PÁGINA DE MITOLOGIA

 

GEORGE BAKER




Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega



Editora Brasiliense
São Paulo
1960





Primeira Parte

O Advento de Pélops



CAPITULO V


AS TRÊS PRINCESAS DE ATENAS




Nessa altura estava Pélops convencido de que tivera conhecimento de tantas coisas maravilhosas que nada mais o poderia surpreender.  As maravilhas, no entanto, não se haviam esgotado, como veio a verificar ao conhecer o Rei Pandion de Atenas, e ouvir-lhe as fantásticas narrativas enquanto comiam e bebiam juntos no palácio real.

O Rei Pandion, segundo do nome, pertencia a longa e antiga estirpe real cujo antepassado fora o deus Hefestos. O primeiro Rei Pandion possuía ricos vinhedos, plantações de oliveiras e culturas de trigo e, além disso, dois filhos e duas lindas filhas, Filomela, e Procne. Aconteceu que foi o Rei Pandion ajudado na guerra que moveu contra Tebas pelo Rei da Trácia chamado Tereu, e para recompensá-lo, deu-lhe em casamento sua formosa filha Procne.

Ora, as duas filhas do Rei Panclion amavam-se mutuamente com profunda ternura. Apesar de se sentir Procne feliz por se casar com o Rei Tereu, afligia-se por se ter de separar de sua irmã. Um dia perguntou-lhe o marido por que razão estava tão triste.

- É por estar longe de minha irmã Filomela a quem tanto amo, respondeu Procne.

- Neste caso irei eu a Atenas pedir a seu pai que me permita trazer sua irmã para a Trácia para fazer-lhe companhia, disse Tereu.

Encheu-se Procne de alegria ao ouvir essas palavras e, sem demora, seu marido partiu para Atenas. Concordou o Rei Pandion em deixar sua filha Filomela ir morar com a irmã na Trácia. Mas aconteceu que, durante a viagem, Tereu se apaixonou tão loucamente por ela que  não poderia mais ter felicidade na vida a menos de ver retribuída a sua paixão. Ora, isto é coisa que Filomela não podia fazer. Então Tereu violentou-a, obrigando-a amá-lo e,  para que ela não o pudesse jamais trair, prendeu-a numa torre solitária e cortou-lhe a língua. Abandonando-a ali, sozinha, prosseguiu em sua viagem para a Trácia onde sua esposa Procne o esperava com ansiedade.

- Como! você veio sozinho? exclamou ela ao vê-lo. Onde está minha irmã Filomela? Meu pai não deixou que ela viesse?

- Sim, ela partiu comigo, respondeu Tereu, mas adoeceu em caminho e veio a falecer.

Ao ouvir isto sentiu-se Procne dominada pela, dor, e chorou amargamente a morte de sua irmã. Quanto a Filomela, não podendo nem falar nem escrever, recorreu a um velho tear que encontrou no castelo abandonado onde Tereu a tinha aprisionado, para tecer um tapete no qual representara tudo o que lhe tinha acontecido, mandando-o secretamente a sua irmã Procne. Esta, encheu-se de compaixão por sua infeliz irmã e de rancor pelo cruel tratamento que Filomela recebera por parte de seu marido. Não tocou no assunto, entretanto, e esperou pacientemente a época do ano em que se celebravam os festivais de Dionísio, deus do vinho. Durante essas festas, as mulheres tinham a liberdade de irem onde bem entendessem sem que nenhum homem tivesse o direito de as seguir ou espionar. Procne dirigiu-se apressada para a torre solitária onde se achava Filomela encarcerada, e libertou-a. As duas irmãs, enfurecidas, planejaram contra Tereu terrível vingança.

Procne matou o seu próprio filho, assou-o, colocando-o à mesa na frente de Tereu. Quando o Rei indagou onde estava seu filho, Procne soltou uma gargalhada.

- O seu filho, o meu filho está sobre a mesa à sua frente, respondeu ela; e Filomela, aparecendo de súbito, apresentou a Tereu a cabeça do seu filho.  Enfurecido e alucinado, Tereu empunhou a espada e as teria matado a ambas se as duas irmãs, naquele instante, não se houvessem transformado, em dois pássaros, Filomela em rouxinol e Procne em andorinha. Bateram as asas e nunca mais foram vistas. Abandonou Tereu aquela cidade onde vivia, refugiando-se em terras longínquas.  Mas tal era o seu pesar e tão grande o remorso de seus crimes, que pouco tempo depois ele pôs fim à própria vida.  Afirmam alguns que Tereu se transformou numa poupa e seu pequeno filho num faisão.

Mas disto não tinha certeza, o Rei Pandion Segundo, que narrara a história a Pélops. Ficou tão compungido de dor o pai das duas infelizes irmãs que veio a falecer pouco depois. Sucedeu-o no trono seu filho Erecteu. Este tinha uma filha uma formosa chamada, Prócris, casada com o Rei Céfalo da Tessália. Amavam-se com profunda ternura; porém sua felicidade terminou quando Eos, deusa da aurora de dedos cor-de-rosa, apaixonou-se por Céfalo e raptou-o para que vivesse ao seu lado. Apesar de toda a sua beleza não podia ela conquistar o amor de Céfalo. Perdendo por fim toda esperança disse-lhe que ele podia deixá-la para voltar aos braços de sua esposa.

- Porém, é quase certo que quando você voltar para sua casa, acrescentou, descobrirá que sua esposa já o esqueceu e está apaixonada por outro homem.

- Não o creio, nem por um momento, disse Céfalo; nós nos amávamos com tanto ardor que preferiríamos morrer a sermos infiéis ao nosso amor.

Riu-se a deusa, afirmando que os homens são crédulos e ingênuos.

-Disfarce-se de maneira que sua mulher não o possa reconhecer, disse ela, e faça-lhe a corte dando-lhe ricos presentes e prometendo-lhe outros mais ricos ainda quando ela se entregar a você. Assim porá você à prova sua fidelidade.

Se bem que relutante, Céfalo concordou. Disfarçou-se em rico mercador e fez a corte a Prócris com tanto êxito que afinal ela lhe prometeu ser sua. Nesse momento Céfalo arrancou furioso o disfarce revelando sua identidade.

- A deusa tinha razão, exclamou ele. Todas as mulheres são infiéis e os homens fáceis de enganar.  Eu deveria saber que não podia confiar em você!

Prócris ficou tão envergonhada que se exilou em outro país, abandonando Céfalo a seus tristes pensamentos em seu lar agora deserto. Passado algum tempo foi ela ao país da Eubéia, onde conquistou os favores da deusa Ártemis, que lhe presenteou com uma lança que nunca falhava o alvo e um cão que nunca deixava de trazer a sua presa. De posse desses bens preciosos voltou à sua casa, disfarçando-se, de maneira a que Céfalo a não reconhecesse. Quando ele veio a saber do dardo que não errava o alvo e voltava às mãos de quem o lançava, e do cão que sempre trazia a caça a seu dono, sentiu ardente desejo de possuí-los. Adorava a caça e encontrava nela a única distração para as saudades que tinha de sua esposa infiel. Foi então falar com Prócris, tentando adquirir o cão e a lança.

- Não quero sua prata nem seu ouro, disse-lhe Prócris, mas tanto a lança como o cão serão seus se jurar que nunca amou sua esposa infiel; que a esquecerá e me dará o seu amor.

De início recusou-se Céfalo a cometer esse perjúrio. Mas desejava tanto a lança e o cão de caça e, além disso, mesmo disfarçada estava Prócris tão formosa que afinal consentiu. Então Prócris, rindo-se, tirou o disfarce.

- Somos ambos culpados tanto um como o outro, meu marido, disse ela. Esqueçamos o passado, renovemos nossos juramentos de amor, e amemo-nos de novo.

Céfalo não cabia em si de contente em ter de novo em seus braços sua linda esposa. Viveram em completa felicidade durante um ano, no fim qual Prócris teve um filho chamado Arcésio. Ela deu o cão e a lança a Céfalo que ia freqüentemente caçar. Um dia em que fazia muito calor, pediu ele ao vento que o acariciasse. Alguém que por acaso o ouviu foi contar a Prócris que seu marido estava no mato invocando certo nome em altas vozes. Tratava-se, sem dúvida, de alguma mulher com quem tinha encontros amorosos, enquanto Prócris supunha que estivesse a caçar.

No mesmo instante renasceram as suspeitas e os ciúmes de Prócris. Na primeira vez que seu marido pegou da lança e chamou o cão, ela o seguiu secretamente para o mato escondendo-se atrás das moitas para não ser vista. Quando Céfalo ergueu os braços e pediu ao vento que o refrescasse, Prócris inclinou-se para melhor ouvir o nome que ele proferia. O ruído que fez, entretanto, chamou a atenção de Céfalo. Supondo que um animal selvagem estava à sua espreita, à espera do momento azado para atacá-lo, arremessou ele a lança infalível contra a moita donde vinha o ruído. Prócris, com o coração transpassado, caiu de bruços com grito agoniado.

Assim morreu a bela filha de Erecteu, Rei de Atenas. Seu filho Arcésío cresceu e se casou. Mais tarde, Laertes, filho deste, engendrou o grande Rei de Ítaca, o mais sábio de todos os gregos, a respeito do qual leremos muitas coisas nos capítulos seguintes.

Essas e muitas outras histórias ouviu Pélops dos lábios do Rei Pandion Segundo, em seu palácio de Atenas. Os dois reis juraram eterna amizade na paz e constante aliança na guerra. Após diversos dias de festejos escusou-se Pélops, partindo para visitar a antiga, cidade de Tebas.






[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS
editora Brasiliense, 1960.]

 
 
 


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