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Jean-Nicholas
Arthur Rimbaud nasce em 20 de outubro de 1854 em
Charleville, nas Ardenas, no norte da França,
perto da fronteira belga. Nesta pacata
cidadezinha, repleta de casas com telhados
angulares, onde tranqüilos burgueses contemplam
os meandros do rio Meuse, Vitalie Cuif, de
origem camponesa e filha de proprietários
rurais, conhece o capitão Fréderic Rimbaud.
Casam-se em 1853 tendo como primeiro filho
Fréderic, que acabará como motorista de ônibus
no vilarejo vizinho de Attigny. Após o
nascimento de Arthur, o casal viverá
praticamente separado, pois o pai apenas
regressará ao lar raríssimas vezes. O capitão de
infantaria Rimbaud desde cedo havia se engajado
no exército como soldado e pouco a pouco galgara
diversos escalões. Participara da conquista da
Argélia tornando-se posteriormente oficial de
administração em Sebdu, na região de Orã. Culto
e letrado, deixou várias obras (que se
perderam), como, por exemplo, traduções do
Corão,discursos militares, tratados de
estratégia, etc.. Com a capitulação de
Abdel-Kader, retorna à França e seu batalhão
fica estacionado nas Ardenas. Pouco após o
casamento, deixa sua mulher Vitalie e volta à
vida militar em Lyon. No outono de 1854
permanece alguns dias em Charleville para
acompanhar o nascimento de Arthur, retornando
novamente a seu batalhão. No fim de 1856 recebe
autorização para passar algum tempo com a
família. Neste período nascem Vitalie, em 1858,
que viverá apenas dezessete anos, e Isabelle, em
1860, que se tornará grande amiga do poeta e o
assistirá em seus derradeiros dias. O capitão
Rimbaud percorre com sua unidade a Alsácia e
suas tentativas de retorno à vida familiar se
revelarão infrutíferas, pois Vitalie tornara-se
autoritária e insuportável. Após infindáveis
discussões com a mulher, volta definitivamente a
seu regimento e nunca mais de ouvirá falar nele.
Os dois irmãos são matriculados pela mãe em 1862
no Instituto Rossat,colégio freqüentado pela
alta burguesia de Charleville. A precocidade de
Arthur deixa os mestres estupefatos,
principalmente por sua incrível capacidade de
traduzir a poesia latina. Aos colegas anuncia
com orgulho que quando adulto será explorador.
Arrebatando todos os prêmios escolares, leva
certa vez ao desespero o velho e rabugento Prof.
Perrete, que diante daquele aluno incomum teria
afirmado: "Rimbaud é inteligente até não poder
mais ; mas acabará mal... ". Entre 1868/1869
adquire tal domínio sobre as línguas antigas que
consegue escrever fluentemente versos rimados em
latim. Desenvolve alguns versos epicuristas de
Horácio, que são enviados à Academia de Douai. A
composição recebe uma menção especial e é
publicada no Boletim Oficial da Instituição.
Rimbaud declara ter recebido em sonho aqueles
poemas, do próprio Febo (Apolo), que anunciara a
seguinte revelação: " Tu vate eris " (Serás
poeta). No fim do ano letivo de 1869, o diretor
do Instituto Rossat decide escolhê-lo para
representar as cores do colégio, num concurso
acadêmico aberto entre os departamentos do norte
da França. O tema era intrincado e compunha-se
de uma só palavra: " Jugurta ", o rei da Numídia
(antiga Argélia). Às nove horas da manhã, o
diretor vem vê-lo na sala de aula e o encontra
com ar etéreo e sonhador. Não tinha escrito uma
só palavra ! " Estou com fome ", disse. O prof.
Desdouets, sob o riso contido dos presentes,
providencia-lhe algumas torradas e o poeta
entrega-se então ao trabalho. Seus versos
latinos obtêm o primeiro prêmio e o privilégio
de serem publicados no Boletim Acadêmico. Em
dezembro, escreve seu primeiro poema em francês,
Les Etrennes des Orphelins.
Em 17 de janeiro de 1870, George Izambard, um
jovem professor de 22 anos, é nomeado para a
cadeira de retórica do Instituto Rossat. Ele
saberá de imediato reconhecer e incentivar a
vocação poética de Rimbaud, que o fascina. Se
propõe uma lição em versos latinos, o jovem
poeta lhe entrega, além da composição, uma
variante em versos franceses. Izambard,
acompanhando a espantosa eclosão daquele gênio
literário, o aconselha a enviar seus escritos ao
famoso periódico literário Le Parnasse
Contemporain. Infelizmente, a série de
publicações já estava completa, e o eminente
parnasiano Theodore de Banville lhe escreve
lamentando o fato e o felicitando pelos
admiráveis poemas Ophelie e Credo in Unam. Em
agosto é deflagrada a guerra contra a Prússia.
Entre os estrondos dos canhões o poeta foge de
casa, seguindo o exemplo do irmão, que se
evadira dias antes, e toma um trem para Paris.
Queria ver de perto a queda de Napoleão III,
dizendo-se republicano e ateu. Sem documentos, é
preso na fronteira belga e enviado à prisão de
Mazas. Izambard consegue sua soltura e o abriga
temporariamente em Douai na casa de suas tias.
De volta a Charleville, Rimbaud chega com o
demônio da fuga no corpo, escapulindo para a
Bélgica, e retornando novamente a Douai, onde
permanece três semanas na casa das tias de seu
mestre. Esta jornada inspira-lhe os antológicos
poemas Au Cabaret Vert e Ma Bohème. Izambard sai
à sua procura na Bélgica e ao encontrar seu
amigo Durand, que hospedara o poeta em Bruxelas,
recebe a informação de que Rimbaud havia partido
dias antes. Resolve então esquecer o assunto e
aproveitar aqueles dias de folga (as aulas
estavam suspensas por causa da guerra) na
tranquila Douai. Mal empurra a porta ao chegar,
ouve a advertência de suas tias: - Rimbaud está
aqui ! A situação era embaraçosa para o mestre,
pois a Sra. Rimbaud já o havia responsabilizado
publicamente pela fuga e desaparecimento do
filho em uma região onde as tropas travavam
ferrenhos combates. Izambard toma então a
providência de escrever-lhe tranqüilizando-a e a
resposta chega seca e rápida: uma intimação
judicial para que entregue Rimbaud imediatamente
à polícia. Sem outra saída, o confia ao
comissário, com a condição de este não
maltratá-lo e o enviar o mais breve possível a
Charleville. O professor e o aluno despedem-se
com forte aperto de mão. Nunca mais se verão.
Charleville é sitiada pelos alemães e sofre
pesados bombardeios. As aulas continuam
suspensas e ele aproveita este período para ler
tudo o que lhe cai às mãos. Devora desde livros
de ocultismo e alquimia até as obras dos
socialistas utópicos Saint-Simon, Babeuf,
Helvetius e Rosseau. Na biblioteca municipal,
com seu espírito sarcástico e brincadeiras de
mau gosto, leva ao desespero o bibliotecário e
os velhos leitores, que satirizará no poema Les
Assis (Os Sentados). Percorre os escombros da
parte bombardeada da cidade, em companhia de
Ernest De-lahaye, com quem discute filosofia,
poesia e política por horas a fio. Charleville
acaba sendo ocupada pelos prussianos e, em 25 de
fevereiro de 1871, Rimbaud vende seu relógio e
parte de trem para Paris. Encontra a capital
tomada pelo tumulto. O povo em delírio coletivo
inquieta-se na Bastilha ante a possibilidade da
derrota na guerra. As tropas invasoras alemãs
desfilam em 1o de marco nos Campos Elíseos e
Rimbaud perambula pelo Quartier Latin e
bulevares, comendo arenque defumado, bebendo
vinho tinto e dormindo no cais e barcos a vapor.
Quinze dias depois volta à pé a Charleville,
passando pelas perigosas linhas inimigas,
dizendo-se franco-atirador aos camponeses que
patrioticamente lhe oferecem pousada e pão com
toucinho. Como sua escola estivesse servindo de
hospital aos feridos de guerra, as aulas são
transferidas para o Teatro Municipal. Ao ouvir
esta novidade de sua mãe, replica ironicamente:
- " Não tenho nenhuma vocação para o teatro....
Resolve tornar-se parnasiano e deixa os cabelos
crescerem até o ombro, como era de costume desse
movimento. Mas o novo modismo acaba sendo mal
recebido na provinciana Charleville.
Ridicularizado pelos moleques de rua que lhe
oferecem moedas para o barbeiro, acaba quase
sendo apedrejado no lugarejo vizinho de Theux
onde residia a família Delahaye. Pensa
seriamente em viver como ermitão numa caverna
que descobrira em Romery. Pede ao amigo Delahaye
que lhe envie todos os dias um pedaço de pão, e,
neste insólito refúgio, passam alegres momentos
lendo e comentando Baudelaire, Poe, Rabelais e
os parnasianos. Em 18 de marco de 1871, eclode
em Paris uma grande insurreição popular. O
governo é deposto e o poder acaba sendo tomado
pela Comuna. Rimbaud não vacila em engrossar as
fileiras dos "communards", proclamando
exultante: "A ordem está vencida ! A burguesia
egoísta e clerical foi vencida !". Os "communards"
começam a recrutar voluntários ao soldo diário
de 30 sous, e o poeta acaba chegando em Paris em
23 de abril, após incontáveis caronas e longas
caminhadas. No centro de recrutamento é recebido
calorosamente - : correm um quepe e lhe
arrecadam 21 francos, os quais retribuiu
alegremente, pagando bebida a todos. Incorporado
ao pelotão dos franco-atiradores, começa a
escrever uma "Constituição Comunista" (que se
perdeu). Neste período compõe o poema Chant de
Guerre Parisien. Mas o clima "festivo" do
movimento, aliado às desagradáveis pilhérias,
obscenidades e bebedeiras dos soldados acabam
por desiludi-lo. Queria tornar-se herói e não
havia sido mais do que palhaço !
O retorno foi repleto de perigos e situações
embaraçosas. Os prussianos estavam por toda a
parte e, além disso, as patrulhas do governo de
Versailles rondavam os campos e aldeias à
captura dos "communards". Chegando a Charleville,
recebe com pesar, em fins de maio, a notícia do
esmagamento da Comuna de Paris. Escreve então
seu último poema revolucionário, Orgie
Parisienne. Neste momento sua mente fervilha de
idéias novas, que provocariam uma verdadeira
revolução na história da literatura. Viverá nos
três anos vindouros a transformação literária
dos tempos modernos. Inspirado no pensamento de
Baudelaire "Em todo grande poeta reside um
grande crítico", elabora um programa
apocalíptico que orientará, como os manifestos
dadaísta e surrealista, a poesia futura. Possui
um novo "código" e o lança numa simples carta,
endereçada a Paul Demény, a célebre Carta do
Vidente : "O poeta se faz evidente por meio de
um longo, imenso e refletido desregramento de
todos os sentidos... O poeta é um verdadeiro
ladrão de fogo". Rimbaud radicaliza sua posição
estética, insurgindo-se contra a postura e o
espírito do parnasianismo. Reconhece e denuncia
a falta de vigor deste movimento, que se tornava
cada vez mais fútil e insípido. Theodore de
Banville, um dos luminares desta corrente
literária, que em seu rebuscado estilo abusava
das flores silvestres, rosas e violetas, acabará
por ver, com espanto, como surgem tais buquês na
bizarra ótica do Vidente : "Os lírios campestres
transmutar-se-ão em clisteres de êxtase e as
singelas violetas em "doces escarros das
Ninfas". Da mesma forma como o futurista
Maiakóvsky iria ridicularizar a "poesia para
gestantes" dos simbolistas russos, Rimbaud envia
ao eminente parnasiano o poema satírico Ce qu´on
dit au poète à propos de fleurs, com o
pseudônimo alquímico de Alcides Bava.
Entre os estrondos dos trovões em noites de
tempestade, folheia, na Biblioteca de
Charleville, Dogma e Ritual de Alta Magia, de
Eliphas Levi, e Portal das Cores Simbólicas, de
Christian Pitois. Vasculhando uma empoeirada
estante no sótão, descobre os antigos tratados
alquímicos L´Ars Auriferae, de 1610, e Theatrum
Chemicum, de 1659. Esses estudos herméticos o
levam a conhecer Auguste Bretagne, um daqueles
alquimistas de província, silentes herdeiros da
"Ars Magna". Essa excêntrica figura era, entre
outras coisas, amigo pessoal do poeta maldito
Paul Verlaine, famoso nos meios cult
parisienses. Certa noite, enquanto discutiam
temas de ocultismo e alquimia, Bretagne tem a
idéia de enviar alguns poemas de Rimbaud ao
polêmico escritor. Rimbaud admirava há muito
tempo os poemas de Verlaine, principalmente seus
Poèmes Saturniens. Resolve então compor um de
seus melhores poemas : isola-se no campo perto
do Velho Moinho, e, com o rosto rente à água do
rio, observa o fundo prismático entre os
reflexos dourados do sol. A corrente ondula sua
longa cabeleira e, neste insólito cenário,
compõe O Barco Embriagado. Liberto de todas as
amarras e devidamente brevetado para os mais
altos vôos siderais, vislumbra os sete mares no
cristal líquido do Meuse. Verlaine recebe com
entusiasmo seus poemas e os mostra a seus
amigos. Poucos dias depois, Rimbaud recebe com
muita alegria a resposta que tanto esperava.
"Venha, grande alma querida, o chamamos, estamos
a sua espera". Um vale postal ia em anexo, com
um valor recolhido entre os parnasianos que
cobriria os gastos da viagem.
Verlaine vai à estação esperá-lo com um amigo, o
poeta e inventor Charles Cros. Não reconhece
Rimbaud entre a multidão, e, ao chegar em casa,
o encontra calmamente conversando com Mathilde,
sua mulher. Fica pasmo ao vê-lo, pois jamais
poderia imaginar que aquele fedelho esguio com
jeito de camponês, gravata fina, calças curtas e
meias de lã tricotadas pela mãe pudesse ter
escrito um poema tão negro como Les premières
communions. A decepção é recíproca, pois Rimbaud
também o havia imaginado diferente, não
concebendo como um poeta com tal estigma de
maldito pudesse suportar aquele ambiente
familiar "pausterizado". Verlaine, aos 26 anos,
casara-se há pouco tempo com Mathilde Mauté, de
17 anos. Embora fosse reputado entre os
promissores jovens parnasianos, graças à
qualidade de seus livros Poèmes Saturniens e
Fêtes Galantes, atravessa no momento uma
delicada situação financeira. Refugiado na casa
dos pais desde sua participação na Comuna de
Paris, seu principal objetivo é arrumar um lugar
onde morar, pois sua mulher espera para breve um
filho. Na verdade, esta não era a melhor hora
para a chegada de Rimbaud. Os parnasianos tinham
o costume de reunir-se mensalmente num banquete
chamado "Vilões-Gentis-Homens". Após refinadas
beberagens e lautas iguarias, poemas eram lidos
e apreciados. A guerra interrompera esta
tradição e no início de outubro de 1871 um novo
encontro é marcado. No esplêndido salão, todas
as atenções voltam-se àquele semblante infantil
de "anjo no exílio" com olhos azuis profundos e
aparência desajeitada. Fascina a todos quando lê
seu O Barco Embriagado. D´Hervilly exclama com
entusiasmo : "Jesus entre os doutores !". "É o
demônio", corrige prontamente Maitre. Decide-se
que o jovem poeta seria abrigado pelos amigos de
Verlaine num sistema de "hospitalidade
circular". Charles Cros coloca a sua disposição
seu excêntrico ateliê-laboratório, onde Theodore
de Banville mandará instalar uma cama. Dias
depois, após um ligeiro desentendimento, o
refúgio é abandonado e Rimbaud passa a
perambular por algumas semanas com os membros da
praça Maubert. Por estes tempos, os irmãos Cros
resolvem fundar um espaço, aberto apenas a um
seleto grupo de artistas e poetas. Gerenciado
pelo músico e boêmio Ernest Cabaner, o Círculo
Zutique tinha por sede o terceiro andar do Hotel
des Étrangers, no bulevar Saint-Michel. Lá, tudo
era permitido : beber, gritar, dançar, ler,
cantar, batucar no piano, dar escândalo, tomar
ópio, haxixe, absinto e demais excessos. Quem
seria o barman ideal para este bizarro antro ?
Rimbaud, é claro. No fim de novembro, chega
repentinamente à casa de Verlaine Delahaye,
esperando que seu amigo de Charleville ali
estivesse. O autor dos Poemas Saturnianos o leva
então no bulevar Saint-Michel, e, apontando o
Hotel des Étrangers, exclama solenemente : Eis a
toca do Tigre! Delahaye lentamente percorre o
amplo salão, onde, imersos numa névoa opiácea,
vultos letargem sob a luz difusa das lanternas.
Ao fundo, de uma sedosa poltrona violácea,
Rimbaud emerge entre a gaze hipnótica, e com
olhar etéreo e distante diz : "Acabo de tomar
haxixe, e com as pupilas dilatadas vislumbro
discos brancos e negros que vêm em minha
direção". As reuniões transcorriam alucinantes
através das noites, levitadas pelo absinto, ópio
e haxixe. Neste insólito lugar, escreve Manhã de
Embriaguez. Este poema em prosa (que fará parte
das Iluminações) será o crisol alquímico do
verso livre e manifesto supremo de espírito
dionisíaco que o possuirá por completo. Essas
experiências sinestésicas (transmutação de som
em cor, poesia, perfume ou vice-versa), já
haviam sido profetizadas por Baudelaire em seu
antológico ensaio sobre o haxixe e o ópio, Os
Paraísos Artificiais. Imerso o tempo todo nestes
sublimes estados de percepção, Rimbaud compõe o
poema Vogais, inspirado no cromatismo do século
XVII e nos antigos tratados de alquimia, como "L´Ars
Auriferae", de 1610. Vislumbra no som das vogais
seu cristalino espectro cromático : " A negro, E
branco, I rubro, U verde e O azul!"
Devido a seu inconveniente senso de humor e
abusos de toda ordem, Rimbaud acaba sendo posto
fora do Círculo Zutique. Em janeiro de 1872,
outro encontro dos Vilões-Gentis-Homens é
organizado. No amplo salão, à luz incandescente
dos lustres de cristal, o parnasiano Richepin
recita, emocionado, L´Ane e Le Lion, poemas de
uma enfadonha monotonia. Rimbaud, na cabeceira
da mesa, não suportando mais tanta mediocridade,
pontua cada verso com a expressão : "Que merda
!". Pedem-lhe para parar e ele insiste cada vez
mais alto. Carjat (fotógrafo autor dos famosos
retratos de Rimbaud e Baudelaire) o chama então
de crápula e D´Hervilly de "porco imundo".
Expulso à força do recinto, em meio a grande
confusão, ameaça Carjat na saída com uma
bengala, sendo impedido por Verlaine. O pintor
Latour, que por esta época retratava o grupo num
célebre quadro, começa a receber pedidos de
recusa por parte de vários "Vilões" a aparecer
na pintura ao lado de Rimbaud e seu "cúmplice"
Verlaine. A presença do poeta das Ardenas começa
a se tornar cada vez mais incômoda nos meios
literários parisienses. Verlaine é advertido de
que seria recebido nas próximas reuniões, mas
seu amigo não, pois tornara-se "persona non
grata". Provocando mais escândalos que
admiração, Rimbaud recebe a primeira farpa
venenosa do jornal Le Peuple Souverain, que
comentou num de seus artigos : " No Quartier
Latin, Verlaine dava o braco a uma encantadora
criatura, a mademoiselle Rimbaud ". Para piorar
mais as coisas, Verlaine chega completamente
embriagado em sua casa e, após violenta
discussão, tenta estrangular sua mulher.
Mathilde o abandona, aconselhada pelo pai, e uma
separação oficial é requerida na Justiça. Ela,
entretanto, admite a possibilidade de
reconciliação, com a única e exclusiva condição
do total afastamento de Rimbaud. Sem recursos,
Rimbaud retorna às Ardenas, onde aproveita para
desintoxicar-se. Em Charleville, quase inicia
uma briga ao escutar as bravatas de um grupo de
soldados alemães que voltavam do campo de
batalha. Sua mãe, certa noite, ao vê-lo escrever
as primeiras Iluminações, proclama consternada :
" Isto não levará a lugar nenhum ! ". Verlaine
não demorou muito a entediar-se com aquela
vidinha "pasteurizada" que era obrigado a
enfrentar na casa de seus sogros. Em poucas
semanas escreve a Rimbaud, pedindo-lhe
encarecidamente que volte. O jovem poeta retorna
então a Paris, onde encontra abrigo num ateliê
de pintura. Passa o dia numa taverna do Quartier
Latin, a "Academia do Absinto", pois neste
pitoresco local a forte bebida (conhecida como
"A Feiticeira Verde") custava apenas 3 centavos.
No dia 7 de junho de 1872, um domingo, Mathilde
sofre uma repentina indisposição e Verlaine, ao
sair para procurar um médico, encontra Rimbaud
no caminho. Resolvem partir imediatamente para a
Bélgica, conseguindo uma soma de dinheiro com a
mãe de Verlaine sob o pretexto de uma fictícia
perseguição política à sua participação na
Comuna de Paris. Rimbaud escreverá
posteriormente em Vagabundos: "Eu tinha
realmente, com toda sinceridade de espírito,
assumido o compromisso de devolvê-lo ao seu
estado primitivo de filho do Sol ". Decidem
passar por Charleville, que seria caminho e, no
trem, morrem de rir assustando os passageiros
contando histórias macabras de assassinatos e
violações, das quais vangloriam-se de ter
participado. Mas a diversão dura pouco, pois um
vizinho de poltrona chama a polícia ferroviária
e os dois poetas são levados à delegacia mais
próxima. Entretanto, o comissário os liberta,
convencido de que não passavam de bons gozadores
apenas. Ao chegar à pacata Charleville, visitam
o velho Bretagne, e passam alegres momentos
conversando e bebendo vinho. Ao cair da noite,
resolvem atravessar a pé a fronteira e o
alquimista, na tentativa de poupar-lhes uma
caminhada de mais de quinze quilômetros,
requisita uma carroça a seu vizinho,
apresentando os dois como o reverendo Verlaine e
o seminarista Rimbaud, que viajam à Bélgica em
missão secreta para o Vaticano, em trajes
laicos. Ao partir, recebem do simpático amigo um
violão, um relógio de pulso e alguns francos.
BIOGRAFIA
Parte II
Com o mútuo
compromisso de viver a "vida inimitável",passam
dois meses em Bruxelas, entregando-se a sessões
contínuas de "desregramento dos sentidos",
embaladas a haxixe e absinto. Verlaine começa a
escrever Romances sand Paroles e Rimbaud os
poemas Chanson de la plus haute tour, L´Eternité
e Ó saisons, ó chateaux. Certo dia, Verlaine tem
a infeliz idéia de escrever à mulher, pedindo
alguns documentos e fotos. Ao procurá-los, ela
acidentalmente encontra as cartas de Rimbaud.
Descobre toda a trama e as mostra ao pai. Este,
indignado com a invenção da fictícia perseguição
política, junta os envelopes às provas do
processo de separação e põe fogo nos poemas e no
manuscrito La Chasse Spirituelle, de Rimbaud,
que descrevia as vias de acesso à Vidência. Em
21 de junho de 1872, Mathilde chega a Bruxelas
em companhia da mãe, para apurar tudo. O marido
a recebe cordialmente e, entre beijos e abraços,
reconciliam-se. Tanto ela insiste que decidem
partir juntos para Paris no mesmo dia. Enquanto
os passaportes são vistoriados na fronteira,
Verlaine desce à plataforma e o trem parte sem
ele. No dia seguinte, Mathilde recebe uma carta
terrivelmente insultuosa: "Bruxa cenoura,
princesa camundonga, percevejo à espera de dois
dedos e um urinol. É a culpada de tudo. Arrasou
meu amigo. Volto para Rimbaud se ainda me
quiser". Mathilde, enfurecida e revoltada,
mostra a infame carta a todos, com firme
propósito de "queimar" o marido nos meios
literários. Até Victor Hugo a lê, e anota em seu
diário: "Terrível história de P.V. Pobre moca e
pobre criança. Ele mesmo é digno de pena!".
Verlaine, cada vez mais paranóico, sente-se
vigiado e perseguido pela polícia, pensando
estar sendo vítima de alguma armação dos sogros.
Mas é fato comprovado a existência de um
documento da polícia secreta belga, notificando
em 6 de agosto de 1872 que a Sra. Rimbaud havia
requerido ao comissariado a busca de seu filho
em Bruxelas.
Embarcam em Ostende com destino a Dover, na
Inglaterra. Pela primeira vez Rimbaud contempla
o mar. Chegam a Londres e, impressionados,
querem ver tudo o que a grande capital do
Império Britânico tinha a oferecer naquele
século. No Clube dos Exilados da Comuna
encontram velhos amigos, e um dos refugiados,
Eugene Vermersch, lhes oferece um quarto na
Holland Street. Vagueiam dias seguidos pelas
ruas de Londres, explorando casas de ópio e
galerias. Rimbaud começa a dar aulas de francês
e, com sua "prosa de diamante", começa a
engendrar novas e preciosas Iluminações.
Mathilde envia sem parar todo tipo de papéis
timbrados, desde audiências judiciais até
intimações de pagamento de pensão alimentar. O
processo de separação já está em franco
andamento e não se falava em outra coisa nos
meios literários parisienses. Mas a Sra.
Rimbaud, temendo ver o filho envolvido em
escândalo desse porte, lhe manda um vale postal
para a viagem de volta. Então, Rimbaud atravessa
o canal da Mancha e parte para Roche, cidade em
que sua família possuía uma casa de campo. Neste
tranqüilo e bucólico lugar, passa os dias
escrevendo, trancado num sótão. Compõe Marine, o
primeiro poema em verso-livre de que se tem
notícia na história da literatura moderna. Vinha
planejando há muito engendrar versos "vazios"
repletos de assonâncias e ritmos vagos. Marine
apresenta dez versos livres sem rima. Rimbaud
naquele velho sótão anuncia a poesia do século
XX totalmente sintonizado com o futuro. Este
poema representa o rompimento com a concepção
linear do tempo.
Verlaine, totalmente abandonado em Londres,
mergulha numa nova depressão. Envia
sistematicamente bilhetes e telegramas de
despedida a seus amigos e pede com urgência a
presença da mulher e da mãe. Mathilde recusa-se
a ir e apenas a Sra. Verlaine atenderá os apelos
do filho. Ao encontrá-lo naquele estado, tem a
idéia de o reanimar com a presença de Rimbaud, a
quem envia um vale postal. O jovem poeta ao
chegar percebe que tudo não passava de exagero e
simulação, pois Verlaine melhora
instantaneamente ao vê-lo. Volta a Charleville
alguns dias depois e o amigo também não se
delongará muito em Londres, partindo
imediatamente para a Bélgica. Sem recursos,
Rimbaud chega na Sexta-Feira Santa, 11 de abril
de 1873, após longa caminhada pelos bosques das
Ardenas. Daí por diante, enclausurado naquele
escuro e velho sótão, se empenhará com toda sua
energia no preparo de sua grande obra. Reescreve
alguns rascunhos que esboçara em Londres e
inicia, com o título provisório de Livro Pagão,
ou Livro Negro, a prosa abissal de Uma Temporada
no Inferno.
Não se sabe quem convenceu o outro, mas em 27 de
maio os dois encontram-se novamente na capital
londrina, onde passam a morar na Great College
Street. A situação torna-se cada vez mais
insuportável e uma série infindável de brigas e
discussões culmina numa noite em que Verlaine
volta com um pequeno jantar e Rimbaud, ao vê-lo
pela janela, grita: " Você parece um babaca com
esse arenque na mão ! ". Irritado com a gozação,
Verlaine abandona o amigo na mais completa
miséria. Sem dinheiro algum, Rimbaud tenta
escrever-lhe desculpando-se e pedindo que volte.
Dias depois, recebe um comunicado do fugitivo,
deixando bem claro que desta vez a ruptura seria
definitiva. Verlaine, em Bruxelas, entra
novamente em depressão e escreve inúmeras cartas
à mãe, esposa, Sra. Rimbaud e amigos,
comunicando sua decisão final de acabar com a
vida. A Sra. Rimbaud envia-lhe uma resposta de
conteúdo edificante na qual relata que previa há
vários anos este desfecho, mas entretanto o
exorta a confiar em Deus. A mãe de Verlaine,
assustada com o ultimato, ruma imediatamente a
Bruxelas. Após uma longa conversa com a mãe,
Verlaine remete um telegrama a Rimbaud: "
Voluntário Espanha. Venha até aqui. Hotel
Liégois ". Por muito tempo ele se arrependerá
amargamente deste convite. Nem bem Rimbaud
aparece recomeçam as antigas discussões. No dia
seguinte, 10 de julho, Verlaine, paranóico e com
a cabeça quente, decide comprar um revólver e
farta munição. Aparece no fim da tarde no hotel
completamente bêbado e com olhar transtornado
mostra a arma a Rimbaud, dizendo: " Isto é para
você, para mim, para todo mundo ! ". As
discussões acirram-se e Rimbaud resolve
abandonar a cidade. Tenta sair do quarto com
firme propósito de tomar o trem das 15h40.
Quando sua mãe desembolsa a quantia para a
viagem, Verlaine se opõe, trancando
violentamente a porta com ferrolho. " Pouco
importa ", responde Rimbaud. " Vou quer queira,
quer não! ". Neste instante, Verlaine aponta-lhe
o revólver e atira, gritando: " Toma, já que
quer ir embora! ". Uma bala atinge Rimbaud no
punho e outra fica cravada no chão. O poeta
sangra um pouco e Verlaine, já calmo, o carrega
com a ajuda da mãe, ao hospital Saint-Jean.
Contam aos médicos que tudo não passara de um
mero acidente. Aplicam-lhe um curativo e pedem
que volte no dia seguinte para a extração da
bala. Com o braço na tipóia, o jovem poeta
insiste em partir imediatamente, e os três
dirigem-se à estação. Na plataforma, começam a
discutir e Rimbaud, tomado pelo pânico, corre
até um policial, gritando: " Ele quer me
matar!". São levados à delegacia e Verlaine é
preso sem apelação, acusado de tentativa de
assassinato e lesões corporais. Em 8 de agosto
de 1873, Verlaine é julgado pelo Tribunal de
Bruxelas. Victor Hugo é convocado às pressas a
depor e interceder a seu favor, mas recusa-se,
confortando apenas a esposa e o filho do poeta.
Verlaine é condenado a dois anos de prisão e
duzentos francos de multa. Negam-lhe todos os
recursos ou atenuantes: é imediatamente
escoltado à Penitenciária Agrícola, onde
cumprirá a dura pena.
Após o episódio com Verlaine, Rimbaud retorna a
Roche, onde acaba de escrever naquele sótão sua
obra-prima : Uma Temporada no Inferno. Ele
insufla seus escritos com o espírito gaulês
pré-cristão: "Herdei de meus ante-passados
gauleses o amor pelo sacrilégio. Tenho os olhos
fechados à vossa luz". Em Bruxelas, um editor de
revistas jurídicas resolve editar a obra. Os
custos ficariam a cargo do autor e o Sr. Poot
lhe pede então um adiantamento. A mãe do poeta
acabará desembolsando a quantia, embora a
contragosto. Em outubro de 1873 Uma Temporada no
Inferno é finalmente publicada. Rimbaud recebe
alguns exemplares e, no mesmo dia, entrega um
deles na portaria do presídio com a lacônica
dedicatória: " A P. Verlaine ". Sua mãe não
entende uma palavra do livro e pergunta-lhe,
perplexa: "O que quis dizer ?". "Disse o que
está dito, literalmente e em todos os sentidos",
responde Rimbaud, com certa irritação. Em Paris
distribui alguns volumes a amigos. O episódio de
Bruxelas havia se espalhado com muita rapidez no
Quartier Latin e Rimbaud passa a ser acusado da
ruína do amigo. Nos meios literários ninguém
mais ousa dizer que é seu conhecido e entre os
parnasianos apenas os fatos desagradáveis, como
sua conduta imprópria nos encontros, são
lembrados. De vítima passa a vilão da história.
Voltando a Roche, nem quer ouvir falar em
literatura, e é possível que tenha queimado os
exemplares restantes, como também alguns
manuscritos.
Na primavera de 1874, volta a Londres em
companhia do jovem poeta provencal Germain
Nouveau. Alugam um pequeno quarto na Stampford
Street e Rimbaud retoma suas Iluminações. Um
estudo grafológico feito recentemente veio
provar que a maior parte desses poemas em prosa
data dessa época, revelando também rasuras
feitas pelo poeta. Por sua vez, os poemas de
Nouveau publicados pela revista parisiense Le
Renaissance apresentam grande influência
rimbaudiana, como, por exemplo, Les hôtesses.
Durante este período, presume-se que Rimbaud
tenha dado aulas de francês e trabalhado como
guia turístico e intérprete. Um mês após sua
chegada em Londres, Germain Nouveau é advertido
de que, na companhia de Rimbaud, não teria
futuro literário. Decide então retornar o mais
breve possível a Paris. Em maio, Rimbaud recebe
a visita de sua mãe e da irmã, Vitalie, de
dezesseis anos. Passam alegres momentos
visitando a cidade, enquanto o poeta procura em
vão um emprego. O Times de Londres publica em
sua seção de classificados em 7 e 8 de novembro
o curioso anúncio : "Parisiense de vinte anos,
de elevados conhecimentos literários e
lingüísticos e excelente conversação, oferece-se
para acompanhar um gentleman (de preferência
artista) ou então uma família em viagem pelos
países do Sul ou Oriente. Muito boas
referências. A.R. King´s Road, no 165".
Em janeiro de 1875 Rimbaud parte para Stuttgart
com o intuito de aprender o alemão. Verlaine,
por essa época, havia saído da prisão e,
convertido agora ao cristianismo, considera-se
um novo homem, cujo lema é " Nos amemos em Jesus
! ". Nem bem atravessa os portões do presídio,
vai em busca de Rimbaud na Alemanha, movido por
uma dupla missão : recuperar o amigo e salvar
uma alma ! Encontram-se na casa do doutor Lübner
(onde Rimbaud dava aulas aos filhos dele) e
Verlaine lhe mostra seus mais recentes versos
místicos de inspiração cristã. Rimbaud, por sua
vez, lhe entrega os originais das Iluminações,
incumbindo-o de levá-los a Germain Nouveau em
Paris. Tudo corre às mil maravilhas, até que em
um certo momento Rimbaud começa a irritar-se com
toda aquela pregação e, entre blasfêmias e
palavrões, o intima a conhecer as famosas
cervejarias da cidade. Rimbaud escreve a
Delahaye, em 5 de março de 1875 : " Verlaine
apareceu aqui de terço na mão... Três horas
depois havíamos renegado seu deus e sangrado as
98 chagas de N.S.". Ao que tudo indica o
encontro terminara mais uma vez em briga. Nunca
mais se verão : a ruptura desta vez é
definitiva. Verlaine, poucos dias depois,
declara que Rimbaud é um crápula e aos trinta
anos não será mais que um burguês vulgar. O
jovem poeta, por sua vez, comenta a amigos que
Verlaine não passa de um grande unha-de-fome
disfarçado de jesuíta e ainda por cima querendo
dar lições de moral.... Jamais se saberá o
porquê, mas aos dezenove anos Rimbaud pára de
escrever. De agora em diante constarão apenas
suas cartas e um relato técnico de poucas
páginas, encomendado em 1883 pela Sociedade
Geográfica. Mas a unidade entre sua vida e a
poesia é tão intensa que, mesmo não mais
escrevendo, sua grande aventura poética neste
momento está apenas começando. Será o eterno
adolescente, desbravador das paragens inauditas,
tanto poéticas quanto insólitas, como os
infindáveis e escaldantes desertos africanos. Em
nenhum momento este espírito aventureiro,
profético e poético o abandonará.
Perfil biográfico elaborado por
Alberto Marsicano
|

ARTHUR RIMBAUD
POEMAS
OS EXPERIENTES
POEMA I
Nodosos, arruinados, olhos circundados de tons
Verdes, dedos inchados nas coxas crispados,
Cocurutos cobertos de incertos cascões
Como exantemas morféticos de velhos muros;
Amalgamaram,em amores epiléticos,
Suas fantásticas ossaturas às armações negras
De suas cadeiras; pés de vergalhões raquíticos
Entrelaçam-se ao acordar e ao dormir!
Esses velhos sempre se grudaram a seus assentos,
Sentindo o sol vivo apergaminhar suas peles,
Ou mirando a vidraça onde a neve esbarra,
Arrepiando-se ao grasnar doloroso dos sapos.
-E seus assentos tem vantagens: queimados
-De marron, seu vime cede aos ângulos ossudos;
-A alma de velhos sóis ilumina-se embaralhada
-Na trama hirsuta onde fermentava a semente.
Os Experientes, curvados, pianistas vigorosos,
Dez dedos sob o banco, tamborilando,
Ouvem-se sussurrando tristes barcarolas,
Cacholas acompanhando o balanço do amor.
-Oh! Não os façam levantar-se!É o naufrágio...
Eles surgem, grunhindo como gatos feridos,
Abrindo lentamente os ombros, oh! raiva!
Com as calças infladas pelos rins inchados.
E pode-se escutá-los, martelando suas cabeças
calvas
Contra as paredes sombrias, batendo com seus pés
tortos;
Seus botões são como pupilas fulvas
Que brilham no fundo dos corredores.
Eles têm,também, uma invisível força assassina:
Pelos cantos,seus olhares exibem a peçonha negra
Do olho sofredor da cadela machucada.
E você sua, preso num enorme funil.
Eretos, pulsos enfiados em punhos sujos,
Eles sonham com os que irão fazê-los levantar-se
E, do nascente ao poente, suas tonsilas,
Sob os queixos frágeis, fremem até rebentar.
Quando o pesado sono embota-lhes os sentidos,
Sonham, sobre os braços daqueles úteis assentos,
Com a verdadeira mesquinhez de uma fila de
cadeiras
Que cercará mesas importantes.
Flores coloridas ejaculando pólens em vírgulas
Os embalam, a cavaleiro ao longo das sépalas
Qual volantes libélulas nos filamentos dos
gladíolos
-E seus membros excitam-se no trançado de
palhas.
REPOUSANDO NO VALE
POEMA II
É um pedaço de erva onde canta um ribeiro
Que rasga tresloucado o parco prateado
Verde; onde o sol, do despenhadeiro
Brilha: é um pequeno vale espelhado.
Um soldado jovem, boca incerta, cabeça
descoberta,
Nuca banhada pelo fresco agrião azul,
Dorme; ele se estica sobre a relva, sob a mata
aberta,
Pálido em seu leito verde onde chove luz.
Pés sobre os gladíolos, dorme. Sorriso disforme
De criança doente, ele dorme:
A Natureza calorosamente o envolve: ele tem
frio.
Suas narinas não estremecem com os cheiros;
Dorme sob o sol, com a mão sobre o peito.
Tranqüilo. Tem, no lado direito, dois vermelhos
orifícios.
MA BOHÈME (FANTAISIE)
POEMA III
Eu me ia, os punhos em meus bolsos furados
Por isso meu casaco era imprescindível...
Caminhava a céu aberto, Musa! E era seu fiel.
Olalá! Que amores esplêndidos por mim
sonhados...
Minha única calça tinha um grande buraco.
Pequeno Polegar sonhador, eu percorria correndo
Minhas rimas, refugiando-me na Ursa Maior.
Minhas estrelas, no céu, farfalhavam suave.
Eu as ouvia, sentado à beira das estradas
Nas benévolas insônias de setembro,
Quando como se fossem de estafa,
Sentia na testa as gotas de orvalho.
Quando, rimando entre sombras fantásticas
Como astros, eu puxava os elásticos
De meus sapatos rotos,
Até perto do meu coração pisado.
OS CORVOS
POEMA IV
Senhor, quando fria está a planície,
Quando no vilarejo diluto
O indolente Angelus é tudo...
Sobre a terra só apatia,
Fazei descer do firmamento
Os amados e voluptuosos corvos.
Estranho exército de gritos ásperos,
Ventos frios fustigam vossos ninhos!
Dispersai-vos e uni-vos,
Ao longo dos rios outonais,
Sobre rotas de antigos calvários,
Sobre grotas e valados.
Em multidão sobre os campos de França,
Onde repousam mortos ancestrais,
Iludi o inverno
Para que o passante reflita!
Sê, pois, o pregoeiro da faina,
Oh!nosso fúnebre pássaro negro!
Porém, divindades, no alto do carvalho,
Mastro perdido na noite enfeitiçada,
Deixai as toutinegras de maio
Para os que as prendam nos confins do bosque,
Na mata de onde não possam fugir
À evasão sem porvir.
ARTHUR RIMBAUD
SANGUE RUIM
De meus antepassados gauleses tenho os olhos
azuis, a fronte estreita, a falta de jeito na
luta. Penso que minha maneira de vestir é tão
bárbara quanto a deles. Mas não unto os cabelos.
Os gauleses eram os esfoladores de animais, os
queimadores de ervas mais ineptos de seu tempo.
Tenho deles: a idolatria e o amor ao
sacrilégio;- Oh! todos os vícios, cólera,
luxuria, - magnífica, a luxuria; - sobretudo
mentira e indolência.
Tenho horror a todos os ofícios. Patrões e
operários, todos são camponeses, ignóbeis. A mão
que segura a pena vale tanto quanto a que
empurra o arado. - Que mais a domesticidade
conduz a muito longe. Os criminosos repugna-me
como se fosse castrados: quanto a mim, estou
intacto, e isto pouco me importa.
Todavia! quem fez minha língua de tal modo
pérfida que ela orientou e protegeu até aqui
minha indolência? Sem me servir de nada, nem
mesmo de meu corpo, e mais ocioso que o sapo,
tenho vivido em toda parte. Não há família da
Europa que eu não conheça. - Falo, naturalmente,
de famílias como a minha, que devem tudo a
Declaração dos direitos do homem. Conheci cada
filho de família...
Uma Temporada no Inferno e Iluminações
Tradução de Lêdo Ivo
FRASES
Quando se reduzir a um só bosque negro para
nossos quatro olhos atônitos,- a uma praia para
duas crianças fiéis,- a uma mansão musical para
nossa clara simpatia, - vou te encontrar. Haja
aqui embaixo só um velho solitário, calmo e
bonito, em meio a um "luxo incrível",- vou estar
a teus pés. Assim que eu realize todas as tuas
fantasias, - sendo eu aquela que sabe
torturar-te,- vou te estrangular.
***
Quando a gente é forte,- quem se afasta? muito
fresco,- quem cai no ridículo? Quando a gente é
mau, que fariam de nós? Se arrume, dance, ria,-
Nunca pude mesmo jogar o Amor pela janela.
***
- Minha amiga, mendiga, criança-monstro! Pra
você é tudo igual, essas mal-amadas e suas
intrigas, e meu embaraço. Junte-se a nós com sua
impossível voz! único bajulador desse vil
desespero. Manhã nublada, julho. Um gosto de
cinzas flutua no ar; - aroma de madeira suando
na lareira,- flores mofadas - a confusão dos
passeios- a neblina dos canais pelos campos-
agora, que tal os joguinhos e o incenso?
***
Estendi cordas de campanário, a campanário;
guirlandas de janela a janela; correntes de ouro
de estrela a estrela, e danço.
***
o lago lá em cima se esfuma sem cessar. Que
feiticeira vai subir do poente branco? Que
frondescências violetas vão descer?
***
Enquanto recursos públicos se evaporam em festas
de fraternidade, um sino de fogo rosa soa nas
nuvens.
***
Avivando um cheiro bom de tinta da China, uma
poeira negra chove docemente em minha vigília.-
Diminuo a luz do lustre, me jogo na cama, e,
voltando pro lado da sombra, vejo vocês, minhas
meninas! minhas rainhas!
CENAS
A antiga Comédia Prossegue
Em Seus Acordes e Divide Seus Idílios:
Bulevares de Teatro.
|
Um longo cais de madeira
de um canto a outro do campo rochoso onde
a multidão bárbara evolui sob árvores
saqueadas.
Nos corredores de gaze negra, seguindo os
passos dos transeuntes com lanternas e
folhas.
Os pássaros da trama se precipitam sobre
um pontilhão de alvenaria movido pelo
arquipélago repleto das embarcações dos
espectadores.
Cenas líricas, acompanhadas de flautas e
tambores, se inclinam nos nichos dispostos
sob os tetos ao redor dos salões de clubes
modernos ou salas do Oriente antigo.
Manobra feérica no alto do anfiteatro
coroado de matas, - Onde se agita e modula
aos Beócios, à sombra das florestas
móveis, sobre a divisória das culturas.
A ópera-cômica se divide sobre o palco no
ângulo de intersecção de dez divisórias
que se erguem da galeria às luzes. |
MARINHA
As carroças de cobre e prata -
As proas de prata e aço -
Espalmam espumas, -
Esgarçam maços de sarças.
As correntezas da roça,
E os sulcos imensos do refluxo,
Fluem em círculos rumo a leste,
Rumo às hastes da floresta, -
Rumo aos fustes do quebramar,
Cujo ângulo é ferido por turbilhões de luz.
VAGABUNDOS
Irmão miserável!
Quantas vigílias atrozes eu lhe devo!
"Eu não me entregava com fervor a este negócio.
Caçoava de sua doença.
Por minha culpa voltaríamos ao exílio, à
escravidão".
Ele me achava um pé frio,
e de uma inocência bizarra demais,
e adicionava razões inquietantes.
Eu respondia rindo deste doutor satânico,
e acabava ganhando a janela.
Eu criava, além do campo atravessado por bandas
de música rara,
os fantasmas do futuro luxo noturno.
Depois dessa distração ligeiramente higiênica,
me deitava numa esteira.
E, quase toda noite, assim que dormia,
o pobre irmão se levantava, boca podre, olhos
esbugalhados,
- como ele se sonhava!- e me arrastava pela
sala,
uivando o sonho de sua mágoa idiota.
Eu tinha prometido, de fato, do fundo do
coração,
recuperar seu estado primitivo de filho de Sol,
- e vadiávamos, alimentados pelo vinho das
cavernas
e pelo biscoito do caminho, eu com pressa de
achar o lugar e a fórmula.
MOVIMENTO
O movimento oscilante nas margens das quedas do
rio.
O abismo na popa,
A rapidez da rampa,
A passagem imensa da correnteza
Levam por luzes inauditas
E novidade química
Os viajantes rodeados pelas trombas do vale
E do strom.
Esses são os conquistadores do mundo
À procura da fortuna química pessoal;
Esporte e conforto viajam com eles;
Eles levam a educação
Das raças, classes e bichos, nesse navio
Repouso e vertigem
À luz diluviana
Nas noites terríveis de estudo.
pois entre os aparelhos, o sangue, as flores, o
fogo, as jóias,
dos registros agitados dessa nave fugitiva,
- Se vê, rolando como um dique além da rota
hidráulica motriz,
monstruoso, luz que não tem fim, - seu stock de
estudos;
Impelidos ao êxtase harmônico,
E o heroísmo da descoberta.
nos acidentes atmosféricos mais imprevisíveis,
Um casal de jovens isola-se na arca.
- É permitida essa selvageria primitiva? -
E canta, se situa.
ESCRITOS
Por que estudar o latim; ninguém
fala essa língua, algumas vezes
eu a vejo nos jornais mas
graças a Deus não serei jornalista!
Que me importa que Alexandre
tenha sido célebre? Que me importa...
Quem sabe se os latinos existiram?
Talvez seja uma língua forjada
e mesmo se eles existiram
que me deixem em paz e fiquem
com a sua língua, que mal lhes
fiz para que me persigam
até o suplício, passemos ao grego...
ninguém no mundo fala essa língua asquerosa
ninguém!...
com os diabos
com a breca, eu serei capitalista
chega de gastar os fundilhos nos bancos de
escola...
com os diabos!
para ser engraxate, se empregar
como engraxate é preciso prestar exame
pois os empregos que lhe oferecem são
de engraxate ou guardador de porcos ou de vacas
graças a Deus não quero nada disso
com os diabos!
ARTHUR RIMBAUD
CARTA DO VIDENTE
|
Carta
escrita por Rimbaud a Paul Demeny no dia
15 de Maio de 1871. A carta começa por
apresentar um poema do autor ("Chant de
Guerre Parisien") dedicado à Comuna e
prossegue depois da seguinte forma -
Tradução provisória.
- Eis agora uma prosa sobre o futuro da
poesia -
Toda a poesia antiga desemboca na poesia
grega, Vida harmoniosa. - Da Grécia ao
movimento romântico - Idade Média -, há
letrados, versificadores. De Énio a
Teroldo, de Teroldo a Casimir Delavigne,
tudo é prosa rimada, um jogo, rebaixamento
e glória de inúmeras gerações idiotas:
Racine é o puro, o forte, o grande. - Se
lhe soprassem nas rimas, se lhe
baralhassem os hemistíquios, o Divino Tolo
seria hoje tão ignorado como um qualquer
autor de Origens. - Depois de Racine, o
jogo ganha bolor. Durou dois mil anos!
Nunca ninguém julgou devidamente o
romantismo. Quem o poderia julgar? Os
Críticos!! Nem brincadeira, nem paradoxo.
A razão inspira-me mais certezas sobre o
assunto que cóleras alguma vez teve um
Jovem-França (1). De resto, os novos que
detestem quanto queiram os antepassados:
estamos em casa e temos tempo. Os
Românticos? que tão bem provam que a
canção é tão raramente obra, quer dizer,
pensamento cantado e compreendido do
cantor.
Com efeito, EU é outro. Se o cobre acorda
clarim, a culpa não é dele. Para mim, é
evidente: assisto à eclosão do meu
pensamento: fito-o escuto-o: dou com o
golpe de arco no violino: a sinfonia tem
um estremecimento nas profundidades ou
salta de súbito para a cena.
Se os velhos imbecis não tivessem
encontrado do Eu apenas o significado
falso, não teríamos que varrer esses
milhões de esqueletos que, há um tempo
infindo, acumularam os produtos da sua
inteligência vesga, proclamando-se seus
autores!
Na Grécia, disse eu, versos e liras ritmam
a Acção. Depois disso, música e versos são
jogos, entretenimentos. O estudo desse
passado encanta os curiosos: vários
regozijam-se a renovar essas antiguidades:
- a coisa é para eles. A inteligência
universal sempre largou as suas ideias
naturalmente; os homens colhiam uma parte
desses frutos do cérebro: agia-se por,
escreviam-se livros disso: tal era a
marcha, que o homem não se trabalhava, não
estava ainda desperto, ou ainda não na
plenitude do grande sonho. Funcionários,
escritores. Autor, criador, poeta, tal
homem nunca existiu!
O primeiro estudo do homem que quer ser
poeta é o seu próprio conhecimento,
inteiro. Busca a sua alma, inspeciona-a,
tenta-a, aprende-a. Logo que a saiba, tem
de a cultivar: parece simples: em todo o
cérebro consuma-se um desenvolvimento
natural: tantos egoistas se proclamam
autores; e há tantos outros que a si
próprios atribuem o seu progresso
intelectual! - O que há a fazer, porém, é
a alma monstruosa: como fazem os
comprachicos (2), pronto! Imagine um homem
que implante e cultive verrugas na cara.
Digo que temos de ser videntes, de nos
tornar videntes.
O Poeta faz-se vidente por um longo,
imenso e ponderado desregulamento de todos
os sentidos. Todas as formas de amor, de
sofrimento, de loucura; procura por si
próprio, esgota em si próprio todos os
venenos para só lhes guardar as
quintessências. Inefável tortura em que
precisa de toda a fé, de toda a força
sobre-humana, em que se torna entre todos
o grande doente, o grande criminoso, o
grande maldito - e o supremo Sábio! - Com
efeito, chega ao desconhecido! Visto ter
cultivado a alma, já rica, mais que
ninguém! Chega ao desconhecido; e quando,
apavorado, acabasse por perder a
inteligência das suas visões, tê-las-ia já
visto! Que rebente no seu salto pelas
coisas inauditas e inúmeras: outros virão,
horríveis trabalhadores; começarão pelos
horizontes em que o outro tombou!
- Segue dentro de seis minutos -
[Rimbaud intercala aqui um "segundo salmo
hors texte" - Mes Petites amoureures]
- Prossigo -
O poeta é pois verdadeiramente ladrão de
fogo.
Está encarregado da humanidade, dos
próprios animais: terá de fazer com que as
suas invenções se sintam, se apalpem, se
escutem. Se o que traz de longe tem forma,
ele dá forma; se é informe, dá algo de
informe. Encontrar uma língua; - De resto,
uma vez que toda a palavra é ideia, virá o
tempo de uma linguagem universal! É
preciso ser académico - mais morto do que
um fóssil - para completar um dicionário,
seja em qua língua for. Se um fraco se
pusesse a pensar na primeira letra do
alfabeto, bem depressa poderia precipar-se
na loucura!
Essa língua será língua da alma para a
alma, língua que resume tudo, perfumes,
sons, cores, pensamento que agarra o
pensamento e o puxa. O poeta definiria a
quantidade de desconhecido que desperta no
seu tempo, na alma universal: daria mais
do que a fórmula do seu pensamento, que a
anotação da sua marcha para o Progresso!
Enormidade que se torna norma absorvida
por todos, seria verdadeiramente um
multiplicador de progresso!
Esse futuro será materialista, como vê. -
Sempre plenos do Número e da Harmonia, os
poemas serão feitos para ficar. - No
fundo, seria ainda um pouco a Poesia
grega.
O ar eterno teria as suas funções, como os
poetas são cidadãos. A Poesia já não
ritmará a acção; ir-lhe-á à frente.
Esses poetas existirão! Quando se quebrar
a infinita servidão da mulher, quando ela
viver para si e por si, tendo-lhe o homem
- até agora abominável - dado o seu mote,
ela será também poeta! A mulher encontrará
desconhecido! Os seus mundos de idéias
serão diferentes dos nossos? - Encontrará
coisas estranhas, insondáveis, repelentes,
deliciosas; colhê-las-emos,
comprendê-las-emos.
Enquanto isso, peçamos ao poeta novidade -
ideias e formas. Todos os hábeis em breve
poderiam julgar ter satisfeito o pedido: -
não é isso! |
ARTHUR RIMBAUD
A ETERNIDADE
De novo me invade.
Quem? - A Eternidade.
É o mar que se vai
Como o sol que cai.
Alma sentinela,
Ensina-me o jogo
Da noite que gela
E do dia em fogo.
Das lides humanas,
Das palmas e vaias,
Já te desenganas
E no ar te espraias.
De outra nenhuma,
Brasas de cetim,
O Dever se esfuma
Sem dizer: enfim.
Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e paciência,
Suplício seguro.
De novo me invade.
Quem? - A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.
Tradução: Augusto de Campos
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Iracema Zanetti |