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Foi numa manhã que de repente ela entrou em
minha secreta morada, e fez um rebuliço
dentro em mim...
Tomou a minha mão e ternamente conduziu-me a
um caminho mais elevado que todos os outros
que eu tenha conhecido ou imaginado.
E senti um fogo a percorrer as minhas
entranhas, quando aquiesci ao seu mudo
convite, e quedei calado, recostado ao seu
peito. Então senti o pulsar compassado de
sua alma, e amei aquele momento, como jamais
havia amado em minha vida.
Foi então, que pensei em convidá-la para
ficar em minha casa, mas senti logo que eu
era o hóspede e não ela, que dominava o
ambiente. E num entrelaçar de almas,
hospedamo-nos um no outro, nesse
conhecimento eterno sem explicações.
E a vi ali, no limiar da minha existência, e
a amei novamente como quem não quer perder
esse momento, e pedi ao Tempo que
perpetuasse aquele instante, para que o dia
daquela manhã, fosse eterno, como a
eternidade de um dia.
E ela sorriu-me, e havia um eterno amor em
seu sorriso, e entendi o que jamais havia
entendido em toda a minha vida. Porque
quando somos compreendidos pela Amada,
brilha uma luz mais forte que o próprio Sol
em nossas almas, e brilham os nossos rostos,
e brilha tudo o mais que há, e entendemos
num instante de silêncio, o que jamais
haveríamos de entender ouvindo milhões de
palavras ditas por todos os profetas em
todos os templos de todos os tempos.
E sorri também, e vi o meu rosto refletido
em seu rosto, e o meu sorriso no seu
sorriso...
E desejei tê-la para sempre, e entendi
também que esse era o mais sublime de todos
os desejos, e amei ainda mais aquele
momento, como quem ama o Amor, e é
correspondido por ele.
E não pronunciei palavra, porque qual a
palavra eu diria, que não viesse da minha
Amada? E quem sou eu para dizer alguma
verdade, que não proceda do meu Amor?
E quando tive esse pensamento, vi como que
uma luz maior a brilhar em seus olhos, e
percebi mais uma vez, que o silêncio de quem
ama quem eu amo, vale mais que todas as
palavras ditas por um homem.
E eu não passava de um homem... Mas nunca
mais o mesmo homem... Pois em minha alma,
foi acesa uma chama, que queimou toda a
palha, e restou somente o que não pode ser
destruído pelo Fogo. E uma tempestade varreu
toda a cinza, e vi de perto, o que não foi
concedido a um outro mortal ver.
E ergui a minha voz dentro do peito, entoei
a Canção do Amor, e ela, a própria Amada fez
dueto comigo, e rodopiamos a cantar e
cantar...
E mais uma vez amei aquele momento...
... como um momento eterno... |