Existem muitas outras histórias relativas aos
dias da Grécia primitiva que
não encontraram lugar neste livro. Existe a
história de Prometeu que roubou
o fogo do céu para uso e conforto dos homens, e
de seu irmão Epimeteu, que
se casou com Pandora, a da Caixa Maravilhosa.
Existe também a história de
Deucalião e sua mulher Pirra dos Cabelos
Fulgurantes, os únicos a se
salvarem quando o mundo foi coberto pelo dilúvio
em conseqüência da maldade
dos homens; e a maneira pela qual eles
repovoaram a terra atirando para trás
por cima dos ombros os ossos da sua avó.
Existe também o Segredo Da Esfinge, e a história
do homem que manquejava;
e a de Pigmalião, o escultor que se apaixonou
tão loucamente pela estátua
que ele mesmo fizera que os deuses condoídos
resolveram insuflar-lhe a vida.
Histórias dos deuses - suas lutas contra os
gigantes, e sua conquista da
terra - ocupariam, somente elas, um outro
volume. (*)
Neste livro seguimos de preferência as
aventura.s das grandes famílias
descendentes de Pélops, Perseu e Dárdano, e
contamos a contenda entre a
Grécia, e Tróia, iniciada na Frígia e terminada
em Roma. Muitas destas
histórias foram tiradas de dois grandes poemas
de Homero, que viveu na
Grécia nas vizinhanças do ano 850 AC. Sete
diferentes cidades pretendem ser
seu lugar de origem se bem que lhe tenham dado
pouca. importancia enquanto
vivo; este fato fez com que o poeta inglês
escrevesse:
Sete cidades brigam por causa do falecido Homero.
Nas quais Homero em vida mendigara para não morrer de fome.
THOMAS SEWARD.
Mas afinal de contas o mundo é assim mesmo.
A história da busca do Velocino de Ouro foi
escrita num longo poema
chamado a Argonáutica por um poeta e professor
chamado Apolônio, que nasceu
em Alexandria em 221, AC. Viveu grande parte de
sua vida na Ilha de Rodes,
de maneira que era, conhecido por Apolônio Ródio.
A Ilíada de Homero narra o cerco de Tróia desde
a briga de Aquiles com
Agamenon até a morte de Heitor, se bem que
muitas anedotas dos tempos
primitivos se achem enxertadas no corpo da
narração. Virgílio, o poeta
romano, que viveu de 70 a 20 AC, continuou a
contar a história na sua Eneida
narrando os episódios do Cavalo de Pau, o saque
da cidade e as peregrinações
dos troianos até eles se estabelecerem na Itália
e fundarem a linhagem que
mais tarde fundou Roma. Quinto Esmirneu, poeta
grego do terceiro século,
também escreveu uma continuação da Ilíada.
As aventuras de Ulisses, depois da guerra de
Tróia, são narradas na
Odisséia de Homero. A história de Orestes,
Ifigênia e Electra, filhos de
Agamenon, acham-se nas obras de Ésquilo,
Eurípides e Sófocles, dramaturgos
gregos que escreveram algumas das mais antigas
peças do mundo.
Um poeta grego chamado Hesíodo, que viveu cerca
de 735 anos AC, escreveu a
respeito da criação do mundo e narrou a história
dos deuses em sua Teogonia.
Existiu também um historiador chamado Apolodoro
que viveu em Atenas mais ou
menos 200 anos antes de nossa era; de sua
Biblioteca vieram diversas outras
narrativas e lendas, e Ovídio, poeta romano do
século de Augusto utilizou
diversas de suas histórias nas Metamorfoses.
Na primeira parte de sua famosa História da
Guerra entre Gregos e Persas,
Heródoto, historiador grego nascido em
Halicarnasso no ano de 484 AC, conta
histórias das épocas lendárias. Em suas
peregrinações visitou o Egito e
descobriu que os sacerdotes daquele país
contavam a história da guerra de
Tróia de maneira completamente nova para ele.
Helena, diziam eles, nunca
estivera em Tróia. Pouco depois de deixar a
Grécia, o navio em que ela e
Páris viajavam, foi arrastado por uma tempestade
para as costas do Egito,
onde veio a naufragar. Quando o faraó soube da
história do rapto, ficou
furioso com Páris por ter abusado da
hospitalidade de Menelau, e, se as leis
do Egito o permitissem, teria mandado matar a
Páris. Assim sendo deu-lhe
três dias de prazo para deixar o Egito, passados
os quais seria considerado
como inimigo e posto à morte se fosse encontrado
em território egípcio.
Helena foi entregue aos cuidados da sacerdotisa
de um templo até seu marido
Menelau reclamá-la, enquanto Páris voltava
sozinho para Tróia.
Ora, um poeta grego chamado Estesícoro, que
viveu na Sicília 100 anos
antes do nascimento de Heródoto , tinha escrito
diversos poemas denunciando
Helena, nos quais afirmava que ela nunca
estivera em Tróia. Todos os
relatos acordam-se no ponto de que depois da
queda de Tróia Menelau estivera
de fato no Egito, em que pese alguns deles
afirmarem que ele fora arrastado
por uma tempestade e que Helena já se achava em
sua companhia. Os
derradeiros dramaturgos gregos, em suas peças,
sugeriam que não era a
verdadeira Helena que se achava, em Tróia
durante o cerco daquela cidade,
porém uma sua homônima.
Se é verdade que Helena não esteve em Tróia,
então, um trágico engano fora
cometido; pois os gregos não podiam acreditar
que ela não estivesse ali, nem
podiam os troianos provar que ela estava no
Egito. E neste caso aquela
guerra cruenta terá sido feita sem motivo.
Existem traduções inglesas de Homero, Virgílio,
Apolônio, Ovídio, Quinto
Esmirneu, Heródoto e os dramaturgos gregos; em
si só constituem uma
literatura. Algumas são em versos; outras são
traduções mais ou menos
literais. Autores modernos contaram de novo
muitas das antigas narrações
com tanta perfeição que seus livros são
conhecidos no mundo todo. Entre
eles encontram-se Os Heróis de Kingsley, os
Contos de Tanglewood, de
Hawthorne e a Idade da Fábula de Bullfinch; ao
passo que Os Mitos da Grécia
e de Roma de Guerber e Homens e Deuses de Rex
Warner são verdadeiros
tesouros de histórias recontadas.
As novas traduções em prosa da Ilíada e da
Odisséia de Homero pelo Dr. E.
V. Rieu nos Clássicos Penguin são notáveis não
somente pelas histórias que
contêm, mas como também pelos interessantes e
instrutivos ensaios
introdutórios feitos pelo tradutor.
Um estudo detalhado daquela época foi feito por
Marjorie e C. H. B.
Quennell, em sua obra Coisas de Todos os Dias na
Grécia Homérica que
descreve as construções, os navios, as
vestimentas, as armas e as armaduras,
as artes, o trabalho e os divertimentos, 3.000
anos atrás.
Dicionários clássicos dão resumos das histórias
e dos heróis, dos monstros
e dos homens, colocados em ordem alfabética. Um
atlas clássico permite-nos
seguir as viagens dos heróis daqueles tempos, e
verificar quanto se
incrementou o conhecimento que os homens têm do
mundo com a construção de
navios maiores e mais seguros e com a ciência da
navegação pelos astros.
O leitor não terá, pois, que procurar muito
longe se desejar saber mais
coisas a respeito das pessoas e dos povos
descritos neste livro, e melhor
compreender suas idéias a respeito do céu e da
terra.
Em Alexandria, onde nascera Apolônio, havia um
famoso farol chamado o
Faros. Rodes, onde ele se tornou emérito
professor, possuía uma enorme
estátua de Apolo com as pernas escanchadas sobre
a entrada da baía. Em
Halicarnasso, lugar de nascimento de Heródoto,
havia um grande e belo
mausoléu. Estes três objetos faziam parte das
sete maravilhas do mundo
antigo; porém já desapareceram há muito tempo, e
só nos resta a memória da
sua glória. Os trabalhos dos antigos poetas e
historiadores, todavia, ainda
existem, despertando sempre nova admiração à
medida que uma geração sucede à
outra, para encontrar esclarecimento a respeito
dos reinos áureos da
antiguidade, frescos e novos em suas páginas
encantadas. E assim será
sempre, até o fim do mundo.
(fim da narrativa de George Baker em DEUSES E
HERÓIS, Editora Brasiliense,
SP, 1960)