"A poesia é a
vida? Pois claro! Conforme a vida que se tem o
verso vem - e se a vida é vidinha, já não há
poesia/ que resista (...) A poesia é a vida?
Pois claro! Embora custe caro, muito caro, e a
morte se meta de
permeio".
Isto de morrer não pode fazer parte do programa
de ninguém. Ainda menos dos poetas, sejam ou não
surrealistas. Durante anos, Alexandre O' Neill
fez caretas à morte, abrindo a boca num sorriso
de escárnio, deitando a língua de fora,
enfrentando-a. Em 1976, ela respondeu com uma
pontada fulminante, quase fatal, no coração, e a
panne provocou umas tréguas, uma rendição
temporária, uma obediência cega às ordens
médicas. Não pode... não pode... não pode. O
poeta que sempre tropeçou de ternura estava
proibido até de sentir o vento no rosto. O
clínico impediu-o de caminhar contra o vento,
forma categórica de dizer que era melhor
conformar-se, tomar cuidado, ou então...
"Quando se está com uma panne cardíaca, o
universo míngua e um sujeito desliga. Passa para
a categoria do bom doente para salvar o canastro,
mas não tem propriamente medo. Só tem medo que
se enganem nos remédios e lhes enfiem os que são
para algum vizinho... De resto, nada mais, a não
ser que, quando se volta para casa, se sente
tudo fora do sítio e não se acredita que o
canastro volte à normalidade. Nem com um jornal
na mão se pode andar. Até que um dia se sente de
repente melhor que novo e recomeça a fazer
asneiras."
A citação é retirada de uma entrevista dada, em
1982, ao Jornal de Letras. Uma extensa e sabora
conversa em que o entrevistador, Fernando Assis
Pacheco, descreve O'Neill como um tipo que, "por
ser vítima de nervos miudinhos, sempre se gastou
à velocidade de um fósforo", e acabou por se "(en)fartar
na Unidade de Cuidados Intensivos de Santa Maria
a reparar avarias cardíacas". Depois da panne,
Alexandre deixou de correr atrás de miragens
porque - como dizia usando a ironia e o sarcasmo
tão seus característicos - nem sequer podia
correr: "Tenho uma ligeira oscilação quando
ando, até uso uma bengala". O novo artefacto
obrigava-o a olhar para o chão em vez de
enfrentar os olhares femininos de frente,
olhos-nos-óculos, como sempre fizera, à procura
delas, à espera do amor delas. Não se tornara
conformista, isso nunca, pois continuava a luta
de sempre contra a mediocridade, a vulgaridade e
a santa vidinha de todos os dias.
Nos últimos anos perdera-se das vidas. "Dai-nos,
meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que
seja, que o absurdo, mesmo em curtas doses,
defende da melancolia e nós somos tão propensos
a ela!". Não ia a lançamentos de livros nem a
declamações públicas, esquivava-se a tertúlias e
a serões que não fossem caseiros, não aparecia
em festas, recusava escrever em jornais e
desistira de aparecer na televisão. Continuava a
"fazer poesia", alheando-se das "coisas
inutilmente cansativas". Voluntariamente,
remetera-se para a segunda linha dos
intelectuais portugueses sem, no entanto, se
opor ao "establishment literário". O poder quis,
inclusive, homenageá-lo com a Ordem de Santiago
e Espada. Por escrito, Alexandre declinou tão
honrosa oferta, desculpou-se, dizendo que se
havia uma dívida entre ele e o país, era ele
quem devia. "Sou contra. Foi a forma mais
simpática de dizer não", acabou por confessar
anos depois, numa entrevista, que revela um
homem desiludido com a vida, "esses raros bons
momentos intercalados na chatice diária".
Tudo lhe era proibido. Só podia beber um copo de
vinho por dia (branco ou tinto era indiferente),
coisa custosa de aceitar para uma pessoa que, em
outros tempos, "bebia normalmente", ou seja,
antes, durante e depois das refeições. E os
cigarros, Doutor? Dentro dos maços, à venda nas
tabacaria foi a insensível resposta clínica, o
diagnóstico impedioso de quem, por certo, não
passou anos a fumar milhares de cigarrinhos até
ao filtro. Para se acalmar. Alexandre passou a
dedicar os dias ao vício da escrita, entregue a
uma solidão melancólica, um estado que misturava
revolta e indiferença porque sentia a morte
infiltrar-se "muito antes da chegada do caixão":
"Estou a morrer devagarinho, eu que sempre fiz
as coisas depressa". Ele, a quem chamaram pessoa
da noite, ele que gostava de petiscos a desoras
e de ir ao bacalhau com grão na Ribeira lisboeta
de madrugada, confessava ser "mais a fama do que
outra coisa". Ele, a quem apelidaram de boémio e
de quem José Cardoso Pires disse "ser capaz de
estar catorze dias e catorze noites sentado a um
café", reconhecia não sacrificar um jantar com
um amigo à urgência de um soneto. Sophia de
Mello Breyner Andresen leu o manuscrito de
Contos Exemplares na sua sala-de-estar,
esperando ansiosa a opinião do crítico feroz, do
leitor atento, sempre pronto a recomendar este
ou aquele autor, este ou aquele título. Herberto
Helder sujeitou-se a igual exame com Os Passos
em Volta. Outros, escritores-pintores-poetas,
iam lá a casa - Rua da Escola Politécnica, n.º
48 - 2.º andar - só para o ouvirem dizer, com a
dicção de um diseur profissional, versos de
Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto (O'
Neill gravou dois discos e insurgiu-se,
repetidamente, contra aqueles que, na televisão,
tratavam os versos como epitáfios e os liam em
tom fúnebre, associando a poesia portuguesa aos
velórios e assassinando sem piedade os poetas
nacionais).
Nos últimos anos perdeu-se deles, dos amigos, -
zangou-se, entre outros, com Cardoso Pires,
Manuel da Fonseca e Alexandre Pinheiro Torres.
Restaram-lhe apenas um ou dois, os únicos que
cortavam a solidão da casa do Príncipe Real, que
antes partilhara com a sua última companheira, a
professora universitária Laurinda Bom. "Às vezes
está-se sozinho porque se quer e isso pode dar
um bom monólogo, uma meditação. O chato de viver
só é que, às vezes, vou até ao barbeiro da
esquina só para falar com alguém", confessou
Alexandre, que conhecia os "cuidados" a tomar
para adiar o envelhecimento. Mas às precauções
preferiu o conhaque (ou as célebres "velhinhas",
como chamava à tão especial aguardente velha).
Não parecia arrependido, ele que, aos 30 anos,
"despachou" o seu epitáfio: "Aqui jaz Alexandre
O'Neill Um homem que dormiu muito pouco. Bem
merecia isto". A morte, "a fuga definitiva a
todas as chatices", não lhe metia medo, antes
curiosidade, desejo de saber como "vai tudo isto
desfechar". Deus, "esse chato que ressona", era
apenas um nome, pois graças às doses excessivas
de catequese, O' Neill era incapaz até de se
declarar ateu, de se definir perante qualquer
crença religiosa. Fezadas, sim, hipocrisias,
não.
"Se não fui eu quem veio no jornal, foi uma
tosse a menos na cidade... (...) Um crocitar de
corvo fica bem neste anúncio de morte para
alguém que não vê n'alheia sorte a própria
sorte". A 9 de Abril de 1986 entra pela urgência
do Hospital de Santa Cruz, com sérios problemas
cardiovasculares. Confrontado com a "morte, esse
lugar-comum", desata num frémito enlouquecedor,
escrevendo gatafunhos para mais tarde alguém
decifrar, tentando através do papel dizer tudo o
que a voz calara. "Muito desgosto te espreita,
ao longo da tua vida, mas a vara está direita:
tua missão foi cumprida". Agostinho Gericota,
João Pulido Valente e António Alçada Baptista
são os únicos amigos cuja presença reclama. A 19
de Julho é transferido para o Hospital Egas
Moniz, devido a um surrealista surto de
salmonelas na enfermaria da unidade de Carnaxide
onde se encontrava.
"Quem? O infinito? Diz-lhe que entre. Faz bem ao
infinito estar entre gente". Morre, no dia 21 de
Agosto, ao fim de cinco meses de internamento. O
funeral, civil, depositou na manhã seguinte o
corpo no Cemitério de Benfica. "Olha, Alexandre,
a noite passada a tua mosca Albertina veio
masquetear-me o ouvido: que tinhas ido desta
para pior; o que não é de admirar vais ler a
'costumeira nacional' está descansado. Agora, é
só seguir o cherne (*), meu amigo. De ti pouco
se sabia e ainda bem". Palavras do poeta Luís
Pignatelli num bilhete postal publicado na
imprensa. "Às duas por três nascemos, às duas
por três morremos. E a vida? Não a vivemos.
Querer viver (deixai-nos rir) seria muito
exigir".
"Se não fui eu quem veio no jornal, foi uma
tosse a menos na cidade... (...) Um crocitar de
corvo fica bem neste anúncio de morte para
alguém que não vê n'alheia sorte a própria
sorte".
Alexandre O'Neill morreu, no dia 21 de Agosto de
1986, ao fim de cinco meses de internamento.
Durante anos fez caretas à morte, abrindo a boca
num sorriso de escárnio, enfrentando-a. Em 1976,
ela respondeu-lhe com uma pontada fulminante,
quase fatal, no coração. Após uma década de
trégua regressou para a estocada final:
"Quem? O infinito? Diz-lhe que entre. Faz bem ao
infinito estar entre gente".
"Sei muito bem que a biografia explica muita
coisa (até a azia!)".
PÁTRIA: PORTUGAL
Questão que
eu tenho comigo mesmo, golpe até ao osso, fome
sem entretém
(...) feira cabisbaixa, meu remorso meu remorso
de todos nós...
São muitos os que consideram que Alexandre
O'Neill tem uma maior dívida para com o país, do
que o país para com ele.
O seu estilo poético não admitia compadrios
patrióticos, admitia apenas a crítica à
realidade, a verdade.
"- Patriazinha iletrada que pensas tu de mim?
-Que és o esticalarica que se vê."
A violência do autor para com a sua pátria abre
nela uma ferida que põe a nu fraquezas
recalcadas, encobertas pela hipocrisia.
Forte opositor do regime político salazarista,
escreveu a colectânea "Feira Cabisbaixa":
"Ó Portugal, se fosses só três sílabas, linda
vista para o mar, Minho verde, Algarve de cal,
(...) ó Portugal se fosses só três sílabas de
plástico, que era mais barato!"
O'Neill não se coibiu de, após o 25 de Abril,
analisar duramente as maleitas da democracia, e
da integração na União Europeia, tão convidativa
ao tédio e à uniformização:
"Ài-nos meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano
que seja, que o absurdo, mesmo em curtas doses,
defende da melancolia e nós somos tão propensos
a ela!"
O'Neill critíca principalmente o centro urbano
em que vivia (Lisboa).
Relata o cenário tedificante em que os lisboetas
mergulham diariamente:
"Aqui, desta Lisboa compassiva, Nápoles por
suiços habitada, onde a tristeza vil e apagada
se disfarça de gente mais activa; (...)"
Num seu poema endereçado a Nora Mitrani,
refere-se à hipocrisia da sua cidade:
"Não tu não mereces esta cidade não mereces,
esta roda de náusea em que giramos, até à
idiotia."
MARINHEIRO, COM OS PÉS NO AR
"A minha
vida, lisa, aplastrada, chata como tem
transcorrido, só pode ser inventada. E,
seguramente, foi assim que eu passei a vida: a
inventá-la".
Lisboeta com nome de aristocrata irlandês,
Alexandre Manuel Vahia de Castro O'Neill de
Bulhões nasceu a 19 de Dezembro de 1924, na
Avenida Fontes Pereira de Melo. "Há prài 150
anos uns irlandeses fugiram para Portugal. Acho
que eram católicos perseguidos...".
Estava a falar verdade. Shane O'Neill chegou a
Lisboa, em 1736, e por cá deixou uma ilustre
descendência sempre ligada à monarquia, um grupo
de aventureiros tal que, em 30 gerações de
O'Neill's, nunca um único morreu de morte
natural. Era pelo menos esta a história que
Alexandre vendia a quem nela quisesse acreditar,
uma versão que incluía a apresentação da avó
materna, Maria - poetisa, republicana,
sufragista, escritora de romances e livros
infantis. Sucumbira, em 1933, em pleno
Atlântico, próximo de Cabo Verde. De ataque
cardíaco.
A filha, Maria da Graça, a típica aristocrata
rural de dote elevado, maneiras delicadas e
severo carácter, teve o seu segundo filho,
Alexandre, aos 19 anos, depois de, no ano
anterior, ter nascido Maria Amélia ----- os dois
únicos descendentes de um fidalgote lisboeta que
se dizia descendente de Santo António. "Continuo
a aguentar a lenda e a afirmar que, devido ao
Bulhões, sou parente do Santinho, o que me dá
uma certa audiência junto das devotas (...)
Houve um especialista em halografia, e em
particular em Sto. António, que me contou, para
grande desgosto meu, que essa do santo se chamar
Bulhões era uma grande lenda".
Em criança, "era um chato, uma tristeza". Filho
de gente que não o deixava sair à rua, Alexandre
era um miúdo fechado que passava muito tempo à
janela, na casa que dividia com os pais. "É
curioso porque morava na Rua da Alegria, o que
me provocava um enorme sentimento de tristeza,
quando via subir as carroças, com os
trabalhadores de aspecto cansado...". O
espectáculo das pessoas interessou-lhe desde
sempre e as rugas vincadas que tinha na testa
comprovam anos a tentar focar os pequenos olhos
míopes em tudo o que à sua volta mexia.
Mais tarde havia de descrever a infância, que
não conseguia chamar feliz nem rotular de
infeliz, como um tempo cinzento, sem relevo, que
se escondia por detrás de outros tempos, mais
coloridos de emoções. Jogou berlinde, jogou pião
e entre os seis e os 17 anos passou os Verões em
Amarante, terra natal da mãe e de um
tio-advogado, José Vahia, que o acompanhará em
grandes passeios pela região do Douro e lhe lerá
a poesia de Guerra Junqueiro.
"Aos 12 anos, o Xana andava de calção, com uma
espingarda de pressão de ar na mão e íamos
juntos aos pardais". O escritor Alexandre
Pinheiro Torres vivia na Póvoa de Varzim e
voltava à terra natal, só no tempo do calor,
para encontrar o amigo que conhecera em 1937, um
ano depois de Alexandre ter sido obrigado a
inscrever-se na Mocidade Portuguesa. Por volta
de 1942/3, tinha 18 ou 19 anos, o projecto de
poeta conheceu um poeta com projecto: Teixeira
de Pascoaes. Sentou-se numa roda de ouvintes
passivos no Café Central (conhecido como o café
do Belchior), em pleno centro da vila, e
seguia-lhe os passos de volta ao Solar do Gatão,
que Pascoaes ocupava. "Tentando cuspir como ele,
macaqueando-lhe os maneirismos", contará
Pinheiro Torres no seu estilo habitual,
divertido, numa crónica escrita no Jornal de
Letras, onde recordava que, anos mais tarde,
quando já era aluno da Universidade do Porto,
introduziu o amigo na literatura italiana:
leu-lhe "Il fuoco", de Gabriele D' Annunzio. Por
seu lado, Xana introduziu-o noutras artes. Na da
sedução feminina, por exemplo.
O afastamento entre os dois inseparáveis amigos
de infância, dá-se anos mais tarde e é provocado
pela crítica severa que o autor de Espingardas e
Música Clássica escreverá na revista Seara Nova
a propósito de um prefácio que O'Neill dedicou à
obra completa de Nicolau Tolentino. "Ele ficou
doido, ficou furiosíssimo e disse-me: 'Tu agora
não falas comigo durante cinco anos'. E eu:
'Não, ó Alexandre, estás enganado, hão-de ser
dez'. E ele: 'Também está bem'. Pois olhe foram
quinze". Alexandre e Xana encontrar-se-iam, por
acaso, na Rua da Escola Politécnica, já o
segundo estava "próximo de ir desta para
melhor".
Aos 15 anos, O' Neill começa a ler Júlio Verne,
a escrever versos e... chumba a Matemática (após
aulas particulares passará o exame final do no
3.º ano liceal com 19 valores). Aos 18, publica
no jornal de Amarante, A Flor do Tâmega - onde
também escreveram Pascoaes e Agustina Bessa-Luís
-, os seus primeiros três poemas. "A minha mãe
quando apanhava um poema meu - melhor será dizer
versinhos - rasgava-o logo. Provavelmente com a
intenção caritativa de fazer de mim o oitavo
advogado da família dela, de me transformar num
causídico, como se dizia lá por casa". Um dos
seus professores, António Dias Miguel, relembra
um rapaz alegre, com alguns períodos de
introspecção, um instável emocional: "Tinha uma
tendência enorme para zombar de tudo, para pôr
tudo em xeque".
Após novo chumbo no liceu vai para a Escola
Náutica, com aspirações a piloto, por achar "um
modo simpático de vida". Pediram que nadasse,
ele nadou. Não lhe pediram mais nada e ele
entrou na sala de aulas. Durante as férias do
1.º ano dirige-se à Capitania do Porto de Lisboa
para requerer a cédula marítima de praticante de
piloto e acaba-se logo ali a vocação. "Eles
disseram-me: nem pense nisso, você tem uma
miopia desgraçada".
"Eu nasci para marinheiro, mas pus óculos e
fiquei em terra", escreveu o reconhecido "caixadóclos",
imagem que o marcou desde sempre e o obrigou a
andar em terra sempre com os pés no ar (outros
dirão que era apenas distraído). Regressou então
à escola para fazer, como aluno externo, o Curso
Complementar de Letras. Embora já frequentasse
os meandros literários lisboetas, com presença
certa nos famosos "Jantares Dos Dias 13",
organizados na Esplanada do Rato, na Rua de S.
Filipe Nery, onde, entre outros, conheceu Adolfo
Casais Monteiro, Rui Cinaty (seu amigo de muitos
anos) e Almada Negreiros. Aos 18 anos trocou as
aulas pelas leitarias e as tertúlias substituem
as teorias dos encartados professores.
Lisboeta com nome de aristocrata irlandês,
Alexandre dizia-se descendente de católicos
perseguidos e de santos casamenteiros. Filho de
gente que não o deixava sair à rua, era, em
criança, "um chato, uma tristeza". Aos 12 anos,
andava de calção, com uma espingarda de pressão
de ar na mão a matar pardais nos arrabaldes de
Amararante ou a imitar os trejeitos do poeta
Teixeira de Pascoaes (seu vizinho nas longas
férias de Verão). Mais tarde, quis ser
marinheiro, mas obrigaram-no a usar óculos e a
miopia deixa-o para sempre em terra. "A minha
vida, lisa, aplastrada, chata como tem
transcorrido, só pode ser inventada. E,
seguramente, foi assim que eu passei a vida: a
inventá-la".
"A mosca Albertina, que ele domesticava. Vem
agora ao papel, como um insecto-insulto, mas
fingindo que o poeta a esperava... Quase mulher
e muito mosca, Albertina quer o poeta para si.
Quer sem versos o poeta. Por isso fica,
mosca-mulher, por ali..."
OSSOS DO OFÍCIO
SIGAMOS O CHERNE
(Depois de ver o filme "O Mundo do Silêncio" de
Jacques-Yves Cousteau)
Sigamos o cherne, minha Amiga!
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos, até, do cherne um beijo,
Senão já com amor, com alegria..."
Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa do passado
Circula o cherne: traído
Peixe recalcado.
Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando, mentido o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoa.
Coleccionava
ossos como outros coleccionam selos.
Amontoava-os no quarto, no meio de outros
objectos igualmente insólitos, provocando a
indignação familiar, que já não queria um poeta
em casa, muito menos um poeta surrealista. Na
foto oficial da criação do Grupo Surrealista de
Lisboa - tirada num jardim de Campo de Ourique,
em 1947 -, Alexandre pegou num dos alvos da ira
maternal, colocou-o dentro da manga direita do
casaco e, sorridente, mostrou à objectiva... um
fémur (seria?).
Tinha apenas 23 anos quando fundou - em conjunto
com Mário Cesariny de Vasconcellos, António
Pedro, José-Augusto França, Vespeira, Moniz
Pereira, António Domingues e Fernando de Azevedo
- um movimento inspirado no lançado, em 1924,
pelo francês André Breton. Alexandre e Cesariny
conheceram-se, dois anos antes, no Café A
Cubana, em plena Avenida da República. O maestro
Fernando Lopes Graça, que tinha um grupo coral
chamado Amizade, ligado aos movimentos juvenis,
apresenta-os e os dois começam de imediato a
andar pelas colectividades do Barreiro, cantando
ideais proibidos pela lei e pela ordem:
"Politicamente, claro que era do contra: MUD
juvenil".
Poucos meses depois da morte de O'Neill,
Cesariny haveria de recordar "o companheiro
inesquecível dos anos 45 e seguintes", tempos em
que ambos procuraram libertar-se de um "pesadelo
chamado realismo-socialista, entre nós
denominado neo-realismo". "Foi, aliás, o O'Neill",
escreveu no Semanário, "que um dia pôs em cima
da mesa, com visível cara de caso, mas sem dizer
uma palavra, a História do Surrealismo, de
Maurice Nadeau. Já a lera e passava-me a mecha,
a ver o que sucederia. O que sucedeu foi o
início de uma gritaria tal que ainda hoje se
ouve". O encontro aconteceu na Pastelaria
Mexicana e inciciava a "infausta, mas à data
parecendo maravilhosa, formação do Grupo
Surrealista de Lisboa", movimento que Cesariny
abandonará logo no ano seguinte, "por conflitos
estéticos-ideológicos", juntando-se a António
Maria Lisboa e Pedro Oom num grupo dissidente. O
poeta e pintor admitiu, nesse depoimento, que,
sem O'Neill, não teria havido surrealismo. E
relembrou o rapaz, "afável, cordato, fraterno",
que, no dia em que se conheceram, entrou numa
livraria, percorreu as prateleiras e
ofereceu-lhe um livro. Do dramaturgo (Eugene)
O'Neill.
Fossem os ossos, as sopas ou a falta de
descanso, é um facto que Alexandre já saíra de
casa quando se mete nas (atrasadas) aventuras
surrealistas portuguesas. Uma manhã tem uma das
habituais (e sempre iguais) trocas de palavras
com o pai, o emproado empregado bancário José
António Pereira d'Eça Infante de Lacerda O'Neill
de Bulhões:
- Alexandre, leva o chapéu de chuva.
- Não é preciso, pai. Não chove.
- Chove. Leva o chapéu de chuva.
- Não é preciso, Pai.
- Já te disse para levares o guarda-chuva.
- Não levo o guarda-chuva e nunca mais cá
apareço...
Esteve 16 anos sem ver o pai e passou a dividir
um atelier numas águas-furtadas de um prédio
antigo, na Avenida da Liberdade, com Cesariny e
António Domingues. Aí se fizeram, de acordo com
o amigo/visitante Cardoso Pires, múltiplas
colagens colectivas, algumas das quais foram
apresentadas nas primeiras exposições lisboetas
dos surrealistas. "Tenho-me dedicado ao desenho
automático (...) e vou iniciar a minha fase do
escultor... em barro", escreveu a 1 de Outubro
de 1947, este jovem tão fraco que o médico
receou tuberculoso - "Entre uma refeição e outra
penso na próxima", desculpava-se para enganar a
fome que passou após abandonar a casa de seus
pais.
A estreia literária (se esquecermos os versos
publicados no jornal amarantino Flor do Tâmega)
acontece nesse mesmo ano, no Mundo Literário,
com um poema dedicado à realizadora, Noémia
Delgado, sua primeira mulher. Em 1948, aos 24,
publica A Ampola Miraculosa, poema gráfico,
história contada em poucas páginas e construída
à volta de gravuras de antigos manuais de
Física.
"O nosso surrealismo era reacção ao neo-realismo
da época, uma chateza", afirmou, nos anos 80, o
poeta que, logo no primeiro livro -Tempo de
Fantasmas (1951) - se demarca de uma aventura
"reduzida às alegres actividades de dois ou três
incorrigíveis pequenos aventureiros". Por ser um
dos protagonistas, Alexandre tinha dificuldade
em definir o movimento que ajudara a criar e
chamava-lhe "tardo-romantismo".
"Eu, talvez nunca tenha sido um poeta
surrealista (...) prefiro o dizer ao imaginar e
isso talvez explique tudo. Suponho que hoje, em
dia, não tenho nada a ver com um movimento que
está gloriosamente empalhado", confessou,
admitindo, no entanto, uma certa tendência para
o absurdo e uma desarticulação do discurso.
Alexandre até gostava do neo-realista João
Cochofel, mas ao falar dele a conversa não
terminava sem uma piada. "Na altura dizia-se que
quando chegasse a revolução, ele mandava chamar
a criada e gritava 'Maria traz a bomba' e esta
ataviada em rendas, pegava na bandeja de prata e
aprontava-se a obedecer ao seu senhor".
Casamento com Teresa Patrício Gouveia em 4-8-71.
Testemunha, António Tabucchi.
Tem apenas 23 anos quando com Mário Cesariny de
Vasconcellos, António Pedro, José-Augusto França
e Vespeira funda o Grupo Surrealista de Lisboa.
"O nosso surrealismo era reacção ao neo-realismo
da época, uma chateza", afirmou, nos anos 80, o
poeta que, logo no primeiro livro - Tempo de
Fantasmas (1951) - se demarca de uma aventura
"reduzida às alegres actividades de dois ou três
incorrigíveis pequenos aventureiros". Na foto
oficial - tirada num jardim de Campo de Ourique,
em 1947 -, Alexandre pegou num osso, colocou-o
dentro da manga direita do casaco e, sorridente,
mostrou-o à objectiva..
"Sigamos o cherne (*), minha Amiga. Desçamos ao
fundo do desejo. Atrás de muito mais que a
fantasia. E aceitemos, até, do cherne um beijo,
Senão já com amor, com alegria..."
SIGAMOS O CHERNE
Alexandre não
sabia porque escrevia assim. Por que é que
insistia na ironia, no sarcasmo, nos constantes
jogos de palavras. Se calhar, disse um dia -
provavelmente farto da persistência jornalística
-, era para tornar as coisas menos importantes,
mesmo as fundamentais: as da vida. Talvez por
isso é que, sem qualquer pejo, nos mandava
seguir o cherne - e sem ele o cherne não teria
um gosto tão irreverente - para esquecermos que,
no fundo, "não somos mais que solidão e mágoa".
"O adjectivo dá-me de comer. Se não fora ele o
que houvera de ser? Vivo de acrescentar às
coisas o que elas não são.
Mas é por cálculo, não por ilusão". Os leitores
e os críticos - "uns chatos" - achavam-no um
poeta engraçado. Alexandre estava consciente que
era preciso dessacralizar a poesia (e o país),
porque, como insistia, "a sisudez é muito
chata?". Naturalmente odiava a catalogação, não
gostava que lhe chamassem poeta satírico e
irritava-se ao ponto de ficar colérico quando se
ouvia definido como um "blagueur", um tipo com
graça: "As pessoas tendem a ver em mim um
fabricante de piadas, mesmo quando alguns dos
meus poemas são profundamente sérios",
desabafava, consciente que a sua graça era
amarga, era a tristeza contentinha daqueles que,
apesar de "funcionarem no reino do riso, do
humor, são todos muito tristes".
Embora ele próprio, às vezes, se sentisse um
"perfilhado do medo" e soubesse que "a vida sem
viver é mais segura", jamais deixou de apontar o
dedo à feira cabisbaixa que era o Portugal
salazarento, essa patriazinha iletrada, esse
país todo o ano engravatado, a embezerrar que
bem o merecia: "Sempre sofri Portugal, tanto no
sentido de não o suportar como no de o
amar-sem-esperança", disse já na década de 80.
Na de 60, recusou render-se ao medo ("Penso no
que o medo vai ter e tenho medo que é justamente
o que o medo quer"). Inquietou-se com este
Portugal, remorso de sempre, questão permanente
consigo mesmo. Mesmo depois da euforia da
Revolução: "O 25 de Abril libertou-nos da
mediocridade do fascismo e do bota-de-elástico
do Salazar. O que não quer dizer que não
estejamos a cair noutro erro. O 25 de Novembro
foi o regresso a um certo bom senso. Aliás,
suponho que os comunistas pensam o mesmo. Eu cá
não gosto é de atropelos, sejam à esquerda ou à
direita".
Homem de "fezadas", O'Neill inclinou-se para o
PS, "com todos os seus defeitos", e até fez um
"slogan" de campanha, elucidativa das suas
dúvidas: "Ele não merece, mas vota no PS".
Comunismo? Na prática, durante umas férias
passadas na Jugoslávia, achou-o uma desilusão:
"Sou contra as sociedades fechadas como a União
Soviética. Sou abertamente contra esse sistema
concentracionário. Antes quero morrer em
situação de miséria, numa escada de um prédio em
Nova Iorque, do que morrer num hospital
psiquiátrico na União Soviética. Não tenho pejo
nenhum em o dizer."
Uma declaração polémica, proferida numa altura
em que a maioria dos intelectuais portugueses
militava no Partido Comunista. O' Neill apoiou a
recandidatura de Ramalho Eanes, mas também
assinou com 300 outros escritores, em 1985, um
manifesto contra uma candidatura militar.
Desmentiu um eventual (e anunciado) voto em
Salgado Zenha e votou Mário Soares, nas eleições
de Janeiro de 1986. Confiava no político, não no
partido que representava: "Já não vou nessa
do... mal menor".
Frontal na conversa quotidiana, O'Neill estava
sempre a fazer jogos de palavras e a inventar
associações de ideias, como se quisesse aliciar
os ouvintes com truques de linguagem, os mesmos
que usava na publicidade e espalhou em alguns
dos seus poemas. "A vida não é de abrolhos. É de
abr'olhos. A vida não é de escolhos. É de
escolhas". Escrevia esporadicamente, mas de vez
em quando dava-lhe uma febre (os detalhes
seguintes impedem que se use o termo inspiração)
e desatava a arrumar a secretária (sempre um
caos), a despejar cinzeiros, desesperado para se
sentar na Olivetti, a companheira máquina de
escrever de teclado nacional - "a vida em HCESAR
é mais rica de sentido do que a vida em AZERT"
era uma convicção.
Trabalhar, precisava de trabalhar, dizia,
enquanto se mexia sem rumo, num nervoso
inexplicável, que terminava geralmente numa
desistência: "Olha, vamos ali beber uma mosca.
Descíamos umas escadinhas e eram ovos cozidos,
ginginhas, aguardentes e pastéis de bacalhau",
contou Alexandre Pinheiro Torres, num perfil
feito pelo Público, para assinalar o décimo
aniversário da morte de O'Neill que, num poema
dedicado ao amigo, confessou: "Muito deve a
literatura ao absinto. Em qualidade, muito mais
do que ao tinto... Ó Alexandre, manda-me absinto
na volta do correio, que eu já sinto, com tanto
vinho, estancar-se-me o veio".
O vício da escrita obrigava-o a ter consciência
da dificuldade do ofício. A gestação era rápida,
fazia um poema em 2 ou 3 dias, escrevia-os em
papelinhos que guardava na pasta das reservas
poéticas, a que só voltava de longe a longe para
ver "se aguentaram ou não". "Remancha, poeta,
Remancha e desmancha. O teu belo plano de
escrever p'la certa. Não há "p'la certa",
poeta!".
Com o passar dos anos refinou a exigência, a
minúcia do trabalho, o "desatavio voluntário"
para tentar criar os tais poemas privilegiados,
aqueles "que correm bem e emocionam": "É um
processo lento dizer uma coisa. Primeiro faço na
cabeça e então é que escrevo". Não tinha método
ou disciplina, era fazer, guardar e esquecer.
"Só depois do pousio, faço as modificações, o
tal ofício de marceneiro para usar uma imagem
gasta". As ideias surgiam-lhe até a dormir: "Às
vezes levanto-me a meio da noite para ir ao
papel, com medo de me esquecer no dia seguinte".
"Vamos lá a ser modestos. A grande, a boa
poesia, percebe-se logo", afirmou "o grande
poeta menor" - a definição é do próprio -,
consciente que, entre a "meia-dúzia" dos bons,
dos mesmos bons, estavam versos que "nem para
atacadores" davam. "Acaba mal o teu verso mas
fá-lo com um desígnio: é um mal que não é um
mal, é lutar contra o bonito". "Cão", "Portugal"
e "A Vazia Sandália de S. Francisco" eram os
favoritos; "Adeus Português", sabia, "o melhor
de todos".
Portugal, um país de poetas? A frase-feita nunca
fez sentido para Alexandre, que só a considerava
correcta se se identificassem os poetas com os
distraídos: "Lá que somos um país de lunáticos
somos". A mesma pergunta mereceu resposta
diferente noutra entrevista: "Não acredito que
exista uma poesia portuguesa, há é poetas
portugueses". Para ele, Cesariny era o maior dos
vivos, "mas ele nunca foi surrealista: foi
sempre só-realista". Preferia o "grande" Cesário
Verde ao "chato" Pessoa ("que nem sequer sabia
que a alface se deve comer com coentros") e
admitia a sua dependência dos brasileiros
Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Camilo
Castelo Branco era uma paixão permanentemente
rejuvenescida - pelo menos para ele que, por
preguiça, ou insegurança, jamais publicou o
romance que só tentou. "Escrever é... uma mania.
A não ser aqueles escritores com banca montada
há muitíssimos anos e que têm de fazer a obra
deles. Aí, já passa a negócio de papelaria. A
pessoa escreve sem saber porquê. Uns, dizem que
sentem um formigueiro na mão ou na alma. Não
interessa. É sempre uma necessidade quase
física".
Em 1982, desafiado por Vasco Graça Moura,
condensa 30 anos de escrita dispersa em nove
livros - do Tempo de Fantasmas (1951) a As Horas
Já de Números Vestidas (1981) - no volume
Poesias Completas. "Para dizer a verdade estava
farto de tudo o que tinha escrito, farto de
conviver com que o vinham fazendo", afirmou
antes de ser distinguido, ex-aqueo, com o Prémio
do Clube Português da Associação Internacional
de Críticos Literários desse ano. Dividiu os cem
contos com Mário Dionísio, que acabara de
publicar Terceira Idade".
Embora nunca tenha sido um poeta na moda e de
modas (edições reduzidas para leitores
seleccionados), os três mil exemplares da edição
esgotaram-se num ápice. "Iam à procura das
piadas. Lamento: são capazes de terem tido uma
desilusão". A 2ª edição sai em Agosto de 1984 e
acrescenta 19 poemas. Foram os últimos que
escreveu e viu editados. Morreu antes do Círculo
de Leitores lançar Tomai Lá do O'Neill - Uma
Antologia, título escolhido pelo próprio na cama
do hospital. "Não sei se a minha poesia
ultrapassará este século, é uma poesia de curto
prazo (...) Mas, de um modo geral, o balanço é
positivo. Acho que valeu a pena". Escrever bem,
disse, é escrever de tal forma que o que fica
escrito se torna independente da biografia do
autor. Patriazinha iletrada, que sabes tu de
mim?. Alexandre O' Neill - Poesias Completas,
com a chancela da Assírio & Alvim, ajuda a tirar
hipotéticas dúvidas sobre a qualidade deste
poeta. Maior.
Alexandre não sabia porque escrevia assim. Por
que é que insistia na ironia, no sarcasmo, nos
constantes jogos de palavras. Se calhar, disse
um dia - provavelmente farto da persistência
jornalística -, era para tornar as coisas menos
importantes, mesmo as fundamentais: as da vida.
"Vamos lá a ser modestos. A grande, a boa
poesia, percebe-se logo", afirmou "o grande
poeta menor" - a definição é do próprio -,
consciente que, entre a "meia-dúzia" dos bons,
dos mesmos bons, estavam versos que "nem para
atacadores" davam. Cão, Portugal e A Vazia
Sandália de S. Francisco eram os favoritos;
Adeus Português, sabia, "o melhor de todos".
O MODO FUNCIONÁRIO DE VIVER
"Quando o
burocrata trabalha é pior do que quando
destrabalha. Antes quero esperar que discuta
toda a bola ou pedal que tem para discutircom os
destrabalhadores dos seus colegas; antes quero
esperar pelo 'meu' burocrata do que ter a
desilusão de o ver trabalhar para mim mal eu
chegue".
Não conseguia explicar como fora parar à
publicidade, fizera-se aprendiz de copywriter
por ser uma maneira pouco trabalhosa de ganhar o
sustento de cada dia. A verdade é que, em 1952,
por se recusar a usar gravata preta no dia da
morte do marechal Carmona é posto sob
"vigilância especial" na secção de Arquivo e
Expedição de Correspondência, da Caixa de
Previdência dos Profissionais do Comércio. Nomes
pomposos para enquadrar o jovem escriturário de
3ª classe, que, durante seis anos, sentado à
secretária, a troco de 600 escudos mensais,
assegurou o expediente, enquanto sonhava versos
à espera da hora de ir picar o ponto para um
lugar mais agradável.
A demissão compulsiva da Função Pública, aliada
ao facto de José Cardoso Pires - autor da frase
"A camisa do homem que a mulher prefere" - o ter
apresentado ao então director da Cinédia
altera-lhe o destino burocrático. "Alexandre
O'Neill, o maior poeta português vivo" era assim
que, orgulhoso, o patrão, Galveia Rodrigues,
apresentava aos clientes o seu novo empregado.
Na década de 60 começa uma carreira de mais de
30 anos, com passagem por quase todas as grandes
empresas de publicidade, da Publicis à McCann
Erickson, acabando na Publinter. De resto, O'
Neill que sempre se descreveu como um
autodidacta da poesia, orgulhava-se de ter
criado slogans que se tornaram provérbios e cuja
autoria muitos atribuem à sabedoria popular.
O célebre "Há Mar e Mar, Há Ir e Voltar" consta
até de um dicionário de provérbios portugueses,
mas foi criado, por ele, no início dos anos 50,
para uma campanha do Instituto de Socorros a
Náufragos: "Devia ter ganho uma fortuna. Não
ganhei... porque nunca o registei. Mais uma
prova de que nunca penso nas consequências, a
não ser quando escrevo".
Fazer slogans dava-lhe tanto gozo como fazer
versos. "Só é chato quando o cliente não percebe
as nossas intenções. O jeito para o jogo de
palavras, para o trocadilho, vive comigo há
muito tempo e tem-me prejudicado razoavelmente
na poesia, embora agora já esteja melhorzinho",
confessou, em 1982, a Assis Pacheco, o autor de
frases como "Parker preenche em silêncio o seu
papel" e "A Segurança Volta Sempre". Duas das
aprovadas. Uma vez, "por brincadeira", propôs
que o novo slogan do Metropolitano de Lisboa
fosse: "Vai de Metro, Satanás!". O chumbo quase
lhe custou o emprego, como aconteceu com o
conhecido "Bosh é bom", cujo original - recusado
- era "Brosh é Bom". Igual sorte teve o
provocador: "No colchão Lusospuma não se dá só
uma". O realizador José Fonseca e Costa, que
conheceu O'Neill na década de 50, e que deveria
filmar o anúncio, assegura que a frase era
outra: "No colchão Lusospuma, você dá duas que
parecem uma". E contraria uma ideia
generalizada: "Ele só trabalhou na publicidade
porque precisava dela". Ou seja, necessitava de
dinheiro para aguentar a vida de família, "com
as contas a pagar os filhos a fazer/ ou a
evitar".
Embora recusasse o modo funcionário de viver foi
empregado da companhia de seguros Metrópole
(secção de Sinistros de Automóveis), um cargo de
que se demitiu um ano depois da admissão,
alegando um "estado de saúde muito precário" e a
"necessidade urgente de repouso absoluto".
Mudou-se para a divisão agro-química da Sandoz
(de novo) como escriturário (e por lá terá tido
um escaldante caso que acabou em escândalo e
desacato com o marido traído). "É preciso dizer
que o O'Neill nunca tinha dinheiro, gastava o
que ganhava na Sandoz em poucos dias", conta
Alexandre Pinheiro Torres, lembrando a história
de Ruben A. a quem o poeta, seu amigo e vizinho,
ajudou a confeccionar Torre da Barbela.
"O livro [do Ruben A.] tinha andado de editora
em editora, sem que ninguém o quisesse. Era um
livro de cerca de 800 páginas dactilografadas.
Só a massa das páginas assustava os editores.
Começavam a ler e aquilo nunca mais acabava. O
Ruben foi com o original ao O'Neill, à Rua do
Jasmim, ao Princípe Real (...) e pediu-lhe que
lhe revisse o livro, que estivesse à vontade,
ele pagava-lhe o que fosse preciso. Passaram
várias noites por semana a trabalhar e o Ruben
pagava realmente bem".
As 800 páginas acabaram por se transformar em
300 e o livro assinado e editado por Ruben A.,
tinha, na realidade, sido escrito por Alexandre
O'Neill. A história, surpreendente, foi
corroborada pelo próprio José Cardoso Pires -
que, em troca de uns cobres, também deu uma
ajuda nos cortes.
"O mesmo veio de resto a acontecer com a
autobiografia de Ruben A., O Mundo À Minha
Procura. O O'Neill trabalhou nela uns dois ou
três anos. O Ruben agradece-lhe no prefácio
alguma intervenção. Era o que podia fazer sem
dar escândalo. Mais tarde, o O'Neill
desinteressou-se e o Ruben ficou descalço",
contou à revista Ler, no Outono de 1995, o
desbocado Alexandre Pinheiro Torres, através de
quem se sabem a maioria das histórias que o
poeta queria secretas.
Para assegurar o rendimento mínimo garantido,
O'Neill escreveu em quase todos os jornais e
revistas, inclusive em alguns números da revista
Almanaque, cuja redacção, coordenada por Cardoso
Pires, era constituída por Luís Sttau Monteiro,
Augusto Abelaira, Vasco Pulido Valente e
Baptista-Bastos. O grafismo estava a cargo de
João Abel Manta. O primeiro número saiu em
Outubro de 1959, com o preço de 15 escudos, e
Cardoso Pires definiu assim a nova publicação:
"A minha ideia era fazer uma revista que não
respeitasse ninguém e fosse o mais sacana
possível (...) Foi a única publicação em
Portugal que atacou a Amália. Fartou-se de dar
porrada numa data de bonzos." Mal sabia
Alexandre que, a pedido da própria fadista,
haveria de escrever Gaivota, tema cantado no tom
da pequena dor à portuguesa, a eterna lamúria a
que outros chamam destino ou fatalidade: "Se uma
gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa no
desenho que fizesse, nesse céu onde o olhar é
uma asa que não voa, esmorece e cai ao mar."
Para se distrair do estéril quotidiano, o poeta
começou a colaborar em diversos programas da RTP
e, mesmo "sem grande engodo pela TV", tornou-se,
no início da década de 80, popular como jurado
no concurso Prata da Casa. Programa incómodo,
"contínua pedra no sapato" da televisão pública,
esta espécie de jogos sem fronteiras regionais,
apresentada pela dupla Fialho Gouveia-Raul
Solnado, nas noites de sábado, acabou por ser
cancelada pela administração presidida por
Proença de Carvalho. Sem grande explicações,
através da leitura de um comunicado no final de
um Telejornal. "Não são maneiras que se tenham,
numa sociedade que se quer democrática", havia
de comentar Alexandre, que antes experimentara o
cinema como argumentista e intérprete, e, a
seguir, se dedicaria ao teatro. Para o
espectáculo Ninguém - que Ricardo Pais encenou
no Teatro da Trindade em Janeiro de 1979 - criou
as falas de D. Sebastião, um discurso sonâmbulo
e sibilante, uma fala em "ss", para uma
personagem que quis grotesca, enfiada numa
fatiota ridícula, incapaz de se salvar a si
própria quanto mais uma pátria envolta ainda no
fumo de certos nevoeiros políticos.
No ano seguinte é chamado a repuxar
"pés-de-galinha" e remover "flacidezes" à
tragicomédia Jesus Cristo em Lisboa, espectáculo
inspirado na peça de Raul Brandão e Teixeira de
Pascoaes, que Carlos Wallenstein e Norberto
Barroca encenaram no Teatro de São Luiz. Foi,
segundo o então-crítico de teatro, Vítor Pavão
dos Santos, actual director do Museu do Teatro,
uma mistura de "poeta com cirurgião-plástico" e
com "muita leviandade, desenrascou-se, semeando
o texto de graças, gracinhas e graçolas". "Não
podias ficar nesta cadeira onde passo o dia
burocrático, o dia-a-dia da miséria que sobe aos
olhos, vem às mãos, aos sorrisos, ao amor mal
soletrado, à estupidez, ao desespero, ao medo
perfilhado à alegria sonâmbula, à vírgula
maníaca do modo funcionário de viver".
BIOGRAFIA DO AMOR
O célebre "Há
Mar e Mar, Há Ir e Voltar" até consta de um
dicionário de provérbios portugueses, mas foi
criado, por Alexandre O'Neill, no início dos
anos 50, para uma campanha do Instituto de
Socorros a Náufragos: "Devia ter ganho uma
fortuna. Não ganhei... porque nunca o registei".
"Parker preenche em silêncio o seu papel" e "A
Segurança Volta Sempre" são dois dos slogans
aprovados numa carreira de mais de 30 anos como
'copywriter'. "Vai de Metro, Satanás!", "Brosh é
Bom" e "No colchão Lusospuma não se dá só uma"
três exemplos das (reprovadas) irreverências.
Diz-lhe que estás ocupado a entrevistar-te a ti
mesmo mesmo porque se não o pões desde já porta
fora estás quilhado vai espiolhar-te apalpar-te
meter-te o dedo no cu querer saber a quantas
quais mulheres ofereceste teu recortado coração
(pelo picotado) em quantos quais sonetos meteste
o quatorze e quantas quecas te saíram pela
ejaculatra"
Gostava tanto de Bertilde que a beijou. De
repente. Zás! Sem consentimento paterno nem
aviso prévio. Agarrou-a, colou os seus lábios
aos dela e acabou com o recreio. Minutos depois,
Alexandre estava fechado no gabinete do director
do Colégio Português de Educação Feminina e a
envergonhada Bertilde escondia, no bibe, a
vermelhidão de um rosto ainda sem qualquer
vestígio de pó-de-arroz. Por sua vez, a recatada
e conservadora Dona Maria da Graça, tentava
desculpar, por detrás de um falso rubor, o
descaramento do menino que julgava igual à sua
mãe, mas que, com apenas 11 anos, caia no pecado
da luxúria. Por amor a Bertilde, naquele ano de
1935, Alexandre O'Neill quase é expulso da
escola, acusado de algo a que muito mais tarde
se haveria de chamar assédio sexual.
"Andei em colégios particulares, lembro-me
quando fui para o Liceu, a partir do 2.º ano,
começou a segregação dos sexos, meninos de um
lado, meninas do outro. Uma chatice!". Típico
homem português - moreno, cabelo asa de corvo,
olhar triste acompanhado de uma certa angústia
no rosto tão ao agrado das meninas -, cedo
O'Neill começou a conquistar corações,
deslumbrando-as com piadas fulminantes. "Amigas
teve ele e muitas. E muitas delas as
compartilhámos, a duas, pelo menos, prometemos
ambos casamento, o que era condição sine qua non
para operações militares no terreno", admitiu o
indiscreto Alexandre Pinheiro Torres, que se
lembra do rapaz bonito, do brilhante
conversador, vivo e divertido, de quem as
raparigas andavam atrás como loucas.
Aos 26 anos, levava ele quatro anos de aventura
surrealista, conhece Nora Mitrani, três anos
mais velha. A 12 de Janeiro de 1950, numa
conferência organizada pelo Jardim Universitário
de Belas Artes, na Casa das Beiras,
apresentam-lhe uma escritora judia de
ascendência búlgara, que subscrevera todos os
manifestos do movimento nas décadas de 40 e 50 e
assinara colaborações nas várias publicações
dirigidas por André Breton. Alexandre ouve
atentamente aquela mulher, de olhos grandes e
cabelos negros curtos, falar sobre A Razão
Ardente (do Romantismo ao Surrealismo), palestra
que acabaria por traduzir e ser publicada nos
Cadernos Surrealistas.
Entre Nora e Alexandre nasce de imediato um
"amor desmesurado". "Vens, ficas cá e depois se
vê", escreveu-lhe ela de Paris, pedindo-lhe que
fosse continuar a história. "Estava a sofrer
pressões inacreditáveis por parte de alguém da
minha família, para não ir atrás da francesa.
(...) A pressão (ou melhor, a perseguição)
chegou ao ponto de ter sido metida uma cunha à
polícia política para que o meu passaporte me
fosse negado, o que aconteceu, não sem eu ter
sido convocado para a própria sede da polícia e
interrogado pelo sub-inspector Seixas.
Perguntou-me o que ia eu fazer a Paris.
Respondi: Turismo", revelou, em 1984, numa
crónica do Jornal de Letras, a que chamou
História de um Poema.
O inspector Seixas insistiu, quis saber se
Alexandre conhecia a senhora Nora Mitrani.
Afirmativo. O agente da PIDE retorquiu: "Se
calhar você quer ir porque essa gaja lhe meteu
alguma coisa na cachola". Com a serenidade
possível, o poeta faz-lhe saber que se enganava,
porque nem Nora era uma gaja nem ele tinha
cachola. Uma década sem passaporte e o mito do
amor puro, do amor louco - nunca confundível com
o "sórdido amor mesa-de-família-cama-de-casal" -
são o resultado do embate entre dois
especialistas em jogos de palavras.
"A paixão pela Nora era verdadeira. Mais do que
isso: essa foi a verdadeira iniciação sexual do
O'Neill. Ele com ela descobre o sexo e fica
doido. Nunca mais parou até morrer. E em todas
as outras mulheres procurou sempre a Nora". Em
1995, no seu tão característico tom pícaro, o
sempre polémico Pinheiro Torres, recordava um
tipo engraçado, um inventor de palavras e piadas
eléctricas: "Onde chegava conseguia pôr toda a
gente a rir. Teve, aliás, a possibilidade de um
casamento riquíssimo na província, e recusou".
Antes de casar com a realizadora Noémia Delgado
- quando tinha 33 anos - , O'Neill ficou noivo
de uma prima que vivia em Marco de Canaveses.
"Muitíssimo rica, esta mulher adorava-o",
revelou também Pinheiro Torres, mas ao jornal
Público, em 1996: "Um dia, o Xana vira-se para
mim e disse 'Esta menina não sabe quem eu sou.
Pensa que sou um Vahia de Castro, do solar dos
Vahia de Castro e, se me casar com ela, me
estendo no solar e nunca mais faço nada. Mas não
nasci para isso'". Pensou e resolveu a questão
em poucos dias. Telefonou à noiva, convidou-a a
visitar Lisboa e mostrou-lhe os sítios que aqui
frequentava, "tudo quanto havia de bar mais
baixo..."
Acabou-se o compromisso, desentenderam-se as
famílias e Alexandre foi à sua vida: passeou
meninas pelas Avenidas, comeu petiscos nas
tascas, bebeu uns copos para comemorar e
continuou a escrever poemas.
Mais de 40 anos depois, Alexandre contou que Um
Adeus Português, com o qual pela primeira vez
conseguiu alguma notoriedade, não surgiu apenas
do amor por Nora Mitrani, mas serviu também para
criticar a vivência no Estado que se dizia Novo:
"Era uma época em que tudo cheirava e sabia a
ranço, em que o amor era vigiado e mal tolerado,
em que um jovem não era senhor dos seus passos
(errados ou certos, não interessa) (...) Durante
algum tempo fiquei conhecido como o poeta de Um
Adeus Português (...) Mas o poema, ingénuo como
é, tem realmente a força do nojo e do desespero
combinados com uma contenção sentimental que
nunca mais igualei".
Embora seja, em geral, lido como um manifesto de
resistência ao fascismo, Um Adeus Português -
título usado pelo cineasta João Botelho no filme
que realizou em 1985 - é, simultaneamente, uma
declaração de amor à mulher de "olhos altamente
perigosos", vinda da "cidade aventureira", por
quem, como um adolescente, tropeçou de ternura.
Alexandre não voltou a ver Nora (quando a foi
procurar já ela tinha morrido - suicidou-se, em
1961, com 40 anos), porém ela, em carta,
mostrara-se "atrozmente comovida" com o poema.
Um ano depois, O'Neill escreve Seis Poemas
Confinados à Memória de Nora Mitrani: "Para ti o
tempo já não urge, Amiga, Agora és Morta
(Suicida?) Se eu pudesse dizer-te: -Senta-te
aqui nos meus joelhos, deixa-me alisar-te, Ó
amável bichinho, o pêlo fino".
Nessa altura, em 1961, já acabara o matrimónio
com Noémia Delgado, assistente de montagem de
Manoel de Oliveira em O Passado e o Presente, e
em Mudar de Vida, de Paulo Rocha. Casaram a 27
de Dezembro de 1957 e foram morar para a Rua do
Jasmim - "Rua do Jasmim, anda, diz que sim! -É o
do terceiro, nunca tem dinheiro..." -,
rompendo-se de vez as idas e vindas de O'Neill a
casa dos pais. Dois anos depois, a 23 de
Dezembro de 59, nasce o filho do casal,
Alexandre Delgado O'Neill, que morreu pouco
depois do pai.
Noémia e Alexandre só se divorciam a 15 de
Janeiro de 1971 mas, durante a década de 60, ele
mantém uma ligação com Pamela Einichen Pinheiro.
O que não o impede de, em Novembro de 1962,
pedir ao amigo Pires (Cardoso Pires), em forma
de verso, "uma miúda" com toque de Chiado ou de
Grandella. Às nove e duas pernas da manhã, que,
como o peixe, tesa de frescura, tenha perdido a
escama de donzela mas não venha falar-me do
Vailland..." [Roger Vailland, escritor francês].
A 4 de Agosto de 1971 (tem ele 48 anos), casa
com Teresa Gouveia (de 25 anos), na presença de
Antonio Tabucchi, testemunha e padrinho da
deslocação ao registo civil. No início da
década, o escritor italiano vem a Lisboa
encontrar-se com intelectuais portugueses, bate
à porta de Alexandre e ele, com o seu à-vontade
de sempre, não quer saber quem é nem ao que vem,
limita-se a convidá-lo a entrar para comer umas
sardinhas em conserva. Durante anos, tal como
sempre fizera com outros amigos, correram juntos
as ruas de Lisboa, "a desnalgar as fêmeas ("Vist'?
Viii!)".
Alexandre, que definia a libertinagem como a
"liberdade com garagem", considerava a cabeça a
zona mais erótica da mulher e o sexo uma coisa
que se "devia usar, mas que, normalmente, se
abusa". "No amor? No amor crê (ou não fosse ele
O'Neill!) e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil que
são a semovente estátua do prazer". Conta-se
que, no dia em que conheceu uma das suas
mulheres, após um jantar de grupo, lhe terá
dito: "Ó prima, quer vir comer uns queijinhos
frescos a minha casa?". A resposta foi
afirmativa. Casaram meses depois, sem direito a
copo-de-água.
O segundo divórcio é assinado a 20 de Fevereiro
de 1981. O segundo filho, Afonso, nasce a 28 de
Maio de 1976. "O amor é o amor - e depois? Vamos
ficar os dois a imaginar, a imaginar?... O meu
peito contra o teu peito cortando o mar,
cortando o ar. Num leito há todo o espaço para
amar! Na nossa carne estamos sem destino, sem
medo, sem pudor, e trocamos - somos um? somos
dois? - espírito e calor! O amor é o amor - e
depois?".
Entre 1980-86 O'Neill viveu mais uma paixão, a
última, com a professora Laurinda Bom,
licenciada em Filologia Românica pela Faculdade
de Letras de Lisboa. "Está só?", perguntou-lhe
na década de 80 o encenador checo Jorge Listopad.
"Nunca. Sempre", respondeu, para prosseguir num
jeito moralista, próprio de alguém que reflectiu
sobre um assunto durante décadas e pôde,
finalmente, chegar a uma conclusão: "Compreendi
que com as mulheres não se pode viver sempre,
amando-as todos os dias. Duas vezes por semana.
Só assim dá certo". "Sabedoria?", provocou o
interlocutor. "Prática", sentenciou este "diabo
à solta", um homem que escrevia melhor entre
amores, gostava de ovos cozidos, passarinhos e,
quando lhe dava para rir, batia com os pés no
chão compassadamente. Precisava de pouco para
ser feliz: dormir, ler, estar com os amigos e
sentar-se ao sol na sua casa de Constância, o
seu último grande amor.
OBRAS:
POESIA
A Ampola
Miraculosa (Poema Gráfico) - Cadernos
Surrealistas, Lisboa, 1948
Tempo de Fantasmas - Cadernos de Poesia, Lisboa,
1951
No Reino da Dinamarca - Poesia e Verdade,
Guimarães Editores, Lisboa, 1958
Abandono Vigiado - Poesia e Verdade, Guimarães
Editores, Lisboa, 1960
Poemas com Endereço - Círculo de Poesia,
Livraria Moraes Editora, Lisboa 1962
Feira Cabisbaixa - Poesia e Ensaio, Ulisseia,
Lisboa, 1965; 2ª edição, Sá da Costa Editora,
Lisboa, 1979
Portugallo Mio Rimorso - Col. di Poesia, Einaudi,
Torino, 1966
No Reino da Dinamarca - Obra Poética (1951-1965)
- Poesia e Verdade, Guimarães Editores, Lisboa,
1969
De Ombro na Ombreira -Cadernos de Poesia,
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Abril, 1969; 2ª
edição, Cadernos de Poesia, Publicações Dom
Quixote, Lisboa, Setembro, 1969
Entre a Cortina e a Vidraça -Auditorium,
Estúdios Cor, Lisboa, 1972
No Reino da Dinamarca - Obra Poética (1951-1969)
- "Poesia e Verdade", Guimarães Editores,
Lisboa, 1974
Made in Portugal -Quaderni della Fenice, nº 29,
Guanda, Milão, 1978
A Saca de Orelhas - Sá da Costa Editora, Lisboa,
1979
Poesias Completas, 1951-1981 -Biblioteca de
Autores Portugueses, Imprensa Nacional- Casa da
Moeda, Lisboa, 1982
Poesias Completas, 1951-1983 - 2ª ed. rev. aum.
Biblioteca de Autores Portugueses, Imprensa
Nacional- Casa da Moeda, Lisboa, 1984
O Princípio da Utopia, o Princípio da Realidade
seguidos de Ana Brites, Balada Tão Ao Gosto
Português & Vários Outros Poemas, 1986 - Círculo
da Poesia, Moraes Editora, Lisboa, 1986
Poesias Completas, 1951-1986 - 3ª ed. rev. aum.
Biblioteca de Autores Portugueses, Imprensa
Nacional- Casa da Moeda, Lisboa, 1990
Poesias Completas, 1951-1986 - Assírio & Alvim,
Lisboa, 2000
PROSA
As Andorinhas
não têm Restaurante (crónicas) - Cadernos de
Literatura, Publicações Dom Quixote, Lisboa,
1970
Uma Coisa em Forma de Assim (crónicas) - Edic,
Lisboa, 1980; Editorial Presença, lisboa, 1985
DISCOS
Alexandre O'
Neill diz poemas da sua autoria - A Voz e o
Texto, Discos Decca
Os Bichos também são gente (Poemas dedicados aos
bichos e ditos pelo autor) - A Voz e o Texto,
Discos Decca
CRÓNICA
O'Neill,
Completamente
Não sei o que pensaria Alexandre O´Neill se
lesse a introdução que Miguel Tamen faz às suas
Poesias Completas, reeditadas pela Assírio e
Alvim (excelente reedição, e oportuna).
É um texto escusado e arrogante, cheio de becos
sem saída, que o mesmo é dizer, cheio de frases
de uma «inteligente» inutilidade. Como esta, a
abrir:
«Poderá vir um dia a verificar-se que o máximo
que fundam os poetas é a possibilidade prosaica
de alguém, muito mais tarde, se vir a lembrar de
algumas das sequências das palavras que
escreveram. No melhor dos casos, usarão essas
sequências de palavras a despropósito, noutras
sequências de palavras; no pior, aplicá-las-ão
com aquilo que julgarem ser um propósito».
Miguel Tamen fala pouco de O´Neill e muito de
Miguel Tamen, do modo como Miguel Tamen leu e
gostou da poesia de O´Neill, e que nestas
palavras introdutórias, depreende-se, é o modo
certo, único e inexcedível de ler e gostar de O´
Neill. O poeta, que não era dado ao egocentrismo
académico, decerto se estaria nas tintas,
expressão muito portuguesa, muito lisboeta e
muito à O´Neill. E disto, como do «peru», «está
tudo dito».
Passado o espinhoso começo, a Poesia de O´Neill
segue lá dentro, espalhada por mais de 500
páginas, um trabalho poético que oculta alguns
dos poemas perfeitos que se escreveram em língua
portuguesa. Que é um poema perfeito,
perguntar-se-á? E será um poema perfeito
superior a um imperfeito? Os conceitos,
perfeição e imperfeição, são subjectividades, e
assim deixaremos ao leitor da poesia de O´Neill
a liberdade de escolher os seus poemas
perfeitos, aqueles que na repetição mental, ao
ecoarem dentro das cabeças, rolaram as sílabas
das palavras no sentido certo e se constituíram
como uma memória. Afectiva ou literária, não
interessa, servem ambas. No caso de Alexandre
O´Neill, se constituíram como uma memória da
língua portuguesa.
Alguém disse do poeta inglês Robert Graves
quando ele morreu (creio ter sido Anthony
Burgess) que o poeta «entrou na língua». Este
poeta, português, entrou na nossa língua.
Poderíamos ficar pelo adeus português, pela
frase inteira do adeus português (a tal dor
mansa, tão vegetal...) ou pelos versos de
O´Neill que por aí andam, vivos e falados,
reinventados, esfolados, sem que os que os
dizem, saibam ou lembrem quem os escreveu a
primeira vez. É um dos usos da posteridade, ou
melhor, da duração, que é disso que trata a
posteridade, mais do que de reputação.
A linguagem de O`Neill, a mistura de picardia,
ironia e melancolia, um lirismo muito pouco
sentimental, e um jogo de aliterações a mostrar
o contorcionismo possível das palavras, servem
uma poesia de mão cheia, quase sem erros nem
desperdícios, cruelmente original, intacta,
apesar da mudança dos tempos e dos costumes.
O poeta começou a escrever num tempo sem
liberdade, um tempo de estupidez de um lado, e
de lucidez do outro. Havia quem visse o que se
estava a passar, no pequeno país agrilhoado,
cheio até acima de kitsch e de «perikitsch» na
gaiola. Talvez seja essa a primeira
característica desta poesia e desta linguagem, a
sua lucidez, o modo desassombrado como olha os
dias e lhes vai retendo o que para o observador
comum é invisível. Os pequenos gestos, os
vagares, os humores, os desalentos, as
desatenções, os erros, os fracassos, as
felicidades, as traquinices, as (in)existências.
Como se diz no lugar-comum, nada do que era
humano lhe era estranho, e O´Neill apreciava o
lugar-comum, servia-se dele como matéria prima,
tomava-lhe o peso, tomava-lhe o pulso. «Onde
começa um poema? Quando começa um poema?» No
espaço quadrado da folha de papel? No momento em
que pegas na caneta? Ou no espaço redondo em que
te moves? Ou quando, alheio a tudo, te pões de
cócoras, a coçar, perplexo, a cabeça?».
No poema A um Poeta que Deixou de Comparecer nas
Antologias, um poema sobre Bocage, a malícia de
O´Neill descreve o que a famosa posteridade
reserva aos poetas, aos bocages: sonetos
esquecidos a meio e notas de rodapé.
Clara Ferreira Alves