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Descubra o
surpreendente tesouro musical baseado na temática
natalina.
Chegamos ao final de
2006 (dado alterado do original), e tal como
acontece a cada ano, as cidades com seus códigos mostram sinais evidentes
de que há algo diferente no ar: luzes enfeitam árvores e avenidas, casas
ganham uma decoração especial e cresce nas crianças uma gostosa sensação
de ansiedade. Bem, por outro lado, há também filas para os estacionamentos
dos shoppings, lojas caoticamente lotadas e uma interminável lista de
preparativos que nem sempre está de acordo com a conta bancária (mas isto
já é uma outra história...).
É Natal, e Natal é
sinônimo de Papai-Noel, pinheirinho enfeitado e – como toda festa que se
preze – música: “Noite feliz”, “Batem os sinos”, “Adeste fidelis” e mesmo
o jingle publicitário de uma empresa de aviação estão sempre entre os
grandes hits do Natal brasileiro.
Porém, por mais que os
meios de comunicação áudios-visuais insistam neste pequeno repertório, é
bom saber que a música natalina vai muito além do Jingle Bells e das
famigeradas melodias tocadas na harpa, tão utilizadas como música de fundo
pelos grandes lojistas nesta época do
ano.
Desde que o Natal foi
“inventado”, o repertório musical a ele dedicado pode ser visto como um
pequeno panorama do desenvolvimento dos gêneros musicais praticados no
ocidente. Importantes compositores clássicos escrevam obras para ocasiões
natalinas, e mesmo no século XX, com o início da era da música popular
para consumo em massa, muitas bandas e pop stars não resistiram ao apelo
do bom velhinho.
Aperte o cinto de seu
trenó e embarque nesta viagem
musical.
O natal e suas
origens
Para entender o que
ocorreu com o repertório natalino através dos séculos é importante saber
como esta festa tipicamente cristã surpreendentemente
começou.
O Natal só foi
incorporado ao calendário da Igreja durante o papado de Júlio I (entre os
anos 337-352), ocasião em que se decidiu programar para o dia 25 de
dezembro a comemoração do nascimento de Jesus
Cristo.
Na verdade, esta data
corresponde exatamente com o solstício de inverno romano, dia estabelecido
no ano 274 pelo imperador romano Aureliano como a data para a celebração
do Natalis Solis (“nascimento do sol” em latim), isto é, o nascimento de
Mitras, o deus do sol.
Apesar de no século IV
em boa parte do Europa a consolidação do cristianismo ser uma realidade,
esta festividade “pagã” continuou a ser praticada pela população sem que o
poder já estatal da Igreja pudesse efetivamente fazer algo para detê-lo.
Assim, a união entre esta festividade romana com o aniversário de Cristo
resultou nesta festa sincrética que viria a se tornar a principal
comemoração da cristandade.
Os primeiros exemplos
musicais para esta nova festividade cristã, destinaram-se para a sua
respectiva liturgia (isto é, a cerimônia religiosa realizada dentro do
templo). Anos mais tarde esta cerimônia ficaria conhecida como “Missa do
Galo”, uma referência ao pássaro que anuncia o nascimento do novo dia e a
concretização da profecia sobre a vinda do
Messias.
Nos primórdios da
música natalina, o estilo empregado era muito próximo ao do “canto
gregoriano”, que é ainda a forma de cantar característica dos monges
beneditinos da atualidade.
Entretanto, o aspecto
sóbrio deste estilo musical aliado a pouca compreensibilidade do texto
cantado em latim fez com que um outro repertório, cantado nas festividades
fora do templo, fosse gradualmente se formando na população que
circundavam estes templos, dando o passo decisivo para o desenvolvimento
da tradição musical natalina.
A celebração fora do
templo
Na medida em que, na
Idade Média, era vedado o uso de material não litúrgico dentro do templo,
foi uma conseqüência natural a criação de um repertório natalino mais
alegre destinado às celebrações feitas ao ar livre ou em locais não
sacros. Ao mesmo tempo, esta temática tornou-se mais acessível à
população, tendo em vista que as canções eram também cantadas em vernáculo
(isto é, o idioma de fato falado em uma dada localidade) e não só em
latim.
Na França, desde o
século IX, há registros de canções populares criadas para o Natal,
conhecidas como noëls. Tal como tudo ao que se refere às práticas musicais
antigas, ainda é incerta a ocasião em que esta música era praticada. Os
estudos musicológicos indicam várias direções: essas canções podem tanto
ter sido usadas em procissões como em grandes cerimoniais e banquetes
feudais. É também muito provável que estas canções eram utilizadas
domesticamente pela população e há mesmo indícios que algumas dessas
canções tenham sido cantadas dentro do templo, porém em ocasiões não
oficiais.
A tradição das noëls se
arraigou de tal forma na cultura musical francesa que ainda no século
XVIII era praticado um gênero derivado, as noëls pour orgue, isto é, peças
sem parte vocal para serem tocadas apenas ao órgão de tubos, muito comuns
nas igrejas da época. Nas noëls pour orgue o organista escolhia algum tema
natalino famoso, e a partir de sua melodia, tecia uma série de
improvisações que faziam sucesso junto ao público. Algumas destas
improvisações foram transcritas em partitura e assim puderam chegar ao
nosso conhecimento.
Muitas das primeiras
melodias natalinas foram criadas para a música incidental presente nas
representações teatrais medievais sobre passagens do Novo e do Antigo
Testamento. Sabe-se que nestes espetáculos, hoje em dia designados como
Dramas Medievais, fazia-se uso abundante de música para ilustrar temas
caros à cristandade, tais como a Anunciação, a viagem dos Três Reis Magos
e, é claro, o próprio nascimento de
Cristo.
Assim, já em finais da
Idade Média, a música natalina de cunho não litúrgico já estava amplamente
difundida por toda Europa. Porém, é da Inglaterra que vem o mais antigo
exemplo de tradição natalina ainda presente nos dias de hoje: são canções
conhecidas como carols.
Natal
globalizado
“Jingle Bells” (ou
“Batem os sinos”), “We wish you a Merry Christmas”, “Holy Night” (“Noite
Feliz”), “White Christmas” (“Natal Branco”) e uma infinidade de outras
canções mundialmente conhecidas têm como raiz a tradição das carols
inglesas.
Originada de uma forma
musical medieval francesa – a carole – em seus primórdios no século XV a
carol era um gênero de canção sacra utilizada para diversas festividades
cristãs, e só posteriormente tornou-se sinônimo de música natalina. Esta
manifestação cultural britânica foi herdada pelos norte-americanos que, a
partir da consolidação de seu “império”, difundiu as carols para os quatro
cantos do mundo, tornando-a um gênero musical globalizado (se você ainda
não se localizou, sabe aquela famosa cena de um coral cantando debaixo da
neve que você certamente já viu em algum filme americano? Pois então, eles
estão cantando uma carol).
Em outras terras as
carols ganharam versões nos idiomas locais (tal como aconteceu aqui no
Brasil), e sua simplicidade musical – construída a partir de melodias
fáceis de memorizar – revelou-se propícia para incontáveis versões em
todos os gêneros e ritmos musicais imagináveis. De versões com
instrumentos africanos às batidas do rock este tipo de música natalina
ainda se mostra de uma versatilidade a toda prova, usada e abusada nos
jingles publicitários que pipocam no rádio e na TV nesta época do
ano.
No que tange ao
legítimo rock’n roll, valer lembrar que a imortal banda de Liverpool
gravou nada menos do que sete “Beatles’ Christmas Album”, o que não deixar
de ser mais uma prova de que a música natalina há muito tempo se emancipou
da temática religiosa para ganhar contornos de feriado laico (e,
dependendo do ponto vista, retornando às suas raízes
pagãs...).
Música e
espiritualidade
Porém, antes de se
mercantilizar no século XX, o repertório musical natalino foi um poderoso
meio de expressão da devoção do cristão ao nascimento de seu Salvador. Se
hoje em dia a música natalina está diretamente associada à imagem do
Papai-Noel, durante o Renascimento e o Barroco ela pode ser associada às
inúmeras representações da “Madonna” (isto é, a Virgem Maria com o Menino
Jesus no colo) que nos foram herdadas dos períodos em
questão.
Durante o Renascimento
o motete (forma coral por vezes acompanhada de instrumentos musicais) foi
o principal meio de realização do repertório natalino. Alguns dos mais
belos exemplos foram escritos pelo compositor italiano Giovanni Gabrieli
(1555-1612) que compôs para a Catedral de São Marcos de Veneza (então uma
das mais ricas do ocidente) magníficos motetos natalinos como “O magnum
mysterium” e “Salvator noster”.
Aluno de Gabrieli, o
alemão Heinrich Schütz (1585-1672) escreveu em forma de oratório (uma
espécie de ópera, porém sem encenação) a obra “Historia der Geburt Jesu
Christi” (ou “História do Nascimento de Jesus Cristo”) dando um passo
decisivo para a consolidação da temática natalina no repertório musical
luterano.
Aliás, é da tradição
luterana que advém o exemplo de música natalina clássica mais tocada na
atualidade, isto é, o “Weinachts-Oratorium” (ou “Oratório de Natal”) de
Johann Sebastian Bach (1735-1782).
Apesar de ser muito
comum a apresentação integral deste oratório em uma única seção, ele foi
composto como parte de uma celebração religiosa que se desenvolvia ao
longo de vários dias. Divido em seis cantatas, as três primeiras eram
destinadas para serem apresentadas durante os três dias do Festival de
Natal. Uma outra se destinava para o dia de ano-novo, outra para o
primeiro domingo do novo ano e uma última para a o dia da Epifania, isto
é, o dia do batismo de Cristo.
Seja em forma de
concerto ou integrado a um cotidiano religioso, a beleza do oratório de
Bach transcende os dogmas religiosos e freqüentemente é apresentado em
templos não luteranos, por fim levando a cabo uma das principais mensagens
do Natal que é a integração entre as
pessoas.
Assim, neste Natal,
independentemente de qual fé cristã se pertença – e mesmo
independentemente de fé no cristianismo em si – desperte-se para a beleza
e riqueza do fantástico mundo sonoro que se criou em torno da temática
natalina. Desligue a TV e seus tediosos programas natalinos (que até o
último instante tentarão vender mais alguma coisa para você) e ponha um CD
especial ou mesmo ligue em uma das diversas rádios ditas “clássicas”
existentes no Brasil para dar uma dimensão muito mais bela a esta época
tão especial. Abra seus ouvidos, para então abrir seu coração. E feliz
Natal!
[Publicado
originalmente na Gazeta Mercantil. Versão sem cortes, sem edição, sem
revisão!] |
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Pesquisa e
Formatação: Cleusa Bechelani
Música: Carol of
Bells
Texto original
publicado em:
www.outramusica.org, gentilmente cedido por Leonardo
Martinelli
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