam, por exemplo, a minha carta de apaixonado,
a minha expressão de timidez, as minhas várias
tentativas frustradas de D.Juan.
Vejam meu pessimismo político,
meu idealismo poético,
minhas leituras de passatempo.
Vejam meus tiques e etiquetas,
meus sapatos engraxados,
meus ternos enleios,
meu gosto pelo passado
e pelos presentes,
minhas cismas, e raptos.
Vejam também minha linguagem
cheia de mins, de meus e de comos.
Vejam, e me digam se eu não sou mesmo
um sujeito romântico que contraiu o mal do
século
e ainda morre de amor pela idade média
das mulheres.
POEMA IV
CRIAÇÃO
O verbo nunca esteve no início
dos grandes acontecimentos.
No início estamos nós, sujeitos
sem predicados,
tímidos,
embaraçados,
às voltas com mil pequenos problemas
de delicadezas,
de tentativas e recuos,
neste jogo que se improvisa à sombra
do bem e do mal.
No início estão as reticências,
este-querer-não-querendo,
os meios-tons,
a meia-luz,
os interditos
e as grandes hesitações
que se iluminam
e se apagam de repente.
No início não há memória nem sentença,
apenas um jeito do coração
enunciar que uma flor vai-se abrindo
como um dia de festa, ou de verão.
No início ou no fim (tudo é finício)
a gente se lembra de que está mesmo com Deus
à espera de um grande acontecimento,
mas nunca se dá conta de que é preciso
ir roendo,
roendo,
roendo
um osso duro de roer.
POEMA V
CHÁ DAS CINCO
A Jorge Amado
chá de poejo para o teu desejo
chá de alfavaca já que a carne é fraca
chá de poaia e rabo de saia
chá de erva-cidreira se ela for solteira
chá de beldroega se ela foge e nega
chá de panela para as coisas dela
chá de alecrim se ela for ruim
chá de losna se ela late ou rosna
chá de abacate se ela rosna e late
chá de sabugueiro para ser ligeiro
chá de funcho quando houver carunhco
chá de trepadeira para a noite inteira
chá de boldo se ela pedir soldo
chá de confrei se ela for de lei
chá de macela se não for donzela
chá de alho para um ato falho
chá de bico quando houver fuxico
chá de sumiço quando houver enguiço
chá de estrada se ela for casada
chá de marmelo quando houver duelo
chá de douradinha se ela for gordinha
chá de fedegoso pra mijar gostoso
chá de cadeira para a vez primeira
chá de jalapa quando for no tapa
chá de catuaba quando não se acaba
chá de jurema se exigir poema
chá de hortelã e até manhã
chá de erva-doce e acabou-se
(pelo sim pelo não chá de barbatimão)
POEMA VI
HISTÓRIA
Toda história tem seu texto
tem seu pretexto e pronúncia.
Tem seu remorso, seu sexto
sentido de arte e denúncia.
Tem um sujeito que a escolhe
que se encolhe e se confunde:
um lugar que sempre a tolhe
qui tollis peccata mundi.
Tem sua forma em processo,
tem seu recesso e cansaço,
e tem seu topo de excesso
no ponto extremo do escasso.
Tem sua língua felpuda,
a voz aguda e afetada.
R tem a essência que muda
e permanece, calada.
Toda história tem seu preço,
tem seu começo e seu dito.
É só virar pelo avesso,
ler o que está subscrito.
POEMA VII
O DISCURSO
Havia a necessidade absurda de falar
para manter o equilíbrio da mesa
e preservar a reputação implícita
nos gestos.
Alguém chegou a reclamar a urgência
de um gravador para medir as vaias.
Outro, mais complacente, se preparava
para pedir bis. Um terceiro mastigou
ruidosamente a ponta da língua.
Neste momento solene... o poeta
burlou a vigilência das moscas
e deu um salto mortal no meio
do discurso.
E ante a curiosidade geral dos convivas,
fabricou um cavalo de miolo de pão
e fugiu a galope, levando à garupa
a garota que estava fingindo que não.
HOMENAGEM A FEDERICO GARCÍA LORCA POR POE
ATRAVÉS DO ESTUDO DE LORCA NO BRASIL:
POR GILBERTO MENDONÇA FEITOSA
|
Creio oportunas duas
pequenas digressões iniciais, sugeridas
pela própria natureza deste artigo: uma
ligeira incursão pela teoria comparatista;
e algumas observações sobre este tipo de
estudo no Brasil.
O estudo da literatura
comparada no Brasil, como de resto em toda
parte, não tem conseguido libertar-se da
metodologia herdada do positivismo em que
se criaram ou se consolidaram as ciências
sociais. Os principais "gêneros" da
Poética (crítica, ensaio, teoria, história
literária, literatura comparada e os
vários tipos de exegese textual), ainda
que não possuam - alguns deles - a sua
tradição estética ou filosófica, obtiveram
o seu reconhecimento a partir do fim do
século passado, no auge do evolucionismo.
Aí se fundou o comparatismo literário, o
qual, como tudo ligado à velha história
literária, permaneceu aferrado às técnicas
tradicionais, principalmente no que diz
respeito aos processos de comparação.
Isto explica o sucesso e a permanência (e
também a crise) da fórmula "x e y", de que
fala Pierre Brunel, em que o ponto de
vista especulativo, sempre unilateral,
sempre cronológico e descritivo, vai,
inevitavelmente, de um receptor para uma
fonte emissora. Por trás, como dado
absoluto, a visão eurocentrista,
dominadora. Tudo se passa, ou se passava,
como se na literatura não houvesse
imaginário, como se não houvesse desejo de
originalidade e como se a "influência" só
se desse a partir da Europa, isto é, de
Paris. E mesmo que a fórmula evoluísse
para "x versus y", com ênfase na tensão
entre comparante e comparado, a natureza
da comparação era, no fundo, a mesma: de
uma literatura, de um movimento, de uma
obra, de uma imagem da literatura européia
para, digamos, um movimento, uma obra ou
uma imagem da literatura latino-americana.
Na verdade, "x e y" ou
"x versus y" devem ser vistos hoje como
níveis de um processo mais vasto de
comparação, em que as noções de contexto e
de intertextualidade põem em movimento uma
complexidade de relações que exigem do
estudioso não somente o conhecimento dos
dois objetos comparados (seus contextos,
suas ideologias e suas tendências
transformadoras), mas também a consciência
da multiplicidade das "fontes", além, é
claro, de uma abertura para as inúmeras
possibilidades de análises postas em cena
pelas correntes da crítica contemporânea e
que, a bem dizer, acabaram confundindo o
aluno e quantos se iniciavam nos estudos
literários. A idéia tradicional do senso
comum desapareceu das universidades
brasileiras, onde cada professor de teoria
literária se esforçava por exibir "o
último tango de Paris".
A noção de "discurso
paralelo", que desenvolvemos em a Retórica
do Silêncio - I, de 1979 (e que aparece ou
reaparece com o nome de "parataxe" em
Palimpsestes, 1981, de Gérard Genette),
rompe com o sentido unilateral (de A para
A¹ ou de A para B), põe o comparatista nos
"limites da intertextualidade", leva-o
para além do princípio visível das
semelhanças e mostra-lhe, sob a forma das
diferenças, o lado "invisível", a dimensão
paradigmática dos textos comparados.
Num dos texto de suas Poesías Juveniles,
escrita entre 1917 e 1919, García Lorca
fala de seu "bosque negro y centenario" e
pede aos meninos e adolescentes da época
que guardem "el corazón muy bien del
Tiempo" e do desengano. Possivelmente
estaria se referindo aos "Niños buenos" de
sua Fuentevaqueros, de Granada ou de toda
a Andalucía, por onde deve ter andado na
sua infância e adolescência. Mas a
referência, numa universalização que tem
muito a ver com os horizontes de
expectações em que se move a sua obra,
poderia ser também estendida aos "niños"
poetas da Espanha, da Argentina, do
Uruguai, do Chile e de Nova Yorque, países
e cidades onde conquistou a admiração de
quem o conheceu, expressando ao vivo a
nova força poética da literatura
espanhola. Já se disse que a sua
popularidade causou inveja aos seus
"amigos" de Espanha, que o "deduraram",
durante a guerra civil. O termo foi
inventado pelos brasileiros para indicar
os que apontavam (denunciavam) os seus
inimigos ao Serviço Nacional de Informação
(SIN), na revolução militar de 1964.
Na época em que García
Lorca escrevia os poemas mencionados,
havia no Brasil toda uma plêiade de poetas
adolescentes que viriam a ser conhecidos
como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de
Andrade, Vinícius de Moraes e Murilo
Mendes, todos eles futuros admiradores do
poeta do Cancionero Gitano.
O Modernismo brasileiro,
iniciando em 1922, ia atingir o melhor de
si por volta de 1930, quando se dá a
revolução que conduziu Getúlio Vargas ao
poder. Foi um período de inquietação
política e intelectual. Muitos escritores
foram convocados a servir ao governo, como
Carlos Drummond de Andrade, por exemplo,
nomeado chefe do gabinte do seu amigo
Gustavo Capanema, ministro da Educação e
Saúde, como era o nome do ministério
naquela época. Em l932, rebela-se o Estado
de São Paulo, exigindo o cumprimento da
Constituição; em 1935, o governo reprime
uma possível intentona comunista; e em
1937, acaba criando o Estado Novo, sob
influência facista, fechando o congresso
nacional e impondo uma constituição feita
especialmente para os seus propósitos
ditatoriais, e que durou até o fim da
segunda guerra mundial. Criou-se então o
famoso e famigerado Departamento de
Imprensa e Propaganda (DIP), que tanto mal
fez aos intelecutuais e políticos
brasileiros, cassando-os, aposentando-os e
exilando-os ou obrigando-os a exilar-se,
tal como iria acontecer novamente a partir
de 1964. Foi, no entanto, um período de
grande transformação social no Brasil, com
benefícios que vêm sendo aperfeiçoados a
favor da população brasileira.
Os escritores
mencionados, agora com os seus quarenta
anos e já conhecidos como grandes poetas,
só começam, entretanto, a escrever sobre
García Lorca depois da queda do Estado
Novo. Parece que tiveram algum receio de
desagradar a censura da época. Lorca havia
sido fuzilado pelo governo espanhol, e não
se sabia bem por quê, possivelmente por
atuação comunista, como se pensava e não
se dizia. A repressão ao comunismo veio
dos Estados Unidos e cresceu no Brasil, só
terminando recentemente, por verdadeira
inanição mental.
O primeiro a escrever
sobre a morte de Lorca foi Carlos Drummond
de Andrade, em 1947, no livro Novos
Poemas, de 1947, mas só publicado em 1954,
em Fazendeiro do Ar & Poesia até Agora. É
o momento em que o poeta, resolvido o
conflito entre a participação social (do
modernismo) e o engajamento na linguagem
(no seu próprio projeto poético), penetra
cada vez mais na palabra, a usar aqui uma
de suas imagens, transformando a sua
linguagem no sentido da lucidez criadora,
numa luminosidade órfica, de grande força
poética, na direção do que escreverá
depois em Lição de Coisas, em l962: "O
nome é bem mais do que nome: o além- da-
coisa, / coisa livre de coisa,
circulando".
O poema de Drummond se
intitula exatamente "A Federico García
Lorca" e assim aparece na edição de sua
Obra Completa (Aguilar, 1964). |
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
POEMA "A FEDERICO GARCÍA LORCA"
Sobre teu corpo, que há dez anos
se vem transfundindo em cravos
de rubra cor espanhola,
aqui estou para depositar
vergonha e lágrimas.
Vergonha de há tanto tempo
viveres - se morte é vida -
sob chão onde esporas tinem
e calcam a mais fina grama
e o pensamento mais fino
de amor, de justiça e paz.
Lágrimas de noturno orvalho,
não de mágoa desiludida,
lágrimas que tão-só destilam
desejo e ânsia e certeza
de que o dia amanhecerá.
(Amanhecerá.)
Esse claro dia espanhol,
composto na treva de hoje
sobre teu túmulo há de abrir-se,
mostrando gloriosamente
- ao canto multiplicado
de guitarra, gitano e galo -
que para sempre viverão
os poetas martirizados.
|
Como se vê, o poema
retrocede a um ano depois da morte de
García Lorca: é como se em 1937 (o ano do
Estado Novo, que vai aparecer em 10 de
novembro) Drummond, escrito o poema,
houvesse vacilado em incluí-lo em A Rosa
do Povo, preparado desde 1943 e publicado
em 1945, ainda dentro da ditadura de
Getúlio Vargas e, claro, do General
Franco. Todo o eixo semântico do poema se
estrutura sobre as palavras "vergonha" e
"lágrima", como se o poeta sentisse
remorso de ter-se calado durante tanto
tempo. Mas na última estrofe faz uma bela
antítese entre o "claro dia espanhol" e "a
treva de hoje" (que pode ser aplicada à
Espanha e ao Brasil, como também a todo o
mundo conflagrado), e, mostrando leitura
do Romancero Gitano, se vale das imagens
de "guitarra" e de "gitano" para concluir
positivamente com o tópico da eternidade
da arte e da poesia.
Outro poeta importante do Brasil, Manuel
Bandeira, cognominado o São João Batista
do Modernismo, logo depois de Drummond
publica "No Vosso e em meu Coração": |
MANUEL BANDEIRA
NO VOSSO E EM MEU CORAÇÃO
Espanha no coração:
No coração de Neruda,
No vosso e em meu coração.
Espanha da liberdade,
Não a Espanha da opressão.
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Velha Espanha de Pelaio,
Do Cid, do Grã-Capitão!
Espanha de honra e verdade,
Não a Espanha da traição!
Espanha de Dom Rodrigo,
Não a do Conde Julião!
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Espanha dos grandes místicos,
Dos santos poetas, de João
Da Cruz, de Teresa de Ávila
E de Frei Luís de Leão!
Espanha da livre crença,
Jamais a da Inquisição!
Espanha de Lope e Góngora,
De Góia e Cervantes, não
A de Felipe II
Nem Fernando, o balandrão!
Espanha que se batia
Contra o corso Napoleão!
Espanha da liberdade:
A Espanha de Franco, não!
Espanha republicana,
Noiva da Revolução!
Espanha atual de Picasso,
De Casals, de Lorca, irmão
assassinado em Granada!
Espanha no coração
De Pablo Neruda, Espanha
No vosso e em meu coração!
|
Percebe-se que Bandeira
também se deixou encantar pelo Romancero
Gitano, tanto que na sua homenagem à
Espanha (e a Lorca) utiliza o verso
setissílabo (em português), procurando
aproximações rítmicas com os versos de
Lorca e extraindo dos romances populares,
bem conhecidos no Nordeste brasileiro, uma
estrutura narrativa que só não se completa
pelas constantes interrupções de versos e
palavras que se vão repetindo ao longo do
poema. Professor de Literatura
Hispano-Americana na Universidade Federal
do Rio de Janeiro e tendo publicado, um
livro e sobre essa matéria, Bandeira
conhecia muito bem a literatura espanhola.
Mas, como ele mesmo se dizia "poeta
menor", isto é, não capaz de cantar os
grandes temas épicos (e políticos), chama
a atenção o seu tom de engajamento neste
poema, publicado logo depois do de
Drummond, no livro Belo Belo, de 1948.
Mais tarde, no volume de Poemas
Traduzidos, publicado em Poesia e Prosa,
em 1958, traduzirá para o português o
poema de Lorca "Toada de Negros em Cuba",
cujos primeiros versos são: |
Quando chegar a lua
cheia,
irei a Santiago de Cuba.
Irei a Santiago,
Num carro de água negra.
Irei a Santiago.
FEDERICO GARCIA LORCA
POEMA SOM DE NEGROS EM CUBA A DOM FERNANDEZ
ORTIZ
Da Obra Poética Completa Federico Garcia Lorca
Traduzido por (William Agel De Mello)
Quando chegar a lua cheia, irei a Santiago de
Cuba,
irei a Santiago,
Num carro de água negra.
Irei a Santiago.
Cantarão os tetos de palmeira.
Irei a Santiago.
Quando a palma quiser ser cegonha,
irei a Santiago.
E quando quiser ser medusa o plátano,
irei a Santiago.
Irei a Santiago
com a loira cabeça de Fonseca.
Irei a Santiago.
E com a cor rosada de Romeu e Julieta,
irei a Santiago.
Mar de papel e prata de moedas.
Irei a Santiago.
Oh, Cuba! Oh, ritmo de sementes secas!
Irei a Santiago.
Oh, cintura quente e gota de madeira!
Irei a Santiago.
Harpa de troncos vivos.Caimão.Flor de tabaco.
Irei a santiago.
Sempre disse que iria a Santiago
em um carro de água negra.
Irei a Santiago.
Brisa e ácool nas rodas,
irei a Santiago.
Meu coral na treva,
irei a Santiago.
O mar afogado na areia,
irei a Santiago.
Calor branco. Fruta morta.
Irei a Santiago.
Oh, bovino frescor de canaviais!
Oh, Cuba! Oh, curva de suspiro e barro!
Irei a Santiago.
|
Outro poeta de grande
nome no Brasil e no estrangeiro é Vinícius
de Moraes, que apareceu na segunda geração
do modernismo, a partir de 1930. A sua
obra trouxe ao modernismo o sentido de
equilíbrio entre o velho e o novo,
restaurando formas como o soneto e a
balada e, pricnipalmente, dando ao verso
tradicional uma nova linguagem e um ritmo
novo aos versos livres, numa musicalidade
que agradou bastante o leitor. Não é,
portanto, por acaso, que Vinícius de
Moraes veio a tornar-se um dos maiores
compositores da música popular brasileira.
No seu livro Nossa Senhora de los Ángeles
e Nossa Senhora de Paris, escritos no fim
da década de 1940 e publicado em Obra
Poética (1968), dedica um poema à morte de
García Lorca: "A Morte na Madrugada", com
uma epígrafe tomada a Antonio Machado ("Muerto
cayó Federico".). Este poema retoma também
o sentido narrativo do Romancero Gitano,
intertextualizando alguns de seus versos,
como na primeira e na última estrofes: |
VINÍCIUS DE MORAES
A MORTE NA MADRUGADA
Uma certa madrugada
Eu por um caminho andava
Não sei bem se estava bêbado
Ou se tinha a morte n'alma
Não sei também se o caminho
Me perdia ou encaminhava.
Só sei que a sede queimava-me
A boca desidratada.
Era uma terra estrangeira
Que me recordava algo
Com sua argila cor de sangue
E seu ar desesperado.
Lembro que havia uma estrela
Morrendo no céu vazio
De uma outra coisa me lembro:
-um horizonte de perros
ladra muy lejos del río.
Atiraram-lhe na cara
Os vendilhões de sua pátria
Nos seus olhos andaluzes
Em sua boca de palavras.
Muerto cayó Federico
Sobre a terra de Granada
La tierra del inocente
No la tierra del culpable.
Nos olhos que tinha abertos
Numa infinita mirada
Em meio a flores de sangue
A expressão se conservava
Como a segredar-me: - a morte
É simples, de madrugada.
|
Percebe-se neste poema a
força da influência da poesia de García
Lorca, sobretudo a partir do Romancero
Gitano, de 1928. Os poetas jovens do
Brasil, vindos da dicção modernista,
haviam abandonado a redondilha, talvez
considerando-a demasiadamente popular.
Lorca ajudou portanto a restaurar uma
forma poética na literatura brasileira, a
que tinha, aliás, como contraponto
popular, o uso quase exclusivo dos versos
de sete sílabas, como nos poetas de
cordel, principalmente do Nordeste. Via-se
que tal ritmo, tido como superado, estava
sendo trabalhado por Lorca no sentido de
juntar o popular ao erudito. Daí uma série
de poemas em redondilhas, a partir de
1945, o que fez a crítica pensar numa
volta aos movimentos literários anteriores
ao modernismo. Chegou-se a falar num
Neomodernismo - a geração de 45, de onde
saíram João Cabral e Lêdo Ivo.
Encontro, também, na obra de Murilo Mendes
um "Canto a García Lorca". Está no livro
sintomaticamente denominado Tempo
Espanhol, de 1950, e na Poesia Completa,
de 1994. Com uma linguagem contida e
rigorosa e imagens como "linguagem
corporal", o "sal da inteligência", "EL
DUENDE", o poeta brasileiro homenageia o
sentido poético de García Lorca, em cuja
obra "Espanha é calculada/ Em número, peso
e medida", como se lê no final do poema: |
MURILO MENDES
CANTO A GARCIA LORCA
Não basta o sopro do vento
Nas oliveiras desertas,
O lamento de água oculta
Nos pátios da Andaluzia.
Trago-te o canto poroso,
O lamento consciente
Da palavra à outra palavra
Que fundaste com rigor.
O lamento substantivo
Sem ponto de exclamação:
Diverso do rito antigo,
Une a aridez ao fervor
Recordando que soubeste
Defrontar a morte seca
Vinda no gume certeiro
Da espada silenciosa
Fazendo irromper o jacto
De vermelho: cor de mito
Criado com a força humana
Em que sonho e realidade
Ajustam seu contraponto.
Consolo-me de tua morte.
Que ela nos elucidou
Tua linguagem corporal
Onde EL DUENDE é alimentado
Pelo sal da inteligência,
Onde Espanha é calculada
Em número, peso e medida.
|
Pelo que se vê destes
exemplos, dez anos depois da morte de
García Lorca, quatro dos maiores poetas
brasileiros deste século - e todos na
mesma época - prestaram a sua
solidariedade ao poeta espanhol.
Celebraram principalmente a sua morte,
deixando aqui e ali referência a seu
espírito andaluz, à sua temática gitana e
popular, captando e absorvendo algo de sua
estilítisca, tendo sempre como ponto de
partida o Romancero Gitano.
A obra de Lorca deve ter
demorado a chegar ao Brasil e só ganhou
repercussão com a morte do poeta,
despertando assim os ânimos políticos que
já cresciam entre os intelectuais. Mas a
verdade é que houve um período de silêncio
entre a sua morte e o primeiro poema que
lhe foi dedicado, em 1947, por Drummond.
que, parece, iniciou a moda de poemas
dedicados ao poeta de Granada.
Os poetas da geração de
45 entram em cheio na leitura de García
Lorca, traduzindo seus versos e algumas de
suas peças, como se vê numa coleção da
Editora Agir, no Rio de Janeiro. No
entanto, as gerações seguintes parece que
já não conhecem mais o poeta. E os
comparatistas, preocupados com o "x" e o
"y" das teorias literárias - pelo que se
deduz das teses de mestrado e doutorado
defendidas nas universidades brasileiras -
não foram ainda capazes de entrar no
"bosque negro y centenario" do poeta
nascido em 1898, há cem anos precisamente
e para quem, como escreve num de seus
"Poemas en Prosa", é preciso romper com a
"literatura vieja" para que los dogmas se
purifiquen y las normas tengan nuevo
temblor. |
Salamanca, Diciembre de
1998.
JORNAL DE POESIA
GILBERTO MENDONÇA TELES
Gilberto Mendonça Teles
Pesquisa Avançada
Site de Busca
Google
Fonte
Jornal de
Poesia
Gilberto Mendonça Teles
www.secrel.com.br/jpoesia/teles.html
Pesquisa e Edição
Iracema Zanetti |