"Pã, o deus dos bosques e dos campos, dos
rebanhos e dos pastores,
morava em grutas, vagava pelas montanhas e pelos
vales e divertia-se
caçando ou dirigindo as danças das ninfas (ninfas
= moças - ou
náiades,
de um verbo grego que significa escoar - tidas
como filhas de Zeus).
Era amante da música e o inventor da sírinx, ou
avena (antiga flauta
pastoril feita do talo da aveia), a qual tocava
magistralmente. Pã,
como os outros deuses que habitavam as florestas,
era temido por
aqueles cuja ocupações os obrigavam a atravessar
as matas durante a
noite, pois as trevas e a solidão que reinavam
em tais lugares
predispunham os espíritos aos temores
supersticiosos. Por isso, os
pavores súbitos, desprovidos de qualquer causa
aparente, eram
atribuidos a Pã e chamados de terror pânico ou
simplesmente de
pânico.
Como o nome do deus significa tudo, Pã passou a
ser considerado símbolo
do universo e personificação da natureza, e mais
tarde, enfim, foi
olhado como representante de todos os deuses e
do próprio paganismo.
"Era Pã representado sob a forma de um ser muito
feio, com a face
avermelhada e queimada pelo sol, os cabelos e a
barba fulva de cabra
desalinhados, a pele coberta de pelos eriçados,
com chifres de
carneiro
e pés caprinos." (Mário Guedes em Pequena
Mythologia, F. Briguiet e
cia., RJ, 1933)
Silvano e Fauno eram divindades latinas, cujas
características são a
tal ponto semlhantes às de Pã, que podem ser
consideradas como a
mesma
personagem, sob nomes diferentes.
nota do adaptador:
o culto de Pã era de tal modo arraigado nos
habitantes do interior
(grego, romano, outros lugares de influência
greco-romana) que os
primitivos missionários cristãos associaram a
figura desse deus ao
diabo citado nas Santas Escrituras, para acabar
com o paganismo.
As ninfas dos bosques, companheiras de Pã nas
danças, constituíam
apenas uma das classes das ninfas. Havia, além
delas, as Náiades,
que governavam os regatos e as fontes; as
Oreádes, ninfas das
montanhas e grutas, e as Nereidas, ninfas do
mar. As três últimas
eram imortais, mas as ninfas dos bosques,
chamadas Dríades ou
Hamadríades, morriam, segundo se acreditava, com
as árvores que lhes
serviam de morada e juntamente com as quais
nasciam. Constituía,
portanto, uma impiedade destruir uma árvore e,
em alguns casos
graves,
tal ato era severamente punido.
Milton, em sua bela descrição dos primórdios da
criação, assim se
refere a Pã, como personificação da natureza:
... o Pã universal,
Dançando junto às Graças e às Horas,
Comanda a sempiterna primavera.
E descrevendo a morada de Eva:
Em mais sombreado e protegido abrigo
Pã ou Silvano não dormiram, e as ninfas
E os faunos outro igual não visitaram.
Paraíso Perdido, Livro IV
Um aspecto sedutor do paganismo era o de
creditar à iniciativa de
uma
divindade cada fenômeno da natureza. A
imaginação dos gregos povoava
as regiões da terra e do mar de divindades, a
cuja diligência
atribuíam
os fenômenos que nossa filosofia considera como
conseqüência das
leis
naturais. Às vezes, em nossos momentos de poesia,
sentimo-nos
inclinados a lamentar a mudança ocorrida, e a
achar que, com a
substituição, o coração perdeu tanto quanto o
cérebro ganhou.
O poeta Wordsworth manifesta, de maneira bem
enérgica, tal
sentimento.
Oxalá um pagão ainda eu fosse,
por velhas ilusões acalentado.
A paisagem seria bem mais doce
E o mundo muito menos desolado.
Schiller, no poema "Die Götter Griechenlands",
manisfesta seu pesar
pelo desaparecimento da bela mitologia dos
velhos tempos, o que
provocou uma resposta da poetisa cristã E.
Barrett Browning, no
poema
"Pã é Morto", do qual fazem parte as duas
seguintes estrofes:
Pela tua beleza que se curva
Ante maior Beleza que te vence,
Pelo nosso valor adivinhando
Entre tuas mentiras a Verdade,
Não te choramos! Dar-nos-á o mundo,
Depois do velho reino, outro reinado.
Pã é morto!
O mundo deixa além as fantasias
Que, em sua juventude, o embalaram
E as fábulas mais belas e mais vivas
Tolas parecem em face da verdade.
De Febo o carro terminou o curso!
Olhai de frente o sol, olhai, poetas!
E Pã, e Pã, é morto!
Estes versos baseiam-se numa velha tradição
cristã, segundo a qual,
quando o anjo avisou os pastores de Belém do
nascimento do Cristo,
um gemido profundo, ouvido através de toda a
Grécia, anunciou que
o grande Pã morrera e toda a realeza do Olimpo
fora destronada,
passando as divindades a vagar no frio e nas
trevas. É o que Milton
conta no "Hino à Natividade":
Pelas praias, além, pelas montanhas,
Triste como um gemido, ecoa um grito.
Pelos vales verdejantes, entre folhas,
O gênio antigo suspirando foge,
Choram as ninfas nos bosques desoladas.
Thomas Bulfinch em O LIVRO DE OURO DA MITOLOGIA,
Ediouro, 2000.
adaptado por
Moacir Índio da Costa Júnior
2003