Com o correr dos anos, à medida que se tornava
mais rico e poderoso, esquecia-se Pélops da
maldição do auriga Mirtilo, que o ajudara a
conquistar sua esposa Hipodâmia e o reino da Élida.
Sem dúvida, aparentemente, era Pélops um dos
homens mais felizes do mundo. Ele e Hipodâmia
possuíam quatro filhos que se chamavam Piteu,
Atreu, Tiestes e Alcatoo e umaformosa filha de
nome Nícipe. A leste, além de Micenas e de
Argos estendia-se o aprazível país da Argólida.
Ali, Piteu, filho mais velho de Pélops,
edificou seu lar. Era um homem sábio e douto, e
muito querido de seu povo.
Um dia
casou-se e teve uma linda filha chamada Etra.
Aconteceu que o Rei Pandion Segundo de Atenas
teve três filhos, o mais velho dos quais, de
nome Egeu, se tornou rei por morte de seu pai. O
segundo filho, Palas, tinha-lhe uma entranhada
inveja, e sentia-se descontente com a parte
do reino que herdara, se bem que o terceiro
filho, Niso, se achasse satisfeito reinando
sobre Mégara, que lhe coubera na partilha.
Um dia, quando ia, consultar um oráculo, foi
Egeu ter à corte de Piteu e lá se apaixonou
pela bela Etra. Seu pai prazerosamente consentiu
no casamento, conquanto Egeu houvesse declarado
que não levaria Etra para Atenas, nem tampouco
tornaria público seu casamento por temer que o
ciúme de seu irmão Palas prejudicasse Etra.
- Assim sendo, você precisa permanecer na casa
de seu pai, disse Egeu à sua formosa esposa, e,
quando eu o julgar conveniente, virei buscá-la
para ser minha rainha, sem correr risco algum.
Se tivermos um filho, conserve-o junto de você
até à maioridade. Dê-lhe então esta espada,
que
deposito em suas mãos; ensine-lhe o nome de seu
pai e mande-o à minha presença no palácio de
Atenas.
Etra prometeu cumprir suas ordens, guardando
cuidadosamente a espada. Passado algum tempo
teve um filho que tomou o nome de Teseu. O
menino foi educado sob os cuidados do sábio e
douto Piteu, transformando-se com o tempo num
jovem de alta estatura e rara beleza, tão cortês
e amável quanto valente e corajoso. Chegou
enfim o dia em que Etra lhe revelou o nome de
seu pai, entregou-lhe a espada e mandou-o entrar
na posse de seus direitos de nascença.
Entrementes, porém, uma grande calamidade se
abateu sobre Atenas. O Rei Minos de Creta, filho
primogênito da Princesa Europa, que Zeus, sob a
aparência de um touro, tinha raptado de seu lar
na Fenícia, tinha um neto de igual nome
reinando agora em Creta. Casara-se com Pasífae,
filha do deus do sol Hélios com uma ninfa
chamada Perse. Era uma família oriental de mágicos
e feiticeiros. Além de Pasífae tinha Hélios
um filho chamado Aetes, Rei da Cólquida, e uma
filha de nome Circe, feiticeira que vivia na
Ilha Éia. Ambas tomarão parte nesta história
mais tarde.
A Rainha Pasífae era perversa e tenebrosa e bem
mereceu o castigo que recebeu ao ter um filho
com cabeça de touro. O Rei Minos sentiu-se
profundamente afetado. Chamou seu filho de
Minotauro, e criou-o secretamente, longe da
vista de todos, exceto dos servidores de
absoluta confiança que
cuidavam da sua pessoa. Vivia o Minotauro no
Labirinto, local de muitos quilômetros de
corredores emaranhados, que havia sido construído
fazia muito tempo por antigos reis de Creta.
Talvez se houvesse a Rainha Pasífae arrependido
de sua má conduta, pois deu ao Rei Minos duas
filhas chamadas Fedra e Ariadne, e dois filhos,
Deucalião e Androgeu, crianças absolutamente
normais que se tornaram, quando cresceram,
criaturas belas e sadias. Com efeito, era
Androgeu tão
alto e forte que se tornou famoso lutador.
Percorreu o mundo à procura de alguém que o
pudesse derrotar. Daí resultou o desastre que
se iria se abater sobre o povo ateniense.
Quando Androgeu chegou a Atenas, exibindo sua
força e habilidade na luta, ficou o Rei Egeu
enciumado e receoso de que o povo ateniense, que
adorava aquele esporte, o proclamasse rei. Por
essa razão, quando Androgeu deixou Atenas para
visitar outra cidade, Egeu mandou sicários o
seguirem com ordem de assassiná-lo.
O Rei Minos de Creta não era homem que
recebesse tal afronta de braços cruzados.
Reuniu um exército e fez-se à vela para a Grécia,
desembarcando em Mégara, sitiando a cidade onde
Niso, irmão do Rei Egeu, vivia e reinava. O Rei
Minos era belíssimo homem e, quando Cila, filha
de
Niso, o avistou do alto dos muros da cidade, por
ele se apaixonou profundamente, sentindo-se
capaz de fazer qualquer coisa nesse mundo para
conquistar o seu amor. Ela sabia que toda a força
e poderio de seu pai residiam numa mecha de
cabelos louros. Mas tal fora a paixão que
sentira por aquele inimigo de seu pai, que se
aproximou deste enquanto dormia e lhe cortou a
mecha de cabelo
louro para levá-la secretamente ao Rei Minos,
em seu acampamento fora dos muros da cidade.
Assim a cidade caiu às mãos dos cretenses, na
primeira investida que fizeram, preferindo o Rei
Niso matar-se a se entregar aos seus inimigos.
Quanto a Cila, o Rei Minos ficou enojado de sua
conduta, e não quis saber dela.
- Você, que traiu seu pai, poderá também vir
a me trair, disse ele; e seus guardas a
repeliram. Desesperada, ela atirou-se ao mar do
alto de um penhasco. Diz-se que, ao cair, ela se
transformou numa cotovia, e seu pai, o Rei Niso,
num falcão que desde aquele dia a persegue por
ter traído a
pátria e causado sua morte, para capturá-la e
a matar.
Depois de conquistar Mégara, marchou o Rei
Minos contra Atenas, que prontamente se rendeu.
Uma das condições de paz impostas por ele à
cidade, consistia em remeter para Creta, todos
os anos, sete rapazes e sete moças que deveriam
ser sacrificados ao feroz e terrível Minotauro.
Egeu teve de se submeter a estas terríveis
condições. Com o correr do tempo, roubando-lhe
cada ano sete
jovens e sete raparigas que eram cruelmente
sacrificados em Creta, olhava o Rei Egeu com
maior ansiedade para Trezena, onde vivia sua
esposa, a espera de notícias de seu filho, que
deveria libertar Atenas desse horrível tributo.
Repentinamente, estranhas e fantásticas histórias
começaram a correr em Atenas, a respeito das façanhas
de um jovem chamado Teseu, que viajava pelo país,
eliminando ladrões e bandidos por toda parte
onde passava. Era perigosa a região por onde
ele transitava, de maneira que quase todo mundo
preferia viajar por mar. Mas, parecia que Teseu
queria provar sua própria coragem enfrentando
os bandoleiros que infestavam o país. Havia
entre estes um certo Cínis, que amarrava, o
viajante a dois galhos de árvore que juntava
com uma corda. Ao cortar a corda, separavam-se
os galhos com violência, despedaçando a vítima.
Impôs Teseu a este homem cruel a mesma sorte
que
infligia aos viajantes indefesos, e passou
adiante à procura de Procusto. Este salteador
costumava amarrar seus prisioneiros a um leito
de ferro. Se fossem maiores que a cama
cortava-lhes os pés; se menores, esticava-os até
ficarem do comprimento da cama.
Também este foi tratado por Teseu da mesma
maneira por que tratava suas vítimas.Também
morreu pelas suas mãos o grande touro de
Maratona, que Heracles tinha trazido de Creta.
Como corressem essas histórias de boca em boca
em Atenas, esperava o povo com ansiedade a
chegada do jovem herói que executava tão notáveis
e benéficas façanhas. O Rei Egeu, entretanto,
sempre preocupado com a segurança de seu trono,
refletia no que poderia acontecer quando Teseu
chegasse a Atenas. Vivia em sua companhia a
Rainha Medéia, filha, do Rei Aetes da Cólquida,
em cujas veias corria o sangue dos mágicos
orientais. Temia ela que Teseu se apossasse do
governo, e talvez mesmo mandasse matá-la.
Precavendo-se contra esta possibilidade,
preparou uma taça de vinho envenenado e levou-a
ao Rei Egeu.
- Quando o rapaz chegar ao seu palácio, pois
aqui virá de um momento para outro, disse ela,
finja recebê-lo com grandes demonstrações de
amizade e dê-lhe a beber este vinho envenenado.
Desta forma ver-se-á livre dele, não mais
receando perder o seu trono.
Concordou o Rei Egeu. Quando, afinal, Teseu
chegou a Atenas apresentando-se em seu palácio,
compreendeu o rei ao olhar para a espada que o
jovem trazia presa ao cinturão, que ele era seu
próprio filho, enviado pela mulher,que
desposara secretamente em Trezena. Pode-se
imaginar o
quanto se sentiu feliz e orgulhoso! Rejubilou-se
o povo de Atenas quando veio a saber que o jovem
herói que ele tanto admirava era filho do rei e
viria um dia a reinar em Atenas depois da
mortede Egeu. Medéia, temendo sua cólera,
fugiu para a Cólquida e ninguém lamentou sua
partida.
Os cinqüenta sobrinhos do Rei Egeu, filhos de
seu irmão Palas, não se regozijaram mais do
que Medéia com a popularidade do jovem príncipe.
Sabiam que, se vivesse, não seriam mais
herdeiros do reino. Puseram-se, pois, no maior
segredo, à espreita de uma oportunidade para
eliminá-lo. Teseu, porém, estava prevenido.
Enfrentou-os destemidamente, manejando sua
espada com tanta audácia e perícia que os
deixou a todos deitados por terra, mortalmente
feridos.
Quando chegou o dia de partirem para Creta os
sete rapazes e as sete raparigas que iam ser
sacrificados ao Minotauro, Teseu tomou lugar
junto aos seis jovens, decidido a matar o
monstro ou a morrer corajosamente na tentativa
de exterminá-lo.
Aconteceu que a filha mais nova do Rei Minos, a
Princesa Ariadne, ao pôr os olhos em Teseu,
quando este desembarcava em Creta, juntamente
com seus companheiros, sentiu por ele tamanha
paixão que se pôs a imaginar de que maneira
poderia salvá-lo. A este respeito falou com
Teseu. Ele pediu-lhe que levasse uma lança e
uma espada para o local onde se achava preso o
monstro.
Acedeu Ariadne ao seu pedido. Para que pudesse
ele achar a saída daquele desconcertante
emaranhamento de corredores, entregou a Teseu um
novelo de fio de ouro, que ele ia desenrolando
à medida que transitava pelo Labirinto.
Achou-se, afinal, na presença do Minotauro, que
se pôs a
mugir desesperadamente ao vê-lo e o teria
despedaçado, se ele não estivesse armado.
Arrostou Teseu o seu ataque de lança, em riste.
Enterrou-a no peito do monstro e decepou-lhe a
cabeça com um golpe violento de sua espada
afiada. Deixando o Minotauro sem vida, Teseu
seguiu o fio de ouro, percorrendo quilômetros
de corredores arrevesados, até sair de novo ao
crepúsculo da tarde.
Esperava-o Ariadne em companhia dos seis
companheiros e das sete moças. Pouco depois
faziam-se à vela e singravam os mares,
afastando-se da ilha.
Tão linda era a Princesa Ariadne e tão grato
ficou Teseu pela sua ajuda que a amou com
ternura. Sendo, porém, ela do sangue de Pasífae
e Medéia, tinha razão Teseu para não confiar
nela.
Impelidos por um temporal, ficaram à espera de
ventos favoráveis, na Ilha de Naxos, onde se
refugiaram; aí, Teseu resolveu desfazer-se de
Ariadne. Logo que o vento mudou de direção ele
embarcou secretamente com seus companheiros e
companheiras deixando Ariadne abandonada na
ilha. Acertara Teseu com seu pai, antes de
partir, que, caso conseguisse matar o Minotauro
e regressar
são e salvo, ergueria, ao chegar, uma vela
branca no mastro da nau. Alguma razão fortuita
fê-lo esquecer o acerto. O Rei Egeu,
espreitando o mar de um ponto elevado, viu a nau
entrar no porto com vela preta. Deduziu que seu
filho tinha morrido e, desesperado, atirou-se ao
mar do alto do penedo onde se achava,
encontrando assim a morte. Desde então,
esse mar se chamou Egeu, em sua memória. Por
essa forma, viu-se Teseu, logo ao chegar, subir
ao trono de Atenas.
Seu primeiro ato como soberano consistiu em
mandar ao Rei Minos de Creta uma mensagem
provocadora, dizendo-lhe que tinha matado o
Minotauro e que a partir daquele momento Atenas
repudiava seus compromissos e nunca mais pagaria
o tributo de sete rapazes e sete moças.
Ao
saber que seu velho inimigo, o Rei Egeu, o
matador de seu filho, tinha morrido, o Rei Minos
fez as pazes com Atenas, dando a Teseu sua filha
mais velha, Fedra, em penhor de amizade. Como
Fedra fosse ainda mais bela que Ariadne, Teseu
apaixonou-se tão profundamente por ela, que a
fez sua rainha.
A Princesa Ariadne que ajudara Teseu e,
abandonara o seu lar, temerosa da ira do próprio
pai; que fora em seguida abandonada por Teseu na
Ilha de Naxos, ali foi encontrada por Dionísio,
o deus do Vinho, que por ela, se apaixonou,
tomando-a sob sua proteção.
Depois,
Radamanto, irmão
do Rei Minos Primeiro, encontrou Ariadne e ficou
conhecendo a história de seus infortúnios.
Como ele fosse Rei do arquipélago, levou-a para
a Ilha de Lemnos, onde ela teve um filho chamado
Toas que veio mais tarde a ser rei daquela ilha.
Mas ninguém sabia ao certo se seu pai era o
deus do Vinho ou Teseu. Toas teve uma linda
filha chamada Hipsípile, que era Rainha de
Lemnos quando os argonautas ali aportaram de
passagem em busca do Tosão de Ouro.
Os heróicos feitos de Teseu eram narrados em
tolas as cidades da Grécia e chegaram aos
ouvidos de Pirítoo, Rei dos lápitas da Tessália.
Pirítoo também era homem valente e
aventureiro, e sentiu-se desejoso de conquistar
a amizade de Teseu. Em vez de ir a Atenas e
declarar suas intenções,
preferiu invadir os domínios de Atenas à
frente de um exército, desafiando Teseu para a
luta.
Teseu partiu incontinenti à frente de um exército.
Num pronto chegou a uma grande planície onde
Pirítoo e os lápitas da Tessália o esperavam
em ordem de batalha. Teseu adiantou-se em sua
biga, para examinar as forças inimigas no
momento em que Pirítoo do seu lado fazia o
mesmo.
Ao
encontrarem-se, sentiram os dois homens,
instantaneamente, tanta simpatia recíproca que
desceram
de suas bigas e apertaram-se as mãos, firmando
naquele lugar e naquele momento uma amizade que
iria durar a vida toda. Depuseram as armas,
atenienses e lápitas, seguindo juntos para
Atenas onde, durante sete dias e sete noites, se
congraçaram em libações e festejos.
Aconteceu que Pirítoo estava noivo de uma
princesa chamada Hipodâmia, filha do Rei
Adrasto de Argos. Convidou seu novo amigo Teseu
para as bodas, nas quais estariam presentes o sábio
Quiron e os seus Centauros. Eram, estas
criaturas estranhas, homens da cintura para cima
e cavalos da cintura para baixo, de maneira que
podiam correr como o vento sobre as quatro patas
e ao mesmo tempo, com suas mãos humanas, usar o
arco ou a lança. Quiron, seu Rei, havia
ensinado a muitos reis e príncipes da Grécia
as artes da guerra e da paz e era famoso em todo
o mundo. Viviam os Centauros no Monte Pélion.
Alegre e festivo foi o dia em que o valente e
belo Pirítoo se casou com a formosa Hipodâmia,
enquanto lápitas e centauros festejavam o
acontecimento com profusas libações. Ao
anoitecer, porém, um centauro embriagado
agarrou Hipodâmia, tentando violentá-la. Daí
surgiu uma rixa e, de um momento para outro, lápitas
e centauros agrediam-se mutuamente com a mesma
exuberância que
demonstravam nos festejos amistosos.
Destacaram-se Pirítoo, Teseu e Héracles pela
sua bravura e, depois de alguns momentos de luta, foram
os centauros expulsos, deixando no palácio do
rei, que acabava de se casar, muitos lápitas
gravemente feridos.
DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense,
1960.]
Moacir Índio da Costa Júnior