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Ah, que saudade das férias
gostosas
de verão, passadas no casarão,
rodeado de árvores gigantescas,
à beira da praia, na época
de minha pré adolescência...
O que mais me alucinava
era o quarto das minhas primas mocinhas!
Quanta magia, e surpresas,
eu ali encontrava!
Penteadeira bagunçada,
caixas de maquiagem, de esmaltes,
grampos, lenços de cabelo, brincos,
colares, anéis, e mil quinquilharias mais,
espalhadas sobre a antiga penteadeira!
Àquilo, para mim,
valia mais do que mil tesouros!
Que festa ver minhas primas
enfeitando-se, preparando-se,
para surgirem em trajes de banho,
a ninguém... à viva alma...
ao nada... daquela praia!
À noite, após o jantar, nos reuníamos
para jogar víspora em parceria!
As mulheres tinham primazia na escolha
do parceiro!
Fui a primeira a levantar a mão,
escolhendo bem depressa meu par perfeito!
O primo amigo e companheiro,
sempre pronto pra topar qualquer parada.
Ele era criativo à beça, fazia pipas lindas,
com papel de seda multi-coloridos!
Antes do pôr-do-sol, íamos empiná-las,
soltá-las, vê-las bailar felizes,
levadas pelo vento, ao céu de nossa praia.
Descalços, começávamos o dia
jogando futebol na areia.
Eu chutava com o pé esquerdo,
não houve meio que me fizesse mudar!
Chutava com força, para não perder
o companheiro, pois tinha sempre
que o acompanhar.
Meu pé inchava, ficava roxo!
Ao voltarmos para casa, ele corria
à minha frente, em busca
de ungüentos e faixas,
para aliviar minha dor!
Pois na manhã seguinte, com certeza,
repetiríamos tudo novamente!
Às vezes, íamos ao ribeirinho
pescar lambaris.
Quando eu sentia a linha
puxar com força, gritava de alegria,
sabia que lá vinha lambari!
Eu pulava, jogava a vara de pescar
para o alto, e o pobrezinho do peixinho
ali, se debatendo, dependurado,
preso no anzol.
Meu primo abaixava-se, segurando a barriga
com os braços, de tanto rir!
Livrava o peixinho com muito cuidado,
devolvendo-o às águas do ribeirinho.
Adorávamos brincar de tiro ao alvo,
com espingarda de chumbinho.
Mirando numa latinha de Pó Royal,
mesmo à longa distância, eu não errava um tiro,
acertava no centro da latinha que explodia
e voava longe, pelo impacto do tiro.
Meu primo não me invejava,
antes, delirava, ao ver minha pontaria!
Olhava-me e sorria, deslizando as mãos
em meus cabelos!
Depois dele, nenhum amigo, fez-me feliz,
pois nada se comparava à nossa amizade,
às nossas brincadeiras, camaradagem,
e ao nosso amor primeiro!
Uma noite, no costumeiro
jogo de víspora, sentados lado a lado,
parecíamos dois papagaios,
falávamos e ríamos, por nada!
A família, levava o jogo a sério,
portanto, pediam que nos calássemos,
mas quanto mais pediam,
mais graça... nem sei de quê...
achávamos!
Cansados de nossa teimosia, ninguém
entendendo o porquê de tanto riso,
resolveram nos colocar para fora,
trancando a porta da sala!
Sentamos no muro, para ver
a lua e as estrelas.
De repente... um imenso besouro
voou em minha direção,
chocando-se ao meu rosto.
Gritei apavorada!
Meu primo me abraçou,
e, sem pensar, beijou a minha boca!
Tremendo de espanto,
nem tanto pelo besouro,
mas pelo beijo, corri em direção
à porta da sala, esmurrando-a
com violência.
Meu pai, assustado com meus
gritos, abriu a porta me perguntando:
O que foi, filhinha???
O que houve? Fala...
Por que está tão amedrontada?
Fiz ele abaixar-se, e respondi baixinho
a seu ouvido:
Pai... foi um besouro ...............
Ah, que saudade daquele tempo mágico,
do primeiro abraço, do primeiro beijo,
do primeiro... e amado namorado...
Edição: Neli Neto
Imagem de Ty Wilson
Música: It´s Impossible
12.06.04 |