BIOGRAFIA

 

Gilberto Mendonça Teles é de Bela Vista, GO, 30.5.1931. Curso de Direito e Letras neolatinas. Especialização na Universidade de Coimbra. Doutor em letras e Livre-Docente em Literatura Brasileira. Professor-Titular da PUC-RJ e fundador das duas universidades de Goiás. Lecionou no Uruguai e nas universidades de Lisboa, Rennes e Mantes (França) e Chicago. Dedica-se à poesia (quinze livros). Tem livros publicados no Uruguai, em Portugal, na França e na Espanha. Prêmio Machado de Assis " (conjunto de obras da A.B.L.) Gosta de pescar.

POEMAS
GILBERTO MENDONÇA TELES

POEMA I
45
A Domingos Carvalho da Silva

Sou da geração
de quarenta e cinco
ou tenho na mão
a porta sem trinco?

(Nem sei quantas são
as telhas de zinco
que cobrem meu chão
de quarenta e cinco.)

Semeei meu grão?
fui ao fim do afinco?
pesquei a paixão
de quarenta e cinco?

Tudo é sim e não
em quarenta e cinco.
E a melhor lição
forma sempre um vinco
de interrogação
no tempo, onde brinco
procurando um vão
entre o 4 e o 5.



POEMA II
NO CURSO DO DIA

Agora que me vou é que me deixo
ficar perdidamente nesta estrada:
vou numa roda viva, mas sem eixo,
numa coisa futura, mas passada.
Vou e não vou e assim se vai compondo
o que me está aos poucos dividindo:
não a zoada azul de um marimbondo,
mas a certeza de um amor tão lindo.
Alguma coisa vai ficando, além do
tempo em que me dou e me reparto:
ficou meu coração, ficou batendo,
batendo na penumbra de algum quarto.
Ficou o que mais quero e vai comigo:
molharam nalgum curso os seus cabelos
para compor as novas semifusas
dos meus silêncios, dos meus atropelos.
Mas no curso dos dias que há por dentro
de cada um de nós, na nossa história,
alguém por certo encontrará o centro
de tudo que ficou na trajetória.
E o que ficou, ficou: raiz noctuma
enterrada nas ruas, nos quintais;
vento varrendo o pó de alguma furna,
chuvas de pedra, alguns trovões, Goiás.



POEMA III
MODERNISMO

No fundo, eu sou mesmo é um romântico inveterado.
No fundo, nada: eu sou romântico de todo jeito.
Eu sou romântico de corpo e alma,
de dentro e fora,
de alto e baixo, de todo lado: do esquerdo e do direito.
Eu sou romântico de todo o jeito.
Sou um sujeito sem jeito que tem medo de avião,
um individualista confesso, que adora luares,
que gosta de piqueniques e noitadas festivas,
mas que vai se esconder no fundo dos restaurantes.
Um sujeito que nesta recta de chegada dos cinquenta
sente que seu coração bate tão velozmente
que já nem agüenta esperar mais as moças
da geração incerta dos dois mil.
Vejam, por exemplo, a minha carta de apaixonado,
a minha expressão de timidez, as minhas várias
tentativas frustradas de D.Juan.
Vejam meu pessimismo político,
meu idealismo poético,
minhas leituras de passatempo.
Vejam meus tiques e etiquetas,
meus sapatos engraxados,
meus ternos enleios,
meu gosto pelo passado
e pelos presentes,
minhas cismas, e raptos.
Vejam também minha linguagem
cheia de mins, de meus e de comos.
Vejam, e me digam se eu não sou mesmo
um sujeito romântico que contraiu o mal do século
e ainda morre de amor pela idade média
das mulheres.



POEMA IV
CRIAÇÃO

O verbo nunca esteve no início
dos grandes acontecimentos.
No início estamos nós, sujeitos
sem predicados,
tímidos,
embaraçados,
às voltas com mil pequenos problemas
de delicadezas,
de tentativas e recuos,
neste jogo que se improvisa à sombra
do bem e do mal.
No início estão as reticências,
este-querer-não-querendo,
os meios-tons,
a meia-luz,
os interditos
e as grandes hesitações
que se iluminam
e se apagam de repente.
No início não há memória nem sentença,
apenas um jeito do coração
enunciar que uma flor vai-se abrindo
como um dia de festa, ou de verão.
No início ou no fim (tudo é finício)
a gente se lembra de que está mesmo com Deus
à espera de um grande acontecimento,
mas nunca se dá conta de que é preciso
ir roendo,
roendo,
roendo
um osso duro de roer.



POEMA V
CHÁ DAS CINCO
A Jorge Amado

chá de poejo para o teu desejo
chá de alfavaca já que a carne é fraca
chá de poaia e rabo de saia
chá de erva-cidreira se ela for solteira
chá de beldroega se ela foge e nega
chá de panela para as coisas dela
chá de alecrim se ela for ruim
chá de losna se ela late ou rosna
chá de abacate se ela rosna e late
chá de sabugueiro para ser ligeiro
chá de funcho quando houver carunhco
chá de trepadeira para a noite inteira
chá de boldo se ela pedir soldo
chá de confrei se ela for de lei
chá de macela se não for donzela
chá de alho para um ato falho
chá de bico quando houver fuxico
chá de sumiço quando houver enguiço
chá de estrada se ela for casada
chá de marmelo quando houver duelo
chá de douradinha se ela for gordinha
chá de fedegoso pra mijar gostoso
chá de cadeira para a vez primeira
chá de jalapa quando for no tapa
chá de catuaba quando não se acaba
chá de jurema se exigir poema
chá de hortelã e até manhã
chá de erva-doce e acabou-se
(pelo sim pelo não chá de barbatimão)



POEMA VI
HISTÓRIA

Toda história tem seu texto
tem seu pretexto e pronúncia.
Tem seu remorso, seu sexto
sentido de arte e denúncia.
Tem um sujeito que a escolhe
que se encolhe e se confunde:
um lugar que sempre a tolhe
qui tollis peccata mundi.
Tem sua forma em processo,
tem seu recesso e cansaço,
e tem seu topo de excesso
no ponto extremo do escasso.
Tem sua língua felpuda,
a voz aguda e afetada.
R tem a essência que muda
e permanece, calada.
Toda história tem seu preço,
tem seu começo e seu dito.
É só virar pelo avesso,
ler o que está subscrito.



POEMA VII
O DISCURSO

Havia a necessidade absurda de falar
para manter o equilíbrio da mesa
e preservar a reputação implícita
nos gestos.
Alguém chegou a reclamar a urgência
de um gravador para medir as vaias.
Outro, mais complacente, se preparava
para pedir bis. Um terceiro mastigou
ruidosamente a ponta da língua.
Neste momento solene... o poeta
burlou a vigilência das moscas
e deu um salto mortal no meio
do discurso.
E ante a curiosidade geral dos convivas,
fabricou um cavalo de miolo de pão
e fugiu a galope, levando à garupa
a garota que estava fingindo que não.



HOMENAGEM A FEDERICO GARCÍA LORCA POR POE ATRAVÉS DO ESTUDO DE LORCA NO BRASIL:
POR GILBERTO MENDONÇA FEITOSA
 

Creio oportunas duas pequenas digressões iniciais, sugeridas pela própria natureza deste artigo: uma ligeira incursão pela teoria comparatista; e algumas observações sobre este tipo de estudo no Brasil.

O estudo da literatura comparada no Brasil, como de resto em toda parte, não tem conseguido libertar-se da metodologia herdada do positivismo em que se criaram ou se consolidaram as ciências sociais. Os principais "gêneros" da Poética (crítica, ensaio, teoria, história literária, literatura comparada e os vários tipos de exegese textual), ainda que não possuam - alguns deles - a sua tradição estética ou filosófica, obtiveram o seu reconhecimento a partir do fim do século passado, no auge do evolucionismo. Aí se fundou o comparatismo literário, o qual, como tudo ligado à velha história literária, permaneceu aferrado às técnicas tradicionais, principalmente no que diz respeito aos processos de comparação.

Isto explica o sucesso e a permanência (e também a crise) da fórmula "x e y", de que fala Pierre Brunel, em que o ponto de vista especulativo, sempre unilateral, sempre cronológico e descritivo, vai, inevitavelmente, de um receptor para uma fonte emissora. Por trás, como dado absoluto, a visão eurocentrista, dominadora. Tudo se passa, ou se passava, como se na literatura não houvesse imaginário, como se não houvesse desejo de originalidade e como se a "influência" só se desse a partir da Europa, isto é, de Paris. E mesmo que a fórmula evoluísse para "x versus y", com ênfase na tensão entre comparante e comparado, a natureza da comparação era, no fundo, a mesma: de uma literatura, de um movimento, de uma obra, de uma imagem da literatura européia para, digamos, um movimento, uma obra ou uma imagem da literatura latino-americana.

Na verdade, "x e y" ou "x versus y" devem ser vistos hoje como níveis de um processo mais vasto de comparação, em que as noções de contexto e de intertextualidade põem em movimento uma complexidade de relações que exigem do estudioso não somente o conhecimento dos dois objetos comparados (seus contextos, suas ideologias e suas tendências transformadoras), mas também a consciência da multiplicidade das "fontes", além, é claro, de uma abertura para as inúmeras possibilidades de análises postas em cena pelas correntes da crítica contemporânea e que, a bem dizer, acabaram confundindo o aluno e quantos se iniciavam nos estudos literários. A idéia tradicional do senso comum desapareceu das universidades brasileiras, onde cada professor de teoria literária se esforçava por exibir "o último tango de Paris".

A noção de "discurso paralelo", que desenvolvemos em a Retórica do Silêncio - I, de 1979 (e que aparece ou reaparece com o nome de "parataxe" em Palimpsestes, 1981, de Gérard Genette), rompe com o sentido unilateral (de A para A¹ ou de A para B), põe o comparatista nos "limites da intertextualidade", leva-o para além do princípio visível das semelhanças e mostra-lhe, sob a forma das diferenças, o lado "invisível", a dimensão paradigmática dos textos comparados.

Num dos texto de suas Poesías Juveniles, escrita entre 1917 e 1919, García Lorca fala de seu "bosque negro y centenario" e pede aos meninos e adolescentes da época que guardem "el corazón muy bien del Tiempo" e do desengano. Possivelmente estaria se referindo aos "Niños buenos" de sua Fuentevaqueros, de Granada ou de toda a Andalucía, por onde deve ter andado na sua infância e adolescência. Mas a referência, numa universalização que tem muito a ver com os horizontes de expectações em que se move a sua obra, poderia ser também estendida aos "niños" poetas da Espanha, da Argentina, do Uruguai, do Chile e de Nova Yorque, países e cidades onde conquistou a admiração de quem o conheceu, expressando ao vivo a nova força poética da literatura espanhola. Já se disse que a sua popularidade causou inveja aos seus "amigos" de Espanha, que o "deduraram", durante a guerra civil. O termo foi inventado pelos brasileiros para indicar os que apontavam (denunciavam) os seus inimigos ao Serviço Nacional de Informação (SIN), na revolução militar de 1964.

Na época em que García Lorca escrevia os poemas mencionados, havia no Brasil toda uma plêiade de poetas adolescentes que viriam a ser conhecidos como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes e Murilo Mendes, todos eles futuros admiradores do poeta do Cancionero Gitano.

O Modernismo brasileiro, iniciando em 1922, ia atingir o melhor de si por volta de 1930, quando se dá a revolução que conduziu Getúlio Vargas ao poder. Foi um período de inquietação política e intelectual. Muitos escritores foram convocados a servir ao governo, como Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, nomeado chefe do gabinte do seu amigo Gustavo Capanema, ministro da Educação e Saúde, como era o nome do ministério naquela época. Em l932, rebela-se o Estado de São Paulo, exigindo o cumprimento da Constituição; em 1935, o governo reprime uma possível intentona comunista; e em 1937, acaba criando o Estado Novo, sob influência facista, fechando o congresso nacional e impondo uma constituição feita especialmente para os seus propósitos ditatoriais, e que durou até o fim da segunda guerra mundial. Criou-se então o famoso e famigerado Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), que tanto mal fez aos intelecutuais e políticos brasileiros, cassando-os, aposentando-os e exilando-os ou obrigando-os a exilar-se, tal como iria acontecer novamente a partir de 1964. Foi, no entanto, um período de grande transformação social no Brasil, com benefícios que vêm sendo aperfeiçoados a favor da população brasileira.

Os escritores mencionados, agora com os seus quarenta anos e já conhecidos como grandes poetas, só começam, entretanto, a escrever sobre García Lorca depois da queda do Estado Novo. Parece que tiveram algum receio de desagradar a censura da época. Lorca havia sido fuzilado pelo governo espanhol, e não se sabia bem por quê, possivelmente por atuação comunista, como se pensava e não se dizia. A repressão ao comunismo veio dos Estados Unidos e cresceu no Brasil, só terminando recentemente, por verdadeira inanição mental.

O primeiro a escrever sobre a morte de Lorca foi Carlos Drummond de Andrade, em 1947, no livro Novos Poemas, de 1947, mas só publicado em 1954, em Fazendeiro do Ar & Poesia até Agora. É o momento em que o poeta, resolvido o conflito entre a participação social (do modernismo) e o engajamento na linguagem (no seu próprio projeto poético), penetra cada vez mais na palabra, a usar aqui uma de suas imagens, transformando a sua linguagem no sentido da lucidez criadora, numa luminosidade órfica, de grande força poética, na direção do que escreverá depois em Lição de Coisas, em l962: "O nome é bem mais do que nome: o além- da- coisa, / coisa livre de coisa, circulando".

O poema de Drummond se intitula exatamente "A Federico García Lorca" e assim aparece na edição de sua Obra Completa (Aguilar, 1964).


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
POEMA "A FEDERICO GARCÍA LORCA"

Sobre teu corpo, que há dez anos
se vem transfundindo em cravos
de rubra cor espanhola,
aqui estou para depositar
vergonha e lágrimas.
Vergonha de há tanto tempo
viveres - se morte é vida -
sob chão onde esporas tinem
e calcam a mais fina grama
e o pensamento mais fino
de amor, de justiça e paz.
Lágrimas de noturno orvalho,
não de mágoa desiludida,
lágrimas que tão-só destilam
desejo e ânsia e certeza
de que o dia amanhecerá.
(Amanhecerá.)

Esse claro dia espanhol,
composto na treva de hoje
sobre teu túmulo há de abrir-se,
mostrando gloriosamente
- ao canto multiplicado
de guitarra, gitano e galo -
que para sempre viverão
os poetas martirizados.
 

Como se vê, o poema retrocede a um ano depois da morte de García Lorca: é como se em 1937 (o ano do Estado Novo, que vai aparecer em 10 de novembro) Drummond, escrito o poema, houvesse vacilado em incluí-lo em A Rosa do Povo, preparado desde 1943 e publicado em 1945, ainda dentro da ditadura de Getúlio Vargas e, claro, do General Franco. Todo o eixo semântico do poema se estrutura sobre as palavras "vergonha" e "lágrima", como se o poeta sentisse remorso de ter-se calado durante tanto tempo. Mas na última estrofe faz uma bela antítese entre o "claro dia espanhol" e "a treva de hoje" (que pode ser aplicada à Espanha e ao Brasil, como também a todo o mundo conflagrado), e, mostrando leitura do Romancero Gitano, se vale das imagens de "guitarra" e de "gitano" para concluir positivamente com o tópico da eternidade da arte e da poesia.

Outro poeta importante do Brasil, Manuel Bandeira, cognominado o São João Batista do Modernismo, logo depois de Drummond publica "No Vosso e em meu Coração":


MANUEL BANDEIRA
NO VOSSO E EM MEU CORAÇÃO

Espanha no coração:
No coração de Neruda,
No vosso e em meu coração.
Espanha da liberdade,
Não a Espanha da opressão.
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Velha Espanha de Pelaio,
Do Cid, do Grã-Capitão!
Espanha de honra e verdade,
Não a Espanha da traição!
Espanha de Dom Rodrigo,
Não a do Conde Julião!
Espanha republicana:
A Espanha de Franco, não!
Espanha dos grandes místicos,
Dos santos poetas, de João
Da Cruz, de Teresa de Ávila
E de Frei Luís de Leão!
Espanha da livre crença,
Jamais a da Inquisição!
Espanha de Lope e Góngora,
De Góia e Cervantes, não
A de Felipe II
Nem Fernando, o balandrão!
Espanha que se batia
Contra o corso Napoleão!
Espanha da liberdade:
A Espanha de Franco, não!
Espanha republicana,
Noiva da Revolução!
Espanha atual de Picasso,
De Casals, de Lorca, irmão
assassinado em Granada!
Espanha no coração
De Pablo Neruda, Espanha
No vosso e em meu coração!
 

Percebe-se que Bandeira também se deixou encantar pelo Romancero Gitano, tanto que na sua homenagem à Espanha (e a Lorca) utiliza o verso setissílabo (em português), procurando aproximações rítmicas com os versos de Lorca e extraindo dos romances populares, bem conhecidos no Nordeste brasileiro, uma estrutura narrativa que só não se completa pelas constantes interrupções de versos e palavras que se vão repetindo ao longo do poema. Professor de Literatura Hispano-Americana na Universidade Federal do Rio de Janeiro e tendo publicado, um livro e sobre essa matéria, Bandeira conhecia muito bem a literatura espanhola. Mas, como ele mesmo se dizia "poeta menor", isto é, não capaz de cantar os grandes temas épicos (e políticos), chama a atenção o seu tom de engajamento neste poema, publicado logo depois do de Drummond, no livro Belo Belo, de 1948. Mais tarde, no volume de Poemas Traduzidos, publicado em Poesia e Prosa, em 1958, traduzirá para o português o poema de Lorca "Toada de Negros em Cuba", cujos primeiros versos são:

Quando chegar a lua cheia,
irei a Santiago de Cuba.
Irei a Santiago,
Num carro de água negra.
Irei a Santiago.


FEDERICO GARCIA LORCA
POEMA SOM DE NEGROS EM CUBA A DOM FERNANDEZ ORTIZ
Da Obra Poética Completa Federico Garcia Lorca
Traduzido por (William Agel De Mello)

Quando chegar a lua cheia, irei a Santiago de Cuba,
irei a Santiago,
Num carro de água negra.
Irei a Santiago.
Cantarão os tetos de palmeira.
Irei a Santiago.
Quando a palma quiser ser cegonha,
irei a Santiago.
E quando quiser ser medusa o plátano,
irei a Santiago.
Irei a Santiago
com a loira cabeça de Fonseca.
Irei a Santiago.
E com a cor rosada de Romeu e Julieta,
irei a Santiago.
Mar de papel e prata de moedas.
Irei a Santiago.
Oh, Cuba! Oh, ritmo de sementes secas!
Irei a Santiago.
Oh, cintura quente e gota de madeira!
Irei a Santiago.
Harpa de troncos vivos.Caimão.Flor de tabaco.
Irei a santiago.
Sempre disse que iria a Santiago
em um carro de água negra.
Irei a Santiago.
Brisa e ácool nas rodas,
irei a Santiago.
Meu coral na treva,
irei a Santiago.
O mar afogado na areia,
irei a Santiago.
Calor branco. Fruta morta.
Irei a Santiago.
Oh, bovino frescor de canaviais!
Oh, Cuba! Oh, curva de suspiro e barro!
Irei a Santiago.
 

Outro poeta de grande nome no Brasil e no estrangeiro é Vinícius de Moraes, que apareceu na segunda geração do modernismo, a partir de 1930. A sua obra trouxe ao modernismo o sentido de equilíbrio entre o velho e o novo, restaurando formas como o soneto e a balada e, pricnipalmente, dando ao verso tradicional uma nova linguagem e um ritmo novo aos versos livres, numa musicalidade que agradou bastante o leitor. Não é, portanto, por acaso, que Vinícius de Moraes veio a tornar-se um dos maiores compositores da música popular brasileira. No seu livro Nossa Senhora de los Ángeles e Nossa Senhora de Paris, escritos no fim da década de 1940 e publicado em Obra Poética (1968), dedica um poema à morte de García Lorca: "A Morte na Madrugada", com uma epígrafe tomada a Antonio Machado ("Muerto cayó Federico".). Este poema retoma também o sentido narrativo do Romancero Gitano, intertextualizando alguns de seus versos, como na primeira e na última estrofes:


VINÍCIUS DE MORAES
A MORTE NA MADRUGADA

Uma certa madrugada
Eu por um caminho andava
Não sei bem se estava bêbado
Ou se tinha a morte n'alma
Não sei também se o caminho
Me perdia ou encaminhava.
Só sei que a sede queimava-me
A boca desidratada.
Era uma terra estrangeira
Que me recordava algo
Com sua argila cor de sangue
E seu ar desesperado.
Lembro que havia uma estrela
Morrendo no céu vazio
De uma outra coisa me lembro:
-um horizonte de perros
ladra muy lejos del río.

Atiraram-lhe na cara
Os vendilhões de sua pátria
Nos seus olhos andaluzes
Em sua boca de palavras.
Muerto cayó Federico
Sobre a terra de Granada
La tierra del inocente
No la tierra del culpable.
Nos olhos que tinha abertos
Numa infinita mirada
Em meio a flores de sangue
A expressão se conservava
Como a segredar-me: - a morte
É simples, de madrugada.
 

Percebe-se neste poema a força da influência da poesia de García Lorca, sobretudo a partir do Romancero Gitano, de 1928. Os poetas jovens do Brasil, vindos da dicção modernista, haviam abandonado a redondilha, talvez considerando-a demasiadamente popular. Lorca ajudou portanto a restaurar uma forma poética na literatura brasileira, a que tinha, aliás, como contraponto popular, o uso quase exclusivo dos versos de sete sílabas, como nos poetas de cordel, principalmente do Nordeste. Via-se que tal ritmo, tido como superado, estava sendo trabalhado por Lorca no sentido de juntar o popular ao erudito. Daí uma série de poemas em redondilhas, a partir de 1945, o que fez a crítica pensar numa volta aos movimentos literários anteriores ao modernismo. Chegou-se a falar num Neomodernismo - a geração de 45, de onde saíram João Cabral e Lêdo Ivo.

Encontro, também, na obra de Murilo Mendes um "Canto a García Lorca". Está no livro sintomaticamente denominado Tempo Espanhol, de 1950, e na Poesia Completa, de 1994. Com uma linguagem contida e rigorosa e imagens como "linguagem corporal", o "sal da inteligência", "EL DUENDE", o poeta brasileiro homenageia o sentido poético de García Lorca, em cuja obra "Espanha é calculada/ Em número, peso e medida", como se lê no final do poema:

MURILO MENDES
CANTO A GARCIA LORCA

Não basta o sopro do vento
Nas oliveiras desertas,
O lamento de água oculta
Nos pátios da Andaluzia.
Trago-te o canto poroso,
O lamento consciente
Da palavra à outra palavra
Que fundaste com rigor.
O lamento substantivo
Sem ponto de exclamação:
Diverso do rito antigo,
Une a aridez ao fervor
Recordando que soubeste
Defrontar a morte seca
Vinda no gume certeiro
Da espada silenciosa
Fazendo irromper o jacto
De vermelho: cor de mito
Criado com a força humana
Em que sonho e realidade
Ajustam seu contraponto.
Consolo-me de tua morte.
Que ela nos elucidou
Tua linguagem corporal
Onde EL DUENDE é alimentado
Pelo sal da inteligência,
Onde Espanha é calculada
Em número, peso e medida.
 

Pelo que se vê destes exemplos, dez anos depois da morte de García Lorca, quatro dos maiores poetas brasileiros deste século - e todos na mesma época - prestaram a sua solidariedade ao poeta espanhol. Celebraram principalmente a sua morte, deixando aqui e ali referência a seu espírito andaluz, à sua temática gitana e popular, captando e absorvendo algo de sua estilítisca, tendo sempre como ponto de partida o Romancero Gitano.

A obra de Lorca deve ter demorado a chegar ao Brasil e só ganhou repercussão com a morte do poeta, despertando assim os ânimos políticos que já cresciam entre os intelectuais. Mas a verdade é que houve um período de silêncio entre a sua morte e o primeiro poema que lhe foi dedicado, em 1947, por Drummond. que, parece, iniciou a moda de poemas dedicados ao poeta de Granada.

Os poetas da geração de 45 entram em cheio na leitura de García Lorca, traduzindo seus versos e algumas de suas peças, como se vê numa coleção da Editora Agir, no Rio de Janeiro. No entanto, as gerações seguintes parece que já não conhecem mais o poeta. E os comparatistas, preocupados com o "x" e o "y" das teorias literárias - pelo que se deduz das teses de mestrado e doutorado defendidas nas universidades brasileiras - não foram ainda capazes de entrar no "bosque negro y centenario" do poeta nascido em 1898, há cem anos precisamente e para quem, como escreve num de seus "Poemas en Prosa", é preciso romper com a "literatura vieja" para que los dogmas se purifiquen y las normas tengan nuevo temblor.

Salamanca, Diciembre de 1998.

JORNAL DE POESIA
GILBERTO MENDONÇA TELES


Gilberto Mendonça Teles
Pesquisa Avançada
Site de Busca
Google


Fonte
Jornal de Poesia
Gilberto Mendonça Teles
www.secrel.com.br/jpoesia/teles.html


Pesquisa e Edição
Iracema Zanetti

Edição: Delasnieve Daspet

Música: Clair de Lune

 

 
 


Para receber nosso
Boletim de Atualizações
cadastre AQUI o seu email


Envie esta página
para alguém especial