PÁGINA DE MITOLOGIA

GEORGE BAKER


Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega

Editora Brasiliense
São Paulo
1960


Segunda Parte

Filhos de Reis




CAPITULO VIII


COMO NASCERAM DOIS ETERNOS RIVAIS

Pélops tinha razão de pensar que não havia melhor maneira de tornar sua família importante do que casar os seus filhos com filhos de reis poderosos. Sentiu-se, pois, feliz quando Estenelo, filho do Rei Perseu de Micenas pediu sua filha Nícipe em casamento. Estenelo não era herdeiro do trono de Micenas porque tinha um irmão mais velho chamado Electrion, que se tornaria rei quando morresse Perseu. Mas tão próspera e poderosa tornara-se Micenas sob o governo de Perseu que o casamento de Nícipe com Estenel constituía, ainda assim, uma união politicamente vantajosa.

Tinha o filho mais velho de Perseu, Electrion, se casado com sua sobrinha Anaxo, de quem houvera uma linda filha chamada Alcmena, que se casou com seu tio Anfitrião, neto de Perseu. O trono de Micenas caberia, pois, em primeiro lugar a Electrion e, depois, como era costume naqueles tempos, ao seu genro Anfitrião. Deste passaria a seu primogênito.

Ora, Alcmena, esposa de Anfitrião, era tão bela, que Zeus por ela se apaixonou. Ela, porém, não lhe correspondia, porque amava somente a seu marido. Então Zeus esperou que Anfitrião partisse para a guerra e, na, mesma noite, tomou a aparência e a voz do marido de Alcmena, alegando que voltara do exército secretamente para estar em sua companhia. Com o tempo Alcmena teve um filho cujo pai era Zeus, conquanto ela, e Anfitrião ignorassem o fato. Deram à criança o nome de Héracles (*Hércules para os romanos*).

Mais ou menos na mesma época a filha de Pélops, Nícipe, deu ao seu marido Estenelo um filho chamado Euristeu. Ora, queria Zeus que o filho que tivera de Alcmena fosse um dia um grande rei. Foi então facilmente persuadido por sua esposa Hera a decretar que das duas crianças - o filho de Alcmena e o de Nícipe - predominasse sempre a que nascesse primeiro. Assim fez Zeus, por estar certo de que Héracles nasceria primeiro. Queria Zeus que ele fosse rei de Micenas e que o neto de Pélops fosse seu vassalo.

Hera, que vigiava seu marido com olhos ciumentos detestava sua rival Alcmena e estava determinada a perseguir seu filho. Pelo seu divino poder fez com que Euristeu nascesse dois meses antes do tempo. Dos dois filhos ele foi, pois, o primeiro a nascer, e, por decreto inapelável de Zeus, senhor de Héracles.

O filho de Zeus e Alcmena cedo demonstrou possuir estatura e força fora do comum. Quando tinha apenas oito meses, enviou-lhe Hera, duas serpentes venenosas para picá-lo durante o sono. Ele acordou e, pegando uma serpente em cada mão, esmagou-as com facilidade. Já na infância prometia tornar-se um rei tão grande como o desejara seu pai, para reinar sobre a cidade que era então a mais poderosa daquela parte da Grécia.

Com isto, devia Zeus sofrer um desapontamento. Num acidente que ninguém presenciou, teve Anfitrião, pai de Héracles, o infortúnio de matar a Electrion, pai de sua mulher e rei de Micenas. Antes de Anfitrião subir ao trono, que lhe cabia por herança, Estenelo, irmão de Electrion, atacou-o, expulsando-o de Micenas e colocando no trono seu próprio filho Euristeu. Anfitrião mudou-se, com a mulher e filho, para Tebas, nunca mais tentando reaver o reino de que fora despojado. Héracles, no entanto, não o esqueceu. Tinha sempre no espírito, e, mais tarde, inculcou-o no espírito do próprio filho, que ele e não Euristeu era o herdeiro legítimo do trono de Micenas.

Em Euristeu uniam-se os sangues de Pélops e de Perseu, sendo de se esperar, assim, que o fruto dessas duas nobres estirpes fosse um homem de grande coragem e cavalheirismo. Euristeu, entretanto, não tinha nenhuma dessas qualidades. Toda sua vida temera e odiara a Héracles, usando seus poderes senhoriais de maneira tirânica e exigindo que ele executasse tarefas dificílimas e arriscadas com a esperança de causar-lhe a morte. Héracles, no entanto, tudo suportava com paciência, submetendo-se aos caprichos de Euristeu para, comprazer à vontade dos deuses, fazendo tudo o que lhe era ordenado sem protestar nem se queixar. Não obstante, desprezava Euristeu, por ser este covarde e tirânico. Contava-se que Euristeu tinha tal pavor de Héracles que mandara construir uma grande cuba de bronze para nela se esconder quando ouviu dizer que Héracles se achava em Micenas. Isto, porém, só aconteceu muito mais tarde.

Passou Héracles a infância e a mocidade perto de Tebas, longe de Micenas, sendo que o nome de Euristeu pouco mais significava para ele do que um parente que não tinha legitimo direito ao trono de Micenas. Ignorava Héracles, naquela época, o decreto de Zeus que o tornava quase escravo de Euristeu. Era, por natureza, muito diferente do seu senhor.

Sendo de grande estatura e corpulento, auxiliava os desamparados. Sendo forte, ajudava os fracos. Durante toda a sua vida suas façanhas, notáveis e heróicas, raramente foram efetuadas em proveito próprio, se não por lhe haverem sido impostas, ou para livrar o mundo de tiranos e de monstros. Não admira, pois, que Euristeu, sabendo-se tirano, temesse que algum dia ele se propusesse livrar a terra dele também.

Tinha Héracles perto de dezoito anos quando demonstrou o que viria a ser futuramente. Passava o tempo apascentando os rebanhos de seu pai. Um dia, subitamente, um leão desceu das montanhas para atacar as reses. Héracles perseguiu-o e matou-o. De sua pele fez uma túnica, e de sua cabeça um capacete, servindo a boca de viseira.

Ora, o povo de Tebas vinha sendo oprimido por Ergino, Rei dos minianos, cujo pai tinha sido morto por um tebano. Todos os anos enviava aquele rei seus prepostos a Tebas, para que cobrassem um tributo de cem reses. Héracles, que vivia em Tebas, não via razão por que aquela situação perdurasse eternamente. Na próxima vez, pois, que vieram os minianos a Tebas para levantar o tributo, Héracles expulsou-os, dizendo-lhes que se seu rei quisesse extorquir as cem reses dos tebanos, teria de o fazer com as próprias mãos.

Ergino enfureceu-se ao saber disto e marchou à frente de um exército para, punir aquela afronta. Héracles, que já esperava a reação do tirano, mobilizou uma forte milícia. Ao verem a sua força e a sua ousadia criaram os tebanos coragem. Prepararam uma emboscada na fronteira do reino e quando Ergino transpunha com suas forças um estreito desfiladeiro, se precipitaram sobre eles. Depois de curto e
violento combate, Ergino foi morto e os minianos desbaratados. Foi grande a alegria de Héracles com esta vitória, embora nublada pela morte de seu pai, ocorrida durante a refrega. Héracles respeitava e amava a seu pai Anfitrião.

Pouco tempo depois desta batalha foi Héracles chamado à presença de Creonte, Rei de Tebas.

- Você demonstrou ser bom chefe e soldado valente, disse-lhe Creonte, e Tebas muito lhe deve. Estou ficando velho e meu filho único ainda é muito moço para assumir o poder. Eu não poderia encontrar em lugar algum um herdeiro mais digno do que você. Desejo que se case com minha filha Mégara, de maneira que você e seus filhos venham a ser um dia reis de Tebas.

A esta proposta aquiesceu Héracles sem hesitar, por ser a princesa muito bonita. Casaram-se em meio de grande regozijo popular e viveram muito felizes. Deu Mégara três filhos a Héracles, cujo irmão, Íficles, tinha-se casado e possuía dois filhos. As cinco crianças eram criadas juntas enquanto seus pais caçavam e pastoreavam os rebanhos. Alegrava-se o povo de Tebas com o pensamento de que um homem com tantos predicados como Héracles seria um dia seu soberano.

Na opinião de Héracles, no entanto, os dias corriam tranqüilos e insípidos demais, em sua insignificância. Desejava ele aventuras à altura de sua força e valentia. Ouviu um dia dizer que ia haver uma grande reunião da fina flor da juventude grega em Iolco, ao norte, e que se projetava uma expedição marítima para o oriente. Ferveu o sangue de Héracles com esta notícia. Despediu-se carinhosamente de sua esposa Mégara e de seus três filhinhos, de quem seu irmão Íficles prometeu cuidar em sua ausência, e, alegremente, partiu para tomar parte na concentração dos jovens príncipes em Iolco.

 

 

[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,

em

DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 

 
 
 


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