PÁGINA DE MITOLOGIA

 

GEORGE BAKER



Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega

 

Editora Brasiliense
São Paulo
1960

  Quinta Parte

Depois da Guerra






CAPITULO XXIX

REGRESSA O PEREGRINO PARA O SEU REINO INSULAR
 



Excetuando-se a paciente Penélope e seu filho Telêmaco, ninguém na ilha de Ítaca acreditava que Ulisses ainda estivesse vivo. Dez anos se haviam passado desde a queda de Tróia, e durante todo esse tempo não se ouvira falar nele. Suas naus tinham sido avistadas pela última vez lutando contra a tempestade que matara Ajax da Lóerida e espatifara tantos navios gregos contra os rochedos da Eubéia. Até mesmo Menelau e Helena tinham voltado para Esparta, como veio a saber Telêmaco quando empreendeu uma viagem para descobrir o paradeiro de seu pai. A única informação que Menelau lhe pode dar foi um rumor que ouvira de um Velho Marujo, que Ulisses estava cativo de
Calipso na Ilha de Ogígia; mas como ninguém conhecesse o caminho para aquela ilha, que pensavam situar-se nos remotos confins do mundo conhecido, este fato não trouxe ajuda nem consolo a Telêmaco.

Enquanto Telêmaco se achava em Esparta como hóspede de Menelau um navio fundeou na costa de Ítaca. Um grupo de homens desceu à terra carregando um companheiro profundamente adormecido. Depositaram-no ao solo, envolto num rico manto felpudo, e, ao seu lado, empilharam grande quantidade de objetos preciosos - ouro e prata, vasos de cobre e de bronze, jóias e vestes riquíssimas - e depois, sem acordá-lo, retomaram à sua nau e fizeram-se à vela.

O homem era Ulisses. Os deuses tiveram enfim compaixão, e mandaram ordem a Calipso para que o deixasse partir. Tinha ele construído uma jangada que o levou até ao rico e acolhedor povo da Feácia, cujo rei, Alcino, o recebera amistosamente, e, depois de ouvir a sua história, tinha-o presenteado com um tesouro mais valioso que aquele que conquistara em Tróia, mandando-o para a sua casa em um de seus navios.

Esta generosidade irritou grandemente Posseidon, deus do mar, que ainda não perdoara a Ulisses ter cegado o seu filho, o Ciclope Polifemo. Ergueu-se o deus das ondas; com um golpe de sua possante mão abateu o navio quando este se aproximava de seu destino, transformando-o no mesmo instante num rochedo preso ao fundo do mar; onde permanece até os dias de hoje.

No entanto ignorava Ulisses este fato. Quando acordou do sono profundo em que os deuses o mergulharam, não sabia que estava no solo de Ítaca. Com satisfação contemplou os tesouros amontoados a seu lado debaixo da árvore; levantou-se, em seguida, à procura de alguém que o pudesse informar onde se encontrava.
 
A deusa Atena, que sempre tentara ajudá-lo durante suas longas tribulações, apresentou-se a ele sob a aparência de um jovem pastor. Respondendo às suas perguntas disse-lhe que se achava na ilha de Ítaca. Ao se dispersar a neblina da manhã, verificou Ulisses que era verdade; e grande foi sua alegria de estar de volta ao seu querido reino. Porém a deusa preveniu-o de que todos os perigos ainda não tinham passado.

- Durante três anos, disse ela, sua paciente e fiel esposa foi importunada, para que se casasse de novo. Seus pretendentes foram morar em sua casa, onde mandam nos seus criados como se fossem donos de tudo, e gastam a herança de seu filho com despesas extravagantes. Esses homens são perigosos; já planejaram ficar à espera de Telêmaco, para matá-lo quando voltar de Esparta; se vierem a saber que você, Rei de Ítaca e marido da bela Penélope regressou sozinho, arranjarão meios de tirar-lhe a vida.

- Neste caso que devo fazer? perguntou Ulisses.

- Dar-lhe-ei a aparência de um velho decrépito, respondeu a deusa, e
transmudarei essas ricas vestes feácias em roupas andrajosas. Assim você chegará à sua casa sem ser conhecido, e os pretendentes à mão de sua fiel esposa não farão caso de você e se contentarão com escarnecer sua velhice e sua pobreza, e insultá-lo por ser um forasteiro.
 
Concordou Ulisses prontamente com este plano, e, no mesmo instante, a deusa transformou-o num velho decrépito e andrajoso. Depois de ter escondido seu tesouro numa caverna, dirigiu-se para sua casa para verificar o que ali se passava. Parou, primeiro, na cabana de um pastor chamado Eumeu, que, ao dizer da deusa, lhe permanecera fiel e detestava os arrogantes pretendentes de Penélope. Ali permaneceu ele algum tempo, sem ser reconhecido por Eumeu, que, no entanto, o tratou com benevolência em nome de seu querido senhor Ulisses.
 
Enquanto isto Atena apareceu a Telêmaco, em Esparta, mandando-o de volta para casa, sem dizer-lhe, porém, que seu pai havia regressado, são e salvo. Avisado pela deusa, da emboscada, que lhe preparavam os pretendentes, desembarcou Telêmaco, secretamente, dirigindo-se à cabana do pastor Eumeu. Ali encontrou Ulisses sem, no entanto reconhecê-lo em seu disfarce; porém, Atena tocou em Ulisses e este recuperou sua verdadeira aparência; pai e filho abraçaram-se, mais felizes do que se poderia dizer, por se reverem de novo.
 
Compreendia Ulisses, pelo que lhe contaram Telêmaco e o pastor, que não seria tarefa fácil enxotar os homens que cobiçavam sua mulher e seu reino; planejaram então conseguir pela astúcia o que não poderiam fazer pela força. Sob a aparência de mendigo andrajoso, Ulisses foi no dia seguinte à sua casa, onde se viu insultado e escarnecido pelos pretendentes. Porém Penélope, sem saber quem ele era, o chamou à sua presença tratando-o com bondade, na esperança de que lhe desse notícias de seu querido senhor. Mesmo naquele momento, conquanto anelasse apertá-la em seus braços, Ulisses guardou o segredo; sentindo-se porém profundamente contristado com as palavras de Penélope.
 
- Tive um sonho, disse ela, no qual me foi revelado que meu caro esposo estava finalmente são e salvo em Ítaca. Mas os sonhos podem mentir, e estou em vésperas de comprovar a sua veracidade. Amanhã direi aos pretendentes que me casarei com aquele que puder esticar o grande arco de meu marido e atirar uma seta, como ele o fazia, através de um renque de doze achas de armas assentadas à maneira das estacas de uma quilha de navio, no estaleiro. Esse grande arco pertenceu outrora a Eurito; nenhum homem, a não ser ele, Héracles e meu querido senhor Ulisses podia armá-lo e o atirar; e não casarei com nenhum homem que não esteja à altura do pai de meu filho, em força e destreza. É o que direi aos pretendentes; e, se meu querido senhor e esposo desembarcou de fato nas costas deste reino, como me anunciou o sonho, então, com certeza, saberá disto e acudirá em tempo para me salvar destes homens horríveis que tanto me importunam e esbanjam a herança de meu filho nessa vida extravagante.

- Não tenha receio, minha, senhora, disse Ulisses. Foi-me revelado que seu real senhor e Rei de Ítaca apresentar-se-á a esta casa que lhe pertence de direito antes que algum desses lorpas consiga nem mesmo retesar seu grande arco.

- Desejo de todo coração que assim seja, disse Penélope com tristeza; e recolheu-se ao leito chorando pelo seu amado senhor, receando que estivesse perdido e que nunca mais tornasse a vê-lo.

Nada convinha mais a Ulisses do que a realização daquela competição. Os dez anos de lutas desde a queda de Tróia tinham-lhe aumentado o vigor, e estava certo de que poderia atirar uma seta com tanta £orça e pontaria quanto na sua juventude. Antes disto, porém, precisava assegurar-se da lealdade de seus servidores.

- Diga-me, Eumeu, perguntou ele ao pastor, caso o seu senhor se apresentasse de supetão no seu palácio, tentando enxotar estes pretendentes arrogantes, de que lado estaria você - do seu ou do deles?

- Bastaria ele se apresentar, e você teria a resposta a esta pergunta, replicou o pastor.

Um seu companheiro chamado Filécio afirmou que vivia apenas da esperança do regresso de seu amo. Então Ulisses deu-se a conhecer, mostrando-lhes uma cicatriz que conheciam; ficaram loucos de alegria por reaverem o seu senhor, prometendo-lhe ajudá-lo em tudo que quisesse empreender. Telêmaco e os dois pastores foram então informados do seu plano, e foi com o maior entusiasmo e ansiedade que ficaram à espera do dia seguinte.

Quando Penélope informou os pretendentes de que se casaria com aquele que conseguisse armar o grande arco e atirar uma seta através do renque de achas, ficaram anelantes por tentarem a sorte. Porém, por mais que se esforçassem, nenhum deles conseguiu escorregar a corda do arco até o seu encaixe. Finalmente, alegaram que o arco devia ter-se tornado rígido por falta de uso; aqueceram-no ao fogo, untando-o de gordura para restituir-lhe a flexibilidade. Então Ulisses, que se conservava sentado ao pé da lareira, desapercebido em seus andrajos, acenou com a cabeça para seu filho e os dois pastores. Enquanto Filécio fechava as portas, Telêmaco, silenciosamente, removeu as armas que os pretendentes deixaram esparramadas pelo chão. Então:

- Houve uma época, quando eu era moço, disse Ulisses, em que era conhecido como arqueiro; teria grande prazer de segurar em minhas mãos um belo arco como este. Ora, quem sabe se possuo ainda um resto do meu antigo vigor e da minha destreza; quem sabe, se, apesar de velho, conseguirei colocar a, corda do arco no seu encaixe!

Os pretendentes desataram em gargalhadas, dizendo-lhe para se calar e não se intrometer na conversa dos superiores; porém Telêmaco, com um sorriso, adiantou que talvez fosse divertido ver aquele velho tentar armar um arco que os mais fortes dentre eles não conseguiam nem sequer vergar. Atendendo a um sinal de Telêmaco, o pastor Eumeu entregou a Ulisses o grande arco e um e carcás cheio de setas. Durante alguns instantes ele os manuseou, enquanto os pretendentes escarneciam-no; então, com rápida contração e torção de seu braço poderoso, vergou o arco e introduziu a corda no encaixe. Tirou uma seta do carcás, ajustando-a à corda do arco, e atirou-a, sibilando, através do renque de achas, como costumava fazer antigamente para se exercitar.

Ficaram os pretendentes atônitos de espanto, porém, não tiveram tempo de se recompor. Desfazendo-se de seus andrajos, Ulisses despejava setas e mais setas sobre os homens condenados, a medida que se levantavam e empunhavam armas para matá-lo. Quando tinha esgotado todas as flechas, ele e Telêmaco completaram o trabalho com a espada e a lança, se bem que todos os seus adversários não estivessem desarmados; com efeito, um servidor infiel tinha-lhes trazido lanças e escudos do depósito de armas situado ao lado da sala. Porém, nada puderam fazer contra Ulisses que, além de ser um guerreiro experimentado, se achava, sob a proteção da deusa Atena. Houve então grandes festanças e regozijos no palácio de Ulisses! Penélope, que se tinha retirado para seus aposentos antes do começo da competição, e ignorava tudo o que se passara, foi chamada com urgência por uma velha criada; acudiu mais que depressa, ousando apenas acreditar que seu querido senhor tinha enfim voltado, são e salvo, e que ela não teria mais que suportar a importunação dos pretendentes indesejáveis. Jogou-se nos braços do marido, rindo e chorando ao mesmo tempo, enquanto Telêmaco os contemplava mudo de felicidade e o povo de Ítaca invadia o palácio para ver e tocar o seu amado rei. Depois disso Ulisses foi para a humilde cabana na encosta da colina, onde vivia o velho Laertes; deu-se a conhecer a seu pai, e, juntos, radiantes de felicidade, voltaram para o palácio onde Penélope
organizara uma festa.

Foi assim que, depois de tantos trabalhos e provações, sofrimentos e perigos, Ulisses voltou afinal para o seu lar; e dizem que ele e Penélope viveram em completa felicidade até avançada idade.

Telêmaco viajou para a Ilha de Feácia, para levar ao Rei Alcino a notícia do regresso de seu pai, são e salvo, para o reino de Ítaca. Durante sua estada, apaixonou-se profundamente por Nausícaa, filha do Rei, que fora a primeira a encontrar Ulisses sem sentidos na praia, pedindo ao pai que o recolhesse. Seu amor foi retribuído; Telêmaco e Nausícaa casaram-se em meio de grandes festejos e viveram felizes por muitos anos.





[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em

DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior
 
 
 
 


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