PÁGINA DE MITOLOGIA

 

GEORGE BAKER

 

Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega
 

Editora Brasiliense
São Paulo
1960


Quinta Parte

Depois da Guerra






CAPITULO XXX

A VINGANÇA DE ORESTES E O QUE ACONTECEU NO TEMPLO DE ÁRTEMIS



Enquanto Telêmaco era hóspede de Menelau em Esparta, veio a saber que o assassínio do amigo de seu pai, Agamenon, tinha sido vingado pelo seu filho Orestes; porém a história não acabava aí.

Orestes tinha atingido a idade viril sob os cuidados da irmã de seu pai e
de seu marido, o Rei Estrófio da Fócida. Desde sua meninice sabia que seu pai tinha sido assassinado ao regressar a Micenas, depois da queda de Tróia, e que sebre ele recaía a incumbência de punir os assassinos. Era esta uma incumbência terrível, já que um deles era a sua própria mãe; e ele, por sua vez, tornar-se-ia passível de castigo se a matasse. Não obstante, se não o fizesse, seria acusado em vida e punido depois da morte por não vingar a morte do pai. Foi assim que cresceu tendo que enfrentar esta terrível alternativa.

Sua irmã Electra ajudou-o a tomar uma resolução.  Ela tivera adoração pelo pai, e detestava tanto a mãe que o tinha assassinado como a Egisto que tomara o seu lugar.  Constantemente, incitava Orestes a matá-los, sem cuidar das conseqüências; afinal, ao atingir dezoito anos, veio ele a consentir.

Entretanto, não era fácil a tarefa que se propunha.  Estava Egisto instalado no poder, dominando Micenas e outros reinos de menor importância. Não desejava Orestes perder a vida naquela aventura, pois que era agora o legítimo rei, e pretendia sentar-se no trono do pai quando morresse o usurpador.  Então ele e Electra arquitetaram um plano para chegarem aos seus fins pela astúcia.

Um dia, apresentou-se Electra no palácio, chorando, com a notícia de que Orestes tinha morrido na remota Fócida. Egisto ouviu a notícia com prazer e Clitemnestra, que odiava ao filho porque seu pai era Agamenon, se regozijou com ele.  Combinaram oferecer, juntos, um sacrifício em ação de graças no templo de Apolo; quando se aproximavam das portas do templo, porém, surgiu Orestes detrás de uma coluna, apunhalando-os a ambos.  O povo de Micenas ficou atônito com este assassínio; porém Orestes disse-lhes que era filho de Agamenon, e que não fizera mais do que infligir o justo castigo àqueles que assassinaram o seu pai e se apossaram do trono.  Levantar a mão contra seu legítimo soberano seria infringir as leis humanas e divinas; assim sendo, o povo de Micenas aceitou Orestes por rei, e, em obediência às suas ordens, enterraram Egisto e Clitemnestra num túmulo anônimo, fora dos muros da cidade.

O castigo, de acordo com os costumes daqueles tempos primitivos, fora justo; porém, ao executá-lo, cometera, Orestes o crime de matricídio ao matar a sua própria mãe, e por este ato tornava-se, por sua vez, merecedor de punição.  Em todas as horas do dia e da noite, desde então, viu-se, verberado pelas Fúrias que gritavam acusações aos seus ouvidos frementes, vergastando-o com chamas e escorpiões.  Orestes tornou-se pálido com a perda do sono, débil de terror, desvairado por aquela perseguição incessante, até se sentir completamente desnorteado e procurar desesperadamente um alívio para os seus tormentos.

Neste terrível passo seu bom amigo e primo Pilades, filho do Rei Estrófio, demonstrou seu amor e sua lealdade.  Seguindo seu conselho dirigiu-se Orestes ao oráculo de Apolo em Delfos, para saber do deus como se poderia livrar do castigo que o submetia a tão grande agonia.  Uma sacerdotisa chamada Pítia sentava-se sobre um alto tripé, situado em cima de uma fenda da rocha da qual escapava um jato de fumaça.  Ao respirar aquele vapor, tornava-se inspirada e, se bem que nenhum homem, a não ser os sacerdotes, podia interpretar o seu delírio, havia um padre cuja função especial consistia em ouvi-la e traduzir, para os suplicantes, a vontade do deus, manifestada pelas palavras da Pítia.  Assim, pois, quando Orestes, tendo exposto o seu problema, escutava, desvairado, as palavras que saíam dos lábios da pitonisa, foi somente depois da explicação do sacerdote que veio aconhecer a resposta da divindade.

 -  Seu castigo não terá término, disse-lhe, a menos que viaje até o país da Táurida, e traga, para a Grécia, a Estátua de Ártemis que se encontra em um templo daquela região.

Assim sendo embarcou-se Orestes, fazendo-se à vela rumo à remota Táurida com seu amigo e companheiro Pilades.  Velejaram para o norte e para leste, passando de ilha em ilha; e depois pelo Helesponto, em frente das silenciosas ruínas sem vida da outrora orgulhosa cidade de Tróia; através do perigoso mar que bainha o norte da Frígia, e o Estreito que hoje em dia conhecemos por Bósforo.  Atingiram assim o Mar Negro, seguindo mais ou menos a mesma rota que os Argonautas tinham percorrido muitos anos antes.

A Táurida, que denominamos Criméia, era uma grande península situada, na costa do grande mar. O povo que a habitava, não vivia em cidades ou povoações, porém deslocava-se por todo o território em seus cavalos e carroções, dormindo debaixo de tendas.  Havia, entretanto, uma colônia bastante importante no litoral, onde se encontrava o templo da deusa Ártemis e a moradia do Rei Toas, governador desta tribo primitiva.

Ora, o Rei Toas era o mesmo que tinha sido expulso, havia muito tempo, da ilha de Lemnos, quando as mulheres daquele reino massacraram todos os homens.  Era filho de Ariadne, a princesa cretense que Teseu tinha abandonado na ilha de Naxos, e pai de Hipsípile, que se tinha apaixonado por Jasão quando os Argonautas apartaram em Lemnos em seu caminho para a Cólquida.  Depois de muitas aventuras e contratempos, Toas havia aportado na Táurida onde estabeleceu uma colônia, e onde os meninos que com ele escaparam de Lemnos cresceram, casaram-se e constituíram família.  Os tauros fizeram de Toas seu Rei, e ele contentava-se em respeitar seus antigos hábitos e costumes, contanto que não se intrometessem com a colônia de lemnianos estabelecida no litoral.

Uma das práticas dos tauros consistia em sacrificar à deusa, Ártemis os estrangeiros que naufragavam em suas costas; mas Orestes ignorava este fato. Abicou a sua nau e procedeu, na companhia de Pilades, a roubar a estátua de Ártemis de seu templo.  Não se passou muito tempo, contudo, sem que fossem percebidos, aprisionados e levados à presença do rei, que lhes perguntou quem eram e o que tinham vindo fazer na Táurida.

Não desejando revelar suas intenções, escondeu Orestes seu verdadeiro nome.

-  Viemos das terras da Grécia, respondeu ele, e estávamos a caminho para fundarmos uma nova colônia; porém nosso navio naufragou na sua costa, e todos os nossos companheiros morreram.

- Você acaba de proferir sua própria sentença, disse o Rei Toas, pois é
nosso costume sacrificar à deusa Ártemis todos os estrangeiros que naufragam nas nossas costas.

Sem deixar a Orestes ou Pilades a oportunidade de dizerem mais uma palavra ordenou que fossem levados ao templo de Ártemis, e ali oferecidos em sacrifício à deusa.  Ficaram presos numa pequena cela, meditando sobre o triste fim que os esperava, enquanto os mensageiros iam avisar a, sacerdotisa do templo que havia dois gregos para serem sacrificados.

Quando se abriu a porta da prisão e entrou uma mulher com vestes talares e coberta de um véu, Orestes e Pilades pensaram que sua hora tinha chegado, e prepararam-se para enfrentar a morte com coragem.  Porém a sacerdotisa interrogou-os, pedindo notícias de Micenas e de Esparta; pois, confessou-lhes, também era grega de nascimento.  Para concluir, disse que conquanto não os pudesse salvar a ambos, podia libertar um deles para que voltasse à Grécia, levando uma mensagem para seu irmão.  Deixou-os a sós para decidirem qual deles seria libertado enquanto se retirava para escrever a carta.

 -  Você deve ir, Pilades, disse Orestes, pois que se não podemos roubar a estátua da deusa,  preferiria morrer a continuar sofrendo a perseguição das Fúrias.

 -  Você é o soberano de um grande reino, meu primo e meu amigo, respondeu Pilades. Como poderia eu abandoná-lo à morte e voltar para a Grécia, sem você?

Durante muito tempo discutiram; porém, afinal, muito a contragosto, concordou Pilades em levar a carta da sacerdotisa para a Grécia. Quando a, sacerdotisa voltou, pegou Pilades a missiva e se preparava para se despedir para sempre de seu amigo, quando verificou espantado que a carta estava endereçada a Orestes de Micenas.

-  É este o nome do homem que você diz ser seu irmão? perguntou ele.

- Sim.  Sou filha de Agamenon e de Clitemnestra.  Meu nome é Ifigênia,
respondeu a sacerdotisa. Então, rindo-se, entregou Pilades a carta a Orestes.

- Aqui, disse ele, tem você o seu irmão Orestes.

De início pensou Ifigênia que se tratava apenas de uma tentativa para
ludibriá-la; porém, interrogando a Orestes, verificou sem tardança que eram de fato irmãos.  Contou-lhes Ifigênia como fora salva do cutelo de Calcas, sacerdote da Áulida, no último momento pela deusa Ártemis, que a levara para a Táurida fazendo-a sacerdotisa de seu templo. Contou-lhe Orestes o assassínio de seu pai e a vingança que exercera contra Egisto e sua mãe culposa.

-  E tão terrível f oi o castigo que sofria por parte dos deuses, acrescentou, que vim até aqui para roubar a estátua de Ártemis; pois somente isto poderia aliviar os meus tormentos.

 Quando Ifigênia ouviu essas palavras, e soube que seu irmão e seu primo não eram náufragos, resolveu não somente ajudá-los como também embarcar-se com eles para tornar à sua pátria.  Conduziu-os ao templo, onde arrebataram a estátua, fugindo juntos o mais depressa que puderam.

Entretanto, foram percebidos, e o Rei Toas enfurecido perseguiu-os com um grupo de homens armados.  Estariam perdidos não se tivesse a própria deusa apresentado repentinamente a Toas, embargando-lhe os passos.

-  Tudo o que eles fizeram, declarou ela, foi por ordem dos deuses.  O homem que leva a  minha estátua é Orestes, Rei de Micenas, irmão da minha sacerdotisa Ifigênia.  Descende ele de Pélops, sobre quem, há muito tempo, recaiu uma maldição.  Chegou a hora de ser apagada aquela antiga lágrimas e o sangue.  Volte para a sua cidade, Rei Toas, e não faça nenhum mal àqueles que neste momento se preparam para deixar o seu reino; pois sobre êles recairá, doravante, as bênçãos dos deuses.

Foi assim que Orestes chegou são e salvo a Micenas livre da perseguição das Fúrias e sentindo-se aliviado.  A estátua de Ártemis foi colocada num belo templo, numa localidade chamada Brauron, onde os três viajantes aportaram ao chegar da Táurida; lá permaneceu durante muitos anos até ser levada por Xerxes, o Rei Persa, quando invadiu a Grécia.

Em recompensa de sua fidelidade e devoção, Orestes deu Electra em casamento a Pilades, e, ele, casou-se com Hermíone, filha de Menelau e de Helena; e dizem que todos viveram na maior felicidade durante muitos anos.

Foi assim que terminou a longa, trama de traições e de desastres e que Orestes, o último rebento da estirpe de Pélops, governou com sapiência a cidade áurea de Micenas, feliz e abençoado pelo seu povo.  Erigiu um esplêndido mausoléu em memória de seu pai Agamenon, e construiu ricos templos para os deuses. Ele e Hermíone tiveram um filho chamado Tisameno, que era Rei de Micenas quando, finalmente, os descendentes de Héracles retornaram à sua pátria e viram restaurados seus direitos hereditários; isto, porém, é uma outra história.




[transcrição e adaptação do texto original de George Baker, em DEUSES E HERÓIS,  editora Brasiliense, 1960.] Moacir Índio da Costa Júnior

 
 
 


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