E agora, poesia?


(Dirceu W. Ramos)

Abro as janelas do tempo como um Deus,
vejo os homens e seus decretos
navegando nos espaços siderais
e exterminando raças.
Vejo os homens e suas fúrias
suas mulheres e suas luxurias
carregando suas armas
masturbando suas crenças
mastigando seus animais.
Pulo as cordas do tempo
e dou um mergulho na vida
de barbatanas e guelras,
espio sob os óculos as nossas guerras.
A minha guerra comigo
a sua guerra conosco
mas ainda acendo meu cigarro,
estufo o pulmão e tenho saudades.
Penso no mundo, na fome do mundo
depois de jantar,
penso no frio dos mendigos
embaixo dos cobertores.
Desamarro os laços do tempo
e os cadarços largados me fazem perceber
o quanto somos falsos.
Escrevo e sinto
mas não senti o que escrevi.
Minha carne ainda é virgem
da carne escrita
à sangue e vida
à ferro e fome
ao frio
à morte.



 

 



 


 


 
 
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