PÁGINA DE MITOLOGIA

 

GEORGE BAKER



Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega




Editora Brasiliense
São Paulo
1960

 

 

Quinta Parte

Depois da Guerra






CAPITULO XXXI

COMO SE CUMPRIU FINALMENTE UMA ANTIGA PROFECIA

 



Enquanto isto, que fim levara Enéias e os sobreviventes de Tróia? Eles,
também, tinham encontrado, finalmente, a terra prometida e o descanso, após tantos trabalhos e provações.Depois de deixarem a Caônia, onde reinavam Heleno e Andrômaca, percorreram a estreita passagem, na entrada do Mar Adriático, até o salto da bota italiana, onde apartaram. Ao verem quatro cavalos brancos pastando no litoral, Anquises, que era douto em matéria de prenúncios, declarou que aqueles cavalos constituíam um aviso para não permanecerem naquele lugar, porque era sinal de guerra. Depois de oferecerem um sacrifício a Atena e a Hera fizeram-se os troianos de novo ao mar, velejando rumo a sudoeste, para a Sicília.

Aí avistaram o monte Etna, grande vulcão. Diziam que quando os deuses combatiam os gigantes, um gigante chamado Encelado foi atirado à terra por Zeus, que o enterrou debaixo de uma montanha. Acreditava o povo que as chamas que saíam da cratera eram o hálito ardente do gigante, e que quando ele se mexia debaixo do morro produzia terremotos que faziam tremer a ilha toda. Os troianos contemplaram com espanto esta maravilha e se apressaram em se afastar da sua proximidade ameaçadora.

Aportando pouco mais longe ao longo da costa, foram surpreendidos pelo súbito aparecimento de um homem tão esquálido de fome que mais se parecia com uma sombra do que com uma criatura viva. Disse ser seu nome Aquemênides, e que tinha sido abandonado ali quando Ulisses e seus companheiros escaparam da caverna do Ciclope Polifemo. Aconselhou os troianos a que não se demorassem naquelas paragens, e fugissem do monstro e de seus vizinhos gigantes, que detestavam os homens e não temiam os deuses.

Apenas tinham os navios largado, chegou Polifemo à praia, para banhar o seu olho vazado; tremeram os troianos só de vê-lo e de ouvir suas imprecações. Ele ouviu o malhar dos remos e soltou urros furiosos; eles, porém, já estavam fora do seu alcance. Seus gigantescos vizinhos acorreram ao alto da falésia, vociferando ameaças contra os troianos, mas nem mesmo sua força descomunal foi bastante para alcançarem as naus troianas com os rochedos que arremessavam.

Antes da pequena frota deixar as costas da Sicília, Anquises morreu com idade avançada. Foi enterrado com os ritos devidos a um Rei, e ali deixado repousar enquanto seu filho e seu povo, enlutados, embarcavam-se mais unia vez em busca da, terra prometida.

Suave brisa arrastou os navios para sudoeste, até a cidade de Cartago, governada por uma rainha chamada Dido, filha do Rei de Tiro. Seu marido tinha sido assassinado pelo irmão; Dido, com um grupo de habitantes de Tiro, deixara a pátria e fora fundar aquela colônia na costa norte da África. Contam que o rei da localidade concedeu-lhe uma gleba que poderia ser abrangida pela pele de um boi. Dido mandou cortar a pele num imenso número de finíssimas tiras, que amarrou umas às outras, de maneira que conseguiu circundar uma área bastante grande para construir nela sua cidadela, que, devido à sua origem, era chamada Birsa. A colônia prosperou e se desenvolveu, até tornar-se Cartago uma das mais ricas cidades do mundo.

A Rainha Dido recebeu os troianos com cortesia e bondade, e ficou tão
apaixonada por Enéias que não o queria deixar partir. Aquele, porém, não era o império que Zeus destinava à linhagem de Enéias. Enviou, pois, o Mensageiro Hermes para avisá-lo de que devia partir seguindo viagem, e, quando a Rainha Dido veio a. saber que ele tinha deixado secretamente os seus domínios, ficou tão amargurada que pôs fim à existência.

Se bem que tivesse chegado até aquele ponto são e salvo, e que houvesse prestado honras e sacrifícios à deusa Hera, Enéias não conseguira ainda aplacar a inimizade da Rainha do Olimpo. Foi ela quem insinuou no espírito das mulheres troianas, que viajavam com os marujos, a idéia de porem um ponto final naquela peregrinação, e na cansativa busca de uma nova pátria que parecia difícil de ser encontrada. Planejaram pôr fogo aos navios, e chegaram mesmo a destruir quatro deles por esse meio, quando Zeus enviou um aguaceiro para salvar o resto da frota.

Longe de se zangar com as mulheres, condoía-se Enéias de sua sorte, e construiu, na Sicília, uma cidade onde ficaram vivendo aquelas que já eram velhas ou doentes ou que estavam cansadas do mar. Esta cidade foi chamada Acesta, em honra do Rei Acestes em cujos domínios fora construída e que a ela estendeu sua proteção.

Afinal, chegaram os troianos ao território itálico, sua terra prometida. Havia um esplêndido templo de Apolo em Cumas, onde desembarcaram, e ali ofereceu Enéias um sacrifício, recebendo o oráculo da sacerdotisa, que se chamava a Sibila.

É para este lugar que o grande escultor e inventor ateniense, chamado Dédalo, veio muitos anos antes, quando fora expulso de Creta pela cólera do Rei Minos, por ter ajudado a Rainha Pasífae a cometer o crime pelo qual fora punida com o nascimento do Minotauro. Dédalo fabricou grandes asas com hastes articuladas e penas de águia, com as quais conseguiu voar. Seu filho Ícaro voara com ele, mas desprezou o seu aviso para não se aproximar muito do sol. Voou cada vez mais alto, com suas grandes asas, tão alto que o calor do sol derreteu a cera que prendia as penas, e caiu ao mar onde morreu. As asas de Dédalo foram mostradas a Enéias juntamente com muitas outras relíquias do engenhoso ateniense.

Helena tinha prevenido Enéias de que em Cumas seria levado ao MundoSubterrâneo. Sua relutância em descer ao horrível Império das Sombras foi mitigada pela perspectiva de rever seu querido pai; e grande foi sua alegria ao se encontrar de novo com Anquises, e de ser informado por ele da futura, grandeza de sua raça. Foi-lhe facultada a antevisão das gerações que estavam por nascer, que perpetuariam seu nome através dos séculos, até atingir o cume da glória com a Roma Universal e Imperial.

Superada esta provação, Enéias navegou rumo a um país chamado Lácio, na costa ocidental da Itália. Aí ele foi recebido com carinho pelo Rei Latino, que passava por neto do deus Saturno, pai de Zeus. Não tinha este rei um filho para sucedê-lo no trono, e prometera sua formosa filha Lavínia em casamento a um jovem príncipe chamado Turno, que, pelo nascimento e o caráter, estava em condições de herdar a realeza.

Ora, muito embora a mãe de Lavínia, a Rainha Amata, quisesse a união da sua filha com Turno, o Rei Latino não deixava se realizarem os esponsais depois de saber, por meio de um oráculo, que os deuses desaprovavam o matrimônio, e que ele deveria dar a mão de sua bela filha a um príncipe estrangeiro que iria aportar nas costas do seu reino.

A chegada de Enéias pareceu constituir o cumprimento desta profecia, como de fato constituiu; pois Enéias e Lavínia apaixonaram-se mutuamente, e como todas as aparências indicavam que era esta a terra em que a nova Tróia realizaria, a sua grandeza, conseguiu Enéias que o velho rei o adotasse por marido de Lavínia, de preferência a Turno.

A Rainha Amata,, todavia, tomou o partido de Turno, que, furioso com a perspectiva de perder o reino do Lácio e a princesa que ele tanto amava, declarou guerra a Enéias com intenção de expulsar os troianos para fora do país. Com o apoio dos deuses, porém, Enéias e seus companheiros lutaram com valentia. Outras nações aderiram à contenda, de um lado e de outro, de maneira que o Rei Latino, temeroso de que seu país fosse devastado e arruinado pela guerra, pediu um armistício, convidando Enéias e Turno a decidirem a disputa por meio de combate singular, do qual Lavínia seria o prêmio.

Os dois chefes concordaram; depuseram as armas os dois exércitos, enquanto Turno e Enéias realizavam o duelo. A maior experiência e destreza do troiano deram-lhe a vitória; não obstante poder ele poupar a vida de seu adversário mais moço, quando o tinha desarmado aos seus pés, lembrou-se de que este matara perfidamente a um seu amigo e adversário chamado Palas, nos primeiros dias da guerra. Esta lembrança endureceu-lhe o coração, e com um poderoso golpe de lança matou o seu inimigo.

Assim casaram-se Enéias e Lavínia, herdando Enéias o reino do Lácio quando veio a falecer o velho rei, regozijando-se, com isto, tanto os troianos como as populações nativas. Mas a Rainha Amata, que detestava o seu genro, preferiu pôr fim à existência a ver Enéias no trono, no lugar de seu marido. Iulo, filho de Enéias e de Creusa, filha de Priamo, tornou-se o herdeiro eventual do trono, e dizem que mais tarde Enéias abdicou em seu favor e voltou para sua terra natal a fim de reconstruir Tróia. Iulo, que alguns chamam de Ascânio, construiu uma cidade no Lácio no local onde, como tinha sido profetizado por Heleno, encontrara uma porca branca com trinta leitões, todos tão alvos quanto a mãe. A cidade foi chamada Alba, e, ali, os descendentes de Enéias e de Lavínia reinaram e prosperaram, até que, uns quatrocentos anos mais tarde, Rômulo, nascido de sua linhagem, fundou a cidade de Roma.

Assim renovou-se a glória de Tróia destruída, e os deuses que Dárdano levara para a Frígia foram repatriados para o seu lar primitivo. A história nos conta a maneira pela qual mais tarde a Grécia foi conquistada, por Roma; e, nesta conquista, vêem alguns o último eco da antiga contenda entre Tântalo e Tros, com a qual esta história começou. Pode-se também deduzir daí que a deusa Hera tinha, afinal, desistido de perseguir a raça de Tróia, pois que com o nome de Juno se tornou uma das mais queridas e honradas protetoras de Roma, enquanto Zeus, chamado Júpiter pelos romanos, concedeu a vitória às suas armas que conquistaram todo o mundo conhecido.

Orgulhavam-se as grandes famílias romanas de descenderem dos homens que vieram de Tróia com Enéias, do qual o próprio Imperador Augusto pretendia descender. Assim, pode bem ser que, ao tornar-se a Bretanha uma possessão romana, o sangue de Tróía tenha vindo para essas Ilhas com os invasores, e ainda corra nas veias de alguns inglêses até os dias de hoje. Quem sabe?





[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em

DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 

 
 
 


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