Durante algum tempo sentiu-se Pélops feliz com
sua formosa esposa e seu novo reino.
Grande foi sua felicidade quando Hipodâmia
deu-lhe um filho a que puseram o nome de Piteu.
Passado um ano, mais ou menos, começou ele a
estender suas vistas pelas planícies e vales da
Élida, fazendo incursões a cavalo cada vez
mais distantes, para tomar conhecimento dos
reinos que confinavam com o seu e saber que
qualidade de gente os governava. Até que,
por fim, chegou a Micenas.
Ali encontrou um jovem soberano de nome Perseu,
recém-casado, que o acolheu amistosamente.
Sendo muito viajados e tendo passado por muitas
aventuras, não lhes faltavam assuntos para
demoradas conversas, e achavam, ambos, grande
prazer na companhia um do outro. Por
estranha coincidência também conseguira Perseu
atingir a realeza em virtude de uma profecia, e
das tentativas de certo rei para impedir sua
realização. Eis o que acontecera.
Na cidade vizinha de Argos vivera um rei de nome
Acrísio, cuja mulher lhe dera uma filha chamada
Dânae. Ao nascer, predissera um profeta
que quando ela crescesse teria um filho que
causaria a morte de seu avô. Por isso mandou o
rei construir uma torre de bronze e, quando
atingiu Dânae a idade de ter filhos, foi
aprisionada, na torre, cuja chave era guardada
em poder do Rei Acrísio que nunca a entregava a
quem quer que fôsse.
Ora, Dânae era tão bela que se tornou famosa.
Diziam todos que era judiação conservá-la
prisioneira numa torre de bronze; até que,
enfim, essa história chegou aos ouvidos dos
deuses e Zeus, soberano de todos eles, deus da
Trovoada, Senhor do Olimpo e da Terra, cujo
primeiro irmão, Poseidon, era deus do Mar e dos
Terremotos, e o segundo, Hades, governava o
Mundo das Trevas e os espíritos dos mortos -
Zeus, que sabia apreciar um rosto formoso e
estava sempre pronto a punir o
orgulho e a crueldade dos homens, resolveu
visitar Dânae, a despeito de todas as precauções
do pai. Transformando-se em chuva de ouro
penetrou na Torre de Bronze; espalhou-se, então,
a notícia em Argos que a filha cativa do Rei
dera à luz um filho cujo pai era o próprio
Zeus.
Acrísio, apavorado, mandou por secretamente sua
filha Dânae e seu filhinho numa frágil embarcação,
içou-lhe a vela impelindo-a para alto mar. Foi
o barco levado calmamente pelo vento até dar às
costas da Ilha de Serifos, onde a recolheu um
pescador chamado Díctis, que levou Dânae e seu
filhinho ao Rei Polidectes. Tratou-os o
Rei com bondade, tomando sobre si a educação
do menino, que se chamava Perseu, e entregando-o
às mãos de sacerdotes; e veio ele a ser um
rapaz belo, nobre e destemido.
Contudo quando Perseu se tornou homem, o Rei
enciumado, ficou temendo que conquistasse o amor
do povo e viesse a se apoderar do governo.
Resolveu, pois, desfazer-se dele. Por
outro lado, como estivesse Polidectes apaixonado
por sua mãe Dânae, desejando desposá-la, não
podia abertamente prejudicar o filho.
Resolveu, então, agir secretamente. Mandou, um
dia, preparar um grande festim para todos os
seus amigos e convidou-os sob condição de lhe
presentear, cada um deles, com belo e
veloz corcel. Estava Perseu incluído na
lista dos convidados. Mas, como fosse
jovem e destituído de posses, achava-se na
impossibilidade de adquirir um cavalo para
brindar o Rei.
- Entretanto , farei melhor do que isso, disse
Perseu. Qualquer pessoa pode dar um cavalo
de presente ao Rei. Eu lhe trarei aquilo
que nenhum homem no mundo ousaria buscar.
Irei ao país das Górgonas, matarei a Medusa de
cabeleira de serpentes e lhe trarei sua cabeça.
- Se fizer isso, tornou o Rei Polidectes, você
ficará sendo o mais valente dos homens.
Aceitarei com prazer a cabeça da Górgona em
vez de um corcel.
Sentia-se o Rei satisfeitíssimo, com a
temeridade do jovem, pois tinha a certeza, no íntimo
de que de tão perigosa aventura não sairia
Perseu são e salvo. Esquecera-se de que
era o rapaz filho de Zeus, grande Pai dos deuses
e dos homens. Zeus, sempre vigilante,
ouvira o desafio de Perseu, decidindo ajudá-lo
a realizá-lo. Assim foi que Perseu, ao
despedir-se de sua mãe, de partida da Ilha de
Serifos, encetou sua viagem aventurosa carregado
de magníficos presentes. De Hades, irmão de
Zeus, recebeu o famoso capacete que tornava
invisível quem o levasse à cabeça.
Deu-lhe Atena, filha de Zeus, um broquel tão
polido que mais parecia um espelho.
Hermes, o mensageiro
dos deuses, deu-lhe um par de coturnos alados,
enquanto de Hefestos, artífice em metais,
recebeu uma arma em forma de foice, que
era, a um só tempo, espada e punhal.
Com seus coturnos alados, e guiado pela deusa
Atena, Perseu voou por sobre mares e
terras até atingir uma caverna onde viviam dois
monstros conhecidos pelo nome de Irmãs Pardas.
Somente elas sabiam do paradeiro de Medusa.
Tinham essas criaturas feição de mulher, o
corpo recoberto de escamas de dragão e dotado
de asas de ouro.
- Por
mais terríveis que pareçam, disse a deusa,
elas têm em comum um só olho e um só dente,
que passam de uma para a outra segundo as
conveniências. Apodere-se deles quando
estiverem dormindo, e elas farão tudo o que você
quiser, com fito de reavê-los. Perseu, tornado
invisível com seu famoso capacete, esperou na
caverna
até adormecerem os monstros. Então, sem
fazer o mínimo ruído, tirou o olho de uma
delas e o dente da outra e aconchegou-se às
paredes da caverna. De repente, os
monstros acordaram.
- Irmã,
empreste-me o olho, disse uma delas, pois tenho
a impressão de que alguma coisa está
acontecendo.
- Não
tenho o olho, minha irmã. Estava com você
quando adormecemos.
-
Empreste-me o dente, minha irmã, pois estava
com você quando nos recolhemos.
-
Minha irmã, o dente não está comigo.
Quando perceberam que não mais possuíam o
dente ou o olho, sentiram-se apavoradas e
puseram-se a rugir. Em meio a seus bramidos,
Perseu falou.
- Irmãs Pardas, roubei seu olho e seu dente,
disse ele, e vocês os receberão de volta, se
me disserem onde se encontra Medusa com a
cabeleira de serpentes.
Ao ouvirem isto, rugiam os monstros mais alto do
que nunca, atirando-se de um lado da caverna
para o outro. Sem seu olho, todavia, não
podiam ver Perseu, para prendê-lo em suas
garras de bronze. Nessas condições
concordaram, finalmente, em revelar-lhe o
segredo que ele tanto queria saber.
- Terá de viajar muito longe na direção do
poente, para lá do mar o mais distante,
declarou uma delas, e lá você encontrará a
caverna onde vivem nossas três irmãs, as Górgonas.
São os seus nomes Esteno, Euríale e Medusa e são
mais perigosas do que nós, pois têm dentes
compridos e afiados como presas de javali, e
tem, Medusa, em lugar de cabelos, serpentes que
lhe nascem da cabeça. Das três, só Medusa é
mortal. Seja quem for que olhe para qualquer
delas, será, instantaneamente, transformado em
pedra.
Perseu restituiu, então, o olho e o dente às
Irmãs Pardas e voou muito alto por cima das
terras e dos mares, rumo ao poente, até atingir
a gruta onde moravam as três Górgonas. Naquela
conjuntura, ficou satisfeitíssimo de possuir o
escudo polido que lhe fora brindado por Atena,
pois que se tivesse olhado diretamente para as Górgonas,
mesmo estando elas adormecidas, se transmudaria
em pedra. Mas, usando seu broquel à guisa
de espelho pôde acercar-se dos monstros
adormecidos. Ergueram-se as serpentes sibilantes
da cabeça de Medusa; mas não podiam vê-lo,
porque trazia o capacete que o tornava invisível;
somente sabiam por instinto da proximidade de um
ser mortal. Antes que pudessem despertar e
prevenir Medusa, Perseu ergueu sua espada e com
golpe poderoso decepou aquela horrível cabeça.
Envolveu-a em seu manto, sem deitar-lhe os olhos
e se afastou da moradia das Górgonas, rumando
para o nascente e o mundo dos homens. Enquanto
voava, gotas de sangue da cabeça da Medusa caíam
de seu manto, no mar; e, coisa maravilhosa, no
mesmo instante em que tocavam a água
transformavam-se num cavalo branco, que abria
grandes e lindas asas, elevando-se no céu e
voando mais depressa que o próprio Perseu. Esse
cavalo chamava-se Pégaso e escolheu como
moradia o Monte Hélicon, onde viviam as nove
Musas. Por outro lado, conquanto Perseu o
ignorasse, outras gotas de sangue da Medusa, ao
caírem no mar, formaram Crisaor da Espada de
Ouro, que veio a ser mais tarde pai do monstro
tricéfalo chamado Quimera, do qual falaremos a
seguir.
[transcrição e adaptação do texto original
de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS
editora Brasiliense, 1960.]
Moacir Índio da Costa Júnior