PÁGINA DE MITOLOGIA

GEORGE BAKER



Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega


Editora Brasiliense
São Paulo
1960

Segunda Parte

Filhos de Reis





CAPITULO IX

A FAMOSA BUSCA DO TOSÃO DE OURO


 

Aconteceu que Pélias, Rei de Iolco, fora prevenido por certo adivinho, de que se deveria precaver contra um homem que chegaria ao seu palácio usando calçado em um só pé. Desde que ouvira essa profecia esperou Pélias com receio a sua realização, por não ser ele o legítimo soberano. De fato, ele e seu irmão gêmeo Neleu se haviam apossado do trono por ocasião da morte de seu pai, e exilado Eson, que er ao legítimo herdeiro. Em seguida Pélias expulsara o irmão (que se tornou Rei de Pilos) para reinar sozinho em Iolco. Tinha ele, pois, razões de sobra para sentir-se temeroso. Tanto o rei legítimo Eson, como seu irmão Neleu, poderiam voltar um dia para reivindicar o trono. Eson tinha um filho chamado Jasão, que passara sua infância entre os Centauros do Monte Pélion, aprendendo o manejo das armas e a arte da guerra com Quiron, rei dos Centauros. Ao crescer tornou-se belo e nobre mancebo, e Eson, já velho e fraco, achou que chegara a hora de mandar seu filho a Iolco para que reivindicasse seus direitos hereditários.

Transpondo um rio a vau, perdeu Jasão uma de suas sandálias. Como não estivesse longe da cidade, entretanto, prosseguiu em seu caminho. Quando vieram dizer a Pélias que um jovem com um pé calçado e outro descalço queria falar-lhe, lembrou-se da antiga profecia. Recebeu Jasão com bondade e cortesia fingidas, inquirindo da sua cidade e da família a que pertencia.

- Sou Jasão, filho de Eson, rei legítimo de Iolco, respondeu o rapaz, e fui enviado pelo meu pai para recuperar a minha herança.

- É verdade que meu meio-irmão Eson é o legítimo Rei, disse Pélias, e há muito já me arrependi da minha injustiça ao manda-lo para o exílio, ocupando eu o trono ao qual não tinha direito. Procurei seu pai para restituir-lhe o trono. Mas ele estava tão bem escondido que não consegui encontrá-lo.

- Meu pai está velho e não aspira ao trono, disse Jasão. Deseja apenas que eu, seu filho único, venha a ser Rei de Iolco.

- Assim sendo, renunciarei ao trono logo que você atingir a maioridade, retorquiu o astucioso Pélias sem a menor intenção de cumprir o que prometia.

Jasão ficou surpreso e ao mesmo tempo encantado com a bondade e a lhaneza do seu tio, que lhe havia sido retratado como home duro e perverso. Com tanta perfeição representou Pélias seu papel que Jasão se viu completamente ludibriado. Após alguns dias de festanças, inculcou Pélias na cabeça de seu sobrinho uma idéia que o jovem acolheu sem hesitação.

- Você é jovem, disse o rei, e seu nome é desconhecido no mundo a não ser como filho de seu pai. Antes de receber de minhas, mãos o pesado encargo da realeza, seria de grande importância para seu prestígio pessoal fazer você alguma proeza que o tornasse famoso e respeitado.

- Eu o faria com prazer, disse Jasão, se pudéssemos descobrir alguma façanha desse gênero.

- Ora, não é preciso procurar muito. Posso indicar-lhe uma aventura que tornaria, seu nome glorioso para todo o sempre, caso conseguisse realizá-la.

- Imploro-lhe que me diga do que se trata, exclamou Jasão pressuroso.

Contou-lhe então Pélias a história que Pélops ouvira da boca do Rei Creonte de Tebas. Era a história dos dois filhos do Rei Atamante, Frixo e Hele que, fugindo à crueldade de sua madrasta, voaram no velocino de ouro, que levou o menino são e salvo para a Cólquida, onde o Rei Aetes lhe dera em casamento sua filha Calcíope.

- Contudo, acrescentou Pélias, ficou o rei com ciúmes de seu genro, que possuía o velocino de ouro. Matou-o então e pendurou o velocino num bosque consagrado ao deus da guerra, onde ficou sob a guarda diurna e noturna de um dragão que está sempre acordado. Que bela aventura seria, para você, navegar até a Cólquida, punir aquele rei traidor e trazer de volta o Tosão de Ouro para provar aos olhos do mundo que o assassínio do filho do Rei Atamante fora vingado! Era o Rei

Atamante irmão de Creteu, o seu próprio avô. Fora eu mais moço e chefiaria pessoalmente essa expedição, obtendo glória eterna com a sua realização. Brilhavam os olhos de Jasão enquanto ouvia estas palavras. Antes de seu tio acabar de falar, já ele estava resolvido a embarcar para a Cólquida em busca do Tosão de Ouro. No íntimo ria-se o Rei Pélias da sofreguidão de seu sobrinho. Estava convencido de que o jovem não voltaria com vida de tão perigoso empreendimento. Jasão, contudo, pensava, muito menos nos perigos que tinha de enfrentar do que na glória que esperava conquistar. Quando foi conhecida sua resolução, muitos jovens sedentos de aventuras apressaram-se em ir a Iolco para a ele se juntarem nessa expedição. Foi um dia de orgulho e satisfação para Jasão aquele em que o famoso e possante Héracles de Tebas apresentou-se em Iolco, pedindo-lhe para tomar parte na expedição.

- De todo o coração, disse Jasão, e seria justo que você a chefiasse em vez de embarcar sob as ordens de quem ainda não conquistou fama.

Héracles, porém, recusou esta proposta. A expedição era de Jasão e ele comprometera-se a servir lealmente sob as ordens daquele jovem. Entre os que se ofereceram, escolheu Jasão cinqüenta. Durante os meses de inverno trabalharam na construção de uma grande nau para transportá-los. Foi ela planejada por um velho marinheiro chamado Argo, do qual tirou o nome. Nos primeiros dias da primavera a nau ficou pronta e seu lançamento foi acompanhado de sacrifícios feitos aos deuses. Os cinqüenta jovens tomaram os seus lugares nos bancos dos remadores, e Jasão contemplou com orgulho o esplêndido séquito que o acompanhava na expedição. Orfeu, o melodioso cantor, ia à proa tangendo as cordas de sua lira, e acentuando com a voz o ritmo dos remos. Tifis, o timoneiro, ia de pé no tabuleiro da popa, tendo a seu lado o adivinho Idmon. Junto a Héracles estavam dois célebres irmãos, Peleu e Telamon, ambos reis, um, dos mirmidões, e o outro da Ilha de Salamina. Depois, via-se o grande Laertes de Ítaca e Meleagro, filho do Rei Eneu; o sagaz Nestor, filho do Rei Neleu de Pilos; os filhos gêmeos do Rei de Esparta, chamados Castor e Pólux, e Filoctetes, o famoso arqueiro. Com ele embarcou o médico Esculápio, filho de Apolo; e Argo, que projetara aquele belo navio, o maior que jamais singrara os mares da Grécia, ia da proa à popa e voltava de novo, radiante de orgulho e satisfação, enquanto a nau impelida pela força da vela e dos remos cortava com garbo as ondas do mar, iniciando o seu longo e perigoso cruzeiro. Aportaram na Ilha de Lemnos, onde desembarcaram. Jasão levou presentes ao palácio, e veio a saber que a ilha era governada por uma rainha chamada Hipsípile, bisneta do Rei Minos Segundo de Creta.

De sua boca ouviu Jasão estranha narrativa. Algum tempo antes as mulheres de Lemnos haviam ofendido a deusa Afrodite, e, por castigo, foram afetadas de uma doença que inspirava nojo aos homens. Estes se consolaram com algumas raparigas trácias, que tinham aprisionado na guerra. Este fato de tal modo enfureceu as mulheres de Lemnos que, em determinado dia e hora, mataram todos os homens - maridos, pais, filhos e amantes - deixando vivos sómente os meninos de tenra idade. Nem sequer escapou o pai da rainha à sanha das mulheres. Quando souberam que Hipsípile o havia escondido exigiram que, ele também, fôsse sacrificado. Vestindo-se de mulher e embarcando ao abrigo da noite, conseguiu o Rei Toas escapar com vida, levando consigo muitos meninos.

Achavam-se as mulheres de Lemnos arrependidas de seus atos quando os navegantes do Argo desembarcaram na ilha. Imploraram aos jovens gregos que ficassem morando com elas a fim de defendê-las contra os trácios. Consentiram os argonautas em permanecer ali algum tempo, porém, após alguns meses de vida ociosa e aprazível, convocou Jasão seus companheiros para que prosseguissem,em sua expedição. Disse a Hipsípile que se ela viesse a ter um filho dele, deveria enviá-lo ao seu pai Eson, na Grécia. Em seguida despediram-se de Lemnos.

Ao passarem pela grande cidade de Tróia, visitaram uma colônia grega situada no litoral asiático, cujo rei se chamava Cízico. Era filho do Rei Eneu de Calidon, e irmão de Meleagro, um dos argonautas. Aconteceu que Cízico estava para se casar, e grande foi a sua satisfação em ter consigo seu irmão e tantos príncipes e reis de sua terra natal para festejarem seu casamento. Após muitos dias fizeram-se os argonautas de novo ao mar, mas não tinham navegado por muito tempo, quando uma tempestade se desencadeou, mandando-os de volta para a terra. Desembarcaram à noite em local desconhecido, onde foram atacados por homens armados que os tomaram por piratas.

Na escuridão da noite os Argonautas não reconheceram, nos atacantes, os amigos de quem se haviam despedido algumas horas antes, e foi só depois de Jasão ter matado Cízico e de terem caído muitos dos companheiros do rei que o funesto equívoco foi dissipado. Tão desvairada de dor ficou a jovem noiva de Cízico que pôs fim à própria vida, e foi em compungido silêncio que, mais uma vez, os argonautas singraram para o seu destino. Pouco tempo depois, foi Héracles obrigado a se desligar da expedição. Tinha quebrado o seu remo e, enquanto fazia outro novo, ficara o navio atracado.

Héracles cortou um novo álamo e pôs-se a amoldar o remo, enquanto Hilas, seu jovem companheiro, pegou um cântaro para ir em busca de água fresca, pois Héracles adorava um banho quente no fim de um dia de trabalho. Era Hilas, filho de Teodamas, rei a quem Héracles tirara a vida numa rixa por causa de algumas reses. Fora ele adotado por Héracles, que criou o menino como se fosse seu próprio filho. Transformava-se Hilas num belo rapaz alto e bem apessoado, quando uma náiade, que vivia no poço onde Hilas fora buscar água, o viu inclinado na margem, pegou-o pelos braços, arrastando-o para dentro d'água para que fosse viver em sua companhia, para todo o sempre. Hilas gritou ao se sentir cair. Seu grito foi ouvido por um dos Argonautas chamado Polifemo, que avisou a Héracles.

Juntos correram para o poço, mas não conseguiram encontrar nem vestígios de Hilas, a não ser o jarro de cobre que jazia dentro d'água.

Héracles ficou tão pesaroso que passou a noite percorrendo as colinas solitárias à procura de Hilas; e quando no dia seguinte soprou uma brisa fresca e os Argonautas quiseram embarcar e fazerem-se à vela, Héracles não quis desistir da busca. Tiveram, então, seus companheiros de deixá-lo em terra para prosseguir na viagem. Mas, passado pouco tempo, começaram a disputar, dizendo, uns, que deviam ter esperado por Héracles, e, outros, que ele ficara em terra por sua própria vontade. Telamon, que se tornara, amigo íntimo de Héracles, acusava Jasão.

- Você largou-o em terra porque temia que sua fama ultrapassasse a sua, disse ele encolerizado.

- Isso não é verdade, retorquiu Jasão, e a prova do que digo é que em Iolco ofereci o comando da expedição a Héracles, que não o quis aceitar. Apesar disso, para que não haja inimizades entre nós voltaremos para trás e ficaremos à espera de Héracles.

Estava a ponto de recolher a vela e mandar mudar o rumo da nau, quando do seio das ondas uma voz retumbante chamou por ele. Era Glauco, deus marinho, que tinha conhecimento do que estava acontecendo e lhe trazia uma mensagem dos deuses.

- Foi decretado que Héracles não seguirá para a Cólquida com você, bradou a voz, pois a vontade dos deuses é que ele volte para a Grécia, ficando ao serviço do Rei Euristeu de Micenas durante doze anos.

Tiveram os Argonautas muitas aventuras estranhas antes de chegarem à Cólquida, onde reinava o Rei Aetes. Em certo lugar encontraram um velho rei cego chamado Fineu, irmão do Rei Cadmo de Tebas. Em tempos ele havia sido profeta e adivinho, porém, estupidamente, revelara aos homens os desígnios secretos dos deuses. Por essa razão Zeus tirou-lhe a vista e puniu-o com a velhice e uma doença incurável, muito embora não fosse mortal. Todos os dias, na hora das refeições, entravam voando no palácio dois horríveis monstros chamados Harpias, que lhe arrebatavam a comida, deixando-lhe apenas o suficiente para que não morresse de fome.

Mesmo este resto as Harpias tornavam repugnante, arremessando sobre ele substâncias nauseabundas que ninguém tolerava, a não ser Fineu. Ora, encontravam-se entre os Argonautas dois filhos de Bóreas, o Vento Norte, que podiam, quando o desejavam, voar mais depressa que o mais veloz dos pássaros.

Chamavam-se Calais e Zetes, e tanto se compadeceram do pobre rei cego, que quando as Harpias tornaram a aparecer se elevaram no ar empunhando suas espadas e as afugentaram para bem longe, grasnando espavoridas. Teriam os monstros morrido, com toda a certeza, não tivessem os deuses enviado seu mensageiro Íris, ordenando aos dois filhos de Bóreas que poupassem as Harpias. Mas a partir daquele dia o velho Rei nunca mais foi visitado por elas, o que muito suavizou seus sofrimentos. Sob sua orientação navegou o Argo com segurança através dos Escolhos Estrepitosos, seguindo uma pomba que voava à sua frente e que por instinto passava nos desvãos dos arrecifes, que colidiam com estrépito logo após a passagem da nau. Pouco depois desembarcaram numa baía aprazível, mas se apressaram em voltar para bordo quando vieram a saber que aquele era o país das Amazonas, nação de mulheres guerreiras que detestavam os homens.

Felizmente não viviam elas em uma única aglomeração senão em pequenos povoados distantes uns dos outros; e os Argonautas puderam voltar ao seu barco antes que as Amazonas se houvessem reunido em número suficientemente grande para atacá-los.

Ao indicar-lhes o itinerário, dissera-lhes Fineu que não deixassem de desembarcar numa ilha onde havia um templo consagrado a Ares, deus da guerra; pois que ali, afirmava ele, haveriam de receber auxílio inesperado vindo do mar. Seguindo suas instruções, encontraram na ilha quatro homens que haviam sido alijados de bordo durante uma tempestade. Grandes foram a surpresa e a alegria de Jasão e dos Argonautas, ao saberem que se tratava dos quatro filhos de Frixo. Seus nomes eram Melas, Frontis, Citísoro e Argo.

- Quando nosso pai morreu, disse Argo, o Rei Aetes nos mandou de volta para nossas pátrias porque somos os legítimos herdeiros do Rei Atamante, e seu reino de Orcomeno deve ser partilhado entre nós. Durante a viagem, porém, um temporal arrojou nossa nau a esta costa onde se espatifou. De todos os que vinham a bordo somente nos salvamos eu e meus irmãos e aqui temos vivido desde então. Quando os filhos de Frixo souberam que Jasão era seu patrício, pois que seu avô Creteu era irmão do Rei Atamante, agradeceram aos deuses e embarcaram com seus novos amigos. Por fim entrou a grande nau no estuário do Rio Fasis, na Cólquida, perto do local onde estava suspenso o Tosão de Ouro.

 

[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,

em

DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 

 

 


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