Se me perguntarem hoje o que mais gosto
da vida, digo: Viver Intensamente.
Descobri isso quando num momento
de desespero liguei pro SOS Prece e
falei: pôooo, cara, eu não quero me
suicidar, não. Estava apenas muito
triste
por causa dos revezes que acontecem na
vida, mas me apeguei a ela e ao
aqui-agora de jeito intenso que procuro
transmutar meus piores momentos em
textos... Os primeiros saem tensos,
desconexos, eu deleto, os segundos saem
tensos, mas com alguma coerência, eu
reescrevo, do terceiro em diante, já
estou tão bem que não ouso ler para não
cair na tentação de reescrever tudo,
porque, meu célebre espírito crítico não
poupa nem a mim mesma.
Aliás, sou a minha vítima mais freqüente
e vai ver por isso tremo nas bases
quando penso em publicar um livro.
Incoerências? Sei não. Diria que sou um
ser dual, dividido em duas. A doce
Fatima, meiga, que adora crianças e tem
medo de cara-feia,
e a apimentada Fátima, que sobe nas
tamanquinhas quando precisa, roda a
baiana e briga por uma boa causa. Ou
causas nem tão boas. Mas, o calor
apaixonado das duas Fatimas é sempre o
mesmo. Sou intensa sempre. Alegre ou
triste, trabalhando, ou apenas
escrevendo um e-mail. Jogo um pouco de
mim, porque acho que temos que nos jogar
no mundo, soltar o que sabemos ou o que
imaginamos que não sabemos, mostrar o
que criamos, ah, e deixar o povo mais
esperto, mais antenado.
Eu não sei se escrevo ou leio, porque as
vezes me parece que eu escrevo lendo, me
colocando na posição de quem está lendo.
Pior é que leio e escrevo há tanto tempo
que me dá a impressão que já nasci
alfabetizada.
Culpa da genética... Primeira bisneta de
Péthion de Villar (Egas Moniz de
Aragão), primeira neta de Evangelina
Moniz de Aragão Goes de Araujo (Lina de
Villar, poetisa e mãe de meu pai),
primeira filha do juiz Armando Augusto
Goes de Araujo, que, descobri tem pouco
tempo, fazia lindos versos para minha
mãe. Coroadissimas familias baianas. Não
hesitei em trocar os ilustres sobrenomes
paternos pelo sobrenome de solteira da
minha mãe, assim, fiquei apenas
Dannemann, apenas para ser eu mesma
quando entrei para o jornalismo, depois
de formada, pela UFBa. Mas, quase que
não fui jornalista. Cismei que ia fazer
física nuclear. No primeiro zero em
ciências no ginásio (ainda sou do tempo
do ginásio), mudei de idéia. Pensei em
arquitetura, apesar de ser a rainha das
linhas tortas nas aulas de desenho. Foi
quando vi a Tribuna da Bahia e decidir
ser jornalista para trabalhar lá. Juntei
a fome e a vontade de comer. Lia
toneladas de livros, revistas, jornais,
HQ e (sou mortal, sorry) fotonovelas.
Escrevia versos, contos e contava as
fofocas de minha vizinhança num jornal
manuscrito que só umas poucas pessoas
liam. Por conta dos poemas, fazia
sucesso com os meninos, depois, por
conta das matérias, fazia sucesso com os
leitores e ganhei 12 prêmios. Mas, a
Fatima rebelde falou mais alto, briguei
com a chefa, perdi o emprego, e enquanto
isso preencho horas ociosas entre poemas
e exercícios físicos. Não fui miss ou
bailarina, como a Fatima meiga sonhava,
mas fui punk. No somatório das duas,
sobrou a Fada Básica, meu eu internético,
que reflete a soma de todas as Fatimas,
da herdeira do trono das letras da
família, a sonhadora pisciana que faz da
palavra escrita sua bandeira de luta
pela vida.
Fatima Dannemann
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