Pélops
tinha razão de pensar que não havia melhor
maneira de tornar sua família importante do que
casar os seus filhos com filhos de reis
poderosos. Sentiu-se, pois, feliz quando
Estenelo, filho do Rei Perseu de Micenas pediu
sua filha Nícipe em casamento. Estenelo não
era herdeiro do trono de Micenas porque tinha um
irmão mais velho chamado Electrion, que se
tornaria rei quando morresse Perseu. Mas tão
próspera e poderosa tornara-se Micenas sob o
governo de Perseu que o casamento de Nícipe com
Estenel constituía, ainda assim, uma união
politicamente vantajosa.
Tinha
o filho mais velho de Perseu, Electrion, se
casado com sua sobrinha Anaxo, de quem houvera
uma linda filha chamada Alcmena, que se casou
com seu tio Anfitrião, neto de Perseu. O trono
de Micenas caberia, pois, em primeiro lugar a
Electrion e, depois, como era costume naqueles
tempos, ao seu genro Anfitrião. Deste passaria
a seu
primogênito.
Ora,
Alcmena, esposa de Anfitrião, era tão bela,
que Zeus por ela se apaixonou. Ela, porém, não
lhe correspondia, porque amava somente a seu
marido. Então Zeus esperou que Anfitrião
partisse para a guerra e, na, mesma noite, tomou
a aparência e a voz do marido de Alcmena,
alegando
que voltara do exército secretamente para estar
em sua companhia. Com o tempo Alcmena teve um
filho cujo pai era Zeus, conquanto ela, e
Anfitrião ignorassem o fato. Deram à criança
o nome de Héracles (*Hércules para os
romanos*).
Mais
ou menos na mesma época a filha de Pélops,
Nícipe, deu ao seu marido Estenelo um filho
chamado Euristeu. Ora, queria Zeus que o filho
que tivera de Alcmena fosse um dia um grande
rei. Foi então facilmente persuadido por sua
esposa Hera a decretar que das duas crianças -
o filho de Alcmena e o de Nícipe - predominasse
sempre a que nascesse primeiro. Assim fez Zeus,
por estar certo de que Héracles nasceria
primeiro. Queria Zeus que ele fosse rei de
Micenas e que o neto de Pélops fosse seu
vassalo.
Hera,
que vigiava seu marido com olhos ciumentos
detestava sua rival Alcmena e estava determinada
a perseguir seu filho. Pelo seu divino poder fez
com que Euristeu nascesse dois meses antes do
tempo. Dos dois
filhos ele foi, pois, o primeiro a nascer, e,
por decreto inapelável de Zeus, senhor de
Héracles.
O
filho de Zeus e Alcmena cedo demonstrou possuir
estatura e força fora do comum. Quando tinha
apenas oito meses, enviou-lhe Hera, duas
serpentes venenosas para picá-lo durante o
sono. Ele acordou e, pegando uma serpente em
cada mão, esmagou-as com facilidade. Já na
infância prometia tornar-se um rei tão grande
como o desejara seu pai, para reinar sobre a
cidade que era então a mais poderosa daquela
parte da Grécia.
Com
isto, devia Zeus sofrer um desapontamento. Num
acidente que ninguém presenciou, teve
Anfitrião, pai de Héracles, o infortúnio de
matar a Electrion, pai de sua mulher e rei de
Micenas. Antes de Anfitrião subir ao trono, que
lhe cabia por herança, Estenelo, irmão de
Electrion,
atacou-o, expulsando-o de Micenas e colocando no
trono seu próprio filho Euristeu. Anfitrião
mudou-se, com a mulher e filho, para Tebas,
nunca mais tentando reaver o reino de que fora
despojado. Héracles, no entanto, não o
esqueceu. Tinha sempre no espírito, e, mais
tarde, inculcou-o no espírito do próprio
filho, que ele e não Euristeu era o
herdeiro legítimo do trono de Micenas.
Em
Euristeu uniam-se os sangues de Pélops e de
Perseu, sendo de se esperar, assim, que o fruto
dessas duas nobres estirpes fosse um homem de
grande coragem e cavalheirismo. Euristeu,
entretanto, não tinha nenhuma dessas
qualidades. Toda sua vida temera e odiara a
Héracles, usando seus poderes senhoriais de
maneira tirânica e exigindo que ele executasse
tarefas dificílimas e arriscadas com a
esperança de causar-lhe a morte. Héracles, no
entanto, tudo suportava com paciência,
submetendo-se aos caprichos de Euristeu para,
comprazer à vontade dos
deuses, fazendo tudo o que lhe era ordenado sem
protestar nem se queixar. Não obstante,
desprezava Euristeu, por ser este covarde e
tirânico. Contava-se que Euristeu tinha tal
pavor de Héracles que mandara construir uma
grande cuba de bronze para nela se esconder
quando ouviu dizer que Héracles se achava em
Micenas. Isto, porém, só aconteceu muito mais
tarde.
Passou
Héracles a infância e a mocidade perto de
Tebas, longe de Micenas, sendo que o nome de
Euristeu pouco mais significava para ele do que
um parente que não tinha legitimo direito ao
trono de Micenas. Ignorava Héracles, naquela
época, o decreto de Zeus que o tornava quase
escravo de Euristeu. Era, por natureza, muito
diferente do seu senhor.
Sendo de grande estatura e corpulento, auxiliava
os desamparados. Sendo forte, ajudava os fracos.
Durante toda a sua vida suas façanhas,
notáveis e heróicas, raramente foram efetuadas
em proveito próprio, se não por lhe haverem
sido impostas, ou para livrar o mundo de tiranos
e
de monstros. Não admira, pois, que Euristeu,
sabendo-se tirano, temesse que algum dia ele se
propusesse livrar a terra dele também.
Tinha
Héracles perto de dezoito anos quando
demonstrou o que viria a ser futuramente.
Passava o tempo apascentando os rebanhos de seu
pai. Um dia, subitamente, um leão desceu das
montanhas para atacar as reses. Héracles
perseguiu-o e matou-o. De sua pele fez uma
túnica, e de sua
cabeça um capacete, servindo a boca de viseira.
Ora, o
povo de Tebas vinha sendo oprimido por Ergino,
Rei dos minianos, cujo pai tinha sido morto por
um tebano. Todos os anos enviava aquele rei seus
prepostos a Tebas, para que cobrassem um tributo
de cem reses. Héracles, que vivia em Tebas,
não via razão por que aquela situação
perdurasse eternamente. Na próxima vez, pois,
que vieram os minianos a Tebas para levantar o
tributo, Héracles expulsou-os, dizendo-lhes que
se seu rei quisesse extorquir as cem reses dos
tebanos, teria de o fazer com as próprias
mãos.
Ergino
enfureceu-se ao saber disto e marchou à frente
de um exército para, punir aquela afronta.
Héracles, que já esperava a reação do
tirano, mobilizou uma forte milícia. Ao verem a
sua força e a sua ousadia criaram os tebanos
coragem. Prepararam uma emboscada na fronteira
do reino e quando Ergino transpunha com suas
forças um estreito desfiladeiro, se
precipitaram sobre eles. Depois de curto e
violento combate, Ergino foi morto e os minianos
desbaratados. Foi grande a alegria de Héracles
com esta vitória, embora nublada pela morte de
seu pai, ocorrida durante a refrega. Héracles
respeitava e amava a seu pai Anfitrião.
Pouco
tempo depois desta batalha foi Héracles chamado
à presença de Creonte, Rei de Tebas.
-
Você demonstrou ser bom chefe e soldado
valente, disse-lhe Creonte, e Tebas muito lhe
deve. Estou ficando velho e meu filho único
ainda é muito moço para assumir o poder. Eu
não poderia encontrar em lugar algum um
herdeiro mais digno do que você. Desejo que se
case com minha filha Mégara, de maneira que
você e seus filhos venham a ser um dia reis de
Tebas.
A esta
proposta aquiesceu Héracles sem hesitar, por
ser a princesa muito bonita. Casaram-se em meio
de grande regozijo popular e viveram muito
felizes. Deu Mégara três filhos a Héracles,
cujo irmão, Íficles, tinha-se casado e
possuía dois filhos. As cinco crianças eram
criadas juntas enquanto seus pais caçavam e
pastoreavam os rebanhos.
Alegrava-se o povo de Tebas com o pensamento de
que um homem com tantos predicados como
Héracles seria um dia seu soberano.
Na
opinião de Héracles, no entanto, os dias
corriam tranqüilos e insípidos demais, em sua
insignificância. Desejava ele aventuras à
altura de sua força e valentia. Ouviu um dia
dizer que ia haver uma grande reunião da fina
flor da juventude grega em Iolco, ao norte, e
que se projetava uma expedição marítima para
o oriente. Ferveu o sangue de Héracles com esta
notícia. Despediu-se carinhosamente de sua
esposa Mégara e de seus três filhinhos, de
quem seu irmão Íficles prometeu cuidar em sua
ausência, e, alegremente, partiu para tomar
parte na
concentração dos jovens príncipes em Iolco.
[transcrição
e adaptação do texto original de George Baker,
em
DEUSES
E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]
Moacir
Índio da Costa Júnior