PÁGINA DE MITOLOGIA


GEORGE BAKER




Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega





Editora Brasiliense
São Paulo
1960






Primeira Parte

O Advento de Pélops







CAPITULO VI


AS AVENTURAS DOS DENTES DO DRAGÃO
E AS MÁGOAS DAS FILHAS DE CADMO

 parte III




Autonoe, irmã de Agave, era casada com Aristeu, filho de Apolo, de quem tinha um filho chamado Acteon, que foi o próximo a incorrer na inimizade de Hera. Aristeu nasceu no remoto país da Líbia, onde fora criado por ninfas e nutrido de ambrosia e de néctar, manjar e bebida dos deuses.

Com as ninfas aprendera a arte de criar abelhas e de extrair o mel dos respectivos favos. Quando, depois de percorrer o mundo, se estabeleceu na Grécia casando-se com Autonoe, filha do Rei Cadmo, suas abelhas o tornaram rico e famoso.


Ora, na região onde vivia Aristeu com Autonoe havia uma mulher muito linda chamada Eurídice, que se casou mais tarde com um músico chamado Orfeu, cuja música cantada ou tocada nas cordas da lira, tinha o poder de amansar o mais feroz dos animais. O próprio Aristeu, por ter atraído o ódio de Hera casando-se com uma filha de Cadmo, foi possuído, por artes da deusa, de grande paixão pela bela Eurídice, que, no entanto, fugia dele.

Quando corria, uma serpente dissimulada na grama picou-lhe o pé e ela veio a falecer. Seu marido, Orfeu, ficou acabrunhado de dor e foi procurar sua formosa e jovem esposa no país tenebroso e subterrâneo para onde seu espírito tinha ido. Ele cantou com acompanhamento de lira para Hades, rei dos infernos, conseguindo que este lhe prometesse a restituição de Eurídice, com a condição de Orfeu não olhar para trás até chegar à sua casa.

Assim, pois, partiu Orfeu, satisfeito, de volta para o mundo dos homens. Mas ao atingir a boca da caverna por onde se saía do mundo subterrâneo, olhou para trás para se certificar de que Eurídice o acompanhava. No mesmo instante ela caiu de novo em poder de Hades, desaparecendo. Orfeu voltou sozinho para sua casa, quase louco de dor e desespero.

Lembravam-se os deuses que fora por causa de Aristeu que Orfeu perdera sua formosa mulher e, para punir Aristeu, mataram todas as suas abelhas. Um deus marinho disse a Aristeu que ele só poderia recuperar suas riquezas fazendo um sacrifício de quatro touros e quatro novilhas ao espírito de Eurídice. Assim fez Aristeu e quando as carcaças dos animais sacrificados entravam em decomposição, apareceu subitamente um grande enxame de abelhas para alimentar-se da carne deteriorada. Capturou-as Aristeu, colocando-as em suas próprias colméias, e desde então sua fortuna começou a se refazer.

Acontece que Acteon, filho seu e de Autonoe, herdara seu amor pela caça. Possuía uma matilha de cães com a qual ia freqüentemente caçar veados selvagens. Um dia chegou a uma fonte, onde se banhavam,algumas ninfas. Em vez de retirar-se discretamente, escondeu-se atrás de uns arbustos para espiá-las. Ignorava que uma delas era a deusa Ártemis. Tão bela era ela que Acteon se sentiu atraído, aproximando-se ainda mais para devorá-la com o olhar. Ártemis, entretanto, conhecia a sua presença, e para castigá-lo atiçou seus próprios cães contra ele, para que o fizessem em pedaços. Também isto fora obra de Hera, que conduzira Acteon até àquela fonte.

A quarta filha, Ino, casou-se com o Rei Atamante, de quem teve dois filhos: Learco e Melicertes. Antes de desposar Ino, o Rei Atamante fora casado com Nefele, cujos dois filhos Frixo e Hele ainda viviam em sua companhia, apesar de ele ter repudiado sua mãe, alegando que era sujeita a ataques de loucura. Ino desejava muito que um de seus filhos viesse a ser rei por morte de Atamante e resolveu eliminar tanto a Frixo, filho mais velho e legítimo herdeiro do trono, como a sua irmã Hele. Contudo, sua mãe Nefele adivinhou-lhe os perversos intentos, e levou embora secretamente os seus dois filhos. Não sabia, porém, onde abrigá-los contra a ameaça da Rainha Ino. Tomaram então um carneiro que tinha a lã cor de ouro, fazendo com que os levasse para a remota Cólquida, onde reinava o Rei Aetes. O carneiro de ouro subiu aos ares transportando as crianças por cima dos mares. Mas tão alto e tão depressa voou ele que a coitadinha da Hele se amedrontou, largou do velo de ouro e escorregou de suas costas. Foi caindo, caindo, até mergulhar no mar, não longe da cidade de Tróia. O lugar onde se afogou ficou se chamando Helesponto, em sua memória.

Frixo chegou são e salvo à Cólquida, onde o Rei Aetes o recebeu hospitaleiramente. Ao tornar-se homem casou-se Frixo com a filha do Rei, a princesa Calcíope. Quando o carneiro de ouro morreu, seu velocino foi conservado num bosque consagrado ao deus da guerra Ares, onde ficou durante muitos anos até que os gregos chefiados por Jasão o roubaram. É o que contaremos a seguir.

Ficou o Rei Atamante furioso com a Rainha Ino quando soube que ela quisera eliminar seus filhos mais velhos. Sua fúria foi tão violenta que a deusa Hera o tornou demente. Achando-se fora de si, Atamante matou um dos filhos de Ino. Esta fugiu com o outro e jogou-se ao mar do alto de um penedo. Mas o deus marinho Posseidon, sabendo que os
infortúnios de Ino provinham do ódio que a deusa Hera votava aos filhos de Hermíone, se compadeceu dela e a amparou em seus braços fortes e protetores, quando caía do alto do penhasco. Tanto ela como seu filhinho se tornaram divindades marinhas imortais.

Pouco tempo depois o Rei Atamante recuperou a razão. Mandou buscar Nefele que voltou feliz e o consolou da perda de seus filhos. Viveram juntos e felizes por muitos anos.

O Rei Cadmo e a Rainha Hermíone, devorados pela tristeza, deixaram a cidade de Tebas e partiram em busca de um país distante, onde imploravam os deuses para que aliviassem seus sofrimentos. Os deuses por fim tiveram compaixão. Cadmo e Hermíone perderam suas formas humanas transformando-se em serpentes.

Todas essas coisas ouviu-as Pélops do Rei Creonte enquanto se sentavam à mesa no palácio de Tebas, comendo e bebendo. Creonte descendia de Penteu que fora estraçalhado pelas mulheres alucinadas, quando as espionava nos ritos de Dionísio. Ainda persistia o ódio de Hera pela sua linhagem, sendo que o último e mais trágico capítulo desta triste história ainda está por acontecer.

Deixou Pélops a cidade de Tebas, voltando para o seu lar em Élida, pensativo e maravilhado por tudo o que tinha ouvido contar a respeito dos reis de Micenas, de Argos, de Atenas e de Tebas.


 

[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS
editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 

 
 
 


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