Cosmogonia da (minha) palavra
Que o olhar encurta a dramaticidade de tudo,
Devo ter lido em algum em livro de filosofia
Ou de banca... Sei lá.
Só sei que tirei isso de algum lugar
Da minha estreita memória.
E até acho verdade.
Mas ainda assim gosto dos olhos. Do olhar.
O silêncio do olhar diz tanta coisa...
Pode sangrar o peito
Ou florir o coração.
No entanto, o encanto das palavras
Tomam-me.
Atacam-me em todos os meus sentidos
E sempre me vencem.
Sinto-as tão perfeitamente,
Que às vezes penso ser uma espécie de antena,
Uma espécie de satélite “em corpo” do meu astral...
Astral maluco, porém simples.
Plumagens entopem o nariz das palavras...
Nos meus então: vão das cócegas as alergias.
Minha percepção, por mais lerda que seja,
Capta tudo rapidamente! Capta em palavra.
Adoro metáforas, alucinações em verbo, emboladas...
Mastigo, escuto e respiro palavras.
Do sábio ao tolo:
Encontro-me em uma estrofe, em um parágrafo...
Vejo meu reflexo nas palavras e não no espelho.
Acho que minhas palavras são meus olhos,
Encurtam minha dramaticidade silenciando-a no papel.
Talvez palavras sejam espelhos da alma... É... Talvez.
Tudo é possível na palavra.
Palavra é gesto, é aceno... É toque no espírito.
Minha fragilidade é palavra.
Meu amor também é palavra.
Palavra tem cor, sabor.
Palavra não possui vida,
Contêm vidas. Todas as vidas cabem na palavra.
Na palavra cabe a beleza, o ilícito, cabe a exatidão.
Eu não me encontro por aí,
Encontro-me em palavra.
Desconverso qualquer coisa
E faço as pazes comigo, quando em reverso.
Palavra sábia ou não;
Livre ou não...
Toda palavra é completa em sua exatidão,
Exatidão que a convém.
Puramente.
Palavra corrompe, eleva...
Desintegra e cria.
Palavra é energia. Minha energia, ao menos.
Eu não sei...
Eu não o que seria de mim sem a palavra.
Maria Rosa Selvati Martins
|
|
|