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Desde Alguma
poesia foi pelo prosaico, pelo irônico, pelo
anti-retórico que Drummond se afirmou como poeta
congenialmente moderno. O rigor da sua fala
madura, lastreada na recusa e na contensão,
assim como o fizera homem de esperança no
momento participante de A rosa do povo, o faz
agora homem de um tempo reificado até a medula
pela dificuldade de transcender a crise de
sentido e de valor que rói a nossa época,
apanhando indiscriminadamente as velhas elites,
a burguesia afluente, as massas.
"Eu não disse ao senhor que não sou senão
poeta?"
A obra de Carlos Drummond de Andrade representa
o melhor dos múltiplos cominhos da moderna
poesia brasileira, do poema-piada como Cota
zero: (Stop/A vida parou/ Ou foi o automóvel?)
ao poema social e político de Mãos dadas, da
lírica existencial de Confidencia do itabirano
ao épico-filosófico de Amar, de textos
discursivos como Os ombros suportam o mundo aos
textos elípticos e condensados.
Além da criação de uma poesia de alta qualidade,
Drummond conseguiu conquistar significativo
público para a poética modernista: ao morrer, em
1987, aos 85 anos, apesar de seu retraimento e
seu jeito avesso à publicidade, era muito
conhecido, dentro e fora do Brasil, uma espécie
de personificação - não-institucional,
não-acadêmica - do poeta e da poesia.
Nasceu em Itabira do Mato Dentro, Minas Gerais,
em 1902. Em 1925, participa da A Revista,
porta-voz de um grupo de jovens mineiros,
estabelece contato com os modernistas do Rio e
de São Paulo, principalmente com Manuel Bandeira
e Mário de Andrade.
Sua atividade poética atravessará mais de 60
anos, sendo conciderado, quase por unanimidade,
o mais totalizante e o mais significativo poeta
do século XX no Brasil.
Seu primeiro livro é lançado em 1930, Algumas
poesias, com poemas escritos durante os anos
vinte.Drummond participa da segunda geração
modernista, a de 1930-1945; no entanto, sua obra
representa, a síntese, a unidade entre a
primeira (a fase "heróica", de 1922 a 1930) e a
segunda geração. A partir de algumas poesias
(poemas típicos de ruptura das convenções, em
especial das acadêmicas e parnasianas), o poeta
assume novas linguagens, até a coloquial e
aborda temas do cotidiano, das pequenas cidades
e das metrópoles.
Encontramos em Algumas poesias micro-poemas,
poemas-piadas, poemas-paródias, versos livres,
estrofação heterogênea, em uma realização
radicalmente pessoal, com voz própria, marcada
de inquietude e investigação existencial, de
densa ironia, de antilirismo intencional, como
verificaremos na Antologia comentada. O segundo
livro, Brejos das almas, de 1934, representa
essas características intensificando a temática
existencial.
Poesias de denuncia e dilaceração do mundo
Drummond escreve também uma poesia típica da
segunda fase modernista, sempre com
inconfundível voz pessoal. É uma poesia menos
voltada para a ruptura, com mais universalidade
de temas, de linguagens, e de imagens,
desenvolvendo novos caminhos (filosóficos,
políticos, sociais) e superando certa atitude
maniqueísta de vanguarda, que negava em bloco e
indiscriminadamente a herança passada.
Drummond publica Sentimento do mundo (1940),
José (1942), A rosa do povo (1945), Novos poemas
(1948).
Nessas obras, apresenta poesia social e política
do mais alto nível, de denuncias das
dilacerações do mundo, de resistência diante dos
totalitarismo (principalmente do nazi-fascismo).
Poesia que questiona e chama à ação, poesia
publica, para se lida em voz alta, falada até em
comícios, participante, altamente expressiva,
com vigorosos versos livres, com intensa
fabulação de imagens, sem se desfigurar em
panfletos de propaganda.
Com claro enigma, (1951), seguido de fazendeiro
do ar, (1959), outra face de Drummond prevalece:
uma poesia de grande elaboração formal, fundindo
o clássico e o moderno, com grande vigor de
construção, muitas vezes hermética, de acentuada
preocupação filosófica e mesmo metafísica.
Nessas obras o poeta questiona o sentido e a
ausência de sentido da existência, a crise do
indivíduo e da linguagem e da poesia. Uma
poética de fundo desencantado, que não se faz
cúmplice de aparências, que arranca todas as
mascaras do real para olhar cara a cara os
vazios, sem medo de perder as ilusões.
O crítico Alfredo Bosi escreve, em sua já citada
História concisa da literatura brasileira: a
partir de Claro enigma (1948-51), o desencanto
que sobreveio à fugaz experiência da poesia
política tem ditado para o poeta dois modos
principais de comprar o poema:
a) escavar a real mediante a um processo de
interrogações e negações que acaba revelando o
vazio {à espreita do homem no coração da matéria
e da história. O mundo define-se como (um vácuo
atormentado/ um sistema de erros) (...)
b) fazer as coisas e as palavras - nome das
coisas - boiar nesse vácuo se bordas a que a
interrogação reduz os reinos do saber.
Essa poética de escavação, que predomina agora e
que dissemina-se por toda a sua obra, pareça o
avesso do desejo de totalização harmônica da
vida, desejo sempre de transpor a cisão entre a
palavra e a coisa, para alem do mistério e da
precariedade do destino humano.
Com Lição de coisas, em 1962, já é outra face a
predominante: Drummond retoma temas sociais e
subjetivos, retoma os versos livres, e abre um
campo de reiterada experimentação com as
palavras. Na apresentação do livro Drummond
escreve: O poeta abandona quase completamente a
forma fixa que cultivou durante certo período,
votando ao verso que tem apenas a medida e o
impulso determinados pela coisa poética a
exprimir. Pratica, mais do que antes, a violação
e a desintegração da palavra, sem entretanto
aderir a qualquer receita poética vigente.
A multiplicidade de ritmos de sua poesia não tem
paralelo entre os modernistas: a densidade
emocional, semântica e imagística a torna uma
espécie de síntese da moderna poesia brasileira,
matriz de muitos outros poetas.
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ANTOLOGIA
COMENTADA
Divisão por seção
Temática
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1 - O Indivíduo
O eterno conflito entre o eu e o social
2 - A terra natal
Itabira - saudades e vivências
3 - A família
Itabira e vivências íntimas do menino
4 - Amigos
Homenagem aos amigos reais ou intelectuais
5 - O choque social
A violência humana
6 - O conhecimento amoroso
O amor altruísta (como só ele poderia
existir)
7 - A própria poesia
Metalinguagem
8 - Exercícios lúdicos
A conseqüência do amar e desamar
9 - Uma visão, ou tentativa de, da
existência
O estar no mundo |
Explicação
Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo mundo tem sua
cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de
folha-de-flandres, folha de taioba, pouco
imorta: tudo serve.
Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desespero da morena, cantar minha vida
e trabalhos é que faço meu verso. E meu verso me
agrada (...)
Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que
entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?
|
Sob o título provisório
de Reunião, Drummond publicou em 1969, um
volume contendo dez livros de poesia:
Alguma poesia (1930), Brejos da alma
(1934), Sentimento do mundo (1940), José
(1942), A rosa do povo (1945), Novos
poemas (1948), Claro enigma (1951),
Fazendeiro do ar (1954), A vida passada a
limpo (1959), Lição de coisas (1962).
Ao organizar a sua Antologia poética, em
1962, Drummond optou por apresentá-la em
certos núcleos temáticos, que seriam,
segundo suas próprias palavras, certas
características, preocupações ou tendência
que a condicionam ou definem em conjunto.
A Antologia lhe pareceu assim mais
vertebrada e, por outro lado, espelho mais
fiel.
Para fazermos esta travessia de iniciação
de sua obra, optamos por seguir a
arquitetação proposta por lei: além disso,
incluímos ao livro a que pertence cada
poema, para que se possa identificá-lo nos
momentos da criação de Drummond. |
UM EU TODO RETORCIDO
Poema de sete faces
(Alguma poesia)
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai Carlos! ser gauche na vida.
As casas aspiram os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu
coração.
Porém meus olhos
Não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu chamaste Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
Mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer mas essa lua mas esse
conhaque
botam a gente comovido feito o diabo.
|
As sete faces
correspondem a sete estrofes, com de fosse
um retrato em sete partes. Poema
tipicamente modernista, de ruptura com as
convenções.
Descontínuo, inesperado, coloquial.
Escritos com versos livres e com estrofes
heterogêneas. Irônico: neste poema de
descoberta do eu e do mundo Drummond se
coloca como gauche - um desajeitado - mas
cujo o coração transborda, mais vasto que
o mundo, com humor desencantado,
sarcástico. Com uma secura que representa
a emoção. Antilírica. Observe o tom de
confidência da ultima estrofe, onde o
poeta assume a emoção, embora a atribua ao
conhaque e a lua... |
UMA PROVÍNCIA: ESTA
Confidência do italiano
(Sentimento do mundo)
Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Pó isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e
comunicação
À vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem
mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.
De Itabira trouxe prendas diversas que hora te
ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo
Duval:
este couro de anta, estendido no sofá da sala de
visita:
este orgulho, esta cabeça baixa...
tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário publico.
Itabira é apenas uma fotografia na parede
Mas como dói!
Cidadezinha qualquer
(Alguma poesia)
Casas entre bananeiras
Mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.
|
Estes dois poemas são
referencias para toda a obra de Drummond.
O primeiro, um auto-retrato, e o segundo,
um Flash de uma cidadezinha qualquer,
ambas constituem reelaborações poética de
sua cidade natal, Itabira. Enquanto em
Confidência do itabirano há expressivas
antíteses, de ironia amarga e sutil (pó
exemplo, hábito de sofrer / que tanto me
diverte / doce herança itabirana), em
Cidadezinha qualquer os versos no
infinitivo, as repetições e uma
prosopopéia (Devagar... as janelas olham)
expressam o tédio à monotonia da vida do
interior, que no entanto deixa tanta
saudade, como mostram os versos finais,
antológicos, de Confidência do itabirano. |
A FAMÍLIA QUE ME DEI
Infância
(Alguma poesia)
Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.
Minha mãe ficava sentada cosendo.
Meu irmão pequeno dormia.
Eu sozinho menino entre mangueiras
lia a história de Robinson Crusoé
Comprida história que não acabava mais.
No meio dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longe da senzala - e nunca se
esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso café bom.
Minha mãe ficara em casa cosendo
Olhando para mim:
- Psiu... Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro... que fundo!
Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.
E eu não sabia que a minha história
era mais bonita que a de Robinson Crosoé.
|
Outro antológico poema
"itabirano". Observe que o prosaico, o
cotidiano - montar a cavalo, ir para o
campo, fazer criança dormir, tomar o café
da preta velha, ler histórias - são
transformados em elementos poéticos
intensamente expressivos, com uma
simplicidade essencial, raramente atingida
na poesia brasileira. Novamente, versos
livres, estrofes heterogêneas,linguagem
coloquial. |
CANTAR DE AMIGOS
Mário de Andrade desce aos infernos
(fragmento)
(A Rosa do povo)
I
Daqui a vinte anos farei teu poema
e te cantarei com tal suspiro
que as flores pasmarão, e as abelhas,
confundidas, esvairão seu mel.
Daqui a vinte anos: poderei
tanto esperar o preço da poesia?
É preciso tirar da boca urgente
o canto rápido, ziquezagueante, rouco,
feito da impureza do minuto
e de vozes em febre, que golpeiam
esta viola desatinada
no chão, no chão.
|
Escrito para a morte de
Mario de Andrade, este fragmento já revela
a tensão do texto, a intensidade emocional
do poema. Tendo como tema o desconcerto
diante da morte (observe as imagens da
natureza caótica, a repetição no chão, no
chão que dá maior ênfase ao destino, ao
desespero), Drummond anuncia um poema
futuro no entanto realizado no aqui/agora
da perplexidade, da emoção. |
AMAR-AMARO
Mãos dadas
(Sentimento do mundo)
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre ele, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma
história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem
vista da janela, não distribuirei entorpecentes
ou cartas de suicida, não fugirei para as ilhas
nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os
homens presentes, a vida presente.
|
Este é um dos mais
fundamentais poemas políticos de todo o
modernismo. Texto engajado, comprometido,
participante, e, ao mesmo tempo, de grande
força poética. Ritmo intenso, imagens
intensas. Observe o tom da fala, da
oralidade, a linguagem coloquial muito
expressiva, acentuada pela pulsão livre
dos versos. Na construção do poema,
observe a enumeração de negações - que
recusam as variadas de escapismo
romântico, de fuga a realidade. A
repetição de palavras, em especial a
palavra presente, carrega ainda mais o
texto de alta tensão poética.
Canção antiga, é um dos
textos de ritmo mais fluente e mais
musical de toda a obra de Drummond,
fundado em versos redondilhos maiores
(sete sílabas). As
imagens são de muita simplicidade
iluminada. Neste poema, a desejada unidade
harmônica da vida - para além das
negações, das rupturas, das cisões, das
precariedades - está anunciada: há uma
rara e difícil positividade das idéias e
das metáforas. Observe a interação entre
os versos redondilhos, as
estrofes regulares (quatro de quatro
versos, uma de três versos) e o coloquial
intensamente expressivo. |
Canção amiga
(Novos poemas)
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que falem como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
E saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
Os ombros suportam o mundo
(Sentimento do mundo)
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem a porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És toda a certeza, já não sabe sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa velha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pensa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos
edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertam ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
Preferiam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é um ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
|
Outro poema político e
existencial de grande intensidade,
representante do poema social de Drummond,
aquela em que o coração é menor, muito
menor que o mundo. Questionador da relação
conflituosa do indivíduo e do mundo, numa
perspectiva anti-romantica, anti-lírica
convencional, chamando à vida que a por
fazer. Texto que exemplifica como a
linguagem coloquial e as imagens diretas
podem ser altamente expressivas, no
conhecimento da necessidade de perceber
que a vida é uma ordem, sem mistificação,
sem ilusões vãs, com sobriedade, clareza e
desencanto irônico, amargo, embora não
resignado. |
UMA, DUAS
ARGOLINHAS
Quadrilha
(Alguma poesia)
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João amava Teresa que
amava Raimundo que amava Maria que amava
Joaquim que amava Lili que não amava
ninguém. João foi para os Estados Unidos,
Teresa para o convento, Raimundo morreu de
desastre, Maria ficou para a tia, Joaquim
suicidou-se e Lili casou com J. Pinto
Fernandes que não tinha entrado na
história.
Poema-piada, em versos livres, tipicamente
modernista e drummondiano: carregado de
anti-lirismo, de ironia seca e amarga,
sobre os desconcertos do amor, sobre a
cadeia de desencontros e a permanente
falta de correspondência das relações
amorosas, mas com humor, que se acentua na
figura de Lili, a que não amava e que se
casa... Como se o casamento nada tivesse a
ver com as histórias de amor. |
Amar
(Claro Enígma)
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar trás a praia
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o cru, um vaso sem flor, um
chão de ferro, e o peito inerte, e a rua vista
em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amar sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma eterna ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a
sede infinita.
|
Poema filosófico do alto
nível, observe os ritmos, ao mesmo tempo
tensos e fluentes, a complexa rede de
metáforas enumeradas. O texto funde o
lírico da temática amorosa e o episódio da
reflexão coletiva, universal, sobre a
necessidade de amar. A linguagem funde o
coloquial - amar e malamar - e o culto - e
amar o inóspito.
Atravessado de indagações e de respostas,
este é um dos mais significativos poemas
de amor de toda a língua portuguesa. |
POESIA CONTEMPLADA
Procura da poesia
(fragmentos)
(A rosa do povo)
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes
pessoais não contam.
Não faças poesias com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo,
tão inofensivo à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor
no escuro são indiferentes.
Nem me revele seus sentimentos, que se
prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das maquinas nem o
segredo das casas.
Não é a música ouvida de passagem: rumor do mar
nas ruas junto à linha de espuma.
(...)
penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intacta.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te
provocam.
Espera que cada um se realize e consuma
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o como ele aceitará
sua forma definitiva e concentrada no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face
neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
Ermas de melodia e conceito,
Elas se refugiam na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em
desprezo.
|
Outro poema fundamental
na obra de Drummond e no Modernismo
brasileiro.
Metapoema, metalinguagem. Poesia que fala
de poesia. A concepção é universal na
poética moderna: a poesia se faz com
palavras, a poesia está na linguagem. O
fazer poético é penetração no reino das
palavras, descoberta de suas faces
secretas, que se escondem sob a face
neutra, aparente, usual. |
Na praça de convites
Os materiais da vida
(A vida passada a limpo)
Drls? Faço o meu amor em vidrotil
nossos coitos são de modernfold
até que a lança de interflex
vipax nos separe
em clavilux
camabel camabel o vale ecoa
sobre o vazio de ondalit
à noite asfáltica
plks
|
Poema de experimentação
verbal, de experiências com palavras:
criação de neologismo, disposições visuais
significantes, jogos sonoros
fragmentários, descontinuidade radical dos
versos. Observe a intensa ironia
drummondiana, parodiando os termos e os
slogans da sociedade de consumo altamente
urbana e industrial.
Tentativa de exploração e de interpretação
do estar-no-mundo |
No meio do caminho
(Alguma poesia)
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minha retina tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
|
Provavelmente este é o
mais polemico poema da história do
Modernismo, por sua concepção e sua
estrutura revolucionárias: os versos se
repetem, circulares, em torno da pedra (a
frase vai até a pedra e volta, sem
ultrapassá-la). Por essa organização
sintática, pelo radical coloquialismo da
linguagem, pelos inumeráveis leituras
metafóricas que possibilita, este poema
tornou-se um símbolo da poesia de Drummond
e do Modernismo brasileiro, no meio do
caminho, de poesia antipoética, de lírica
antilírica, ilustra a travessia do poeta e
de todos nós entre o individual e o
social, o coração e a pedra no meio do
caminho, o mundo. |
A máquina do mundo
(Claro Enígma)
E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco
se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco: e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas
lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vida dos montes
e de meu próprio ser desenganado,
a maquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.
Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável
pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar
toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.
(...)
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhado colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
segui vagaroso, de mãos pensas.
|
Poema épico-filosófico
de dimensão universal. Escrito em
tercetos/estrofes de três versos (como a
Divina comédia, de Dante) e em versos
decassílabos camonianos, sem rima. O texto
representa o tema da máquina do mundo, do
episódio de Ilha dos amores (Os Lusíadas),
em que Vênus, em homenagem às conquistas
portuguesas, revela a Vasco da Gama a
máquina do cosmos, a estrutura do
universo, síntese da concepção da
natureza. Numa postura moderna,
radicalmente anti-épica, anti-heróica, o
narrador-personagem se recusa a
contemplá-la e continua o caminho, de mãos
pensas...
Estrutura formal de composição:
1 - Versilibrismo: o uso indiscriminado do
verso livre.
2- Prosaísmo: adoção na poesia de
processos adequados à prosa, como o
discurso direto, a ausência de rimas, a
conversa com o leitor;
3- Linguagem dinâmica e irônica: versos
pequenos e concisos no significado,
semelhante ao poema pílula de Oswald de
Andrade; Cenas do cotidiano: a infância, a
metrópole, Itabira e a família;
Recriação metonímica da realidade sentida:
Drummond apreende filosoficamente o mundo
a partir de assuntos banais. |
Carlos Drummond de Andrade
Pesquisa Avançada
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Resumos - Antologia Poética
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