Lemos na PEQUENA MYTHOLOGIA de Mario Guedes
Naylor, F. Briguiet & Cia.,
Rio de Janeiro, 1933, o seguinte:
"Prometheu (o prudente) era filho do titão
Japeto, e na guerra dos
deuses contra os gigantes prestara serviços a
Zeus (Júpiter), mas
o soberano dos deuses, temendo a superioridade
intellectual do
seu servidor, expulsou-o, ingratamente, do
Olympo.
Isolado sobre a Terra, Prometheu, emulo ousado
da divindade, tomou
um blóco de argila, amolleceu-o nagua e
fabricou o homem. Este, porém,
privado de intelligencia, levava uma vida
vegetativa, semelhante à dos
animaes. Prometheu, então, para dotal-o de
intelligencia, foi roubar
no Olympo uma scentelha do fogo celeste que elle
escondeu num ramo
ôco de sabugueiro; incutindo no homem essa faísca
do fogo divino,
elle o tornou um sêr intelligente e harmonioso,
capaz de comprehender
as bellezas do universo e de submetter à sua
vontade os sêres e a natureza.
Zeus, vindo a descobrir o furto, sentiu-se
transportado de colera contra
Prometheu e contra seu gesto, que approximara a
condição dos homens
da dos deuses: elle queria fulminar toda essa raça
desconhecida, que
lhe parecia temerosa, mas o titão, muito
habilmente, obteve do rei do
Olympo o juramento de que a deixaria viver.
A colera do deus não estava verdadeiramente
apaziguada e Prometheu ia
augmental-a ainda. Querendo experimentar se Zeus
era verdadeiramente
digno das honras que lhe prestavam, matou dois
touros, tirou a pelle,
disseccou a carne e os ossos delles e depois,
tendo collocado os ossos
sob uma das pelles e as carnes, a gordura,
debaixo da outra, offereceu
a Zeus para se attribuir uma das duas victimas.
O deus infelizmente
escolheu a cheia de ossos e, vendo-se logrado,
resolveu punir o audacioso.
Pediu sem demora a Hephaistos (Vulcano) que lhe
fabricasse uma mulher.
Hephaistos obedeceu e ornou a sua criatura de
todas as bellezas materiaes,
introduzindo-a depois na assembléia dos deuses:
todos a admiraram e
quizeram-lhe fazer um presente; dahi é,
precisamente, que lhe veiu o
nome de Pandora, isto é, a que tem todos os
dons. Athena a revestiu
de uma tunica deslumbrante de alvura, pôz-lhe
na cabeça um véo ornado
de guirlandas de flores e encimado por uma corôa
de ouro, fez-lhe o
dom da intelligencia e lhe inspirou o
conhecimento de todas as artes
proprias do seu sexo; Aphrodite a cercou desse
encanto perfido que
faz nascer os desejos inquietos; Hermés deu-lhe
a eloquencia persuasiva;
as Graças a obsequiaram com collares de ouro.
Assim dotada, Pandora chegou emfim diante de
Zeus, que lhe entregou uma
pequena caixa bem fechada, recommendando-lhe de
a levar, na Terra, a
Prometheu: nessa caixa se encontravam todos os
males do corpo e da alma.
O esperto titão, sempre em guarda, não se
deixou cahir no laço que lhe
armara o deus: afastou de si essa mulher,
insinuante e formosa, e não
aceitou a caixa que ella lhe apresentava.
Repellida por esse lado, Pandora foi encontrar
Epimetheu, outro filho
de Japeto, irmão portanto de Prometheu.
Epimetheu (o imprudente),
malgrado o aviso, recebido de seu irmão, de não
aceitar nenhum presente
de Zeus, se deixou seduzir pela graça da jovem:
acolheu essa encantadora
criatura, fez della sua esposa e abriu a caixa.
Immediatamente uma
nuvem de males e de crimes se levantou,
envolvendo, com sua espessa
bruma, toda a superficie da Terra. Epimetheu
quiz fechar a caixa, mas
a horda fatal tinha-se evolado, não restando no
fundo senão a esperança.
Foi assim que nasceram todas as miserias que
ainda hoje affligem a humanidade."
O PRIMEIRO HOMEM
A seguir transcrevo um trecho da obra "O
Livro de Ouro
da Mitologia" de Thomas Bulfinch, Ediouro
2000:
"Antes de serem criados o mar, a terra e o
céu, todas as
coisas apresentavam um aspecto a que se dava o
nome de Caos -
uma informe e confusa massa, mero peso morto, no
qual, contudo,
jaziam latentes as sementes das coisas. A terra,
o mar e o ar
estavam todos misturados; assim, a terra não
era sólida, o mar
não era líquido e o ar não era transparente.
Deus e a Natureza
intervieram finalmente e puseram fim a essa discórdia,
separando
a terra do mar e o céu de ambos. Senda a parte
ígnea a mais leve,
espalhou-se e formou o firmamento; o ar
colocou-se em seguida, no
que diz respeito ao peso e ao lugar. A terra,
senda a mais pesada,
ficou para baixo, e a água ocupou o ponto
inferior, fazendo-a
flutuar.
Nesse ponto, um deus - não se sabe qual -
tratou de empregar seus
bons ofícios para arranjar e dispor as coisas
na Terra. Determinou
aos rios e lagos seus lugares, levantou
montanhas, escavou vales,
distribuiu os bosques, as fontes, os campos férteis
e as áridas
planícies, os peixes tomaram posse do mar, as
aves, do ar e os
quadrúpedes, da terra.
Tornara-se necessário, porém, um animal mais
nobre, e foi feito
o Homem. Não se sabe se o criador o fez de
materiais divinos, ou
se na Terra, há tão pouco tempo separada do céu,
ainda havia algumas
sementes celestiais ocultas. Prometeu tomou um
pouco dessa terra e,
misturando-a com água, fez o homem à semelhança
dos deuses. Deu-lhe
porte ereto, de maneira que, enquanto os outros
animais têm o rosto
voltado para baixo, olhando a terra, o homem
levanta a cabeça para
o céu e olha as estrelas.
Prometeu era um dos titãs, uma raça
gigantesca, que habitou a Terra
antes do homem. Ele e seu irmão Epimeteu foram
incumbidos de fazer o
homem e assegurar-lhe, e aos outros animais,
todas as faculdades
necessárias à sua preservação. Epimeteu
encarregou-se da obra e
Prometeu, de examiná-la, depois de pronta.
Assim, Epimeteu tratou
de atribuir a cada animal seus dons variados, de
coragem, força,
rapidez, sagacidade; asas a um, garras a outro,
uma carapaça
protegendo um terceiro, etc. Quando, porém,
chegou a vez do homem,
que tinha de ser superior a todos os outros
animais, Epimeteu gastara
seus recursos com tanta prodigalidade que nada
mais restava. Perplexo,
recorreu a seu irmão Prometeu, que, com a ajuda
de Atena, subiu ao
céu e acendeu sua tocha no carro do sol,
trazendo o fogo para o
homem. Com esse dom, o homem assegurou sua
superioridade sobre todos
os outros animais."
Aí está, pois, quem criou o homem.
"A mulher não fora criada ainda. A
versão (bem absurda) é que Júpiter a fez e enviou-a a Prometeu e a seu irmão,
para puní-los pela ousadia de furtar o fogo do ceú, e ao homem, por tê-lo
aceito. A primeira mulher chamava-se Pandora. foi feita no céu, e cada um dos
deuses contribuiu com alguma coisa para aperfeiçoá-la. Vênus
deu-lhe a beleza, Mercúrio, a persuasão , Apolo , a música, etc. Assim dotada, a
mulher foi mandada à Terra e oferecida a Epimeteu, que de boa vontade a aceitou,
embora advertido pelo irmão para ter cuidado com Júpiter e seus
presentes. Epimeteu tinha em casa uma caixa, na qual
guardava certos artigos malignos, de que não se utilizara, ao preparar o
homem para sua nova morada. Pandora foi tomada de intensa curiosidade de
saber o que continha aquela caixa, e, certo dia, destampou-a para olhar. Assim,
escapou e se espalhou por toda a parte uma multidão de pragas que
atingiram o desgraçado homem, tais como a gota,
o reumatismo, e a cólica, para o corpo, e a
inveja, o despeito e a vingança, para o espírito. Pandora apressou-se em
colocar a tampa na caixa, mas, infelizmente, escapara todo o conteúdo
da mesma, com exceção de uma única coisa, que ficara no fundo, e que
era a esperança. Assim, sejam quais forem os males que nos ameacem, a esperança
não nos deixa inteiramente, e, enquanto a tivermos, nenhum mal nos torna
inteiramente desgraçados.
Uma outra versão é a de que Pandora foi
mandada por Júpiter com boa intençao, a fim de agradar ao homem. O
rei dos deuses entregou-lhe, como presente de casamento, uma caixa, em que
cada deus colocara um bem. Pandora abriu a caixa, inadvertidamente,
e todos os bens escaparam, exceto a esperança. Essa versão é, sem
dúvida, mais aceitável do que a primeira. Realmente, como poderia a
esperança, jóia tão preciosa quanto é, ter sido misturada a toda a
sorte de males, como na primeira versão?"
"A comparação de Eva com Pandora
é muito óbvia para ter escapado a Milton, que
a apresenta no LIvro IV do Paraíso Perdido:
Mais bela que Pandora a quem os deuses
Cumularam de todos os seus bens
E, ah! bem semelhante na desgraça,
Quando ao insensato filho de Japeto
Por Hermes conduzido, a humanidade
Tomou, com sua esplêndida beleza,
E caiu a vingança sobre aquele
Que de Júpiter furtou o sacro
fogo."
[adaptação e composição: Moacir Índio
da Costa Júnior em 03/04/2002]