Aconteceu
que Pélias, Rei de Iolco, fora prevenido por
certo adivinho, de que se deveria precaver
contra um homem que chegaria ao seu palácio
usando calçado em um só pé. Desde que ouvira
essa profecia esperou Pélias com receio a sua
realização, por não ser ele o legítimo
soberano. De fato, ele e seu irmão gêmeo Neleu
se haviam apossado do trono por ocasião da
morte de seu pai, e exilado Eson, que er ao
legítimo herdeiro. Em seguida Pélias expulsara
o irmão (que se tornou Rei de Pilos) para
reinar sozinho em Iolco. Tinha ele, pois,
razões de sobra para sentir-se temeroso. Tanto
o rei legítimo Eson, como seu irmão Neleu,
poderiam voltar um dia para reivindicar o trono.
Eson tinha um filho chamado Jasão, que passara
sua infância entre os Centauros do Monte
Pélion, aprendendo o manejo das armas e a arte
da guerra com Quiron, rei dos Centauros. Ao
crescer tornou-se belo e nobre mancebo, e Eson,
já velho e fraco, achou que chegara a hora de
mandar seu filho a Iolco para que reivindicasse
seus direitos hereditários.
Transpondo
um rio a vau, perdeu Jasão uma de suas
sandálias. Como não estivesse longe da cidade,
entretanto, prosseguiu em seu caminho. Quando
vieram dizer a Pélias que um jovem com um pé
calçado e outro descalço queria falar-lhe,
lembrou-se da antiga profecia. Recebeu Jasão
com bondade e cortesia fingidas, inquirindo da
sua cidade e da família a que pertencia.
- Sou
Jasão, filho de Eson, rei legítimo de Iolco,
respondeu o rapaz, e fui enviado pelo meu pai
para recuperar a minha herança.
- É
verdade que meu meio-irmão Eson é o legítimo
Rei, disse Pélias, e há muito já me arrependi
da minha injustiça ao manda-lo para o exílio,
ocupando eu o trono ao qual não tinha direito.
Procurei seu pai para restituir-lhe o trono. Mas
ele estava tão bem escondido que não consegui
encontrá-lo.
- Meu
pai está velho e não aspira ao trono, disse
Jasão. Deseja apenas que eu, seu filho único,
venha a ser Rei de Iolco.
-
Assim sendo, renunciarei ao trono logo que você
atingir a maioridade, retorquiu o astucioso
Pélias sem a menor intenção de cumprir o que
prometia.
Jasão
ficou surpreso e ao mesmo tempo encantado com a
bondade e a lhaneza do seu tio, que lhe havia
sido retratado como home duro e perverso. Com
tanta perfeição representou Pélias seu papel
que Jasão se viu completamente ludibriado.
Após alguns dias de festanças, inculcou
Pélias na cabeça de seu sobrinho uma idéia
que o jovem acolheu sem hesitação.
-
Você é jovem, disse o rei, e seu nome é
desconhecido no mundo a não ser como filho de
seu pai. Antes de receber de minhas, mãos o
pesado encargo da realeza, seria de grande
importância para seu prestígio pessoal fazer
você alguma proeza que o tornasse famoso e
respeitado.
- Eu o
faria com prazer, disse Jasão, se pudéssemos
descobrir alguma façanha desse gênero.
- Ora,
não é preciso procurar muito. Posso
indicar-lhe uma aventura que tornaria, seu nome
glorioso para todo o sempre, caso conseguisse
realizá-la.
-
Imploro-lhe que me diga do que se trata,
exclamou Jasão pressuroso.
Contou-lhe
então Pélias a história que Pélops ouvira da
boca do Rei Creonte de Tebas. Era a história
dos dois filhos do Rei Atamante, Frixo e Hele
que, fugindo à crueldade de sua madrasta,
voaram no velocino de ouro, que levou o menino
são e salvo para a Cólquida, onde o Rei Aetes
lhe dera em casamento sua filha Calcíope.
-
Contudo, acrescentou Pélias, ficou o rei com
ciúmes de seu genro, que possuía o velocino de
ouro. Matou-o então e pendurou o velocino num
bosque consagrado ao deus da guerra, onde ficou
sob a guarda diurna e noturna de um dragão que
está sempre acordado. Que bela aventura seria,
para você, navegar até a Cólquida, punir
aquele rei traidor e trazer de volta o Tosão de
Ouro para provar aos olhos do mundo que o
assassínio do filho do Rei Atamante fora
vingado! Era o Rei
Atamante
irmão de Creteu, o seu próprio avô. Fora eu
mais moço e chefiaria pessoalmente essa
expedição, obtendo glória eterna com a sua
realização. Brilhavam os olhos de Jasão
enquanto ouvia estas palavras. Antes de seu tio
acabar de falar, já ele estava resolvido a
embarcar para a Cólquida em busca do Tosão de
Ouro. No íntimo ria-se o Rei Pélias da
sofreguidão de seu sobrinho. Estava convencido
de que o jovem não voltaria com vida de tão
perigoso empreendimento. Jasão, contudo,
pensava, muito menos nos perigos que tinha de
enfrentar do que na glória que esperava
conquistar. Quando foi conhecida sua
resolução, muitos jovens sedentos de aventuras
apressaram-se em ir a Iolco para a ele se
juntarem nessa expedição. Foi um dia de
orgulho e satisfação para Jasão aquele em que
o famoso e possante Héracles de Tebas
apresentou-se em Iolco, pedindo-lhe para tomar
parte na expedição.
- De
todo o coração, disse Jasão, e seria justo
que você a chefiasse em vez de embarcar sob as
ordens de quem ainda não conquistou fama.
Héracles,
porém, recusou esta proposta. A expedição era
de Jasão e ele comprometera-se a servir
lealmente sob as ordens daquele jovem. Entre os
que se ofereceram, escolheu Jasão cinqüenta.
Durante os meses de inverno trabalharam na
construção de uma grande nau para
transportá-los. Foi ela planejada por um velho
marinheiro chamado Argo, do qual tirou o nome.
Nos primeiros dias da primavera a nau ficou
pronta e seu lançamento foi acompanhado de
sacrifícios feitos aos deuses. Os cinqüenta
jovens tomaram os seus lugares nos bancos dos
remadores, e Jasão contemplou com orgulho o
esplêndido séquito que o acompanhava na
expedição. Orfeu, o melodioso cantor, ia à
proa tangendo as cordas de sua lira, e
acentuando com a voz o ritmo dos remos. Tifis, o
timoneiro, ia de pé no tabuleiro da popa, tendo
a seu lado o adivinho Idmon. Junto a Héracles
estavam dois célebres irmãos, Peleu e Telamon,
ambos reis, um, dos mirmidões, e o outro da
Ilha de Salamina. Depois, via-se o grande
Laertes de Ítaca e Meleagro, filho do Rei Eneu;
o sagaz Nestor, filho do Rei Neleu de Pilos; os
filhos gêmeos do Rei de Esparta, chamados
Castor e Pólux, e Filoctetes, o famoso
arqueiro. Com ele embarcou o médico Esculápio,
filho de Apolo; e Argo, que projetara aquele
belo navio, o maior que jamais singrara os mares
da Grécia, ia da proa à popa e voltava de
novo, radiante de orgulho e satisfação,
enquanto a nau impelida pela força da vela e
dos remos cortava com garbo as ondas do mar,
iniciando o seu longo e perigoso cruzeiro.
Aportaram na Ilha de Lemnos, onde desembarcaram.
Jasão levou presentes ao palácio, e veio a
saber que a ilha era governada por uma rainha
chamada Hipsípile, bisneta do Rei Minos Segundo
de Creta.
De sua boca ouviu Jasão estranha
narrativa. Algum tempo antes as mulheres de
Lemnos haviam ofendido a deusa Afrodite, e, por
castigo, foram afetadas de uma doença que
inspirava nojo aos homens. Estes se consolaram
com algumas raparigas trácias, que tinham
aprisionado na guerra. Este fato de tal modo
enfureceu as mulheres de Lemnos que, em
determinado dia e hora, mataram todos os homens
- maridos, pais, filhos e amantes - deixando
vivos sómente os meninos de tenra idade. Nem
sequer escapou o pai da rainha à sanha das
mulheres. Quando souberam que Hipsípile o havia
escondido exigiram que, ele também, fôsse
sacrificado. Vestindo-se de mulher e embarcando
ao abrigo da noite, conseguiu o Rei Toas escapar
com vida, levando consigo muitos meninos.
Achavam-se as mulheres de Lemnos arrependidas de
seus atos quando os navegantes do Argo
desembarcaram na ilha. Imploraram aos jovens
gregos que ficassem morando com elas a fim de
defendê-las contra os trácios. Consentiram os
argonautas em permanecer ali algum tempo,
porém, após alguns meses de vida ociosa e
aprazível, convocou Jasão seus companheiros
para que prosseguissem,em sua expedição. Disse
a Hipsípile que se ela viesse a ter um filho
dele, deveria enviá-lo ao seu pai Eson, na
Grécia. Em seguida despediram-se de Lemnos.
Ao
passarem pela grande cidade de Tróia, visitaram
uma colônia grega situada no litoral asiático,
cujo rei se chamava Cízico. Era filho do Rei
Eneu de Calidon, e irmão de Meleagro, um dos
argonautas. Aconteceu que Cízico estava para se
casar, e grande foi a sua satisfação em ter
consigo seu irmão e tantos príncipes e reis de
sua terra natal para festejarem seu casamento.
Após muitos dias fizeram-se os argonautas de
novo ao mar, mas não tinham navegado por muito
tempo, quando uma tempestade se desencadeou,
mandando-os de volta para a terra. Desembarcaram
à noite em local desconhecido, onde foram
atacados por homens armados que os tomaram por
piratas.
Na escuridão da noite os Argonautas
não reconheceram, nos atacantes, os amigos de
quem se haviam despedido algumas horas antes, e
foi só depois de Jasão ter matado Cízico e de
terem caído muitos dos companheiros do rei que
o funesto equívoco foi dissipado. Tão
desvairada de dor ficou a jovem noiva de Cízico
que pôs fim à própria vida, e foi em
compungido silêncio que, mais uma vez, os
argonautas singraram para o seu destino. Pouco
tempo depois, foi Héracles obrigado a se
desligar da expedição. Tinha quebrado o seu
remo e, enquanto fazia outro novo, ficara o
navio atracado.
Héracles cortou um novo álamo
e pôs-se a amoldar o remo, enquanto Hilas, seu
jovem companheiro, pegou um cântaro para ir em
busca de água fresca, pois Héracles adorava um
banho quente no fim de um dia de trabalho. Era
Hilas, filho de Teodamas, rei a quem Héracles
tirara a vida numa rixa por causa de algumas
reses. Fora ele adotado por Héracles, que criou
o menino como se fosse seu próprio filho.
Transformava-se Hilas num belo rapaz alto e bem
apessoado, quando uma náiade, que vivia no
poço onde Hilas fora buscar água, o viu
inclinado na margem, pegou-o pelos braços,
arrastando-o para dentro d'água para que fosse
viver em sua companhia, para todo o sempre.
Hilas gritou ao se sentir cair. Seu grito foi
ouvido por um dos Argonautas chamado Polifemo,
que avisou a Héracles.
Juntos correram para o poço, mas não
conseguiram encontrar nem vestígios de Hilas, a
não ser o jarro de cobre que jazia dentro
d'água.
Héracles
ficou tão pesaroso que passou a noite
percorrendo as colinas solitárias à procura de
Hilas; e quando no dia seguinte soprou uma brisa
fresca e os Argonautas quiseram embarcar e
fazerem-se à vela, Héracles não quis desistir
da busca. Tiveram, então, seus companheiros de
deixá-lo em terra para prosseguir na viagem.
Mas, passado pouco tempo, começaram a disputar,
dizendo, uns, que deviam ter esperado por
Héracles, e, outros, que ele ficara em terra
por sua própria vontade. Telamon, que se
tornara, amigo íntimo de Héracles, acusava
Jasão.
-
Você largou-o em terra porque temia que sua
fama ultrapassasse a sua, disse ele
encolerizado.
- Isso
não é verdade, retorquiu Jasão, e a prova do
que digo é que em Iolco ofereci o comando da
expedição a Héracles, que não o quis
aceitar. Apesar disso, para que não haja
inimizades entre nós voltaremos para trás e
ficaremos à espera de Héracles.
Estava
a ponto de recolher a vela e mandar mudar o rumo
da nau, quando do seio das ondas uma voz
retumbante chamou por ele. Era Glauco, deus
marinho, que tinha conhecimento do que estava
acontecendo e lhe trazia uma mensagem dos
deuses.
- Foi
decretado que Héracles não seguirá para a
Cólquida com você, bradou a voz, pois a
vontade dos deuses é que ele volte para a
Grécia, ficando ao serviço do Rei Euristeu de
Micenas durante doze anos.
Tiveram
os Argonautas muitas aventuras estranhas antes
de chegarem à Cólquida, onde reinava o Rei
Aetes. Em certo lugar encontraram um velho rei
cego chamado Fineu, irmão do Rei Cadmo de
Tebas. Em tempos ele havia sido profeta e
adivinho, porém, estupidamente, revelara aos
homens os desígnios secretos dos deuses. Por
essa razão Zeus tirou-lhe a vista e puniu-o com
a velhice e uma doença incurável, muito embora
não fosse mortal. Todos os dias, na hora das
refeições, entravam voando no palácio dois
horríveis monstros chamados Harpias, que lhe
arrebatavam a comida, deixando-lhe apenas o
suficiente para que não morresse de fome.
Mesmo
este resto as Harpias tornavam repugnante,
arremessando sobre ele substâncias nauseabundas
que ninguém tolerava, a não ser Fineu. Ora,
encontravam-se entre os Argonautas dois filhos
de Bóreas, o Vento Norte, que podiam, quando o
desejavam, voar mais depressa que o mais veloz
dos pássaros.
Chamavam-se Calais e Zetes, e
tanto se compadeceram do pobre rei cego, que
quando as Harpias tornaram a aparecer se
elevaram no ar empunhando suas espadas e as
afugentaram para bem longe, grasnando
espavoridas. Teriam os monstros morrido, com
toda a certeza, não tivessem os deuses enviado
seu mensageiro Íris, ordenando aos dois filhos
de Bóreas que poupassem as Harpias. Mas a
partir daquele dia o velho Rei nunca mais foi
visitado por elas, o que muito suavizou seus
sofrimentos. Sob sua orientação navegou o Argo
com segurança através dos Escolhos
Estrepitosos, seguindo uma pomba que voava à
sua frente e que por instinto passava nos
desvãos dos arrecifes, que colidiam com
estrépito logo após a passagem da nau. Pouco
depois desembarcaram numa baía aprazível, mas
se apressaram em voltar para bordo quando vieram
a saber que aquele era o país das Amazonas,
nação de mulheres guerreiras que detestavam os
homens.
Felizmente não viviam elas em uma
única aglomeração senão em pequenos povoados
distantes uns dos outros; e os Argonautas
puderam voltar ao seu barco antes que as
Amazonas se houvessem reunido em número
suficientemente grande para atacá-los.
Ao
indicar-lhes o itinerário, dissera-lhes Fineu
que não deixassem de desembarcar numa ilha onde
havia um templo consagrado a Ares, deus da
guerra; pois que ali, afirmava ele, haveriam de
receber auxílio inesperado vindo do mar.
Seguindo suas instruções, encontraram na ilha
quatro homens que haviam sido alijados de bordo
durante uma tempestade. Grandes foram a surpresa
e a alegria de Jasão e dos Argonautas, ao
saberem que se tratava dos quatro filhos de
Frixo. Seus nomes eram Melas, Frontis, Citísoro
e Argo.
-
Quando nosso pai morreu, disse Argo, o Rei Aetes
nos mandou de volta para nossas pátrias porque
somos os legítimos herdeiros do Rei Atamante, e
seu reino de Orcomeno deve ser partilhado entre
nós. Durante a viagem, porém, um temporal
arrojou nossa nau a esta costa onde se
espatifou. De todos os que vinham a bordo
somente nos salvamos eu e meus irmãos e aqui
temos vivido desde então. Quando os filhos de
Frixo souberam que Jasão era seu patrício,
pois que seu avô Creteu era irmão do Rei
Atamante, agradeceram aos deuses e embarcaram
com seus novos amigos. Por fim entrou a grande
nau no estuário do Rio Fasis, na Cólquida,
perto do local onde estava suspenso o Tosão de
Ouro.
[transcrição
e adaptação do texto original de George Baker,
em
DEUSES
E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]
Moacir
Índio da Costa Júnior