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MEU ÓDIO SANTO E PURO E BENFAZEJO...
QUANDO TUDO ACONTECEU...
1861: Nasce João da
Cruz, em Nossa Senhora do Desterro (hoje
Florianópolis, capital do Estado de Santa
Catarina), a 24 de Novembro. Filho de Guilherme
da Cruz, mestre pedreiro, e Carolina Eva da
Conceição, lavadeira, ambos negros e escravos,
alforriados por seu senhor, o coronel Guilherme
Xavier de Sousa. Do coronel, o menino João
recebeu o último sobrenome e a proteção, tendo
vivido em seu solar como filho de criação.
1869: Aos oito anos, recita versos seus em
homenagem a seu protetor, que voltava, promovido
a marechal, da Guerra do Paraguai.
1871: Matricula-se no
Ateneu Provincial Catarinense, onde estudou até
o fim de 1875, tendo aprendido francês, inglês,
latim, grego, matemática e ciências naturais.
Essa última disciplina fora-lhe ensinada pelo
naturalista alemão Fritz Müller, amigo e
colaborador de Darwin e Haeckel.
Além das palavras do amigo Virgílio Várzea:
"Distinguiu-se acima de todos os seus
condiscípulos", Cruz e Sousa mereceu elogios de
Fritz Müller, para quem a inteligência do jovem
negro era a prova de que suas opiniões
anti-racistas estavam corretas.
1881: Funda, com Virgílio Várzea e Santos
Lostada, o jornal Colombo, no qual proclamavam
adesão à Escola Nova (que era o Parnasianismo).
Parte para uma viagem pelo Brasil, acompanhando
a Companhia Dramática Julieta dos Santos, na
função de ponto.
Realiza conferências abolicionistas em várias
capitais. Lê Baudelaire, Leconte de Lisle,
Leopardi, Guerra Junqueiro, Antero de Quental.
1884: O presidente da província, Dr. Francisco
Luís da Gama Rosa, nomeia Cruz e Sousa Promotor
de Laguna. O poeta não pôde tomar posse do
cargo, pois a nomeação fora impugnada pelos
políticos locais.
1885: Publica Tropos e Fantasias, em colaboração
com Virgílio Várzea. Dirige o jornal ilustrado O
Moleque, cujo título provocativo revela o
caráter crítico e contundente das idéias
veiculadas. Tal jornal era francamente
discriminado pelos círculos sociais da
província.
1888: A convite do amigo Oscar Rosas, parte para
o Rio de Janeiro. Durante os oito meses de
permanência no Rio, conhece o poeta Luís
Delfino, seu conterrâneo, e Nestor Vítor, que
seria o grande amigo e divulgador de sua obra.
Lê Edgar Allan Poe e Huysmans, entre outros.
1889: Retorna a Desterro, por não ter conseguido
colocação no Rio de Janeiro. Lê Flaubert,
Maupassant, os Goncourt, Théophile Gautier,
Gonçalves Crespo, Cesário Verde, Teófilo Dias,
Ezequiel Freire, B. Lopes. Inicia a conversão ao
Simbolismo.
1890: Vai definitivamente para o Rio de Janeiro,
onde obtém emprego com a ajuda de Emiliano
Perneta. Colabora nas revistas Ilustrada e
Novidades.
1891: Publica artigos-manifestos do Simbolismo,
na Folha Popular e em O Tempo. Pertence ao grupo
dos "Novos", como eram chamados os "decadentes"
ou simbolistas.
1882: Vê pela primeira vez Gavita Rosa
Gonçalves, também negra, em 18 de Setembro.
Colabora em A Cidade do Rio, de José do
Patrocínio.
1893: Publica Missal (poemas em prosa) em
Fevereiro, e Broquéis (poemas), em Agosto. Dia
09 de Novembro, casa-se com Gavita. É nomeado
praticante e, posteriormente, arquivista da
Central do Brasil.
1894: Nasce Raul, seu primeiro filho, a 22 de
Fevereiro.
1895: recebe a visita do poeta Alphonsus de
Guimaraens, que viera de Minas Gerais
especialmente para conhecê-lo. A 22 de
Fevereiro, nasce seu filho Guilherme.
1896: Em março, sua esposa Gavita apresenta
sinais de loucura. O distúrbio mental durou seis
meses.
1987: Evocações (poemas em prosa, que seriam
publicados postumamente) encontra-se pronto para
o prelo. Nasce Rinaldo, seu terceiro filho, a 24
de Julho. Ano de sérias dificuldades financeiras
e de comprometimento da saúde.
1898: Morre a 19 de Março, em Sítio (Estado de
Minas Gerais), para onde partira três dias
antes, na tentativa de recuperar-se de uma crise
de tuberculose. Tinha 37 anos. Seu corpo chega
ao Rio de Janeiro num vagão destinado ao
transporte de cavalos. José do Patrocínio
encarrega-se dos funerais. O enterro realiza-se
no Cemitério de S. Francisco Xavier, tendo o
amigo fiel, Nestor Vítor, discursado ao túmulo.
Publicação de
Evocações
Nasce-lhe o filho
póstumo, João da Cruz e Sousa Júnior, dia 30 de
Agosto, que morreria em 1915, aos 17 anos. (Seus
outros três filhos morreriam antes de 1901, ano
em que morreu sua esposa Gavita). Em 1900, dá-se
a publicação de Faróis, coletânea organizada por
Nestor Vítor.
PORQUE TODO O
POETA (COMO TODO CANTO) É NEGRO
Qual é a cor da minha
forma, do meu sentir? - pergunta Cruz e Sousa.
Entretanto, o que está a acontecer no resto do
mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
Rio de Janeiro: numa confeitaria elegante, nos
anos de 1890, um grupo de escritores saúda, em
voz alta, o jovem que se encontra à porta:
- Entra, ó Cruz e Sousa! Entra, ó grande poeta!
A ênfase dada à saudação explica-se por se
tratar de um jovem negro, que corre o risco de
ser ofendido, ou até escorraçado da confeitaria.
A escravidão já fora abolida oficialmente, mas
contra o preconceito não houve decreto, não
houve lei...
João da Cruz e Sousa ouve a saudação dos amigos,
até entende sua intenção de evitar-lhe uma
situação constrangedora, mas fita-os com olhos
tristes, como se pensasse: "Canalhas!"
Tanto mais que, próximo ao grupo dos amigos e
fiéis admiradores, encontra-se um rosto
estranho, que o observa com olhar curioso, o que
chega a ser irritante... Quem é esse homem
desconhecido, que perscruta o poeta? Seria mais
um dos seus contendores, provocadores, mais
alguém prestes a repudiá-lo abertamente nos
jornais?
Toda sua vida fora, até então, permeada por essa
mesma sensação de discriminação, de
rebaixamento. Até o modo afetivo como alguns de
seus "seguidores" a ele se referem - o Poeta
Negro - parece um estigma. Ninguém diz "poeta
branco". No Brasil escravocrata, "poeta" e
"negro" são elementos que não se casam, indicam
uma verdadeira aberração... Mas a dor de ser
discriminado pode não ser muito diferente da
grande Dor de ser homem.
Qual é a cor da minha forma, do meu sentir? Qual
é a cor da tempestade de dilacerações que me
abala? Qual a dos meus sonhos e gritos? Qual a
dos meus desejos e febre?
Uma revolta amargurada o paralisa e, por algum
(quanto?) tempo, suas atenções se deslocam do
exterior, da confeitaria, do constrangimento,
das amarras sociais, para o interior, sua alma,
presa num cárcere severo. Às vezes é preciso
invocar o ódio para suportar a dor:
Ò meu ódio, meu ódio
majestoso,
Meu ódio santo e puro e benfazejo,
Unge-me a fronte com teu grande beijo,
Torna-me humilde e torna-me orgulhoso.
O poeta lembra-se de que
sempre precisara de um escudo. Podia ser o Ódio.
Podia ser a crença em si mesmo, na própria
sensibilidade superior. Podia ser a Dor. O
desdém pelos chamados "detentores" do poder e do
saber, o desprezo pelos ditadores de regras.
Podia ser a Arte, esse escudo, esse Broquel:
esses Broquéis.
"ÓDIO SÃO, ÓDIO BOM! SÊ MEU ESCUDO!"
Pergunta Cruz e Sousa: é
de Cristo o sangue vertido, ou do escravo na
senzala? Entretanto, o que está a acontecer no
resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
O homem estranho, no interior da confeitaria,
continua a fitá-lo. Agora, sussurra alguma coisa
ao ouvido de Oscar Rosas. A sensação incômoda de
Cruz e Sousa cresce, mais uma vez ele sente que
precisa de um escudo.
Seria possível que o escudo existisse desde
Nossa Senhora do Desterro, desde os idos de
1861, ano de seu nascimento? Seu nome deveu-se
então ao santo do dia, São João da Cruz, místico
e visionário. Como também mística, metafísica e
transcendental seria sua poesia; como o poeta
estaria sob o signo da cruz.
De outros Gólgotas mais amargos subindo a
montanha imensa, - vulto sombrio tetro,
extra-humano! - a face escorrendo sangue, a boca
escorrendo sangue, o flanco escorrendo sangue,
os pés escorrendo sangue, sangue, sangue,
sangue, caminhando para tão longe, para muito
longe, ao rumo infinito das regiões melancólicas
da Desilusão e da Saudade, transfiguradamente
iluminado pelo sol augural dos Destinos!...
A imagem da tortura é bíblica ou real, empírica?
É de Cristo o sangue vertido, ou do escravo na
senzala? Ou se trata de uma metáfora da condição
do poeta, que sofre por ser "maldito" entre os
malditos? Ele se recorda da mãe, que fora
escrava:
Em fundo de tristeza e
de agonia
O teu perfil passa-me noite e dia
Aflito, aflito, amargamente aflito,
Gesto estranho que parece um grito.
Mas, de repente, eis que te reconheço,
Sinto da tua vida o amargo preço.
Eis que te reconheço, escravizada,
Divina Mãe, na Dor acorrentada.
Que reconheço a tua boca presa
Pela mordaça de uma sede acesa.
Presa, fechada pela atroz mordaça
Dos fundo desesperos da Desgraça.
("Pandemonium")
E pensar que uma parte
da crítica futura o acusaria de ficar alheio às
causas abolicionistas, trancafiado na "Torre de
Marfim" do hermetismo simbolista, por puro
desconhecimento de textos inéditos, verdadeiros
gritos de denúncia e de repúdio às injustiças
sociais. Poemas em que a revolta chega a sufocar
o transcendentalismo, através de distorções que
bem poderiam ser chamadas de expressionistas.
Como este ("Escravocratas"), em que o senhor de
escravos é o animal rastejante, o animal que
merece ser torturado:
Oh! Trânsfugas do bem
que sob o manto régio
Manhosos agachados - bem como um crocodilo,
Viveis sensualmente à luz dum privilégio
Na pose bestial dum cágado tranqüilo.
Eu quero em rude verso altivo adamastórico,
Vermelho, colossal, d´estrépito, gongórico,
Castrar-vos como um touro - ouvindo-vos urrar!)
FAZ-SE UM POETA
SINGULAR
O homem desconhecido,
agora, não apenas sussurra ao ouvido de Oscar
Rosas, como também aponta para o poeta. A face
de Cruz e Sousa ilumina-se: poderia ser um
editor, interessado em publicar novos livros
seus! Poderia ser a Sorte, que lhe sorrira na
infância, para nunca mais se dar a ver...
Infância... tempos felizes, até.
Realmente, foi sorte que o negrinho,
diferentemente do que ocorria com os outros de
sua raça, vendidos tão logo crescessem o
suficiente, recebesse o carinho paternal de seus
donos, um casal sem filhos: D. Clarinda, que o
iniciou nas letras; o Marechal Xavier de Sousa
que, ao morrer, legou a seus ex-escravos algum
dinheiro, suficiente para o sustento do menino
vivo e inteligente. Outras recordações de
Desterro vêm-lhe à mente: a instrução
sofisticada; o contato direto com um dos grandes
nomes das ciências naturais, Haeckel; o
conhecimento de idiomas: a educação típica da
elite branca. Que, longe de fazer do poeta um
conformado, iria fornecer-lhe o substrato para
uma postura crítica, uma cultura universalizante,
uma arte revolucionária.
Chega a idade adulta e, com ela, os problemas. O
negrinho esperto já não é visto como espetáculo
engraçadinho, pitoresco. É já um jovem
inconformado, consciente de que é preciso
transformar. Uma nação que sustenta a monarquia
e a escravidão não é digna de ser chamada
civilizada, diziam os republicanos e
abolicionistas, dissera CASTRO ALVES, diz Cruz e
Souza:
Vai-se acentuando,
Senhores da justiça - heróis da humanidade,
O verbo tricolor da confraternidade...
E quando, em breve, quando
Raiar o grande dia
Dos largos arrebóis - batendo o preconceito...
O dia da razão, da luz e do direito
- Solene trilogia -
Quando a escravatura
Surgir da negra treva - em ondas singulares
De luz serena e pura;
Quando um poder novo
Nas almas derramar os místicos luares,
Então seremos povo!
("Dilema")
Bem que soubera
aproveitar algumas chances oferecidas pelo
destino. Como a decisão que tomou de seguir uma
companhia de teatro em suas apresentações pelo
Brasil. Tinha que partir, ainda que fosse no
obscuro cargo de ponto, pois a vida "real"
começava a sufocar. Posteriormente, sua obra não
faria quase nenhuma referência ao teatro. Alguns
falariam em aversão à arte dramática... talvez
um trauma, depois da dissolução da Companhia,
que fizera o poeta voltar à terra natal, à
mesquinhez, à ignorância? O soneto "Acrobata da
Dor" vale-se de imagens teatrais:
Gargalha, ri, num riso
de tormenta,
Como um palhaço, que desengonçado,
Nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
De uma ironia e de uma dor violenta.
Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
Agita os guizos, e convulsionados
Salta, gavroche, salta clown, varado
Pelo estertor dessa agonia lenta...
Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! Retesa os músculos, retesa
Nessas macabras piruetas d'aço...
E embora caias sobre o chão, fremente,
Afogado em teu sangue estuoso e quente,
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.
O SABER DE ALTOS
SABERES
Que remédio? Estando de
volta a Desterro, é preciso provocar a ordem, a
política e os costumes vigentes na província,
abalar a literatura local. Para tanto, o poeta
dirige os jornais Colombo e Tribuna Popular.
Depois, O Moleque. Quem é esse, o moleque negro,
metido a intelectual, poeta e, ainda por cima, a
dândi, com suas roupas bem cortadas?
Quem, o atrevido? Indicado para a promotoria
pública? Impossível!!! Ele evoca a sensação de
saber-se capaz, até superior, às vezes, e ser
impedido, barrado, excluído, impugnado: é a
experiência de "sentir todas as forças contra
si, sabendo-se idealmente superior".
(Ivan Teixeira).
Ninguém sentiu o teu
espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.
Atravessaste num silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e mais puro.
Ninguém te viu o sofrimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.
Mas eu que sempre te segui os passos
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!
("Vida obscura")
Uma vez mais, a imagem
da prisão, reiterada tantas vezes: aqui, são os
braços presos na cruz. Em seu testamento
literário, o poema em prosa "Emparedado", o
poeta aprisionado em muros sociais implacáveis.
Num de seus últimos sonetos, a alma encontra-se
presa no cárcere do corpo. E agora, aquela
figura estranha prende o poeta com sua
curiosidade, provocando-lhe um mal-estar
desconcertante.
CONTRA AS NORMAS
ESTÉREIS, AS FORMAS ETÉREIS
Cruz e Sousa evoca sua
chegada ao Rio de Janeiro, quando experimentara
o mesmo mal-estar: tudo era novo e hostil.
Quanta ilusão pensar que a capital do país, como
uma cidade mais intelectualizada, mais moderna
que Desterro, iria reconhecer-lhe o talento.
Na primeira vinda ao Rio de Janeiro, bem que
tentara estabelecer-se. Foram oito meses de
portas fechadas, de dificuldades. Pelo menos,
conhecera Nestor Vítor, seu grande amigo, o fiel
divulgador de sua obra (quem, diz a lenda - e
disso o poeta nem desconfia - iria acender-lhe
velas diante do retrato, após sua morte). Pelo
menos, há cada vez mais a poesia, há Charles
Baudelaire, há Edgar Allan Poe: seus refúgios.
Lá, dentro da confeitaria, Oscar Rosas continua
dando ouvidos ao desconhecido. Cruz e Sousa fixa
os olhos no amigo; graças a ele e a outros, como
Emiliano Perneta, conseguira estabelecer-se
definitivamente no Rio de Janeiro, onde a moda
literária é então o Parnasianismo. A poesia
oficial, reconhecida pela intelectualidade, pela
imprensa, pelos escritores já consagrados, é
aquela produzida pela tríade formada por Olavo
Bilac, Raimundo Corrêa e Alberto de Oliveira.
Uma poesia cujo "realismo" volta-se para a
objetividade pictórica de sabor neoclássico, que
prima pelo culto à forma. Cruz e Sousa foi o seu
tanto parnasiano, esteta da "Arte pela Arte":
Como eu vibro este
verso, esgrimo e torço,
Tu, Artista sereno, esgrime e torce:
Emprega apenas um pequeno esforço
Mas sem que a Estrofe a pura idéia force.
Tantas contendas com o
grupo dos Parnasianos, mas quem pode negar a
semelhança entre esses versos e os de "Profissão
de Fé", o hino parnasiano, de autoria Olavo
Bilac? Mas, à preocupação com a forma, tão
tipicamente parnasiana:
Assim terás o culto pela
Forma,
Culto que prende os belos gregos da Arte
E levarás no teu ginete, a norma
Dessa transformação, por toda a parte.
Vem somar-se uma musicalidade estranha:
Enche de estranhas vibrações sonoras
A tua Estrofe, majestosamente...
Põe nela todo o incêndio das auroras
Para torná-la emocional e ardente. E uma
sensorialidade inusitada, sinestésica, contrária
à impassibilidade parnasiana:
Derrama luz e cânticos e poemas
No verso e torna-o musical e doce
Como se o coração, nessas supremas
Estrofes, puro e diluído fosse.
("Arte")
Diluir é o passo para
sublimar, para ascender, ou transcender: "Para
atingir o mundo das Essências, é preciso
primeiramente destruir o mundo concreto, é
preciso, partindo do Parnaso, que é a apologia
das formas duras, sólidas de linhas bem
talhadas, e da indestrutibilidade, mármore,
metal , marfim, ultrapassá-lo, para misturar as
linhas, mergulhar relevos, extinguir os
contornos."
(Roger Bastide)
"ARTISTA! PODES LÁ
ISSO SER SE TU ÉS D'ÁFRICA, TÓRRIDA E BÁRBARA?"
O Parnasianismo é
oficial e Cruz e Sousa sente que sua poesia é
marginal. Menos descritiva, mais sugestiva;
menos racional, mais sensorial; menos pictórica,
mais musical; menos referencial e mais indireta,
ou seja, mais simbólica: com ela surge entre nós
o Simbolismo.
Herdeiro de Blake, Poe e do decadentismo de
Baudelaire, o Simbolismo é ofuscado pelo
beletrismo parnasiano. Entretanto, o poeta segue
seu credo. Os modismos não o atraem, as
concessões o irritam, a bajulação o enoja. Daí
uma postura independente, aparentemente
orgulhosa, que tanto provoca os inimigos. E lega
ao poeta um lugar parecido com aquele celebrado
por Charles Baudelaire como o do Poeta
amaldiçoado.
Não só na temática do poeta maldito e na teoria
das correspondências encontram-se as influências
de Baudelaire, mas também no culto de um gênero
literário novo: o poema em prosa.
- Charles, meu belo Charles voluptuoso e
melancólico, meu Charles nonchalant, nevoento
aquário de spleen, profeta muçulmano do tédio, ó
Baudelaire desolado, nostálgico e delicado!
("No inferno")
Cruz e Sousa já não tem mais esperança de que o
desconhecido da confeitaria seja um editor. Caso
contrário, já teria vindo até ele, entusiasmado,
com a alguma proposta a fazer-lhe. Pelo visto, a
sorte de encontrar quem publicasse seus livros
ocorrera uma única vez, graças à iniciativa de
Domingos de Magalhães que, ousadamente,
publicara dois livros seus:
Fevereiro de 1893: os poemas em prosa de Missal.
Incompreendidos. Criticados. Execrados. Árdua é
a sina de ter de aturar juízos míopes, como o do
ilustre e respeitadíssimo crítico José
Veríssimo:
"[Missal] é um amontoado de palavras, que
dir-se-iam tiradas ao acaso, como papelinhos de
sorte, e colocadas umas após outras na ordem em
que vão saindo, com raro desdém da língua, da
gramática e superabundante uso de maiúsculas.
Uma ingênua presunção, nenhum pudor em
elogiar-se, e, sobretudo, nenhuma compreensão,
ou sequer intuição do movimento artístico que
pretende seguir, completam a impressão que deixa
este livro em que as palavras servem para não
dizer nada."
(José Veríssimo não imagina que anteviu, na
poética de Cruz e Sousa, o que Tristan Tzara
proporia como "Receita para se fazer um poema
dadaísta", em 1920... E pensar que esse mesmo
crítico, após a morte de Cruz e Sousa, faria sua
retratação, dizendo ser a poesia do Dante Negro
"o ponto culminante da lírica brasileira em
quatrocentos anos de existência.")
Agosto de 1893, Broquéis. Apesar de bastante
parnasiano, sob alguns aspectos, inaugura no
Brasil uma nova linguagem poética, marcada pela
rarefação do referente e pela musicalidade
sugestiva. Teve sorte um pouco melhor, recebeu
algumas linhas elogiosas por parte da imprensa.
Quase todos reconheceram a musicalidade
inovadora dos versos de Broquéis. O que não quer
dizer que as portas da cúpula literária
abriram-se para o poeta. José Veríssimo (de
novo!) viu como principal característica dos
poemas de Broquéis a "falta de emoção real"
(!!!) E surgem outras vozes, como a de Artur de
Azevedo, também de formação positivista,
naturalista e parnasiana, que até apreciaram o
ritmo ..., mas não podiam entender os versos do
poeta negro: o que tal imagem significa?
Qual a lógica de tais e tais idéias? O que quer
dizer "sonho branco de quermesse"?, pergunta
Artur de Azevedo? Sem atinar para o fato de que
o ilogismo poderia ser a chave para o encontro
da verdadeira Arte, os críticos chegam a uma
conclusão: Cruz e Sousa é um poeta de poucas
idéias.
ARTISTA: O
SUPERCIVILIZADO DOS SENTIDOS
Cruz e Sousa publica
Broquéis (poemas). Entretanto, o que está a
acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua
Cronológica.
Todas essas críticas, recentes, encontram ainda
ressonância na sensibilidade do poeta. Talvez
isso explique seu receio de finalmente entrar na
confeitaria e cumprimentar seus amigos.
É Domingo, e naquele lugar reúne-se não só o
grupo dos "Novos", mas também o dos escritores
consagrados: Bilac, Coelho Neto (sobre quem
recaem as suspeitas do poeta a respeito da
autoria de um soneto hediondo, que satiriza seu
estilo); às vezes, até MACHADO DE ASSIS.
Por outro lado, ali estavam aqueles cuja alma
era receptiva às suas inovações poéticas,
aqueles que, mesmo sem "entender" sua poesia,
sentiam-na como a bruma envolvente e redentora.
Aqueles que lhe elogiaram até mesmo o poema
"Antífona", abertura do livro Broquéis: mais que
profissão de fé do Simbolismo, "Antífona"
revelou a Arte Poética do "Dante Negro". É a
celebração do inefável, do imponderável, como
resultado alquímico da mistura de cores, sons,
cheiros, sensações, sentimentos. O substrato da
poesia é o mesmo da alma: mistério. O que não
elimina a plena consciência estética. O rigor
apolíneo - com pulsação dionisíaca. O Branco e
suas metáforas. O negro que idealiza o Branco:
sublima sua condição? Ou o Branco como
materialização da diafanidade suprema e
reveladora? A magia de "Antífona" ultrapassa
qualquer entendimento:
Ó Formas alvas, brancas,
Formas claras
De Luares, de neves, de neblinas!...
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras...
Formas do Amor,
constelarmente puras,
De virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolência de lírios e de rosas...
Indefiníveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...
Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos , radiantes...
Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos
Com a chama ideal de todos os mistérios.
ARTISTA: O
DESOLADO ALQUIMISTA DA DOR
Dor e revolta, Cruz e
Sousa desajustado. Entretanto, o que está a
acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua
Cronológica.
Hoje, os poemas que Cruz e Sousa traz para
mostrar aos companheiros são diferentes: ainda o
branco, mas também o vermelho e negro. Ainda o
transcendentalismo, mas também muita dor e
revolta. Talvez eles estejam no volume Faróis;
ou então, nos Últimos Sonetos. E, pairando sobre
seus textos, a imagem do poeta como um
desajustado, um inadaptado em relação à
sociedade:
Desde que o Artista é um isolado, um esporádico,
não adaptado ao meio, mas em completa, lógica e
inevitável revolta contra ele, num conflito
perpétuo entre sua natureza complexa e a
natureza oposta do meio, a sensação, a emoção
que experimenta é de ordem tal que foge a todas
as classificações e casuísticas, a todas as
argumentações que, parecendo as mais puras e as
mais exaustivas do assunto, são, no entanto,
sempre deficientes e falsas. Ele é o
supercivilizado dos sentidos
(...).
("Emparedado")
(Daí vem que Cruz e Sousa seja duas vezes
maldito, no sentido de ser marginalizado e
discriminado: pela raça e pela poesia. Daí que
tenha tido que suportar críticas e sátiras por
parte de quem analisou sua obra protegido pelo
preconceito racial e literário. E daí que não
tenha passado nem perto da Academia Brasileira
de Letras, então recém-fundada, em 1896.)
A rejeição nos meios literários e na imprensa
alimenta sua mágoa, que alimenta seu verso. A
mágoa se destila, vira matéria-prima da poesia.
A experiência concreta articula-se com a
retórica, ou seja, o cotidiano ingrato
converte-se na tópica decadentista do poeta
maldito:
Tu és o louco da imortal
loucura,
O louco da loucura mais suprema.
A terra é sempre a tua negra algema,
Prende-te nela a extrema Desventura.
Mas essa mesma algema de amargura,
Mas essa mesma Desventura extrema
Faz que tu'alma suplicando gema
E rebente em estrelas de ternura.
Tu és o Poeta, o grande Assinalado
Que povoas o mundo despovoado,
De belezas eternas, pouco a pouco.
Na Natureza prodigiosa e rica
Toda a audácia dos nervos justifica
Os teus espasmos imortais de louco!
("O Assinalado")
"Poucas vezes terá
havido tamanha identidade entre uma tópica de
natureza universal e um traço da condição
individual. Retórica e existência fundiram-se
perfeitamente nessa união, constituindo-se num
caso singular na poesia brasileira. Essa fusão
de categorias diferentes produziu um discurso em
que o fingimento poético se disfarça com
perfeição na sinceridade emocional, transmitindo
ao leitor a impressão de autenticidade
expressiva." (Ivan Teixeira)
Cruz e Sousa sabe que atingiu a maturidade
artística plena, consciente: a capacidade de
transformar o sofrimento em Arte; de abandonar o
puro confessionalismo, a auto-piedade romântica.
A dor é sublimada e, pela Arte, transforma-se em
Redenção.
Ainda à porta da confeitaria, o poeta até agora
não se lembrou de Gavita. Caso contrário, já
teria ido embora.
Quantas vezes não faltara ao encontro dos
"Novos" para estar mais tempo ao lado dela!
MUSA NEGRA
Cruz e Sousa canta a
mulher negra.
Entretanto, o que está a acontecer no resto do
mundo? Consulta a Tábua Cronológica.
A vida dera-lhe Gavita, a mulher, a negra, a mãe
de seus filhos. Chega o tempo da musa real, as
musas alvas, "tudescas", sidéreas, inatingíveis,
já são passado; como aquela "Alda", "Alva, do
alvor das límpidas geleiras", ou a dona daqueles
Braços" leitosos:
Braços nervosos, brancas
opulências,
Brumais brancuras, fúlgidas brancuras,
Alvuras castas, virginais alvuras,
Lactescências das raras lactescências.
Gavita é o canto à mulher negra, ao
colo real, em que o poeta repousa de seus
dissabores. Agora, o espiritual
não elimina o carnal:
Amar essa Núbia - vê-la entre véus
translúcidos e florentes grinaldas, Noiva
hesitante, ansiosa, trêmula, tê-la
nos braços como num tálamo puro, por entre
epitalâmios; sentir-lhe a chama
dos beijos, boca contra boca, nervosamente -
certo que é, para um sentimento
d'Arte, amar espiritualmente e carnalmente amar.
Beleza prodigiosa de olhos como
pérolas negras refulgindo no tenebroso cetim do
rosto fino; lábios mádidos,
tintos a sulferino; dentes de esmalte claro;
busto delicado, airoso, talhado
em relevo de bronze florentino, a Núbia lembra,
esquisita e rara, esse lindo
âmbar negro, azeviche da Islândia.
("Núbia")
No entanto, uma vez mais
o carnal não
se justifica por si só, ele se funde ao prazer
estético. No fim e no fundo
de tudo, a Arte, com quem o poeta se casara
desde sempre:
No entanto, amar essa carne deliciosa
de Núbia, ansiar por possuí-la, não constitui
jamais sensação exótica,
excentricidade, fetichismo, aspiração de um
ideal abstruso e triste, gozo
efêmero, afinal, de naturezas amorfas e
doentias.
Senti-la como um desejo que domina e
arrasta, querê-la no afeto, para fecundá-lo e
flori-lo, como uma semente
d'ouro germinando em terreno fértil, é querer
possuí-la para a Arte, tê-la
como uma página viva, veemente, da paixão
humana, vibrando e cantando o amor
impulsivo e franco, natural, espontâneo, como a
obra d'arte deve vibrar e
cantar espontaneamente.
BALADA DE LOUCOS
Demência de Gavita, a companheira de
Cruz e Sousa... Entretanto, o que está a
acontecer no resto do mundo?
Consulta a Tábua Cronológica.
Mas a vida dera-lhe também a loucura
de Gavita. A companheira dócil aliena-se em
rezas e ladainhas
incompreensíveis, bárbaras... E foi como se os
dois enlouquecessem; foi como
se ambos morressem, estando vivos: "A pouco e
pouco - dois exilados
personagens do Nada - parávamos no caminho
solitário, cogitando o rumo.
Como, quando se leva a enterrar alguém, as
paradas rítmicas do esquife...".
Enfim, ela volta do universo da demência, que se
parecia com a Morte:
Alma! Que tu não chores e não gemas,
Teu amor voltou agora.
Ei-lo que chega das mansões extremas,
Lá onde a loucura mora!
Veio mesmo mais belo e estranho, acaso,
Desses lívidos países,
Mágica flor a rebentar de um vaso
Com prodigiosas raízes.
Veio transfigurada e mais formosa
Essa ingênua natureza,
Mais ágil, mais delgada, mais nervosa,
Das essências da Beleza.
(Ressureição)
"ABRE-ME OS
BRAÇOS, SOLIDÃO PROFUNDA"
Já se faz tarde, alguns
dos intelectuais seus amigos fazem menção de se
levantar para sair. O poeta, no limiar entre o
fora e o dentro de si, o fora e o dentro da
confeitaria, sente um impulso para entrar. É
novamente saudado, recebe o sempre terno e
sincero abraço de Nestor Vítor. É este quem lhe
apresenta o desconhecido que há pouco apontava
para Cruz e Souza.
- Cruz, quero que conheça o poeta Alphonsus de
Guimarães, que acaba de chegar de Minas Gerais
especialmente para vê-lo.
Entre lisonjeado e envergonhado, Cruz e Sousa
emudece. Tem sempre atitude reservada e
desconfiada diante de quem não conhece. Gosta da
homenagem, mas a presença do poeta mineiro adia
uma necessidade urgente: o pedido de dinheiro a
Nestor Vítor. Os 250 mil réis mensais recebidos
da Central do Brasil, onde é arquivista, já não
chegam para o aluguel, o sustento dos filhos, e,
agora, para o tratamento de sua saúde, que, ele
sabia, não ia bem.
Nesse encontro, apenas Nestor Vítor reparou na
opacidade do olhar do poeta, no tom muito baixo
de sua voz, na perda de peso, na angústia
decorrente da dependência de um cargo medíocre e
burocrático, que, se o sustentava, também o
obrigava a escrever até às altas horas da noite.
Enredado pela admiração de Alphonsus de
Guimarães, Cruz e Sousa declama alguns de seus
recentes poemas. Todos percebem que, em comum,
aqueles sonetos apresentam os temas do
sofrimento, da morte, da redenção, como ocorre
no famoso "Cárcere das almas".
Realizado, o poeta mineiro recolhe-se. Satisfez
o seu desejo de conhecer o "Cisne Negro",
poderia voltar para Mariana e lá viver ainda
muito tempo, escrevendo seus poemas
romântico-simbolistas; o grupo se desfaz. Cruz e
Sousa parte para casa, sem o dinheiro de que
precisava.
Dali a algum tempo, naquela mesma confeitaria,
Cruz não teria nada a pedir a ninguém, nem
dinheiro. Apenas entregaria a Nestor Vítor a
trilogia de sonetos "Pacto das Almas", em que
professa a crença no encontro com o amigo em
outra dimensão, e um volume inédito de poemas em
prosa, Evocações.
Era uma despedida. Um sinal do agravamento de
sua tuberculose, doença que lhe causou enorme
sofrimento, e enorme comoção por parte da
intelectualidade brasileira. Para quê tanta
mobilização em torno da situação precária de um
poeta extraordinário, agora que sua doença não
tem mais cura? E os donativos, as contribuições,
as manifestações de apoio não seriam nem metade
da atenção dada à sua obra após a sua morte.
Ali, com os originais de Evocações nas mãos,
prestes a serem entregues ao amigo, o poeta nem
suspeita - ou tem como certa? - a glória que seu
nome alcançaria.
Era mister que me deixassem ao menos ser livre
no Silêncio e na Solidão. Que não me negassem a
necessidade fatal, imperiosa, ingênita, de
sacudir com liberdade e com volúpia os nervos e
desprender com largueza e com audácia o meu
verbo soluçante, na força impetuosa indomável da
Vontade.
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Poema I
CRUZ E SOUSA
Inefável
Nada há que me domine e que me vença
Quando a minha alma mudamente acorda...
Ela rebenta em flor, ela transborda
Nos alvoroços da emoção imensa.
Sou como um Réu de celestial sentença,
Condenado do Amor, que se recorda
Do Amor e sempre no Silêncio borda
De estrelas todo o céu em que erra e pensa.
Claros, meus olhos tornam-se mais claros
E tudo vejo dos encantos raros
E de outras mais serenas madrugadas!
Todas as vozes que procuro e chamo
Ouço-as dentro de mim porque eu as amo
Na minha alma volteando arrebatadas
POEMA II
Cruz e Sousa
Antífona
Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas!
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas...
Incensos dos turíbulos das aras
Formas do Amor, constelarmante puras,
De Virgens e de Santas vaporosas...
Brilhos errantes, mádidas frescuras
E dolências de lírios e de rosas ...
Indefíniveis músicas supremas,
Harmonias da Cor e do Perfume...
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume...
Visões, salmos e cânticos serenos,
Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes...
Dormências de volúpicos venenos
Sutis e suaves, mórbidos, radiantes ...
Infinitos espíritos dispersos,
Inefáveis, edênicos, aéreos,
Fecundai o Mistério destes versos
Com a chama ideal de todos os mistérios.
Do Sonho as mais azuis diafaneidades
Que fuljam, que na Estrofe se levantem
E as emoções, todas as castidades
Da alma do Verso, pelos versos cantem.
Que o pólen de ouro dos mais finos astros
Fecunde e inflame a rima clara e ardente...
Que brilhe a correção dos alabastros
Sonoramente, luminosamente.
Forças originais, essência, graça
De carnes de mulher, delicadezas...
Todo esse eflúvio que por ondas passa
Do Éter nas róseas e áureas correntezas...
Cristais diluídos de clarões alacres,
Desejos, vibrações, ânsias, alentos
Fulvas vitórias, triunfamentos acres,
Os mais estranhos estremecimentos...
Flores negras do tédio e flores vagas
De amores vãos, tantálicos, doentios...
Fundas vermelhidões de velhas chagas
Em sangue, abertas, escorrendo em rios...
Tudo! vivo e nervoso e quente e forte,
Nos turbilhões quiméricos do Sonho,
Passe, cantando, ante o perfil medonho
E o tropel cabalístico da Morte...
Poema III
Cruz e Sousa
Siderações
Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo,
Galgando azuis e siderais noivados
De nuvens brancas a amplidão vestindo...
Num cortejo de cânticos alados
Os arcanjos, as cítaras ferindo,
Passam, das vestes nos troféus prateados,
As asas de ouro finamente abrindo...
Dos etéreos turíbulos de neve
Claro incenso aromal, límpido e leve,
Ondas nevoentas de Visões levanta...
E as ânsias e os desejos infinitos
Vão com os arcanjos formulando ritos
Da Eternidade que nos Astros canta...
Poema IV
CRUZ E SOUSA
Cárcere das Almas
Ah! Toda a Alma num cárcere anda presa,
soluçando nas trevas, entre as grades
do calabouço olhando imensidades,
mares, estrelas, tardes, natureza.
Tudo se veste de uma igual grandeza
quando a alma entre grilhões as liberdades
sonha e sonhando, as imortalidades
rasga no etéreo Espaço da Pureza.
Ó almas presas, mudas e fechadas
nas prisões colossais e abandonadas,
da Dor no calabouço, atroz, funéreo!
Nesses silêncios solitários, graves,
que chaveiro do Céu possui as chaves
para abrir-vos as portas do Mistério?!
POEMA V
Cruz e Sousa
O Botão de Rosa A uma Atriz
O campo abrira o seio às expansões frementes
das árvores senis, dos galhos viridentes.
Caía a tarde fresca
Loira, gentil, vivaz como a canção tudesca.
A iluminada esfera
Calma, profunda, azul como um sonhar de virgem,
Dava um brilho-cetim às verdes folhas d'hera.
No ar uma harmonia avigorada e casta,
No crânio uma vertigem
Duma idéia viril, duma eloqüência vasta.
Tardes formosíssimas,
Ó grande livro aberto aos geniais artistas,
Como tanto alargais as crenças panteístas,
Como tanto esplendeis e como sois riquíssimas.
Quanta vitalidade indefinida, quanta,
Na pequenina planta,
No doce verde-mar dos trêmulos arbustos,
Que misticismo, justos,
Bebia a alma inteira ao devassar o arcano
Das árvores titãs, das árvores fecundas
Que tinham, como o oceano,
Febris palpitações intérminas, profundas.
Esplêndidas paisagens,
Opunha o largo campo às vistas deslumbradas.
As múrmuras ramagens,
À luz serena e terna, à luz do sol - que espadas
De fogo arremessava, em frêmitos nervosos,
Pelo côncavo azul dos céus esplendorosos,
Tinham falas de amor, segredos vacilantes
Finos como os brilhantes.
A música das aves
Cortava o éter calmo, em notas multiformes,
Límpidas e graves
Que estouravam no ar em convulsões enormes.
Aqui e além um rio
Serpejava na sombra, em meio de um rochedo
Áspero e sombrio.
O olhar perscrutador, o grande olhar, sem medo
E o espírito mudo,
Como um herói gigante avassalavam tudo...
Nuns madrigais risonhos
Abria-se o país fantástico dos sonhos.
Alavam-se os aromas
Leais, inexauríveis
Das largas e invisíveis Selváticas redomas.
A seiva rebentava
Em ondas - irrompia
Na doce e maviosa e plácida alegria
De uma ave que cantava,
Dos belos roseirais
Que ostentavam a flux as rosas virginais.
E as jubilosas franças
Dos arvoredos altos,
Rígidos, atléticos,
Derramavam no campo uns fluidos magnéticos
Dumas vontades mansas.
A doce alacridade ia explosindo aos saltos.
E toda a natureza
Robusta de saúde e estrênua de grandeza
Libérrima e vital,
Erguia-se pujante, audaz e redentora,
No gérmen material da força criadora,
Dentre a vida selvagem, mística, animal...
Dos roseirais preciosos
Nos renques primorosos,
Numa linda roseira abria castamente,
Como um sonho de luz numa cabeça ardente,
O mais belo, o mais puro entre os botões de
rosa.
Tinha essa cor formosa,
Tinha essa cor da aurora,
Quando ensangüenta em rubro a vastidão sonora.
Era um botão feliz
Sorrindo para o Azul, zombando da matéria.
Tinha o leve quebranto e a maciez etérea
Que uma estrofe não diz.
Das pétalas macias,
Das pétalas sanguíneas,
Doces como harmonias
Brandas e velutíneas
Uns perfumes sutis se espiralavam, raros,
Pela mansão do Bem, pelos espaços claros.
Perfumes excelentes,
Perfumes dos melhores
Perfumes bons de incógnitos Orientes.
Matéria, não deplores
O viver natural dos vegetais alegres;
Eles são mais ditosos
Que os nababos e reis nos seus coxins
pomposos;
E por mais que tu regres
O matéria fatal, a tua vida inteira,
No rigor da higiene;
E por mais que a maneira
Do teu grande existir, desse existir -
perene
De ironias e pasmos,
Explosões de sarcasmos
Tu completes, matéria - ó humanidade ousada
Com a ciência altanada;
E por mais que no século,
Tu mergulhes a idéia, o prodigioso espéculo,
Será sempre maior e exuberante e forte,
Ó matéria fatal,
Essa vida tão rica
Que se corporifica
Na valente coorte
Do poder vegetal.
Era um botão feliz,
Cuja roseira, impávida,
Ébria de aromas bons, ébria de orgulhos - ávida
De completa fragrância,
Palpitava com ânsia
Desde a própria raiz.
E entanto o sol tombara e triunfantemente
Como um supremo Rubens,
Jorrando à curvidade etérea do poente,
O ouro e o escarlate, aprimorando as nuvens,
Numa distribuição simpática de cores,
De tintas e de luzes
De galas e fulgores
Rubros como o estourar dos férvidos obuses.
O cérebro em nevrose,
No pasmo que precede a augusta apoteose
De uma excelsa visão perfeitamente bela,
De uma excelsa visão em límpidos docéis,
Exaltava o acabado artístico da Tela
E o gosto dos pincéis.
Caíam da amplidão em névoas singulares
Os pálidos crepúsculos.
Os fúlgidos altares
Do homem primitivo - a relva, o prado, o campo
Onde ele ia buscar a força de uma crença
Que então lhe iluminasse a alma escura e densa,
Morriam de clarões - os poderosos músculos
Da fértil mãe de tudo - a natureza ingente -
Deixavam de bater. - O olhar do pirilampo
Oscilava, tremia - azul, fosforescente.
As sombras vinham, vinham,
Lembrando um batalhão d'espectros que caminham
E a casta nitidez sintética das cousas
Tomava a proporção das funerárias lousas.
Completara-se então o mais extraordinário,
O mais extravagante,
Dos fenômenos todos:
A noite. - Enfim descera a treva do Calvário,
A treva que envolveu o Cristo agonizante.
Coaxavam negras rãs nos charcos e nos lodos.
A abóbada espaçosa, a física amplitude,
Mostrava a profundez da angústia de ataúde
De um operário pobre,
Quando se escuta o dobre
Amplíssimo e funéreo,
Sinistro e compassado,
Rolar pela mansão gloriosa do mistério,
Assim com um soluço aflito, estrangulado.
Devia ser, devia
Por uma noite assim,
Como esta noite igual,
Que derramou Maria
A lágrima da dor, - que o célebre Caim
Sentiu dentro do crânio as convulsões do Mal.
Mas o botão de rosa,
Traído pelo estranho zéfiro da sorte,
Rolou como uma cisma
Intensa e luminosa
Ardente e jovial em que a razão se abisma
E foi cair, cair no pélago da morte,
Em um dos mais raivosos,
Em um dos mais atrozes
Rios impetuosos,
Cheios de surdas vozes,
Sozinho, em desamparo, assim como um
proscrito,
Em meio à placidez
Dos astros no infinito
E à mesma irracional e fúnebre mudez.
Depois e além de tudo,
Além do grave aspecto inteiramente mudo,
Ao tempo que morria
O cândido botão - em um dos tantos galhos
Virentes da roseira - alegre no ar se abria
Um outro que ostentava as pétalas sedosas,
As pétalas gracis de cores deliciosas,
De cores ideais.
As auras musicais
Passavam-lhe de leve,
Nos tímidos rumores,
De um ósculo mais breve.
E dentre a exposição das delicadas flores,
Das rosas - o botão
Aberto ultimamente às cúpulas austeras,
Às plagas da esperança, a irmã das
primaveras,
Pendido um quase nada, esbelto na roseira,
Mostrava aquela unção,
A ínclita maneira
De quem se glorifica
Subindo ao céu azul da majestade pura,
Da eterna exuberância,
Da fonte sempre rica,
Da esplêndida fartura
Da luz imaculada - a egrégia substância
Que faz das almas claras
Pela fecundidade olímpica do amor,
Magníficas searas,
De onde se difunde à vida sempiterna,
À vida essencial, à lei que nos governa,
À idéia varonil do poeta sonhador.
A arte especialmente, esse prodígio, atriz,
Como o botão de rosa
Tão meigo e tão feliz,
Pode ser arrojada e brutalmente, ao pego,
Na treva silenciosa,
Onde o espírito vai, atordoado e cego,
Cair, entre soluços,
Como um colosso ideal tombado ao chão de bruços,
Ou pode equilibrar-se em admirável base
Estética e profunda,
Assim, bem como o outro, à mais radiosa altura.
Deves sondá-la bem nesta segunda fase.
Precisas para isso uma alma mais fecunda.
Precisas de sentir a artística loucura...
Cruz e Souza
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Fonte
Cruz e Sousa
www.vidaslusofonas.pt/cruz_e_souza.htm
Atualização da Página: Adilson Castro
Pesquisa e Edição
Iracema Zanetti |