Nessa altura estava Pélops convencido de que
tivera conhecimento de tantas coisas
maravilhosas que nada mais o poderia
surpreender. As maravilhas, no entanto, não
se haviam esgotado, como veio a verificar ao
conhecer o Rei Pandion de Atenas, e ouvir-lhe as
fantásticas narrativas enquanto comiam e bebiam
juntos no palácio real.
O Rei Pandion, segundo do nome, pertencia a
longa e antiga estirpe real cujo antepassado
fora o deus Hefestos. O primeiro Rei Pandion
possuía ricos vinhedos, plantações de
oliveiras e culturas de trigo e, além disso,
dois filhos e duas lindas filhas, Filomela, e
Procne. Aconteceu que foi o Rei Pandion ajudado
na guerra que moveu contra Tebas pelo Rei da Trácia
chamado Tereu, e para recompensá-lo, deu-lhe em
casamento sua formosa filha Procne.
Ora, as duas filhas do Rei Panclion amavam-se
mutuamente com profunda ternura. Apesar de se
sentir Procne feliz por se casar com o Rei
Tereu, afligia-se por se ter de separar de sua
irmã. Um dia perguntou-lhe o marido por que razão
estava tão triste.
- É por estar longe de minha irmã Filomela a
quem tanto amo, respondeu Procne.
- Neste caso irei eu a Atenas pedir a seu pai
que me permita trazer sua irmã para a Trácia
para fazer-lhe companhia, disse Tereu.
Encheu-se Procne de alegria ao ouvir essas
palavras e, sem demora, seu marido partiu para
Atenas. Concordou o Rei Pandion em deixar sua
filha Filomela ir morar com a irmã na Trácia.
Mas aconteceu que, durante a viagem, Tereu se
apaixonou tão loucamente por ela que não
poderia mais ter felicidade na vida a menos de
ver retribuída a sua paixão. Ora, isto é
coisa que Filomela não podia fazer. Então
Tereu violentou-a, obrigando-a amá-lo e,
para que ela não o pudesse jamais trair,
prendeu-a numa torre solitária e cortou-lhe a língua.
Abandonando-a ali, sozinha, prosseguiu em sua
viagem para a Trácia onde sua esposa Procne o
esperava com ansiedade.
- Como! você veio sozinho? exclamou ela ao vê-lo.
Onde está minha irmã Filomela? Meu pai não
deixou que ela viesse?
- Sim, ela partiu comigo, respondeu Tereu, mas
adoeceu em caminho e veio a falecer.
Ao ouvir isto sentiu-se Procne dominada pela,
dor, e chorou amargamente a morte de sua irmã.
Quanto a Filomela, não podendo nem falar nem
escrever, recorreu a um velho tear que encontrou
no castelo abandonado onde Tereu a tinha
aprisionado, para tecer um tapete no qual
representara tudo o que lhe tinha acontecido,
mandando-o secretamente a sua irmã Procne.
Esta, encheu-se de compaixão por sua infeliz
irmã e de rancor pelo cruel tratamento que
Filomela recebera por parte de seu marido. Não
tocou no assunto, entretanto, e esperou
pacientemente a época do ano em que se
celebravam os festivais de Dionísio, deus do
vinho. Durante essas festas, as mulheres tinham
a liberdade de irem onde bem entendessem sem que
nenhum homem tivesse o direito de as seguir ou
espionar. Procne dirigiu-se apressada para a
torre solitária onde se achava Filomela
encarcerada,
e libertou-a. As duas irmãs, enfurecidas,
planejaram contra Tereu terrível vingança.
Procne matou o seu próprio filho, assou-o,
colocando-o à mesa na frente de Tereu. Quando o
Rei indagou onde estava seu filho, Procne soltou
uma gargalhada.
- O seu filho, o meu filho está sobre a mesa à
sua frente, respondeu ela; e Filomela,
aparecendo de súbito, apresentou a Tereu a cabeça
do seu filho. Enfurecido e alucinado,
Tereu empunhou a espada e as teria matado a
ambas se as duas irmãs, naquele instante, não
se houvessem transformado, em dois pássaros,
Filomela em rouxinol e Procne em andorinha.
Bateram as asas e nunca mais foram vistas.
Abandonou Tereu aquela cidade onde vivia,
refugiando-se em terras longínquas. Mas
tal era o seu pesar e tão grande o remorso de
seus crimes, que pouco tempo depois ele pôs fim
à própria vida. Afirmam alguns que Tereu
se transformou numa poupa e seu pequeno filho
num faisão.
Mas disto não tinha certeza, o Rei Pandion
Segundo, que narrara a história a Pélops.
Ficou tão compungido de dor o pai das duas
infelizes irmãs que veio a falecer pouco
depois. Sucedeu-o no trono seu filho Erecteu.
Este tinha uma filha uma formosa chamada, Prócris,
casada com o Rei Céfalo da Tessália. Amavam-se
com profunda ternura; porém sua felicidade
terminou quando Eos, deusa da aurora de dedos
cor-de-rosa, apaixonou-se por Céfalo e raptou-o
para que vivesse ao seu lado. Apesar de toda a
sua beleza não podia ela conquistar o amor de Céfalo.
Perdendo por fim toda esperança disse-lhe que
ele podia deixá-la para voltar aos braços de
sua esposa.
- Porém, é quase certo que quando você voltar
para sua casa, acrescentou, descobrirá que sua
esposa já o esqueceu e está apaixonada por
outro homem.
- Não o creio, nem por um momento, disse Céfalo;
nós nos amávamos com tanto ardor que
preferiríamos morrer a sermos infiéis ao nosso
amor.
Riu-se a deusa, afirmando que os homens são crédulos
e ingênuos.
-Disfarce-se de maneira que sua mulher não o
possa reconhecer, disse ela, e faça-lhe a corte
dando-lhe ricos presentes e prometendo-lhe
outros mais ricos ainda quando ela se entregar a
você. Assim porá você à prova sua
fidelidade.
Se bem que relutante, Céfalo concordou. Disfarçou-se
em rico mercador e fez a corte a Prócris com
tanto êxito que afinal ela lhe prometeu ser
sua. Nesse momento Céfalo arrancou furioso o
disfarce revelando sua identidade.
- A deusa tinha razão, exclamou ele. Todas as
mulheres são infiéis e os homens fáceis de
enganar. Eu deveria saber que não podia
confiar em você!
Prócris ficou tão envergonhada que se exilou
em outro país, abandonando Céfalo a seus
tristes pensamentos em seu lar agora deserto.
Passado algum tempo foi ela ao país da Eubéia,
onde conquistou os favores da deusa Ártemis,
que lhe presenteou com uma lança que nunca
falhava o alvo e um cão que nunca deixava de
trazer a sua presa. De posse desses bens
preciosos voltou à sua casa, disfarçando-se,
de maneira a que Céfalo a não reconhecesse.
Quando ele veio a saber do dardo que não errava
o alvo e voltava às mãos de quem o lançava, e
do cão que sempre trazia a caça a seu dono,
sentiu ardente desejo de possuí-los. Adorava a
caça e encontrava nela a única distração
para as saudades que tinha de sua esposa infiel.
Foi então falar com Prócris, tentando adquirir
o cão e a lança.
- Não quero sua prata nem seu ouro, disse-lhe Prócris,
mas tanto a lança como o cão serão seus se
jurar que nunca amou sua esposa infiel; que a
esquecerá e me dará o seu amor.
De início recusou-se Céfalo a cometer esse
perjúrio. Mas desejava tanto a lança e o cão
de caça e, além disso, mesmo disfarçada
estava Prócris tão formosa que afinal
consentiu. Então Prócris, rindo-se, tirou o
disfarce.
- Somos ambos culpados tanto um como o outro,
meu marido, disse ela. Esqueçamos o passado,
renovemos nossos juramentos de amor, e amemo-nos
de novo.
Céfalo não cabia em si de contente em ter de
novo em seus braços sua linda esposa. Viveram
em completa felicidade durante um ano, no fim
qual Prócris teve um filho chamado Arcésio.
Ela deu o cão e a lança a Céfalo que ia freqüentemente
caçar. Um dia em que fazia muito calor, pediu
ele ao vento que o acariciasse. Alguém que por
acaso o ouviu foi contar a Prócris que seu
marido estava no mato invocando certo nome em
altas vozes. Tratava-se, sem dúvida, de alguma
mulher com quem tinha encontros amorosos,
enquanto Prócris supunha que estivesse a caçar.
No mesmo instante renasceram as suspeitas e os
ciúmes de Prócris. Na primeira vez que seu
marido pegou da lança e chamou o cão, ela o
seguiu secretamente para o mato escondendo-se
atrás das moitas para não ser vista. Quando Céfalo
ergueu os braços e pediu ao vento que o
refrescasse, Prócris inclinou-se para melhor
ouvir o nome que ele proferia. O ruído que fez,
entretanto, chamou a atenção de Céfalo.
Supondo que um animal selvagem estava à sua
espreita, à espera do momento azado para atacá-lo,
arremessou ele a lança infalível contra a
moita donde vinha o ruído. Prócris, com o coração
transpassado, caiu de bruços com grito
agoniado.
Assim morreu a bela filha de Erecteu, Rei de
Atenas. Seu filho Arcésío cresceu e se
casou. Mais tarde, Laertes, filho deste,
engendrou o grande Rei de Ítaca, o mais sábio
de todos os gregos, a respeito do qual leremos
muitas coisas nos capítulos seguintes.
Essas e muitas outras histórias ouviu Pélops
dos lábios do Rei Pandion Segundo, em seu palácio
de Atenas. Os dois reis juraram eterna amizade
na paz e constante aliança na guerra. Após
diversos dias de festejos escusou-se Pélops,
partindo para visitar a antiga, cidade de Tebas.
[transcrição e adaptação do texto original
de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS
editora Brasiliense, 1960.]