PÁGINA DE MITOLOGIA

 

GEORGE BAKER



Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega
 

Editora Brasiliense
São Paulo
1960

Quinta Parte

Depois da Guerra






CAPITULO XXXII

AS FONTES DA LENDA

 



Existem muitas outras histórias relativas aos dias da Grécia primitiva que não encontraram lugar neste livro. Existe a história de Prometeu que roubou o fogo do céu para uso e conforto dos homens, e de seu irmão Epimeteu, que se casou com Pandora, a da Caixa Maravilhosa. Existe também a história de Deucalião e sua mulher Pirra dos Cabelos Fulgurantes, os únicos a se salvarem quando o mundo foi coberto pelo dilúvio em conseqüência da maldade dos homens; e a maneira pela qual eles repovoaram a terra atirando para trás por cima dos ombros os ossos da sua avó.

Existe também o Segredo Da Esfinge, e a história do homem que manquejava; e a de Pigmalião, o escultor que se apaixonou tão loucamente pela estátua que ele mesmo fizera que os deuses condoídos resolveram insuflar-lhe a vida.

Histórias dos deuses - suas lutas contra os gigantes, e sua conquista da terra - ocupariam, somente elas, um outro volume. (*)

Neste livro seguimos de preferência as aventura.s das grandes famílias descendentes de Pélops, Perseu e Dárdano, e contamos a contenda entre a Grécia, e Tróia, iniciada na Frígia e terminada em Roma. Muitas destas histórias foram tiradas de dois grandes poemas de Homero, que viveu na Grécia nas vizinhanças do ano 850 AC. Sete diferentes cidades pretendem ser seu lugar de origem se bem que lhe tenham dado pouca. importancia enquanto vivo; este fato fez com que o poeta inglês escrevesse:

Sete cidades brigam por causa do falecido Homero.

Nas quais Homero em vida mendigara para não morrer de fome.



THOMAS SEWARD.



Mas afinal de contas o mundo é assim mesmo.



A história da busca do Velocino de Ouro foi escrita num longo poema chamado a Argonáutica por um poeta e professor chamado Apolônio, que nasceu em Alexandria em 221, AC. Viveu grande parte de sua vida na Ilha de Rodes, de maneira que era, conhecido por Apolônio Ródio.

A Ilíada de Homero narra o cerco de Tróia desde a briga de Aquiles com Agamenon até a morte de Heitor, se bem que muitas anedotas dos tempos primitivos se achem enxertadas no corpo da narração. Virgílio, o poeta romano, que viveu de 70 a 20 AC, continuou a contar a história na sua Eneida narrando os episódios do Cavalo de Pau, o saque da cidade e as peregrinações dos troianos até eles se estabelecerem na Itália e fundarem a linhagem que mais tarde fundou Roma. Quinto Esmirneu, poeta grego do terceiro século, também escreveu uma continuação da Ilíada.

As aventuras de Ulisses, depois da guerra de Tróia, são narradas na Odisséia de Homero. A história de Orestes, Ifigênia e Electra, filhos de Agamenon, acham-se nas obras de Ésquilo, Eurípides e Sófocles, dramaturgos gregos que escreveram algumas das mais antigas peças do mundo.

Um poeta grego chamado Hesíodo, que viveu cerca de 735 anos AC, escreveu a respeito da criação do mundo e narrou a história dos deuses em sua Teogonia.

Existiu também um historiador chamado Apolodoro que viveu em Atenas mais ou menos 200 anos antes de nossa era; de sua Biblioteca vieram diversas outras narrativas e lendas, e Ovídio, poeta romano do século de Augusto utilizou diversas de suas histórias nas Metamorfoses.

Na primeira parte de sua famosa História da Guerra entre Gregos e Persas, Heródoto, historiador grego nascido em Halicarnasso no ano de 484 AC, conta histórias das épocas lendárias. Em suas peregrinações visitou o Egito e descobriu que os sacerdotes daquele país contavam a história da guerra de Tróia de maneira completamente nova para ele. Helena, diziam eles, nunca estivera em Tróia. Pouco depois de deixar a Grécia, o navio em que ela e Páris viajavam, foi arrastado por uma tempestade para as costas do Egito, onde veio a naufragar. Quando o faraó soube da história do rapto, ficou furioso com Páris por ter abusado da hospitalidade de Menelau, e, se as leis do Egito o permitissem, teria mandado matar a Páris. Assim sendo deu-lhe três dias de prazo para deixar o Egito, passados os quais seria considerado como inimigo e posto à morte se fosse encontrado em território egípcio.

Helena foi entregue aos cuidados da sacerdotisa de um templo até seu marido Menelau reclamá-la, enquanto Páris voltava sozinho para Tróia.

Ora, um poeta grego chamado Estesícoro, que viveu na Sicília 100 anos antes do nascimento de Heródoto , tinha escrito diversos poemas denunciando Helena, nos quais afirmava que ela nunca estivera em Tróia. Todos os relatos acordam-se no ponto de que depois da queda de Tróia Menelau estivera de fato no Egito, em que pese alguns deles afirmarem que ele fora arrastado por uma tempestade e que Helena já se achava em sua companhia. Os derradeiros dramaturgos gregos, em suas peças, sugeriam que não era a verdadeira Helena que se achava, em Tróia durante o cerco daquela cidade, porém uma sua homônima.

Se é verdade que Helena não esteve em Tróia, então, um trágico engano fora cometido; pois os gregos não podiam acreditar que ela não estivesse ali, nem podiam os troianos provar que ela estava no Egito. E neste caso aquela guerra cruenta terá sido feita sem motivo.

Existem traduções inglesas de Homero, Virgílio, Apolônio, Ovídio, Quinto Esmirneu, Heródoto e os dramaturgos gregos; em si só constituem uma literatura. Algumas são em versos; outras são traduções mais ou menos literais. Autores modernos contaram de novo muitas das antigas narrações com tanta perfeição que seus livros são conhecidos no mundo todo. Entre eles encontram-se Os Heróis de Kingsley, os Contos de Tanglewood, de Hawthorne e a Idade da Fábula de Bullfinch; ao passo que Os Mitos da Grécia e de Roma de Guerber e Homens e Deuses de Rex Warner são verdadeiros tesouros de histórias recontadas.

As novas traduções em prosa da Ilíada e da Odisséia de Homero pelo Dr. E. V. Rieu nos Clássicos Penguin são notáveis não somente pelas histórias que contêm, mas como também pelos interessantes e instrutivos ensaios introdutórios feitos pelo tradutor.

Um estudo detalhado daquela época foi feito por Marjorie e C. H. B. Quennell, em sua obra Coisas de Todos os Dias na Grécia Homérica que descreve as construções, os navios, as vestimentas, as armas e as armaduras, as artes, o trabalho e os divertimentos, 3.000 anos atrás.

Dicionários clássicos dão resumos das histórias e dos heróis, dos monstros e dos homens, colocados em ordem alfabética. Um atlas clássico permite-nos seguir as viagens dos heróis daqueles tempos, e verificar quanto se incrementou o conhecimento que os homens têm do mundo com a construção de navios maiores e mais seguros e com a ciência da navegação pelos astros.

O leitor não terá, pois, que procurar muito longe se desejar saber mais
coisas a respeito das pessoas e dos povos descritos neste livro, e melhor compreender suas idéias a respeito do céu e da terra.

Em Alexandria, onde nascera Apolônio, havia um famoso farol chamado o Faros. Rodes, onde ele se tornou emérito professor, possuía uma enorme estátua de Apolo com as pernas escanchadas sobre a entrada da baía. Em Halicarnasso, lugar de nascimento de Heródoto, havia um grande e belo mausoléu. Estes três objetos faziam parte das sete maravilhas do mundo antigo; porém já desapareceram há muito tempo, e só nos resta a memória da sua glória. Os trabalhos dos antigos poetas e historiadores, todavia, ainda existem, despertando sempre nova admiração à medida que uma geração sucede à outra, para encontrar esclarecimento a respeito dos reinos áureos da antiguidade, frescos e novos em suas páginas encantadas. E assim será sempre, até o fim do mundo.

 


(fim da narrativa de George Baker em DEUSES E HERÓIS, Editora Brasiliense,
SP, 1960)






(*) já contadas nas Páginas de Mitologia



Moacir Índio da Costa Júnior

 

 
 
 


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