PÁGINA DE MITOLOGIA

GEORGE BAKER




Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega


Editora Brasiliense
São Paulo
1960





Primeira Parte

O Advento de Pélops






CAPITULO III

(primeira parte)

A PRINCESA DA TORRE DE BRONZE E A BUSCA DA CABEÇA DA GÓRGONA




Durante algum tempo sentiu-se Pélops feliz com sua formosa esposa e seu novo reino.  Grande foi sua felicidade quando Hipodâmia deu-lhe um filho a que puseram o nome de Piteu.  Passado um ano, mais ou menos, começou ele a estender suas vistas pelas planícies e vales da Élida, fazendo incursões a cavalo cada vez mais distantes, para tomar conhecimento dos reinos que confinavam com o seu e saber que qualidade de gente os governava.  Até que, por fim, chegou a Micenas.

Ali encontrou um jovem soberano de nome Perseu, recém-casado, que o acolheu amistosamente. Sendo muito viajados e tendo passado por muitas aventuras, não lhes faltavam assuntos para demoradas conversas, e achavam, ambos, grande prazer na companhia um do outro.  Por estranha coincidência também conseguira Perseu atingir a realeza em virtude de uma profecia, e das tentativas de certo rei para impedir sua  realização. Eis o que acontecera.

Na cidade vizinha de Argos vivera um rei de nome Acrísio, cuja mulher lhe dera uma filha chamada Dânae.  Ao nascer, predissera um profeta que quando ela crescesse teria um filho que causaria a morte de seu avô. Por isso mandou o rei construir uma torre de bronze e, quando atingiu Dânae a idade de ter filhos, foi aprisionada, na torre, cuja chave era guardada em poder do Rei Acrísio que nunca a entregava a quem quer que fôsse.

Ora, Dânae era tão bela que se tornou famosa. Diziam todos que era judiação conservá-la prisioneira numa torre de bronze; até que, enfim, essa história chegou aos ouvidos dos deuses e Zeus, soberano de todos eles, deus da Trovoada, Senhor do Olimpo e da Terra, cujo primeiro irmão, Poseidon, era deus do Mar e dos Terremotos, e o segundo, Hades, governava o Mundo das Trevas e os espíritos dos mortos - Zeus, que sabia apreciar um rosto formoso e estava sempre pronto a punir o orgulho e a crueldade dos homens, resolveu visitar Dânae, a despeito de todas as precauções do pai.  Transformando-se em chuva de ouro penetrou na Torre de Bronze; espalhou-se, então, a notícia em Argos que a filha cativa do Rei dera à luz um filho cujo pai era o próprio Zeus.

Acrísio, apavorado, mandou por secretamente sua filha Dânae e seu filhinho numa frágil embarcação, içou-lhe a vela impelindo-a para alto mar. Foi o barco levado calmamente pelo vento até dar às costas da Ilha de Serifos, onde a recolheu um pescador chamado Díctis, que levou Dânae e seu filhinho ao Rei Polidectes.  Tratou-os o Rei com bondade, tomando sobre si a educação do menino, que se chamava Perseu, e entregando-o às mãos de sacerdotes; e veio ele a ser um rapaz belo, nobre e destemido.

Contudo quando Perseu se tornou homem, o Rei enciumado, ficou temendo que conquistasse o amor do povo e viesse a se apoderar do governo. Resolveu, pois, desfazer-se dele.  Por outro lado, como estivesse Polidectes apaixonado por sua mãe Dânae, desejando desposá-la, não podia abertamente prejudicar o filho.  Resolveu, então, agir secretamente. Mandou, um dia, preparar um grande festim para todos os seus amigos e convidou-os sob condição de lhe presentear, cada um deles, com belo e veloz corcel.  Estava Perseu incluído na lista dos convidados.  Mas, como fosse jovem e destituído de posses, achava-se na impossibilidade de adquirir um cavalo para brindar o Rei.

- Entretanto , farei melhor do que isso, disse Perseu.  Qualquer pessoa pode dar um cavalo de presente ao Rei.  Eu lhe trarei aquilo que nenhum homem no mundo ousaria buscar.  Irei ao país das Górgonas, matarei a Medusa de cabeleira de serpentes e lhe trarei sua cabeça.

- Se fizer isso, tornou o Rei Polidectes, você ficará sendo o mais valente dos homens.  Aceitarei com prazer a cabeça da Górgona em vez de um corcel.

Sentia-se o Rei satisfeitíssimo, com a temeridade do jovem, pois tinha a certeza, no íntimo de que de tão perigosa aventura não sairia Perseu são e salvo.  Esquecera-se de que era o rapaz filho de Zeus, grande Pai dos deuses e dos homens.  Zeus, sempre vigilante, ouvira o desafio de Perseu, decidindo ajudá-lo a realizá-lo. Assim foi que Perseu, ao despedir-se de sua mãe, de partida da Ilha de Serifos, encetou sua viagem aventurosa carregado de magníficos presentes. De Hades, irmão de Zeus, recebeu o famoso capacete que tornava invisível quem o levasse à cabeça.  Deu-lhe Atena, filha de Zeus, um broquel tão polido que mais parecia um espelho.  Hermes, o mensageiro dos deuses, deu-lhe um par de coturnos alados, enquanto de Hefestos, artífice em metais, recebeu uma arma em forma de foice, que  era, a um só tempo, espada e punhal.

Com seus coturnos alados, e guiado pela deusa Atena, Perseu voou por sobre  mares e terras até atingir uma caverna onde viviam dois monstros conhecidos pelo nome de Irmãs Pardas.  Somente elas sabiam do paradeiro de Medusa. Tinham essas criaturas feição de mulher, o corpo recoberto de escamas de dragão e dotado de asas de ouro.

- Por mais terríveis que pareçam, disse a deusa, elas têm em comum um só olho e um só dente, que passam de uma para a outra segundo as conveniências.  Apodere-se deles quando estiverem dormindo, e elas farão tudo o que você quiser, com fito de reavê-los. Perseu, tornado invisível com seu famoso capacete, esperou na caverna até adormecerem os monstros.  Então, sem fazer o mínimo ruído, tirou o olho de uma delas e o dente da outra e aconchegou-se às paredes da caverna.  De repente, os monstros acordaram.

- Irmã, empreste-me o olho, disse uma delas, pois tenho a impressão de que alguma coisa está acontecendo.

- Não tenho o olho, minha irmã.  Estava com você quando adormecemos.

- Empreste-me o dente, minha irmã, pois estava com você quando nos recolhemos.

- Minha irmã, o dente não está comigo.

Quando perceberam que não mais possuíam o dente ou o olho, sentiram-se apavoradas e puseram-se a rugir. Em meio a seus bramidos, Perseu falou.
 
- Irmãs Pardas, roubei seu olho e seu dente, disse ele, e vocês os receberão de volta, se me disserem onde se encontra Medusa com a cabeleira de serpentes.

Ao ouvirem isto, rugiam os monstros mais alto do que nunca, atirando-se de um lado da caverna para o outro.  Sem seu olho, todavia, não podiam ver Perseu, para prendê-lo em suas garras de bronze. Nessas condições concordaram, finalmente, em revelar-lhe o segredo que ele tanto queria saber.

- Terá de viajar muito longe na direção do poente, para lá do mar o mais distante, declarou uma delas, e lá você encontrará a caverna onde vivem nossas três irmãs, as Górgonas. São os seus nomes Esteno, Euríale e Medusa e são mais perigosas do que nós, pois têm dentes compridos e afiados como presas de javali, e tem, Medusa, em lugar de cabelos, serpentes que lhe nascem da cabeça. Das três, só Medusa é mortal. Seja quem for que olhe para qualquer delas, será, instantaneamente, transformado em pedra.

Perseu restituiu, então, o olho e o dente às Irmãs Pardas e voou muito alto por cima das terras e dos mares, rumo ao poente, até atingir a gruta onde moravam as três Górgonas. Naquela conjuntura, ficou satisfeitíssimo de possuir o escudo polido que lhe fora brindado por Atena, pois que se tivesse olhado diretamente para as Górgonas, mesmo estando elas adormecidas, se transmudaria em pedra.  Mas, usando seu broquel à guisa de espelho pôde acercar-se dos monstros adormecidos. Ergueram-se as serpentes sibilantes da cabeça de Medusa; mas não podiam vê-lo, porque trazia o capacete que o tornava invisível; somente sabiam por instinto da proximidade de um ser mortal.  Antes que pudessem despertar e prevenir Medusa, Perseu ergueu sua espada e com golpe poderoso decepou aquela horrível cabeça.

Envolveu-a em seu manto, sem deitar-lhe os olhos e se afastou da moradia das Górgonas, rumando para o nascente e o mundo dos homens. Enquanto voava, gotas de sangue da cabeça da Medusa caíam de seu manto, no mar; e, coisa maravilhosa, no mesmo instante em que tocavam a água transformavam-se num cavalo branco, que abria grandes e lindas asas, elevando-se no céu e voando mais depressa que o próprio Perseu. Esse cavalo chamava-se Pégaso e escolheu como moradia o Monte Hélicon, onde viviam as nove Musas.  Por outro lado, conquanto Perseu o ignorasse, outras gotas de sangue da Medusa, ao caírem no mar, formaram Crisaor da Espada de Ouro, que veio a ser mais tarde pai do monstro tricéfalo chamado Quimera, do qual falaremos a seguir.



[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS
editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 
 
 


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