Excetuando-se a paciente Penélope e seu filho
Telêmaco, ninguém na ilha de
Ítaca acreditava que Ulisses ainda estivesse
vivo. Dez anos se haviam
passado desde a queda de Tróia, e durante todo
esse tempo não se ouvira
falar nele. Suas naus tinham sido avistadas
pela última vez lutando contra
a tempestade que matara Ajax da Lóerida e
espatifara tantos navios gregos
contra os rochedos da Eubéia. Até mesmo
Menelau e Helena tinham voltado
para Esparta, como veio a saber Telêmaco
quando empreendeu uma viagem para
descobrir o paradeiro de seu pai. A única
informação que Menelau lhe pode
dar foi um rumor que ouvira de um Velho Marujo,
que Ulisses estava cativo de
Calipso na Ilha de Ogígia; mas como ninguém
conhecesse o caminho para aquela
ilha, que pensavam situar-se nos remotos
confins do mundo conhecido, este
fato não trouxe ajuda nem consolo a Telêmaco.
Enquanto Telêmaco se achava em Esparta como
hóspede de Menelau um navio
fundeou na costa de Ítaca. Um grupo de homens
desceu à terra carregando um
companheiro profundamente adormecido.
Depositaram-no ao solo, envolto num
rico manto felpudo, e, ao seu lado, empilharam
grande quantidade de objetos
preciosos - ouro e prata, vasos de cobre e de
bronze, jóias e vestes
riquíssimas - e depois, sem acordá-lo,
retomaram à sua nau e fizeram-se à
vela.
O homem era Ulisses. Os deuses tiveram enfim
compaixão, e mandaram ordem
a Calipso para que o deixasse partir. Tinha
ele construído uma jangada que
o levou até ao rico e acolhedor povo da Feácia,
cujo rei, Alcino, o recebera
amistosamente, e, depois de ouvir a sua
história, tinha-o presenteado com um
tesouro mais valioso que aquele que
conquistara em Tróia, mandando-o para a
sua casa em um de seus navios.
Esta generosidade irritou grandemente
Posseidon, deus do mar, que ainda
não perdoara a Ulisses ter cegado o seu filho,
o Ciclope Polifemo.
Ergueu-se o deus das ondas; com um golpe de
sua possante mão abateu o navio
quando este se aproximava de seu destino,
transformando-o no mesmo instante
num rochedo preso ao fundo do mar; onde
permanece até os dias de hoje.
No entanto ignorava Ulisses este fato. Quando
acordou do sono profundo em
que os deuses o mergulharam, não sabia que
estava no solo de Ítaca. Com
satisfação contemplou os tesouros amontoados a
seu lado debaixo da árvore;
levantou-se, em seguida, à procura de alguém
que o pudesse informar onde se
encontrava.
A deusa Atena, que sempre tentara ajudá-lo
durante suas longas
tribulações, apresentou-se a ele sob a
aparência de um jovem pastor.
Respondendo às suas perguntas disse-lhe que se
achava na ilha de Ítaca. Ao
se dispersar a neblina da manhã, verificou
Ulisses que era verdade; e grande
foi sua alegria de estar de volta ao seu
querido reino. Porém a deusa
preveniu-o de que todos os perigos ainda não
tinham passado.
- Durante três anos, disse ela, sua paciente e
fiel esposa foi
importunada, para que se casasse de novo. Seus
pretendentes foram morar em
sua casa, onde mandam nos seus criados como se
fossem donos de tudo, e
gastam a herança de seu filho com despesas
extravagantes. Esses homens são
perigosos; já planejaram ficar à espera de
Telêmaco, para matá-lo quando
voltar de Esparta; se vierem a saber que você,
Rei de Ítaca e marido da bela
Penélope regressou sozinho, arranjarão meios
de tirar-lhe a vida.
- Neste caso que devo fazer? perguntou Ulisses.
- Dar-lhe-ei a aparência de um velho decrépito,
respondeu a deusa, e
transmudarei essas ricas vestes feácias em
roupas andrajosas. Assim você
chegará à sua casa sem ser conhecido, e os
pretendentes à mão de sua fiel
esposa não farão caso de você e se contentarão
com escarnecer sua velhice e
sua pobreza, e insultá-lo por ser um
forasteiro.
Concordou Ulisses prontamente com este plano,
e, no mesmo instante, a
deusa transformou-o num velho decrépito e
andrajoso. Depois de ter
escondido seu tesouro numa caverna, dirigiu-se
para sua casa para verificar
o que ali se passava. Parou, primeiro, na
cabana de um pastor chamado
Eumeu, que, ao dizer da deusa, lhe permanecera
fiel e detestava os
arrogantes pretendentes de Penélope. Ali
permaneceu ele algum tempo, sem ser
reconhecido por Eumeu, que, no entanto, o
tratou com benevolência em nome de
seu querido senhor Ulisses.
Enquanto isto Atena apareceu a Telêmaco, em
Esparta, mandando-o de volta
para casa, sem dizer-lhe, porém, que seu pai
havia regressado, são e salvo.
Avisado pela deusa, da emboscada, que lhe
preparavam os pretendentes,
desembarcou Telêmaco, secretamente, dirigindo-se
à cabana do pastor Eumeu.
Ali encontrou Ulisses sem, no entanto
reconhecê-lo em seu disfarce; porém,
Atena tocou em Ulisses e este recuperou sua
verdadeira aparência; pai e
filho abraçaram-se, mais felizes do que se
poderia dizer, por se reverem de
novo.
Compreendia Ulisses, pelo que lhe contaram
Telêmaco e o pastor, que não
seria tarefa fácil enxotar os homens que
cobiçavam sua mulher e seu reino;
planejaram então conseguir pela astúcia o que
não poderiam fazer pela força.
Sob a aparência de mendigo andrajoso, Ulisses
foi no dia seguinte à sua
casa, onde se viu insultado e escarnecido
pelos pretendentes. Porém
Penélope, sem saber quem ele era, o chamou à
sua presença tratando-o com
bondade, na esperança de que lhe desse
notícias de seu querido senhor.
Mesmo naquele momento, conquanto anelasse
apertá-la em seus braços, Ulisses
guardou o segredo; sentindo-se porém
profundamente contristado com as
palavras de Penélope.
- Tive um sonho, disse ela, no qual me foi
revelado que meu caro
esposo estava finalmente são e salvo em Ítaca.
Mas os sonhos podem mentir,
e estou em vésperas de comprovar a sua
veracidade. Amanhã direi aos
pretendentes que me casarei com aquele que
puder esticar o grande arco de
meu marido e atirar uma seta, como ele o fazia,
através de um renque de doze
achas de armas assentadas à maneira das
estacas de uma quilha de navio, no
estaleiro. Esse grande arco pertenceu outrora
a Eurito; nenhum homem, a não
ser ele, Héracles e meu querido senhor Ulisses
podia armá-lo e o atirar; e
não casarei com nenhum homem que não esteja à
altura do pai de meu filho, em
força e destreza. É o que direi aos
pretendentes; e, se meu querido senhor e
esposo desembarcou de fato nas costas deste
reino, como me anunciou o sonho,
então, com certeza, saberá disto e acudirá em
tempo para me salvar destes
homens horríveis que tanto me importunam e
esbanjam a herança de meu filho
nessa vida extravagante.
- Não tenha receio, minha, senhora, disse
Ulisses. Foi-me
revelado que seu real senhor e Rei de Ítaca
apresentar-se-á a esta casa que
lhe pertence de direito antes que algum desses
lorpas consiga nem mesmo
retesar seu grande arco.
- Desejo de todo coração que assim seja, disse
Penélope com
tristeza; e recolheu-se ao leito chorando pelo
seu amado senhor, receando
que estivesse perdido e que nunca mais
tornasse a vê-lo.
Nada convinha mais a Ulisses do que a
realização daquela competição. Os
dez anos de lutas desde a queda de Tróia
tinham-lhe aumentado o vigor, e
estava certo de que poderia atirar uma seta
com tanta £orça e pontaria
quanto na sua juventude. Antes disto, porém,
precisava assegurar-se da
lealdade de seus servidores.
- Diga-me, Eumeu, perguntou ele ao pastor,
caso o seu senhor se
apresentasse de supetão no seu palácio,
tentando enxotar estes pretendentes
arrogantes, de que lado estaria você - do seu
ou do deles?
- Bastaria ele se apresentar, e você teria a
resposta a esta pergunta,
replicou o pastor.
Um seu companheiro chamado Filécio afirmou que
vivia apenas da esperança
do regresso de seu amo. Então Ulisses deu-se a
conhecer, mostrando-lhes uma
cicatriz que conheciam; ficaram loucos de
alegria por reaverem o seu senhor,
prometendo-lhe ajudá-lo em tudo que quisesse
empreender. Telêmaco e os dois
pastores foram então informados do seu plano,
e foi com o maior entusiasmo e
ansiedade que ficaram à espera do dia seguinte.
Quando Penélope informou os pretendentes de
que se casaria com aquele que
conseguisse armar o grande arco e atirar uma
seta através do renque de
achas, ficaram anelantes por tentarem a sorte.
Porém, por mais que se
esforçassem, nenhum deles conseguiu escorregar
a corda do arco até o seu
encaixe. Finalmente, alegaram que o arco devia
ter-se tornado rígido por
falta de uso; aqueceram-no ao fogo, untando-o
de gordura para restituir-lhe
a flexibilidade. Então Ulisses, que se
conservava sentado ao pé da lareira,
desapercebido em seus andrajos, acenou com a
cabeça para seu filho e os dois
pastores. Enquanto Filécio fechava as portas,
Telêmaco, silenciosamente,
removeu as armas que os pretendentes deixaram
esparramadas pelo chão.
Então:
- Houve uma época, quando eu era moço, disse
Ulisses, em que era
conhecido como arqueiro; teria grande prazer
de segurar em minhas mãos um
belo arco como este. Ora, quem sabe se possuo
ainda um resto do meu antigo
vigor e da minha destreza; quem sabe, se,
apesar de velho, conseguirei
colocar a, corda do arco no seu encaixe!
Os pretendentes desataram em gargalhadas,
dizendo-lhe para se calar e não
se intrometer na conversa dos superiores;
porém Telêmaco, com um sorriso,
adiantou que talvez fosse divertido ver aquele
velho tentar armar um arco
que os mais fortes dentre eles não conseguiam
nem sequer vergar. Atendendo
a um sinal de Telêmaco, o pastor Eumeu
entregou a Ulisses o grande arco e um
e carcás cheio de setas. Durante alguns
instantes ele os manuseou, enquanto
os pretendentes escarneciam-no; então, com
rápida contração e torção de seu
braço poderoso, vergou o arco e introduziu a
corda no encaixe. Tirou uma
seta do carcás, ajustando-a à corda do arco, e
atirou-a, sibilando, através
do renque de achas, como costumava fazer
antigamente para se exercitar.
Ficaram os pretendentes atônitos de espanto,
porém, não tiveram tempo de
se recompor. Desfazendo-se de seus andrajos,
Ulisses despejava setas e mais
setas sobre os homens condenados, a medida que
se levantavam e empunhavam
armas para matá-lo. Quando tinha esgotado
todas as flechas, ele e Telêmaco
completaram o trabalho com a espada e a lança,
se bem que todos os seus
adversários não estivessem desarmados; com
efeito, um servidor infiel
tinha-lhes trazido lanças e escudos do
depósito de armas situado ao lado da
sala. Porém, nada puderam fazer contra Ulisses
que, além de ser um
guerreiro experimentado, se achava, sob a
proteção da deusa Atena.
Houve então grandes festanças e regozijos no
palácio de Ulisses!
Penélope, que se tinha retirado para seus
aposentos antes do começo da
competição, e ignorava tudo o que se passara,
foi chamada com urgência por
uma velha criada; acudiu mais que depressa,
ousando apenas acreditar que seu
querido senhor tinha enfim voltado, são e
salvo, e que ela não teria mais
que suportar a importunação dos pretendentes
indesejáveis. Jogou-se nos
braços do marido, rindo e chorando ao mesmo
tempo, enquanto Telêmaco os
contemplava mudo de felicidade e o povo de
Ítaca invadia o palácio para ver
e tocar o seu amado rei. Depois disso Ulisses
foi para a humilde cabana na
encosta da colina, onde vivia o velho Laertes;
deu-se a conhecer a seu pai,
e, juntos, radiantes de felicidade, voltaram
para o palácio onde Penélope
organizara uma festa.
Foi assim que, depois de tantos trabalhos e
provações, sofrimentos e
perigos, Ulisses voltou afinal para o seu lar;
e dizem que ele e Penélope
viveram em completa felicidade até avançada
idade.
Telêmaco viajou para a Ilha de Feácia, para
levar ao Rei Alcino a notícia
do regresso de seu pai, são e salvo, para o
reino de Ítaca. Durante sua
estada, apaixonou-se profundamente por
Nausícaa, filha do Rei, que fora a
primeira a encontrar Ulisses sem sentidos na
praia, pedindo ao pai que o
recolhesse. Seu amor foi retribuído; Telêmaco
e Nausícaa casaram-se em meio
de grandes festejos e viveram felizes por
muitos anos.
[transcrição e adaptação do texto original de
George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]
Moacir Índio da Costa Júnior