PÁGINA DE MITOLOGIA

GEORGE BAKER




Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega





Editora Brasiliense
São Paulo
1960




Primeira Parte

O Advento de Pélops





CAPITULO VI


AS AVENTURAS DOS DENTES DO DRAGÃO
E AS MÁGOAS DAS FILHAS DE CADMO

 parte II
 



Assim foi iniciada a construção de Tebas e Cadmo, filho do Rei da Fenícia, foi seu primeiro soberano. Ele foi sábio e bondoso, e dizem que legou aos gregos o uso do alfabeto, ensinando-lhes a ler e a escrever, conquanto afirmem outros que se limitou a acrescentar quatro novas letras ao alfabeto, que já seria conhecido dos gregos.


Apesar de toda sua sabedoria e bondade, teve o Rei Cadmo uma vida que estava longe de ser feliz. Casou-se com Hermíone (ou Harmonia), a bela filha de Ares, deus da guerra, e de Afrodite, deusa da beleza e do amor. Afrodite era filha de Zeus. Hera, sua esposa, tinha profundos ciúmes da deusa do amor, não e e não perdia nenhuma oportunidade de causar desgraças e desastres aos protegidos de Afrodite. Assim é que quando Cadmo se casou com Hermíone atraiu a inimizade e a ira da mais poderosa deusa do Olimpo.

Cadmo e Hermíone tinham quatro filhas, que se tornaram, ao crescerem,  tão belas quanto sua linda e semidivina mãe. Seus nomes eram Semele, Agave, Autonoe e Ino, e, também elas, tiveram que sofrer a hostilidade da deusa Hera desde o momento em que vieram ao mundo.

Semele era tão linda que Zeus por ela se apaixonou, e renunciou à sua majestade para visitá-la sob a forma de um belo rapaz. Hera, naturalmente, não o ignorava, e arquitetou contra Semele terrível vingança , pois tinha dupla razão para odiá-la. Tomou a forma e a voz de Beroe, uma das aias de Semele e disse-lhe:

- Esse homem que jura ser o grande e divino Zeus pode estar tentando enganá-la. Não parece ser mais do que um simples mortal. Como sabe você que ele é verdadeiramente um deus?

- Ele é mais belo do que qualquer homem deste mundo, respondeu Semele.

- Isto nada prova. A próxima vez que ele lhe disser que é Zeus, peça-lhe para jurar pelo Estige (pois é esse um juramento que nem mesmo os próprios deuses podem quebrar) que está disposto a lhe dar seja o que for que você pedir. Depois de ter jurado, (e ele o fará com certeza) ordene-lhe que se apresente aos seus olhos com todo o poder e a majestade de sua natureza divina, como quando ocupa o trono do Olimpo.

Na primeira vez em que veio Zeus fazer a corte a Semele, ela fê-lo jurar pelo Estige que lhe daria qualquer coisa que ela pedisse. Depois de haver ele jurado:

- Apresente-se a, mim, disse ela, com todo o poder e a majestade de sua natureza, divina, tal qual ela se manifesta quando você se senta em seu trono do Olimpo.

- Se o fizesse, disse-lhe Zeus, seus olhos mortais seriam cegados pela minha glória e seu corpo reduzir-se-ia a cinzas. Peça-me qualquer outra coisa, querida, mas não aquilo que inevitavelmente causaria a sua morte.

Semele pensou que ele estivesse apenas arranjando desculpas e que não passava, afinal, de um simples mortal. Respondeu então que nada, a não ser o que pedia, a poderia satisfazer. Obrigou-se Zeus a satisfazer a sua vontade, já que estava ligado pela promessa que fizera, e que nem mesmo os deuses podem abjurar.

Na noite seguinte, enquanto Semele espreitava-o de sua janela, ouviu ela o ribombar de um trovão e viu a luz ofuscante de um relâmpago fender a abóbada celeste.  Aproximava-se a tempestade à medida, que Zeus descia do Olimpo com todo o seu esplendor, num carro, que era uma nuvem tempestuosa. Semele ficou ofuscada, ensurdecida e arrependida de sua temeridade. Fugiu de casa com os olhos cerrados e tapando os ouvidos. A atmosfera estava incandescente. Ouviam-se estrondos ensurdecedores enquanto as árvores eram fulminadas e despedaçadas por uma chuva de chispas elétricas. Ao mesmo tempo uma voz retumbante, profunda e majestosa bradou nos céus, ecoando no flanco das colinas:

- Eu sou Zeus, pai dos deuses e dos homens. Olhe para minha face, Semele, e morra!

Semele abriu os olhos e soltou um grito de espanto. Em sua frente estava Zeus, o soberano dos céus, em todo o seu poderio e esplendor. Durante um momento ela o encarou. Depois, seus olhos foram cegados pela sua luz resplandecente. Foi seu corpo consumido pelas chamas de seus raios e, num instante, transformou-se ela num monte de cinzas.

Porém, salvou-se o filho que ela devia dar a Zeus pois seu pai o guardou em sua coxa até o dia de seu nascimento. Veio a chamar-se Dionísio (*Baco para os romanos*).

Por essa forma vingou-se Hera de seu marido Zeus - que amara a Semele tão apaixonadamente a ponto de lhe dar uma coroa de sete estrêlas, que ainda podemos contemplar no céu - vingando-se também da neta de Afrodite, a quem ela tanto detestava.

Ora, a segunda filha de Cadmo e Hermíone, Agave, desposara Equion, um dos cinco homens que nasceram dos dentes do dragão e ajudaram a edificar Tebas. Agave criou o pequeno Dionísio, que com o tempo se tornou belo homem, educando-o na companhia de seu próprio filho Penteu.

Quando Dionísio cresceu, ensinou aos gregos a arte de fazer vinho com o suco da uva. Por essa razão os gregos fizeram dele uma divindade e instituíram dias de festa em sua honra. Eram essas festas dedicadas exclusivamente às mulheres. Elas bebiam vinho até se tornarem alucinadas, perdendo o controle de suas línguas e de seus atos. Por essa razão eram os homens proibidos de participarem daqueles ritos, e até mesmo de os presenciarem. Chamavam-se essas festas dionísias.

Ora, Penteu, filho de Agave, tendo crescido com Dioniso, não podia admitir sua divindade e ria-se das mulheres e de seus festivais. Para puní-lo, inspirou Dionísio a Penteu uma grande curiosidade de presenciar a celebração do rito dionisíaco. Escondeu-se Penteu numa árvore onde foi encontrado pelas mulheres. Estas, exacerbadas pelo vinho, caíram-lhe em cima. Sua mãe Agave e suas duas irmãs, Ino e Autonoe, estavam entre as primeiras que o atacaram. Grandes foram as lamentações e o pesar que sentiram quando recuperaram a razão, e compreenderam que haviam estraçalhado Penteu.


capitulo III


[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS
editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 
 
 


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