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Alphonsus, o poeta das
sonoridades siderais
Depois da
quase lendária edição de 1938, dirigida e
revista por Manuel Bandeira, com notícia
biográfica e notas de João Alphonsus, numa
publicação que dignificava o Ministério da
Educação e Cultura da época, coube agora à
editora Nova Aguilar, em co-edição com a
Biblioteca Nacional, trazer-nos de volta a
poesia completa de Alphonsus de Guimaraens, num
ato de justiça literária para com um poeta de
altíssima expressão, que não teve em vida o
reconhecimento popular que merecia, e de
clarividência editorial para com o leitor de
hoje, carente e desejoso de uma poesia que tenha
tal altura e qualidade.
Digo - de volta - porque a velha Aguilar, em
1960, já nos dera a edição de sua "Obra
completa", na qual se incluíam a prosa e a
poesia humorística do chamado "místico de
Mariana"; mas ao revê-la criteriosamente e
reestruturá-la agora, seus organizadores, filho
e neto do poeta, acolitados pela acurácia
editorial de Alexei Bueno, parecem ter
encontrado a medida exata para a tornar
definitiva, ao dela expurgarem aquelas partes
que, conquanto curiosas do ponto de vista
histórico, nada acrescentavam ao Alphonsus que
ficará, para nós e os vindouros, como um dos
três grandes simbolistas, ao lado de Cruz e
Souza e Augusto dos Anjos.
Houve acréscimos na edição atual, como o soneto
XXXVI da "Escada de Jacó", a tradução do soneto
de Arvers e outros; mas o enriquecimento
principal desta edição - a par da compactação
poética a que nos referimos - deve ser creditado
às notas e variantes e à seletiva fortuna
crítica que precede os poemas, na qual, em
flashes cinematicamente expressivos, alguns dos
nossos melhores poetas e críticos literários se
manifestam sobre o autor. Entre esses
depoimentos se destaca - pela sua atualidade,
embora escrito em 1942 - a palavra de Carlos
Drummond de Andrade, que já (e ainda) àquela
época fazia um "convite aos críticos para
viajarem na poesia de Alphonsus".
Essa viagem continua à espera de adesões, pois
são poucos os que de fato estudaram a poesia do
solitário poeta provinciano. Com exceção de
Bandeira e Henriqueta Lisboa, que fizeram
sensíveis observações sobre a técnica poética de
Alphonsus - ainda assim em opúsculos ou artigos
de jornal - os que escreveram sobre ele se
mantiveram no umbral das reminiscências ou das
alusões insubstanciais; o único ensaio que
esclarece ou aprofunda o "universo poético de
Alphonsus de Guimaraens" continua sendo este que
Eduardo Portella escreveu há mais de 40 anos
para a edição das "Obras completas" e
merecidamente reproduzido como prefácio da
edição atual.
Pode o leitor no entanto ter idéia de algumas
"homenagens" prestadas ao poeta, não só graças à
recolha dessa bem selecionada mostra "Alphonsus
de Guimaraens e alguns de seus exegetas", mas
igualmente com a leitura dos vários poemas que
lhe foram dedicados, o mais importante dos quais
o de Murilo Mendes, um excerto dos 442 versos
que ele próprio considerava "a cousa mais
importante que escrevi até hoje", e o mais belo
e "alphonsino" de todos, a "Elegia para
Alphonsus", do poeta bissexto Augusto Meyer.
À parte isso, coube ao filho do poeta, Alphonsus
de Guimaraens Filho, dar-nos um retrato de corpo
inteiro da obra/vida de seu pai em "Alphonsus de
Guimaraens no seu ambiente", editado pelo
Departamento Nacional do Livro em 1995, texto de
singularíssima estrutura, em que se relata ao
biografado a sua própria biografia. Nele se
discutem também problemas relativos à técnica do
verso, a variantes e correções, inclusive o
famoso caso dos "olhos bentos" do soneto VI da
Segunda Dor do "Setenário das Dores de Nossa
Senhora", que o poeta-monge dom Marcos Barbosa,
com base na terminologia litúrgica, admitia ler
como "óleos bentos", em paralelo com os "santos
óleos" da extrema-unção - parecer que se nos
afigura dos mais procedentes, já que a
palavra-chave desse verso, "essência", é mais
consentânea com óleos que com olhos.
Alphonsus de Guimaraens possuía domínio absoluto
das formas métricas do simbolismo e das escolas
anteriores, e até mesmo influenciou as práticas
libertárias do modernismo subseqüente. Aquele
alexandrino de Verlaine que chamou a atenção de
Rimbaud - "Et la tigresse épouvantable
d'Hyrcanie" - a ponto de nele ver "forte licence"
por lhe faltar a cesura na 6 sílaba, com os
acentos deslocados para a 4 e a 8 , foi
pioneiramente empregado por Alphonsus no Brasil,
conforme ele próprio afirma numa carta a um
poeta novo. Veja-se, por exemplo, o Electa ut
Sol, de "Dona Mística", no qual abundam exemplos
como: "Ah que eu não seja um padre velho, um
pobre cura!/ Sonhei contigo... Eras tão boa,
eras tão pura!/ A lua vem. Vamos rezar. O
paraíso,/ Anjos e santos ao redor do teu
sorriso", etc.
Também nos versos ímpares, de cinco e nove
sílabas, tão gratos aos simbolistas franceses,
Alphonsus foi um mestre, bastando ler os poemas
de abertura de "Kiriale" e de "Dona Mística".
Mas é no decassílabo em que se revela toda a sua
criatividade e saber fazer: o uso extensivo do
enjambement e da suspensão, alguns de espantoso
arrojo, permitiu-lhe criar uma variedade de
ritmos que tornam sua linguagem pessoal e
inequívoca. É sua marca de fábrica, de uma
fábrica na qual os instrumentos e aparelhos
permanecem ocultos pela espontaneidade e melodia
dos versos que dela jorram. Versos que se
guardam para sempre na memória, que fazem parte
de nosso território poético, assim como amigos
que reconhecemos à distância. Dotados de tal
musicalidade - não aquela habitualmente
cultivada pelos simbolistas, com seus efeitos
sinestésicos e sensualizantes, mas essa música
atemporal, de sonoridades seráficas, de
luminosidades sidéreas - que fazem de cada verso
uma "joy forever".
O leitor de hoje pode perguntar: mas para que
tais estudos de métrica, rimas, musicalidade,
etc. se a poesia de agora não depende dessas
conjunturas? Elas fazem parte da formação de
todo grande poeta e só pelo seu conhecimento
sedimentado é que ele as pode dispensar ou
libertar-se delas. Nas multidões de poetas
livres que passeiam pelas nossas letras atuais
há poucos, muito poucos que deixarão um verso na
memória do leitor. Nenhum talvez conseguirá
vencer as muralhas do tempo produzindo um "Mãos
que os lírios invejam, mãos eleitas" ou "Rosas
que já vos fostes, desfolhadas" ou "Quando
Ismália enlouqueceu/ Na torre pôs-se a sonhar".
Aproveite pois o leitor para esse contato de
primeiro grau com a poesia que fica, a de altura
e qualidade, tão diversa dos modismos mediáticos
ou das catarses irresolutas em que se
transformou boa parte da lírica nacional. Há
sonetos de Alphonsus que deviam ser tombados
como os monumentos de sua histórica Mariana.
Em 1895, Alphonsus, antes de mergulhar em sua
província mineira, vem de São Paulo ao Rio para
estar pessoalmente com Cruz e Sousa, a quem
muito admirava. Em 10 de julho de 1919, já é
Mário de Andrade, o futuro corifeu do
modernismo, quem vai a Mariana saudar o
"príncipe dos cantores de sua terra". A reação
de Alphonsus, do fundo da vida modesta que
levava, foi: "Príncipe? Pobre príncipe! Pobre
Alphonsus".
Esse encontro inspirou a Drummond o poema "A
visita", que tem um momento simplesmente mágico:
é quando os versos do velho poeta, recitados
pelo jovem visitante, ganham corpo e forma,
ficam patentes no ar como elfos espiralantes.
Bela imagem para caracterizar a poesia etérea de
Alphonsus. Uma poesia na qual tudo parece fácil,
natural, espontâneo, brotado da mina do quintal.
Nada se vê da espantosa estrutura técnica que
permite esse evolar da poesia, como na música de
Mozart, extremamente complexa em sua aparência
de facilidade. Rico Alphonsus!
Biografia
Afonso
Henriques da Costa Guimarães. Ouro Preto - MG,
1870 - 1921. Obras Principais: Setenário das
Dores de Nossa Senhora, 1899; Dona Mística,
1899; Kiriale, 1902; Pastoral aos Crentes do
Amor e da Morte, 1923.
Alphonsus de Guimaraens (1870 - 1921) - Afonso
Henriques da Costa Guimarães nasceu em Ouro
Preto, Minas Gerais. Depois de uma ligeira fase
boêmia e dandy na juventude, inicia o curso de
Engenharia, mas logo o abandona e forma-se em
Direito. Colabora com jornais diversos, e, após
casar-se e ingressar na magistratura, vai
residir em Mariana, de onde raramente sai, até
falecer, aos 51 anos de idade. Sua poesia busca
traduzir a musicalidade e a sutileza de Verlaine
para a atmosfera religiosa que respirava. Seus
livros mais importantes são Dona Mística (1899)
e Kyriale (1902).
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Alphonsus de Guimaraens
Ossa Mea II
Mãos de finada, aquelas mãos de neve,
De tons marfíneos, de ossatura rica,
Pairando no ar, num gesto brando e leve,
Que parece ordenar mas que suplica.
Erguem-se ao longe como se as eleve
Alguém que ante os altares sacrifica:
Mãos que consagram, mãos que partem breve,
Mas cuja sombra nos meus olhos fica...
Mãos de esperança para as almas loucas,
Brumosas mãos que vêm brancas, distantes,
Fechar ao mesmo tempo tantas bocas...
Sinto-as agora, ao luar, descendo juntas,
Grandes, magoadas, pálidas, tateantes,
Cerrando os olhos das visões defuntas...
Alphonsus de Guimaraens
Pulchra Ut Luna II
Celeste... É assim, divina, que te chamas.
Belo nome tu tens, Dona Celeste...
Que outro terias entre humanas damas,
Tu que embora na terra do céu vieste?
Celeste... E como tu és do céu não amas:
Forma imortal que o espírito reveste
De luz, não temes sol, não temes chamas,
Porque és sol, porque és luar, sendo celeste.
Incoercível como a melancolia,
Andas em tudo: o sol no poente vasto
Pede-te a mágoa do findar do dia.
E a lua, em meio à noite constelada,
Pede-te o luar indefinido e casto
Da tua palidez de hóstia sagrada.
Alphonsus de Guimaraens
Árias e Canções I
A suave castelã das horas mortas
Assoma à torre do castelo. As portas,
Que o rubro ocaso em onda ensangüentara,
Brilham do luar à luz celeste e clara.
Como em órbitas de fatias caveiras
Olhos que fossem de defuntas freiras,
Os astros morrem pelo céu pressago...
São como círios a tombar num lago.
E o céu, diante de mim, todo escurece...
E eu que nem sei de cor uma só prece!
Pobre alma, que me queres, que me queres?
São assim todas, todas as mulheres.
Alphonsus de Guimaraens
Terceira Dor II
É Sião que dorme ao luar. Vozes diletas
Modulam salmos de visões contritas...
E a sombra sacrossanta dos Profetas
Melancoliza o canto dos levitas.
As torres brancas, terminando em setas,
Onde velam, nas noites infinitas,
Mil guerreiros sombrios como ascetas,
Erguem ao Céu as cúpulas benditas.
As virgens de Israel as negras comas
Aromalizam com os ungüentos brancos
Dos nigromantes de mortais aromas...
Jerusalém, em meio às Doze Portas,
Dorme: e o luar que lhe vem beijar os flancos
Evoca ruínas de cidades mortas.
Alphonsus de Guimaraens
Cisnes Brancos III
Ó cisnes brancos, cisnes brancos,
Porque viestes, se era tão tarde?
O sol não beija mais os flancos
Da Montanha onde mora a tarde.
Ó cisnes brancos, dolorida
Minh'alma sente dores novas.
Cheguei à terra prometida:
É um deserto cheio de covas.
Voai para outras risonhas plagas,
Cisnes brancos! Sede felizes...
Deixai-me só com as minhas chagas,
E só com as minhas cicatrizes.
Venham as aves agoireiras,
De risada que esfria os ossos...
Minh'alma, cheia de caveiras,
Está branca de padre-nossos.
Queimando a carne como brasas,
Venham as tentações daninhas,
Que eu lhes porei, bem sob asas,
A alma cheia de ladainhas.
Ó cisnes brancos, cisnes brancos,
Doce afago da alva plumagem!
Minh'alma morre aos solavancos
Nesta medonha carruagem...
Quando chegaste, os violoncelos
Que andam no ar cantaram no hinos.
Estrelaram-se todos os castelos,
E até nas nuvens repicaram sinos.
Foram-se as brancas horas sem rumo,
Tanto sonhadas! Ainda, ainda
Hoje os meus pobres versos perfumo
Com os beijos santos da tua vinda.
Quando te foste, estalaram cordas
Nos violoncelos e nas harpas...
E anjos disseram: - Não mais acordas,
Lírio nascido nas escarpas!
Sinos dobraram no céu e escuto
Dobres eternos na minha ermida.
E os pobres versos ainda hoje enluto
Com os beijos santos da despedida.
Alphonsus de Guimaraens
A Catedral IV
Entre brumas ao longe surge a aurora,
O hialino orvalho aos poucos se evapora,
Agoniza o arrebol.
A catedral eburnea do meu sonho
Aparece na paz do ceu risonho
Toda branca de sol.
E o sino canta em lugebres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"
O astro glorioso segue a eterna estrada.
Uma aurea seta lhe cintila em cada
Refulgente raio de luz.
A catedral eburnea do meu sonho,
Onde os meus olhos tao cansados ponho,
Recebe a benção de Jesus.
E o sino clama em lugebres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"
Por entre lirios e lilases desce
A tarde esquiva: amargurada prece
Poe-se a luz a rezar.
A catedral eburnea do meu sonho
Aparece na paz do ceu tristonho
Toda branca de luar.
E o sino chora em lugebres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"
O céu é todo trevas: o vento uiva.
Do relâmpago a cabeleira ruiva
Vem acoitar o rosto meu.
A catedral eburnea do meu sonho
Afunda-se no caos do céu medonho
Como um astro que já morreu.
E o sino chora em lugebres responsos:
"Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!"
Alphonsus de Guimaraens
Como se Moço e Não Bem Velho Eu Fosse V
Como se moço e não bem velho eu fosse,
Uma nova ilusão veio animar-me,
Na minh'alma floriu um novo carme,
O meu ser para o céu alcandorou-se.
Ouvi gritos em mim como um alarme.
E o meu olhar, outrora suave e doce,
Nas ânsias de escalar o azul, tornou-se
Todo em raios, que vinham desolar-me.
Vi-me no cimo eterno da montanha
Tentando unir ao peito a luz dos círios
Que brilhavam na paz da noite estranha.
Acordei do áureo sonho em sobressalto;
Do céu tombei ao caos dos meus martírios,
Sem saber para que subi tão alto...
Alphonsus de Guimaraens
Ismália VI
Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.
No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...
E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava longe do céu...
Estava longe do mar...
E como um anjo pendeu
As asas para voar. . .
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...
As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma, subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...
Alphonsus de Guimaraens
Hão de Chorar por Ela os Cinamomos... VII
Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.
As estrelas dirão - "Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria.. . "
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.
A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa
Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: - "Por que não vieram juntos?"
Alphonsus de Guimaraens
Soneto VIII
Encontrei-te. Era o mês... Que importa o mês?
Agosto,
Setembro, outubro, maio, abril, janeiro ou
março,
Brilhasse o luar que importa? ou fosse o sol já
posto,
No teu olhar todo o meu sonho andava esparso.
Que saudades de amor na aurora do teu rosto!
Que horizonte de fé, no olhar tranqüilo e garço!
Nunca mais me lembrei se era no mês de agosto,
Setembro, outubro, abril, maio, janeiro, ou
março.
Encontrei-te. Depois... depois tudo se some
Desfaz-se o teu olhar em nuvens de ouro e
poeira.
Era o dia... Que importa o dia, um simples nome?
Ou sábado sem luz, domingo sem conforto,
Segunda, terça ou quarta, ou quinta ou
sexta-feira,
Brilhasse o sol que importa? ou fosse o luar já
morto?
Alphonsus de Guimaraens
Cantem outros a clara cor virente IX
Cantem outros a clara cor virente
Do bosque em flor e a luz do dia eterno...
Envoltos nos clarões fulvos do oriente,
Cantem a primavera: eu canto o inverno.
Para muitos o imoto céu clemente
É um manto de carinho suave e terno:
Cantam a vida, e nenhum deles sente
Que decantando vai o próprio inferno.
Cantem esta mansão, onde entre prantos
Cada um espera o sepulcral punhado
De úmido pó que há de abafar-lhe os cantos...
Cada um de nós é a bússola sem norte.
Sempre o presente pior do que o passado.
Cantem outros a vida: eu canto a morte...
Alphonsus De Guimaraens
Mãos da Morte XI
Mãos de finada, aquelas mãos de neve
De tons marfíneos, de ossatura rica
Pairando no ar, num gesto brando e leve
Que parece ordenar, mas que suplica
Erguem-se ao longe, como se as eleve
Alguém que ante os altares sacrifica
Mãos que consagram, mãos que partem breve
Mas cuja sombra nos meus olhos fica...
Mãos de esperança para as almas loucas
Brumosas mãos que vêm brancas, distantes
Fechar ao mesmo tempo tantas bocas...
Sinto-as agora, ao luar, descendo juntas
Grandes, magoadas, pálidas, tacteantes
Cerrando os olhos das visões defuntas
Alphonsus De Guimaraens
Quando eu disser Adeus XII
Quando eu disser adeus, amor, não diga
adeus também, mas sim um "até breve";
para que aquele que se afasta leve
uma esperança ao mesmo fadiga
da grande, inconsolável despedida...
Quando eu disser adeus, amor, segrede
um "até mais" que ainda ilumine a vida
que no arquejo final vacila e cede.
Quando eu disser adeus, quando eu disser
adeus, mas um adeus já derradeiro,
que a sua voz me possa convencer
de que apenas eu parti primeiro,
que em breve irá, que nunca outra mulher
amou de amor mais puro e verdadeiro.
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Fonte: Jornal De Poesias
Alphonsus De Guimaraens
www.secrel.com.br/jpoesia/al.htm
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