Enquanto Telêmaco era hóspede de Menelau em
Esparta, veio a saber que o
assassínio do amigo de seu pai, Agamenon, tinha
sido vingado pelo seu filho
Orestes; porém a história não acabava aí.
Orestes tinha atingido a idade viril sob os
cuidados da irmã de seu pai e
de seu marido, o Rei Estrófio da Fócida. Desde
sua meninice sabia que seu pai tinha sido
assassinado ao regressar a Micenas, depois da
queda de Tróia, e que sebre ele recaía a
incumbência de punir os assassinos. Era esta uma
incumbência terrível, já que um deles era a sua
própria mãe; e ele, por sua vez, tornar-se-ia
passível de castigo se a matasse. Não obstante,
se não o fizesse, seria acusado em vida e punido
depois da morte por não vingar a morte do pai.
Foi assim que cresceu tendo que enfrentar esta
terrível alternativa.
Sua irmã Electra ajudou-o a tomar uma
resolução. Ela tivera adoração pelo
pai, e detestava tanto a mãe que o tinha
assassinado como a Egisto que
tomara o seu lugar. Constantemente, incitava
Orestes a matá-los, sem cuidar
das conseqüências; afinal, ao atingir dezoito
anos, veio ele a consentir.
Entretanto, não era fácil a tarefa que se
propunha. Estava Egisto
instalado no poder, dominando Micenas e outros
reinos de menor importância.
Não desejava Orestes perder a
vida naquela aventura, pois que era agora o
legítimo rei, e pretendia sentar-se no trono do
pai quando morresse o
usurpador. Então ele e Electra arquitetaram um
plano para chegarem aos seus fins pela astúcia.
Um dia, apresentou-se Electra no palácio,
chorando, com a notícia de que
Orestes tinha morrido na remota Fócida. Egisto
ouviu a notícia com prazer e
Clitemnestra, que odiava ao filho porque seu pai
era Agamenon, se regozijou
com ele. Combinaram oferecer, juntos, um
sacrifício em ação de graças no
templo de Apolo; quando se aproximavam das
portas do templo, porém, surgiu
Orestes detrás de uma coluna, apunhalando-os a
ambos. O povo de Micenas
ficou atônito com este assassínio; porém Orestes
disse-lhes que era filho de
Agamenon, e que não fizera mais do que infligir
o justo castigo àqueles que
assassinaram o seu pai e se apossaram do trono.
Levantar a mão contra seu
legítimo soberano seria infringir as leis
humanas e divinas; assim sendo, o
povo de Micenas aceitou Orestes por rei, e, em
obediência às suas ordens,
enterraram Egisto e Clitemnestra num túmulo
anônimo, fora dos muros da
cidade.
O castigo, de acordo com os costumes daqueles
tempos primitivos, fora
justo; porém, ao executá-lo, cometera, Orestes o
crime de matricídio ao
matar a sua própria mãe, e por este ato tornava-se,
por sua vez, merecedor
de punição. Em todas as horas do dia e da noite,
desde então, viu-se,
verberado pelas Fúrias que gritavam acusações
aos seus ouvidos frementes,
vergastando-o com chamas e escorpiões. Orestes
tornou-se pálido com a perda
do sono, débil de terror, desvairado por aquela
perseguição incessante, até
se sentir completamente desnorteado e procurar
desesperadamente um alívio
para os seus tormentos.
Neste terrível passo seu bom amigo e primo
Pilades, filho do Rei Estrófio,
demonstrou seu amor e sua lealdade. Seguindo
seu conselho dirigiu-se
Orestes ao oráculo de Apolo em Delfos, para
saber do deus como se poderia
livrar do castigo que o submetia a tão grande
agonia. Uma sacerdotisa
chamada Pítia sentava-se sobre um alto tripé,
situado em cima de uma fenda
da rocha da qual escapava um jato de fumaça. Ao
respirar aquele vapor,
tornava-se inspirada e, se bem que nenhum homem,
a não ser os sacerdotes,
podia interpretar o seu delírio, havia um padre
cuja função especial
consistia em ouvi-la e traduzir, para os
suplicantes, a vontade do deus,
manifestada pelas palavras da Pítia. Assim,
pois, quando Orestes, tendo
exposto o seu problema, escutava, desvairado, as
palavras que saíam dos
lábios da pitonisa, foi somente depois da
explicação do sacerdote que veio aconhecer a resposta da divindade.
- Seu castigo não terá término, disse-lhe, a
menos que viaje até o país
da Táurida, e traga, para a Grécia, a Estátua de Ártemis que se
encontra em um templo daquela
região.
Assim sendo embarcou-se Orestes, fazendo-se à
vela rumo à remota Táurida
com seu amigo e companheiro Pilades. Velejaram
para o norte e para leste,
passando de ilha em ilha; e depois pelo
Helesponto, em frente das
silenciosas ruínas sem vida da outrora orgulhosa
cidade de Tróia; através do
perigoso mar que bainha o norte da Frígia, e o
Estreito que hoje em dia
conhecemos por Bósforo. Atingiram assim o Mar
Negro, seguindo mais ou menos
a mesma rota que os Argonautas tinham percorrido
muitos anos antes.
A Táurida, que denominamos Criméia, era uma
grande península situada, na
costa do grande mar. O povo que a habitava, não
vivia em cidades ou
povoações, porém deslocava-se por todo o
território em seus cavalos e
carroções, dormindo debaixo de tendas. Havia,
entretanto, uma colônia
bastante importante no litoral, onde se
encontrava o templo da deusa Ártemis
e a moradia do Rei Toas, governador desta tribo
primitiva.
Ora, o Rei Toas era o mesmo que tinha sido
expulso, havia muito tempo, da
ilha de Lemnos, quando as mulheres daquele reino
massacraram todos os
homens. Era filho de Ariadne, a princesa
cretense que Teseu tinha
abandonado na ilha de Naxos, e pai de Hipsípile,
que se tinha apaixonado por
Jasão quando os Argonautas apartaram em Lemnos
em seu caminho para a
Cólquida. Depois de muitas aventuras e
contratempos, Toas havia aportado na
Táurida onde estabeleceu uma colônia, e onde os
meninos que com ele
escaparam de Lemnos cresceram, casaram-se e
constituíram família. Os tauros
fizeram de Toas seu Rei, e ele contentava-se em
respeitar seus antigos
hábitos e costumes, contanto que não se
intrometessem com a colônia de
lemnianos estabelecida no litoral.
Uma das práticas dos tauros consistia em
sacrificar à deusa, Ártemis os
estrangeiros que naufragavam em suas costas; mas
Orestes ignorava este fato.
Abicou a sua nau e procedeu, na companhia de
Pilades, a roubar a estátua de
Ártemis de seu templo. Não se passou muito
tempo, contudo, sem que fossem
percebidos, aprisionados e levados à presença do
rei, que lhes perguntou
quem eram e o que tinham vindo fazer na Táurida.
Não desejando revelar suas intenções, escondeu
Orestes seu verdadeiro
nome.
- Viemos das terras da Grécia, respondeu ele,
e estávamos a caminho para
fundarmos uma nova colônia; porém nosso navio naufragou
na sua costa, e todos os
nossos companheiros morreram.
- Você acaba de proferir sua própria sentença,
disse o Rei Toas, pois é
nosso costume sacrificar à deusa Ártemis todos
os estrangeiros que naufragam
nas nossas costas.
Sem deixar a Orestes ou Pilades a oportunidade
de dizerem mais uma palavra
ordenou que fossem levados ao templo de Ártemis,
e ali oferecidos em
sacrifício à deusa. Ficaram presos numa pequena
cela, meditando sobre o
triste fim que os esperava, enquanto os
mensageiros iam avisar a,
sacerdotisa do templo que havia dois gregos para
serem sacrificados.
Quando se abriu a porta da prisão e entrou uma
mulher com vestes talares e
coberta de um véu, Orestes e Pilades pensaram
que sua hora tinha chegado, e
prepararam-se para enfrentar a morte com coragem.
Porém a sacerdotisa
interrogou-os, pedindo notícias de Micenas e de
Esparta; pois,
confessou-lhes, também era grega de nascimento.
Para concluir, disse que
conquanto não os pudesse salvar a ambos, podia
libertar um deles para que
voltasse à Grécia, levando uma mensagem para seu
irmão. Deixou-os a sós
para decidirem qual deles seria libertado
enquanto se retirava para escrever
a carta.
- Você deve ir, Pilades, disse Orestes, pois
que se não podemos roubar a
estátua da deusa, preferiria morrer a continuar sofrendo a
perseguição das Fúrias.
- Você é o soberano de um grande reino, meu
primo e meu amigo, respondeu
Pilades. Como poderia eu abandoná-lo à morte e voltar
para a Grécia, sem você?
Durante muito tempo discutiram; porém, afinal,
muito a contragosto,
concordou Pilades em levar a carta da
sacerdotisa para a Grécia. Quando a,
sacerdotisa voltou, pegou Pilades a missiva e se
preparava para se despedir
para sempre de seu amigo, quando verificou
espantado que a carta estava
endereçada a Orestes de Micenas.
- É este o nome do homem que você diz ser seu
irmão? perguntou ele.
- Sim. Sou filha de Agamenon e de
Clitemnestra. Meu nome é Ifigênia,
respondeu a sacerdotisa. Então, rindo-se, entregou Pilades a carta a
Orestes.
- Aqui, disse ele, tem você o seu irmão
Orestes.
De início pensou Ifigênia que se tratava
apenas de uma tentativa para
ludibriá-la; porém, interrogando a Orestes,
verificou sem tardança que eram
de fato irmãos. Contou-lhes Ifigênia como fora
salva do cutelo de Calcas,
sacerdote da Áulida, no último momento pela
deusa Ártemis, que a levara para
a Táurida fazendo-a sacerdotisa de seu templo.
Contou-lhe Orestes o
assassínio de seu pai e a vingança que exercera
contra Egisto e sua mãe
culposa.
- E tão terrível f oi o castigo que sofria
por parte dos deuses,
acrescentou, que vim até aqui para roubar a estátua de Ártemis; pois somente isto poderia
aliviar os meus tormentos.
Quando Ifigênia ouviu essas palavras, e soube
que seu irmão e seu primo
não eram náufragos, resolveu não somente
ajudá-los como também embarcar-se
com eles para tornar à sua pátria. Conduziu-os
ao templo, onde arrebataram
a estátua, fugindo juntos o mais depressa que
puderam.
Entretanto, foram percebidos, e o Rei Toas
enfurecido perseguiu-os com um
grupo de homens armados. Estariam perdidos não
se tivesse a própria deusa
apresentado repentinamente a Toas,
embargando-lhe os passos.
- Tudo o que eles fizeram, declarou ela, foi
por ordem dos deuses. O
homem que leva a minha estátua é Orestes, Rei de Micenas, irmão da minha
sacerdotisa Ifigênia. Descende
ele de Pélops, sobre quem, há muito tempo, recaiu uma maldição. Chegou a hora de
ser apagada aquela antiga lágrimas e o sangue. Volte para a sua cidade,
Rei Toas, e não faça nenhum
mal àqueles que neste momento se preparam para deixar o seu reino; pois sobre
êles recairá, doravante, as
bênçãos dos deuses.
Foi assim que Orestes chegou são e salvo a
Micenas livre da perseguição
das Fúrias e sentindo-se aliviado. A estátua de
Ártemis foi colocada num
belo templo, numa localidade chamada Brauron,
onde os três viajantes
aportaram ao chegar da Táurida; lá permaneceu
durante muitos anos até ser
levada por Xerxes, o Rei Persa, quando invadiu a
Grécia.
Em recompensa de sua fidelidade e devoção,
Orestes deu Electra em
casamento a Pilades, e, ele, casou-se com
Hermíone, filha de Menelau e de
Helena; e dizem que todos viveram na maior
felicidade durante muitos anos.
Foi assim que terminou a longa, trama de
traições e de desastres e que
Orestes, o último rebento da estirpe de Pélops,
governou com sapiência a
cidade áurea de Micenas, feliz e abençoado pelo
seu povo. Erigiu um
esplêndido mausoléu em memória de seu pai
Agamenon, e construiu ricos
templos para os deuses. Ele e Hermíone tiveram
um filho chamado Tisameno,
que era Rei de Micenas quando, finalmente, os
descendentes de Héracles
retornaram à sua pátria e viram restaurados seus
direitos hereditários;
isto, porém, é uma outra história.
[transcrição e adaptação do texto original de
George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]
Moacir Índio da Costa Júnior