Repousava Micenas no flanco de uma, colina
dominando profundo desfiladeiro. Tinha vista
para grande e larga planície que se estendia ao
sul, até o mar, e próxima à qual se achava a
bela cidade de Argos, onde Pélops encontrou o
Rei Preto que o acolheu favoravelmente.
Irmão gêmeo de Acrísio, reclamara Preto
participação no reinado de Argos, por morte de
seu pai; porém, Acrísio repeliu-o. Atravessou
então os mares, dirigindo-se para a Lícia onde
se casou com a Princesa Antéia, filha do Rei
Iobates. Quando Acrísio foi morto, Preto,
Rei de Tirinto, não distante, voltou para Argos
deixando seu reino aos cuidados de seu filho
Megapentes.
Pélops ouvira Perseu relatar este fato.
Mas havia outra história que lhe contara Preto
e ele nunca tinha ouvido da boca de ninguém.
Era essa uma história tão maravilhosa quanto
as próprias aventuras de Perseu.
Pouco depois de Preto subir ao trono de Argos,
chegou um dia à sua corte um belo mancebo de
nome Belerofonte, filho caçula de Glauco, Rei
de Efira. Belerofonte matara
acidentalmente seu irmão mais velho Aleimeno,
que era entranhadamente querido de seu pai e,
para fugir à cólera do Rei Glauco, fora
compelido a expatriar-se. Depois de ter ouvido a
narrativa do acidente, o Rei Preto, como era
de seu direito, expurgou o mancebo da culpa de
fratricídio,
permitindo-lhe, se o desejasse, estabelecer
moradia em Argos. A esta proposta acedeu
Belerofonte, e ter-se-ia estabelecido ali com
prazer, não houvesse a Rainha, Antéia, se
apaixonado por ele. Como ele a não atendesse,
com o tempo transformou-se seu amor emódio.
A rainha acusou-o ao seu marido de ter atentado
contra a sua honra.
O Rei Preto deu crédito a esta calúnia e ficou
furioso. Como, porém, não pudesse pessoalmente
punir de morte a Belerofonte, encaminhou-o ao
seu sogro, o Rei Iobates da Lícia, com mensagem
cerrada relatando que Belerofonte fizera a corte
a Antéia, e pedindo a Iobates que lhe desse a
morte.
Ora, não via, o Rei Iobates razão por que
deveria matar aquele rapaz somente para ser
agradável ao genro. Por outro lado,
ressentia-se do repreensível procedimento de
Belerofonte em relação à Antéia. Sem
revelar o conteúdo da mensagem do Rei Preto,
ordenou a Belerofonte que fosse matar a Quimera,
monstro que causava grandes danos ao
território da Lícia. Constituía isto difícil
e perigoso empreendimento, por não ser a
Quimera um monstro vulgar. Tinha três cabeças
e vomitava chamas e fumaça. Eram de leão
uma das cabeças e o peito. Outra cabeça e o
corpo eram de cabra, ao passo que a terceira
cabeça e a cauda
eram de dragão. Vivia numa montanha muito
alta perto do litoral, e exércitos inteiros
enviados para guerreá-la haviam sido
derrotados.
Se bem que tivesse tanta coragem quanto o mais
corajoso dos homens, não podia Belerofonte
deixar de se sentir um tanto receoso da tarefa
que lhe destinava o Rei Iobates. Mas os
deuses, sabendo-o inocente do crime que lhe era
falsamente imputado, apiedaram-se dele,
dando-lhe
seu apoio. De sua moradia no Monte Hélicon
trouxe a deusa Atena seu cavalo alado Pégaso,
que havia sido domado pelas Musas. Brindou Pégaso
a Belerofonte que o montou voando com ele para a
montanha onde vivia a Quimera. Houve terrível
luta, pois o monstro era poderoso. Contudo,
sua última hora havia soado. Com três
certeiros golpes de lança aniquilou Belerofonte
as três horríficas cabeças. Extinguiram-se as
chamas e a fumaça, enquanto o monstro rolava
sem vida pela encosta da montanha.
Belerofonte deu então liberdade a Pégaso. O
belo corcel voou para o céu, subindo, subindo
sempre até se transtornar numa
constelação que vocês podem ainda hoje
contemplar, no céu quando a noite estiver
clara.
Não sabia o Rei Iobates se devia alegrar-se ou
entristecer-se com Belerofonte ter matado a
Quimera, regressando ileso. Ainda sentia rancor
contra o mancebo, e mandou-o tomar parte em duas
guerras, uma contra a tribo chamada Solimi, e
outra contra uma nação de mulheres guerreiras
chamadas Amazonas. De cada um desses
embates saiu Belerofonte vitorioso. Porém, ao
voltar da segunda guerra foi vítima de uma
cilada, adredemente preparada pelos sicários do
Rei Iobates, que tinham recebido instruções
para matá-lo. Foram eles, entretanto, que
morreram em número de cinqüenta. Os deuses
ajudavam Belerofonte, e este voltou são e salvo
ao palácio real.
Compreendendo o Rei Iobates que não conseguiria
ferir Belerofonte, resolveu fazer as pazes com
ele. Belerofonte casou-se com a filha do Rei, a
Princesa Filone, e tornou-se Rei da Lícia
quando ele veio a falecer.
Mas os deuses não haviam esquecido que o Rei
Preto, de Argos, conspirara contra a vida de
Belerofonte, apesar de ele não ter o direito de
seviciar o rapaz, já que o havia purgado de
toda culpa na morte de seu irmão. Tinha o Rei
três filhas de nome Lisipe, Ifine e Ifianassa.
Por determinação dos deuses foram as três
princesas acometidas de súbita loucura. Corriam
pelos prados convencidas de que eram vacas. O
Rei Preto, acabrunhado pelo sofrimento, ofereceu
grande recompensa a quem conseguisse curar as
filhas.
Certo dia foi ao palácio um famoso adivinho
chamado Melampo, afirmando que poderia,
restituir a saúde às três princesas.
- Mas eu só o farei, disse ele, se em
recompensa você me der a terça parte de seu
reino.
- Isto
eu não farei em tempo algum, disse o Rei Preto.
Ora vejam! Alienar eu a terça parte de meu
reino? Prefiro que continuem minhas filhas
dementes para o resto de suas vidas!
Melampo foi-se embora. Em breve, porém, correu
a notícia de que se alastrava a doença. Não só
as três princesas, mas também outras mulheres
de Argos corriam pelos prados convencidas de que
eram vacas. Crescia o seu número de dia para
dia, de maneira que não restava ao Rei Preto
outro recurso senão mandar buscar Melampo, o
adivinho.
- Seu preço é muito elevado, disse-lhe ele,
mas tão grande é minha aflição que estou
disposto a aceitá-lo. Se você debelar a insânia
de minhas três filhas assim como das outras
mulheres de Argos dar-lhe-ei a terça parte do
meu reino.
- Oh não!
retorquiu Melampo. Já uma vez você recusou
minhas condições, e sofre agora as conseqüências
de sua recusa. Desta vez não peço um terço,
senão dois terços do seu reino, e ainda por
cima a mão da mais bela das suas três filhas.
O Rei Preto irritou-se, enfurecendo-se, mas teve
que aceitar afinal. Então Melampo fez uma infusão
da planta chamada heléboro, e deu-a ás
princesas para que bebessem. Imediatamente a
loucura dissipou-se. Depois foram curadas as
outras mulheres da mesma maneira. Melampo
desposou Lisipe, a primogênita e a mais bela
das princesas.
Isso tudo foi relatado pelo Rei Preto a Pélops,
enquanto se sentavam à mesa no palácio de
Argos, comendo e bebendo; e Pélops sentiu
grande desejo de conhecer Melampo, de conversar
com esse adivinho e médico que havia angariado
tão grande fama. Ao deixar Argos dirigiu-se à
casa de Melampo, onde este vivia com sua bela
esposa. Apresentando-se a eles disse Pélops:
- Ouvi contar do Rei Preto a maneira pela qual
você curou a loucura das mulheres de Argos.
Gostaria de saber, Melampo, como foi que você
obteve o divino dom de profecia e de adivinhação.
- Contar-lhe-ei isso com prazer, respondeu
Melampo. Na minha juventude estudei com o deus
Apolo as propriedades das ervas e das plantas e
a confecção de remédios.
-Não ignora você, ser a serpente tida em
grande estima pelos médicos. Fiquei muito
contrariado ao saber que meus serventes, ao
encontrarem um casal de cobras num velho
carvalho de meu quintal as haviam matado. Ergui
uma pira funerária e queimei os corpos das
serpentes com honras
e reverências e, encontrando alguns filhotes de
serpentes no carvalho, criei essas pequenas órfãs
com carinho e desvelo. Um dia adormeci à sombra
do carvalho. As cobrinhas, brincando ao sol, ao
meu redor, aproximaram-se e com suas lingüinhas
palpitantes tocaram de leve minhas orelhas, meus
olhos e minha boca. Quando acordei fiquei
surpreendido de constatar que podia ouvir e
compreender o que diziam, uns aos outros os pássaros
e os animais, e até mesmo as cobras e as
pequenas criaturas que se agitam na grama. Com
elas aprendi a predizer o futuro. Foram elas que
me desvendaram o segredo da loucura que os
deuses enviaram às mulheres de Argos, assim
como a maneira de curá-la. Esse conhecimento me
valeu, como você vê, uma linda esposa e uma
grande parte de meu reino.
Melampo disse ainda a Pélops que não vivera
sempre em Argos, mas viera de Pilos, mais ao
norte, donde fora expulso de seu lar pela
crueldade de seu tio, o Rei Neleu.
Eram Neleu e seu irmão gêmeo, Pélias, filhos
do Rei-Marinho Poseidon, e de uma bela moça de
nome Tiro, que mais tarde veio a casar-se com o
Rei Creteu de Iolco, de quem teve um filho
chamado Eson. Ora, quando morreu o Rei Creteu,
por lei deveria Eson subir ao trono, por ser
filho legítimo do Rei. Porém, Neleu e Pélias,
alegando terem mais direito do que ele por serem
mais velhos, expulsaram-no e dividiram o reino
entre si. Passado algum tempo Pélias expulsou
Neleu. Este expatriou-se e foi construir a
cidade de Pilos, em terras estranhas, ao passo
que seu irmão Pélias governou sozinho em
Iolco.
Neleu casou-se e teve uma bonita filha chamada
Pero, pela qual Bias, irmão de Melampo, se
apaixonou loucamente. Neleu só consentiria no
casamento com a condição de Bias trazer-lhe os
grandes touros pertencentes ao Rei Íficles de Fílaco.
Bias pediu ajuda a seu irmão Melampo, por
compreender ele a linguagem dos animais e com
eles poder
conversar. Foi assim que Melampo se dirigiu ao
prado onde pastavam os touros, e, mansamente,
levou-os consigo, quando repentinamente foi
aprisionado, e jogado num calabouço. Teria o
Rei Íficles, com certeza, condenado Melampo à
morte, por ter tentado roubar-lhe os
esplêndidos touros de sua propriedade de que
tanto se orgulhava. Porém ao saber dos
maravilhosos poderes do adivinho, mandou chamá-lo
à sua presença. Não possuindo o Rei Íficles
um filho para suceder-lhe no trono, pensou que
talvez Melampo pudesse usar seus admiráveis
dons
para salvar-se da morte.
Estava Melampo inteiramente de acordo com o Rei.
Ensinou-lhe como conseguir tornar-se pai. Quando
sua esposa, a Rainha, teve um filho, ficou Íficles
tão agradecido a Melampo que não só o
libertou como também o brindou com uma manada
dos famosos touros para que os levasse
ao seu irmão.
Foi assim que Bias se casou com Pero, a formosa
filha do Rei Neleu; Melampo, porém, foi morar
em Argos, que era naquela época a maior cidade
da Grécia e o lugar que convinha ao homem mais
sábio e poderoso de todo o país.
[transcrição e adaptação do texto original
de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS
editora Brasiliense, 1960.]
Moacir Índio da Costa Júnior