Enquanto isto, que fim levara Enéias e os
sobreviventes de Tróia? Eles,
também, tinham encontrado, finalmente, a terra
prometida e o descanso, após
tantos trabalhos e provações.Depois de deixarem a Caônia, onde reinavam
Heleno e Andrômaca, percorreram
a estreita passagem, na entrada do Mar Adriático,
até o salto da bota
italiana, onde apartaram. Ao verem quatro
cavalos brancos pastando no
litoral, Anquises, que era douto em matéria de
prenúncios, declarou que
aqueles cavalos constituíam um aviso para não
permanecerem naquele lugar,
porque era sinal de guerra. Depois de oferecerem
um sacrifício a Atena e a
Hera fizeram-se os troianos de novo ao mar,
velejando rumo a sudoeste, para
a Sicília.
Aí avistaram o monte Etna, grande vulcão. Diziam
que quando os deuses
combatiam os gigantes, um gigante chamado
Encelado foi atirado à terra por
Zeus, que o enterrou debaixo de uma montanha.
Acreditava o povo que as
chamas que saíam da cratera eram o hálito
ardente do gigante, e que quando
ele se mexia debaixo do morro produzia
terremotos que faziam tremer a ilha
toda. Os troianos contemplaram com espanto esta
maravilha e se apressaram
em se afastar da sua proximidade ameaçadora.
Aportando pouco mais longe ao longo da costa,
foram surpreendidos pelo
súbito aparecimento de um homem tão esquálido de
fome que mais se parecia
com uma sombra do que com uma criatura viva.
Disse ser seu nome
Aquemênides, e que tinha sido abandonado ali
quando Ulisses e seus
companheiros escaparam da caverna do Ciclope
Polifemo. Aconselhou os
troianos a que não se demorassem naquelas
paragens, e fugissem do monstro e
de seus vizinhos gigantes, que detestavam os
homens e não temiam os deuses.
Apenas tinham os navios largado, chegou Polifemo
à praia, para banhar o seu
olho vazado; tremeram os troianos só de vê-lo e
de ouvir suas imprecações.
Ele ouviu o malhar dos remos e soltou urros
furiosos; eles, porém, já
estavam fora do seu alcance. Seus gigantescos
vizinhos acorreram ao alto da
falésia, vociferando ameaças contra os troianos,
mas nem mesmo sua força
descomunal foi bastante para alcançarem as naus
troianas com os rochedos que
arremessavam.
Antes da pequena frota deixar as costas da
Sicília, Anquises morreu com
idade avançada. Foi enterrado com os ritos
devidos a um Rei, e ali deixado
repousar enquanto seu filho e seu povo,
enlutados, embarcavam-se mais unia
vez em busca da, terra prometida.
Suave brisa arrastou os navios para sudoeste,
até a cidade de Cartago,
governada por uma rainha chamada Dido, filha do
Rei de Tiro. Seu marido
tinha sido assassinado pelo irmão; Dido, com um
grupo de habitantes de Tiro,
deixara a pátria e fora fundar aquela colônia na
costa norte da África.
Contam que o rei da localidade concedeu-lhe uma
gleba que poderia ser
abrangida pela pele de um boi. Dido mandou
cortar a pele num imenso número
de finíssimas tiras, que amarrou umas às outras,
de maneira que conseguiu
circundar uma área bastante grande para
construir nela sua cidadela, que,
devido à sua origem, era chamada Birsa. A
colônia prosperou e se
desenvolveu, até tornar-se Cartago uma das mais
ricas cidades do mundo.
A Rainha Dido recebeu os troianos com cortesia e
bondade, e ficou tão
apaixonada por Enéias que não o queria deixar
partir. Aquele, porém, não
era o império que Zeus destinava à linhagem de
Enéias. Enviou, pois, o
Mensageiro Hermes para avisá-lo de que devia
partir seguindo viagem, e,
quando a Rainha Dido veio a. saber que ele tinha
deixado secretamente os
seus domínios, ficou tão amargurada que pôs fim
à existência.
Se bem que tivesse chegado até aquele ponto são
e salvo, e que houvesse
prestado honras e sacrifícios à deusa Hera,
Enéias não conseguira ainda
aplacar a inimizade da Rainha do Olimpo. Foi ela
quem insinuou no espírito
das mulheres troianas, que viajavam com os
marujos, a idéia de porem um
ponto final naquela peregrinação, e na cansativa
busca de uma nova pátria
que parecia difícil de ser encontrada.
Planejaram pôr fogo aos navios, e
chegaram mesmo a destruir quatro deles por esse
meio, quando Zeus enviou um
aguaceiro para salvar o resto da frota.
Longe de se zangar com as mulheres, condoía-se
Enéias de sua sorte, e
construiu, na Sicília, uma cidade onde ficaram
vivendo aquelas que já eram
velhas ou doentes ou que estavam cansadas do
mar. Esta cidade foi chamada
Acesta, em honra do Rei Acestes em cujos
domínios fora construída e que a
ela estendeu sua proteção.
Afinal, chegaram os troianos ao território
itálico, sua terra prometida.
Havia um esplêndido templo de Apolo em Cumas,
onde desembarcaram, e ali
ofereceu Enéias um sacrifício, recebendo o
oráculo da sacerdotisa, que se
chamava a Sibila.
É para este lugar que o grande escultor e
inventor ateniense, chamado
Dédalo, veio muitos anos antes, quando fora
expulso de Creta pela cólera do
Rei Minos, por ter ajudado a Rainha Pasífae a
cometer o crime pelo qual fora
punida com o nascimento do Minotauro. Dédalo
fabricou grandes asas com
hastes articuladas e penas de águia, com as
quais conseguiu voar. Seu filho
Ícaro voara com ele, mas desprezou o seu aviso
para não se aproximar muito
do sol. Voou cada vez mais alto, com suas
grandes asas, tão alto que o
calor do sol derreteu a cera que prendia as
penas, e caiu ao mar onde
morreu. As asas de Dédalo foram mostradas a
Enéias juntamente com muitas
outras relíquias do engenhoso ateniense.
Helena tinha prevenido Enéias de que em Cumas
seria levado ao MundoSubterrâneo. Sua relutância em descer ao
horrível Império das Sombras foi
mitigada pela perspectiva de rever seu querido
pai; e grande foi sua alegria
ao se encontrar de novo com Anquises, e de ser
informado por ele da futura,
grandeza de sua raça. Foi-lhe facultada a
antevisão das gerações que
estavam por nascer, que perpetuariam seu nome
através dos séculos, até
atingir o cume da glória com a Roma Universal e
Imperial.
Superada esta provação, Enéias navegou rumo a um
país chamado Lácio, na
costa ocidental da Itália. Aí ele foi recebido
com carinho pelo Rei Latino,
que passava por neto do deus Saturno, pai de
Zeus. Não tinha este rei um
filho para sucedê-lo no trono, e prometera sua
formosa filha Lavínia em
casamento a um jovem príncipe chamado Turno, que,
pelo nascimento e o
caráter, estava em condições de herdar a realeza.
Ora, muito embora a mãe de Lavínia, a Rainha
Amata, quisesse a união da
sua filha com Turno, o Rei Latino não deixava se
realizarem os esponsais
depois de saber, por meio de um oráculo, que os
deuses desaprovavam o
matrimônio, e que ele deveria dar a mão de sua
bela filha a um príncipe
estrangeiro que iria aportar nas costas do seu
reino.
A chegada de Enéias pareceu constituir o
cumprimento desta profecia, como
de fato constituiu; pois Enéias e Lavínia
apaixonaram-se mutuamente, e como
todas as aparências indicavam que era esta a
terra em que a nova Tróia
realizaria, a sua grandeza, conseguiu Enéias que
o velho rei o adotasse por
marido de Lavínia, de preferência a Turno.
A Rainha Amata,, todavia, tomou o partido de
Turno, que, furioso com a
perspectiva de perder o reino do Lácio e a
princesa que ele tanto amava,
declarou guerra a Enéias com intenção de
expulsar os troianos para fora do
país. Com o apoio dos deuses, porém, Enéias e
seus companheiros lutaram com
valentia. Outras nações aderiram à contenda, de
um lado e de outro, de
maneira que o Rei Latino, temeroso de que seu
país fosse devastado e
arruinado pela guerra, pediu um armistício,
convidando Enéias e Turno a
decidirem a disputa por meio de combate
singular, do qual Lavínia seria o
prêmio.
Os dois chefes concordaram; depuseram as armas
os dois exércitos, enquanto
Turno e Enéias realizavam o duelo. A maior
experiência e destreza do
troiano deram-lhe a vitória; não obstante poder
ele poupar a vida de seu
adversário mais moço, quando o tinha desarmado
aos seus pés, lembrou-se de
que este matara perfidamente a um seu amigo e
adversário chamado Palas, nos
primeiros dias da guerra. Esta lembrança
endureceu-lhe o coração, e com um
poderoso golpe de lança matou o seu inimigo.
Assim casaram-se Enéias e Lavínia, herdando
Enéias o reino do Lácio quando
veio a falecer o velho rei, regozijando-se, com
isto, tanto os troianos como
as populações nativas. Mas a Rainha Amata, que
detestava o seu genro,
preferiu pôr fim à existência a ver Enéias no
trono, no lugar de seu marido.
Iulo, filho de Enéias e de Creusa, filha de
Priamo, tornou-se o herdeiro
eventual do trono, e dizem que mais tarde Enéias
abdicou em seu favor e
voltou para sua terra natal a fim de reconstruir
Tróia. Iulo, que alguns
chamam de Ascânio, construiu uma cidade no Lácio
no local onde, como tinha
sido profetizado por Heleno, encontrara uma
porca branca com trinta leitões,
todos tão alvos quanto a mãe. A cidade foi
chamada Alba, e, ali, os
descendentes de Enéias e de Lavínia reinaram e
prosperaram, até que, uns
quatrocentos anos mais tarde, Rômulo, nascido de
sua linhagem, fundou a
cidade de Roma.
Assim renovou-se a glória de Tróia destruída, e
os deuses que Dárdano
levara para a Frígia foram repatriados para o
seu lar primitivo. A história
nos conta a maneira pela qual mais tarde a
Grécia foi conquistada, por Roma;
e, nesta conquista, vêem alguns o último eco da
antiga contenda entre
Tântalo e Tros, com a qual esta história começou.
Pode-se também deduzir
daí que a deusa Hera tinha, afinal, desistido de
perseguir a raça de Tróia,
pois que com o nome de Juno se tornou uma das
mais queridas e honradas
protetoras de Roma, enquanto Zeus, chamado
Júpiter pelos romanos, concedeu a
vitória às suas armas que conquistaram todo o
mundo conhecido.
Orgulhavam-se as grandes famílias romanas de
descenderem dos homens que
vieram de Tróia com Enéias, do qual o próprio
Imperador Augusto pretendia
descender. Assim, pode bem ser que, ao tornar-se
a Bretanha uma possessão
romana, o sangue de Tróía tenha vindo para essas
Ilhas com os invasores, e
ainda corra nas veias de alguns inglêses até os
dias de hoje. Quem sabe?
[transcrição e adaptação do texto original de
George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]
Moacir Índio da Costa Júnior