Autonoe, irmã de Agave, era casada com Aristeu,
filho de Apolo, de quem tinha um filho chamado
Acteon, que foi o próximo a incorrer na
inimizade de Hera. Aristeu nasceu no remoto país
da Líbia, onde fora criado por ninfas e nutrido
de ambrosia e de néctar, manjar e bebida dos
deuses.
Com as ninfas aprendera a arte de criar abelhas
e de extrair o mel dos respectivos favos.
Quando, depois de percorrer o mundo, se
estabeleceu na Grécia casando-se com Autonoe,
filha do Rei Cadmo, suas abelhas o
tornaram rico e famoso.
Ora, na região onde vivia Aristeu com Autonoe
havia uma mulher muito linda chamada Eurídice,
que se casou mais tarde com um músico chamado
Orfeu, cuja música cantada ou tocada nas cordas
da lira, tinha o poder de amansar o mais feroz
dos animais. O próprio Aristeu, por ter atraído
o ódio de Hera casando-se com uma filha de
Cadmo, foi possuído, por artes da deusa, de
grande paixão pela bela Eurídice, que, no
entanto, fugia dele.
Quando corria, uma serpente
dissimulada na grama picou-lhe o pé e ela veio
a falecer. Seu marido, Orfeu, ficou acabrunhado
de dor e foi procurar sua formosa e jovem esposa
no país tenebroso e subterrâneo para onde seu
espírito tinha ido. Ele cantou com
acompanhamento de lira para Hades, rei dos
infernos, conseguindo que este lhe prometesse a
restituição de
Eurídice, com a condição de Orfeu não olhar
para trás até chegar à sua casa.
Assim, pois, partiu Orfeu, satisfeito, de volta
para o mundo dos homens. Mas ao atingir a boca
da caverna por onde se saía do mundo subterrâneo,
olhou para trás para se certificar de que Eurídice
o acompanhava. No mesmo instante ela caiu de
novo em poder de Hades, desaparecendo. Orfeu
voltou sozinho para sua casa, quase louco de dor
e desespero.
Lembravam-se os deuses que fora por causa de
Aristeu que Orfeu perdera sua formosa mulher e,
para punir Aristeu, mataram todas as suas
abelhas. Um deus marinho disse a Aristeu que ele
só poderia recuperar suas riquezas fazendo um
sacrifício de quatro touros e quatro novilhas
ao espírito de Eurídice. Assim fez Aristeu e
quando as carcaças dos
animais sacrificados entravam em decomposição,
apareceu subitamente um grande enxame de abelhas
para alimentar-se da carne deteriorada.
Capturou-as Aristeu, colocando-as em suas próprias
colméias, e desde
então sua fortuna começou a se refazer.
Acontece que Acteon, filho seu e de Autonoe,
herdara seu amor pela caça. Possuía uma
matilha de cães com a qual ia freqüentemente
caçar veados selvagens. Um dia chegou a uma
fonte, onde se banhavam,algumas ninfas. Em vez
de retirar-se discretamente, escondeu-se atrás
de uns
arbustos para espiá-las. Ignorava que uma delas
era a deusa Ártemis. Tão bela era ela que
Acteon se sentiu atraído, aproximando-se ainda
mais para devorá-la com o olhar. Ártemis,
entretanto, conhecia a sua presença, e para
castigá-lo atiçou seus próprios cães contra
ele, para
que o fizessem em pedaços. Também isto fora
obra de Hera, que conduzira Acteon até àquela
fonte.
A quarta filha, Ino, casou-se com o Rei
Atamante, de quem teve dois filhos: Learco e
Melicertes. Antes de desposar Ino, o Rei
Atamante fora casado com Nefele, cujos dois
filhos Frixo e Hele ainda viviam em sua
companhia, apesar de ele ter repudiado sua mãe,
alegando que era sujeita a ataques de loucura.
Ino desejava muito que um de seus filhos
viesse a ser rei por morte de Atamante e
resolveu eliminar tanto a Frixo, filho mais
velho e legítimo herdeiro do trono, como a sua
irmã Hele. Contudo, sua mãe Nefele
adivinhou-lhe os perversos intentos, e levou
embora secretamente os seus dois filhos. Não
sabia, porém, onde
abrigá-los contra a ameaça da Rainha Ino.
Tomaram então um carneiro que tinha a lã cor
de ouro, fazendo com que os levasse para a
remota Cólquida, onde reinava o Rei Aetes. O
carneiro de ouro subiu aos ares transportando as
crianças por cima dos mares. Mas tão alto e tão
depressa voou ele que a coitadinha da Hele se
amedrontou, largou do
velo de ouro e escorregou de suas costas. Foi
caindo, caindo, até mergulhar no mar, não
longe da cidade de Tróia. O lugar onde se
afogou ficou se chamando Helesponto, em sua memória.
Frixo chegou são e salvo à Cólquida, onde o
Rei Aetes o recebeu hospitaleiramente. Ao
tornar-se homem casou-se Frixo com a filha do
Rei, a princesa Calcíope. Quando o carneiro de
ouro morreu, seu velocino foi conservado num
bosque consagrado ao deus da guerra Ares, onde
ficou durante muitos anos até que os gregos
chefiados por Jasão o roubaram. É o que
contaremos a seguir.
Ficou o Rei Atamante furioso com a Rainha Ino
quando soube que ela quisera eliminar seus
filhos mais velhos. Sua fúria foi tão violenta
que a deusa Hera o tornou demente. Achando-se
fora de si, Atamante matou um dos filhos de Ino.
Esta fugiu com o outro e jogou-se ao mar do alto
de um penedo. Mas o deus marinho Posseidon,
sabendo que os
infortúnios de Ino provinham do ódio que a
deusa Hera votava aos filhos de Hermíone, se
compadeceu dela e a amparou em seus braços
fortes e protetores, quando caía do alto do
penhasco. Tanto ela como seu filhinho se
tornaram divindades marinhas imortais.
Pouco tempo depois o Rei Atamante recuperou a
razão. Mandou buscar Nefele que voltou feliz e
o consolou da perda de seus filhos. Viveram
juntos e felizes por muitos anos.
O Rei Cadmo e a Rainha Hermíone, devorados pela
tristeza, deixaram a cidade de Tebas e partiram
em busca de um país distante, onde imploravam
os deuses para que aliviassem seus sofrimentos.
Os deuses por fim tiveram compaixão. Cadmo e
Hermíone perderam suas formas humanas
transformando-se em serpentes.
Todas essas coisas ouviu-as Pélops do Rei
Creonte enquanto se sentavam à mesa no palácio
de Tebas, comendo e bebendo. Creonte descendia
de Penteu que fora estraçalhado pelas mulheres
alucinadas, quando as
espionava nos ritos de Dionísio. Ainda
persistia o ódio de Hera pela sua linhagem,
sendo que o último e mais trágico capítulo
desta triste história ainda está por
acontecer.
Deixou Pélops a cidade de Tebas, voltando para
o seu lar em Élida, pensativo e maravilhado por
tudo o que tinha ouvido contar a respeito dos
reis de Micenas, de Argos, de Atenas e de Tebas.
[transcrição e adaptação do texto original
de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS
editora Brasiliense, 1960.]
Moacir Índio da Costa Júnior