Assim foi iniciada a construção de Tebas e
Cadmo, filho do Rei da Fenícia, foi seu
primeiro soberano. Ele foi sábio e bondoso, e
dizem que legou aos gregos o uso do alfabeto,
ensinando-lhes a ler e a escrever, conquanto
afirmem outros que se limitou a acrescentar
quatro novas letras ao alfabeto, que já seria
conhecido dos gregos.
Apesar de toda sua sabedoria e bondade, teve o
Rei Cadmo uma vida que estava longe de ser
feliz. Casou-se com Hermíone (ou Harmonia), a
bela filha de Ares, deus da guerra, e de
Afrodite, deusa da beleza e do amor. Afrodite
era filha de Zeus. Hera, sua esposa, tinha
profundos ciúmes da deusa do amor, não e e não
perdia nenhuma oportunidade de causar desgraças
e desastres aos protegidos de Afrodite. Assim é
que quando Cadmo se casou com Hermíone atraiu a
inimizade e a ira da mais poderosa deusa do
Olimpo.
Cadmo e Hermíone tinham quatro filhas, que se
tornaram, ao crescerem, tão belas quanto
sua linda e semidivina mãe. Seus nomes eram
Semele, Agave, Autonoe e Ino, e, também elas,
tiveram que sofrer a hostilidade da deusa Hera
desde o momento em que vieram ao mundo.
Semele era tão linda que Zeus por ela se
apaixonou, e renunciou à sua majestade para
visitá-la sob a forma de um belo rapaz. Hera,
naturalmente, não o ignorava, e arquitetou
contra Semele terrível vingança , pois tinha
dupla razão para odiá-la. Tomou a forma e a
voz de Beroe, uma das aias de Semele e
disse-lhe:
- Esse homem que jura ser o grande e divino Zeus
pode estar tentando enganá-la. Não parece ser
mais do que um simples mortal. Como sabe você
que ele é verdadeiramente um deus?
- Ele é mais belo do que qualquer homem deste
mundo, respondeu Semele.
- Isto nada prova. A próxima vez que ele lhe
disser que é Zeus, peça-lhe para jurar pelo
Estige (pois é esse um juramento que nem mesmo
os próprios deuses podem quebrar) que está
disposto a lhe dar seja o que for que você
pedir. Depois de ter jurado, (e ele o fará com
certeza) ordene-lhe que se apresente aos seus
olhos com todo o poder e a majestade de sua
natureza divina, como quando ocupa o trono do
Olimpo.
Na primeira vez em que veio Zeus fazer a corte a
Semele, ela fê-lo jurar pelo Estige que lhe
daria qualquer coisa que ela pedisse. Depois de
haver ele jurado:
- Apresente-se a, mim, disse ela, com todo o
poder e a majestade de sua natureza, divina, tal
qual ela se manifesta quando você se senta em
seu trono do Olimpo.
- Se o fizesse, disse-lhe Zeus, seus olhos
mortais seriam cegados pela minha glória e seu
corpo reduzir-se-ia a cinzas. Peça-me qualquer
outra coisa, querida, mas não aquilo que
inevitavelmente causaria a sua morte.
Semele pensou que ele estivesse apenas
arranjando desculpas e que não passava, afinal,
de um simples mortal. Respondeu então que nada,
a não ser o que pedia, a poderia satisfazer.
Obrigou-se Zeus a satisfazer a sua vontade, já
que estava ligado pela promessa que fizera, e
que nem mesmo os deuses podem abjurar.
Na noite seguinte, enquanto Semele espreitava-o
de sua janela, ouviu ela o ribombar de um trovão
e viu a luz ofuscante de um relâmpago fender a
abóbada celeste. Aproximava-se a
tempestade à medida, que Zeus descia do Olimpo
com todo o seu esplendor, num carro, que era uma
nuvem tempestuosa. Semele ficou ofuscada,
ensurdecida e arrependida de sua temeridade.
Fugiu de casa com os olhos cerrados e tapando os
ouvidos. A atmosfera estava incandescente.
Ouviam-se estrondos
ensurdecedores enquanto as árvores eram
fulminadas e despedaçadas por uma chuva de
chispas elétricas. Ao mesmo tempo uma voz
retumbante, profunda e majestosa bradou nos céus,
ecoando no flanco das colinas:
- Eu sou Zeus, pai dos deuses e dos homens. Olhe
para minha face, Semele, e morra!
Semele abriu os olhos e soltou um grito de
espanto. Em sua frente estava Zeus, o soberano
dos céus, em todo o seu poderio e esplendor.
Durante um momento ela o encarou. Depois, seus
olhos foram cegados pela sua luz resplandecente.
Foi seu corpo consumido pelas chamas de seus
raios e, num instante, transformou-se ela num
monte de cinzas.
Porém, salvou-se o filho que ela devia dar a
Zeus pois seu pai o guardou em sua coxa até o
dia de seu nascimento. Veio a chamar-se Dionísio
(*Baco para os romanos*).
Por essa forma vingou-se Hera de seu marido Zeus
- que amara a Semele tão apaixonadamente a
ponto de lhe dar uma coroa de sete estrêlas,
que ainda podemos contemplar no céu -
vingando-se também da neta de Afrodite, a quem
ela tanto detestava.
Ora, a segunda filha de Cadmo e Hermíone,
Agave, desposara Equion, um dos cinco homens que
nasceram dos dentes do dragão e ajudaram a
edificar Tebas. Agave criou o pequeno Dionísio,
que com o tempo se tornou belo homem, educando-o
na companhia de seu próprio filho Penteu.
Quando Dionísio cresceu, ensinou aos gregos a
arte de fazer vinho com o suco da uva. Por essa
razão os gregos fizeram dele uma divindade e
instituíram dias de festa em sua honra. Eram
essas festas dedicadas exclusivamente às
mulheres. Elas bebiam vinho até se tornarem
alucinadas, perdendo o controle de suas línguas
e de seus atos. Por essa razão eram os homens
proibidos de participarem daqueles ritos, e até
mesmo de os presenciarem. Chamavam-se essas
festas dionísias.
Ora, Penteu, filho de Agave, tendo crescido com
Dioniso, não podia admitir sua divindade e
ria-se das mulheres e de seus festivais. Para
puní-lo, inspirou Dionísio a Penteu uma grande
curiosidade de presenciar a celebração do rito
dionisíaco. Escondeu-se Penteu numa árvore
onde foi encontrado pelas mulheres. Estas,
exacerbadas pelo vinho, caíram-lhe em cima. Sua
mãe Agave e suas duas irmãs, Ino e Autonoe,
estavam entre as primeiras que o atacaram.
Grandes foram as lamentações e o pesar que
sentiram quando recuperaram a razão, e
compreenderam que haviam estraçalhado Penteu.
capitulo III
[transcrição e adaptação do texto original
de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS
editora Brasiliense, 1960.]
Moacir Índio da Costa Júnior