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Cardeal Gonzaga:
Em como é diferente o amor em Portugal!
Nem a frase subtil, nem o duelo sangrento...
É o amor coração, é o amor sentimento.
Uma lágrima... Um beijo... Uns sinos a tocar...
Um parzinho que ajoelha e que se vai casar,
Tão simples tudo! Amor, que de rosas se inflora:
Em sendo triste, canta, em sendo alegre chora!
O amor simplicidade, o amor delicadeza...
Ai, como sabe amar, a gente portuguesa!
Tecer de sol um beijo e, desde tenra idade,
Ir nesse beijo unindo o amor com a amizade,
Numa ternura casta e numa estima sã,
Sem saber distinguir entre a noiva e a irmã...
Fazer vibrar o amor em cordas misteriosas,
Como se em comunhão se entendessem as rosas,
Como se todo o amor fosse um amor somente...
Ai, como é diferente! Ai, como é diferente!
Cardeal Rufo:
Também vossa Eminência amou?
Cardeal Gonzaga:
Também! Também!
Pode-se lá viver sem ter amado alguém!
Sem sentir dentro d'alma - ah! podê-la sentir! -
Uma saudade em flor, a chorar e a rir!
Se amei! Se amei! - Eu tinha uns quinze anos,
apenas,
Ela, treze. Um amor de crianças pequenas,
Pombas brancas revoando ao abrir da manhã...
Era minha priminha... Era quase uma irmã.
Bonita não seria... Ah, não... Talvez não fosse.
Mas que profundo olhar e que expressão tão doce!
Chamava-lhe eu, a rir, a minha mulherzinha...
Nós brincávamos tanto! Eu senti-a tão minha!
Toda a gente dizia em pleno povoado:
"Não há noiva melhor para o senhor morgado,
Nem em capela antiga há santa mais santinha..."
E eu rezava, baixinho: "É minha! É minha! É
minha!"
Quanta vez, quanta vez, cansados de brincar,
Ficávamos a olhar um para o outro, a olhar,
Todos cheios de sol, ofegantes ainda...
Numa grande expressão de dor:
Era feia, talvez, mas Deus achou-a linda...
E, uma noite, a minha alma, a minha luz, morreu!
Numa revolta angustiosa:
Deus, se ma quis tirar, p'ra que foi que ma deu?
Para que? Para que?
Ai! pois não viu, Deus, que eu tinha coração!
caindo sobre a cadeira, a soluçar:
Não viu! ah! não viu! Não via!
Julgou que de um amor outro amor refloria,
E matou-me... E matou-me!
Cardeal Rufo a Cardeal de Montmorency
limpando uma lágrima furtiva.
enquanto as onze horas soam no Vaticano
Foi ele, de nós três, o único que amou.
Edição: Neli Neto
Imagem de Ty Wilson
Música: It´s Impossible
12.06.04 |