Pouco depois de
deixar o país dos Ciclopes, aportou Ulisses
numa ilha onde vivia o Rei Éolo, soberano dos
Quatro Ventos. Deu ele de presente a Ulisses um
saco de couro contendo os ventos do céu, para,
que lhe servissem segundo suas necessidades;
depois, ordenou à brisa que levasse as naus
itacanas suavemente até o seu destino.
Navegaram durante
nove dias até chegarem à vista da rochosa
Ítaca, e Ulisses, exausto de trabalhos e de
ansiedades, adormeceu. Acreditando que o saco de
couro contivesse um tesouro, seus companheiros o
abriram furtivamente, e, no mesmo instante, os
ventos nele aprisionados arrojaram-se para fora,
provocando um temporal de grandes proporções.
Em pouco tempo perderam de vista a ilha de
Ítaca e o vendaval arremessou os navios, que
jogavam como cascas de nozes, de volta para a
ilha, de Éolo. Desta vez, porém, o Rei dos
Ventos repeliu os infelizes viajantes, com
rancor.
- É manifesto que os
deuses lhe são contrários, disse ele, pois
você tinha tudo o de que precisava para voltar
para sua casa toda com a segurança.
Tristes e
desanimados, fizeram-se os itacanos de novo ao
mar, para enfrentar, porém, calamidade ainda
maior. Depois de remarem durante sete dias com
afinco - pois não havia mais vento para encher
as velas de seus barcos - chegaram a um país
onde o dia seguia de tão perto os passos da
noite que não havia, praticamente escuridão.
Aqui viviam os lestrigões, canibais bárbaros e
de porte gigantesco. Das doze naus que chegaram
àquela terra, só uma conseguiu salvar-se; pois
Ulisses não seguiu os outros até a enseada,
mas amarrou seu barco a uma rocha na extremidade
de um braço da baía. Foi o que lhe valeu, pois
quando vieram os indígenas a saber que naus
carregadas de homens tinham ancorado na enseada,
milhares deles cobriram as falésias marginais
atirando pedras até que as onze naus ficassem
despedaçadas e soçobrassem. Em seguida
arpoaram os náufragos que nadavam até a
margem, um depois do outro, levando-os para
terra com gritos de triunfo, para com eles se
banquetearem. O que Ulisses vendo e se sabendo
impotente para prestar auxílio aos seus
companheiros, fez-se ao largo, ordenando à
tripulação que se atracasse aos remos. Assim
conseguiu escapar. Porém, seu coração
sangrava pelos companheiros sacrificados, que
tivera de abandonar à sanha dos antropófagos.
Perigo tão grande
quanto este, conquanto de natureza diferente,
esperava-o em breve, pois chegaram à Ilha de
Éia, onde vivia a feiticeira chamada Circe,
irmã do Rei Aetes da Cólquida, que os.
Argonautas já tinham encontrado quando
navegavam na Busca do Velocino de Ouro. Isto,
porém , eles ignoravam, antes de um grupo de
homens chefiados por Euríloco se aventurar em
terra, à procura de seus habitantes. Depois de
algum tempo voltou Euríloco sozinho, contando
estranha história.
- No meio de um
bosque encontramos um castelo de pedra, disse
ele, no qual se ouvia cantar a voz de uma
mulher. Ao batermos na porta ela abriu-se, e uma
bela dama convidou-nos para entrar. Meus
companheiros, mais que depressa, entraram no
saguão, porém eu, temendo uma cilada,
permaneci de fora. Esperei por muito tempo, mas
não havia sinal deles, e voltei para dizer-lhe
que eles estão perdidos., Partamos desta ilha
maldita antes que nós também sejamos
apanhados; porque não conseguiremos salvar aos
nossos companheiros e teremos talvez dificuldade
em nos salvar a nós mesmos.
Ulisses, porém, não
era homem para abandonar seus amigos sem tentar
salvá-los; empunhou a espada e o arco e
dirigiu-se para o castelo no meio da floresta.
Em caminho, topou com Hermes, mensageiro dos
deuses.
- Seus companheiros
foram transformados em porcos, pela arte mágica
da feiticeira, disse ele. Vou dizer-lhe como é
que ela procede. Oferece alimentos aos quais
acrescenta poderosa droga; depois de a pessoa
comer toca-a com uma vara mágica,
transformando-a em animal, se bem que conserve o
espírito humano. Ao redor de seu castelo
existem leões e lobos que outrora foram homens,
e seus chiqueiros estão repletos de porcos.
Tome esta erva prodigiosa, Ulisses; chama-se
móli, e contra ela não prevalece a mágica de
Circe. Depois de comer o alimento que ela lhe
der e que ela o tocar com sua vara mágica,
empunhe a espada e ameace matá-la; ela fará
então tudo o que você quiser. Porém,
faça-lhe, primeiro, jurar que não empregará
sua mágica contra você, pois pode acontecer
que eu não esteja a seu lado para ajudá-lo uma
segunda vez.
De coração grato
seguiu Ulisses os conselhos de seu divino
mensageiro; e quando a feiticeira percebeu que
sua mágica não prevalecia contra ele,
concordou em restituir a aparência humana aos
meus companheiros. Cumpriu, também, fielmente,
a sua promessa de não lhe fazer mal algum; e
durante um ano todo os itacanos viveram felizes
na ilha mágica dando festas, bebendo, e amando
as mulheres que serviam a feiticeira Circe.
Chegou o dia, porém,
em que Ulisses convocou os seus homens para
continuarem a viagem; e quando Circe veio a
saber de que ele pretendia abandoná-la não lhe
opôs nenhum obstáculo.
- Porém, disse ela,
está decretado que você não seguirá
diretamente para sua ilha rochosa de Ítaca.
Primeiro, terá de visitar o Mundo Subterrâneo,
onde Perséfone reina como rainha. Lá
encontrará você um profeta cego chamado
Tirésias, que lhe desvendará o seu destino.
- Mas quem me
ensinará o caminho? indagou Ulisses.
- Abra a sua vela ao
vento do norte; ele o levara à caverna que dá
entrada ao Mundo Subterrâneo.
Sentiram-se os
itacanos descoroçoados quando souberam da
provação a que se tinham de submeter; porém
Ulisses os reanimou com a sua coragem e a sua
fé, e a nau zarpou da ilha encantada. Mandou a
feiticeira uma brisa favorável encher a sua
vela, e levá-los aos distantes confins do mundo
terreno, onde reina sempre uma, neblina espessa
e as trevas da noite. Aqui ofereceram um
sacrifício às almas dos mortos, que se
aglomeravam ao seu redor; porém Ulisses não os
deixou se aproximarem antes de confabular com o
cego Tirésias, o profeta que, muito tempo
atrás, vivera em Tebas. Depois de participar do
sacrifício, dirigiu-se a Ulisses.
- Majestade, disse
êle, não lhe posso prometer viagem fácil e
segura para a rochosa ilha de itaca, pois que
Posseidon, deus dos terremotos, ainda o odeia
por ter cegado seu filho amado. Você, porém,
poderá atingir a sua pátria se tiver cuidado
em não ofender aos deuses. Em seu caminho
passará por uma ilha na qual encontrará
boiadas e rebanhos de ovelhas pertencentes a
Hélio, deus do sol. Siga seu caminho sem
molestar as reses, e nada lhe acontecera;
porém, se matar o mais insignificante animal,
por maior que seja a sua necessidade, então
perderá sua nau e seus homens, e voltará só e
sem amigos para o seu reino.
Prometeu Ulisses
acolher os seus conselhos, e impedir que seus
homens molestassem as manadas e os rebanhos do
deus do sol. Quando o velho profeta se retirou
de novo para o reino das sombras, apareceu-lhe
Anticléia, sua própria mãe. Não podia ela
ouvir o que ele dizia, nem dirigir-lhe a palavra
antes de ter participado do sacrifício; quando
porém Ulisses lhe permitiu achegar-se, e
participar do sacrifício, ela o reconheceu e
verteu lágrimas por vê-lo naquele horrível
lugar. Pressuroso, pediu-lhe ele notícias de
sua esposa e de seu lar e disseram-lhe que
Penélope o esperava, recusando-se a acreditar
em sua morte, apesar de muitos pretendentes
quererem desposá-la. Seu filho, disse-lhe
Anticléia, tornara-se um belo rapaz, e
governava o reino de seu pai; porém o velho
Laertes, pai de Ulisses, tinha deixado o seu lar
e vivia numa miserável cabana entre os
camponeses, onde se entregava à tristeza e à
saudade de seu filho.
- Porém você, minha
mãe, que deixei com vida e saúde quando parti
para Tróia, como veio parar aqui?
- Meu coração ficou
despedaçado de dor por sua causa, meu querido
filho, respondeu ela.
Ulisses a teria
tomado em seus braços para consolá-la, não
fosse ela apenas um fantasma em pé na sua
frente, de maneira que quando a quis estreitar
contra o peito abraçou apenas o vácuo.
Viu Ulisses outras
pessoas que conhecera sobre a terra. Agamenon
adiantou-se para contar-lhe a traição de
Egisto e de Clitemnestra, em conseqüência da
qual perdera a vida. Pediu com sofreguidão
notícias de seu filho Orestes, no qual nem
sequer pusera os olhos antes de ser assassinado,
ao voltar para Micenas. Porém, Ulisses nada
sabia a respeito do rapaz, pois não tinha
tocado na Grécia desde que deixara Tróia.
Também viu a Ajax,
neto de Telamon. Aquiles pediu noticias de seu
velho pai Peleu e dos amigos que deixara na
terra, e Ulisses dizia-lhe o que sabia. Ajax,
porém, não o saudara, nem o encarava de
frente. Ele e Ulisses tinham brigado por causa
da armadura de Aquiles, nos campos de Tróia.
Quando a armadura fora adjudicada a Ulisses,
louco de raiva e de despeito Ajax se tinha
apunhalado a si próprio. Levara consigo para
além túmulo o despeito e o ódio e, apesar de
Ulisses tentar fazer as pazes com ele, renovando
a velha amizade que os ligara, Ajax virou-lhe as
costas, voltando a passos lentos para as trevas
donde saíra.
Ulisses tornou com o
coração pesado, para a luz do dia e a nau que
lhe ficara à espera. Sabia que o aguardavam
longos anos de perigos e de fadigas, e que estes
poderiam prolongar-se caso seus companheiros
não lhe obedecessem fielmente, e não evitassem
ofender a divindade. A viagem de retorno para a
sua pátria achava-se cercada de terríveis
perigos, alguns deles familiares e evitáveis,
outros, porém, inesperados e que teriam de ser
enfrentados no momento em que se apresentassem.
O primeiro obstáculo
em seu caminho não se fez esperar, pois que ao
deixarem aquelas regiões de neblina tenebrosa
velejou a nau rumo à Ilha, das Sereias. Eram as
sereias, formosas donzelas possuidoras das mais
lindas e melodiosas vozes do mundo. Tão
maravilhoso era o seu canto que os navegantes
que passavam ao seu alcance se aproximavam da
ilha insensivelmente, até seus navios
naufragarem nos escolhos da costa. Amontoavam-se
naquelas praias encantadas as ossadas desses
náufragos e, apesar disso, era tal o fascínio
das sereias, que atraíam todos os dias novos
mareantes para morrerem miseravelmente naquela
ilha árida. Avisado por Circe, todavia, Ulisses
tapou os ouvidos de sua tripulação com cera,
e, desejando ouvir o maravilhoso canto das
sereias sem correr o risco de ser seduzido,
mandou que seus companheiros o amarrassem
firmemente ao mastro do navio. O vento se tinha
amainado; seus homens arcavam com os remos, e,
pouco depois, o canto das sereias chegou até
eles por sobre a placidez das águas. Chamavam
Ulisses pelo seu nome, mencionando suas proezas
e convidando-o a repousar em sua ilha deleitosa.
Pouco a pouco, sentia-se ele empolgar pelo seu
diabólico encantamento; lutava para se libertar
das cordas que o prendiam, e bradava aos
tripulantes que desfizessem os seus laços.
Porém, seu amigo fiel Euríloco amarrava-o
ainda mais fortemente, e os remos feriam as
águas com mais vigor para que a nau
transpusesse aquele passo perigoso até que a
voz das sereias se perdesse na distância.
Então Ulisses foi libertado; a cera foi
retirada dos ouvidos de seus companheiros, e
eles alçaram a vela ao sopro do vento, felizes
por terem escapado a um perigo que já havia
custado a vida a tantos nautas.
Agora, contudo,
perigo ainda maior se lhes antolhava, tão
terrível que Ulisses, prevenido por Circe, não
ousara desvendá-lo aos seus companheiros. Tinha
ele a escolha entre dois caminhos, cheios de
perigo mortal, tanto um como o outro. O primeiro
passava entre as Rochas Estrepitosas, que
levaram os Argonautas à beira do desastre. O
menor erro por parte do piloto, o mais leve
engano na apreciação do momento exato em que
podiam passar pelos estreitos traiçoeiros,
levaria o barco a ser apanhado pelos escolhos
movediços, e a ser esmagado como uma casca de
ovo. Eram tão pequenas as possibilidades de
transporem eles este canal perigoso com
segurança, que Ulisses, conquanto trêmulo de
medo, escolheu o caminho que passava entre
Caribde e Cila.
Cila era o mais
terrível monstro que jamais existira. Tinha
seis compridos pescoços, cada um deles com uma
cabeça cheia de dentes cruéis e afiados; a
metade de seu corpo estava dissimulada dentro de
uma caverna que ia até o centro da terra, mas a
parte superior e os seis pescoços projetavam-se
para fora da boca da caverna, situada no alto de
um alcantilado penhasco, que surgia da
superfície do mar. A caverna estava fora do
alcance das setas lançadas por arcos humanos,
mas os compridos pescoços de Cila atingiam as
águas do mar, e as horríveis cabeças
pescavam, dentro das ondas, os delfins e os
tubarões de que se alimentavam.
Ora, seria fácil
evitar este monstro perigoso, não fosse a
existência de outro monstro chamado Caribde,
que vivia no fundo mar, do outro lado do
estreito. Debaixo de um rochedo, no topo do qual
havia uma figueira, jazia o monstro, sentado no
fundo do mar. Três vezes por dia sorvia as
águas, formando um grande redemoinho onde
qualquer navio naufragaria, com certeza.
Sopesando as duas
terríveis ameaças, Ulisses achou melhor
pilotar sua nau rente ao penhasco de Cila, em
vez de enfrentar os perigos de Caribde. Sabia
ele que, passando por ali, as seis cabeças
malvadas investiriam para baixo, abocanhando,
cada uma delas, um tripulante, para matá-lo e
devorá-lo na caverna do alto da falésia.
Porém, se bem que seis homens estariam assim
perdidos, a nau, com o restante da tripulação,
conseguiria transpor o passo perigoso. Sem dizer
nada aos seus companheiros a respeito de Cila,
ele apontou para o redemoinho de Caribde.
Observou o piloto, com cautela, as águas
revoltas do sorvedouro, aproximando seu barco o
mais possível do penhasco que se elevava do
lado oposto. Dirigiam todos, os olhares para o
sorvedouro quando, de repente, ouviram em suas
costas um ruído sibilante. Seis homens soltaram
gritos desesperados enquanto eram arrebatados
nas bocas do monstro para a terrível caverna de
Cila. Durante algum tempo imploraram,
angustiosamente, a Ulisses que os salvasse. Mas
a pouco e pouco emudeceram suas vozes agoniadas,
compreendendo, seus companheiros, que se tinham
calado para todo o sempre.
Os restantes, porém,
conseguiram transpor o estreito sãos e salvos,
e a nau deslizava impelida por forte brisa,
quando avistaram os itacanos a ilha onde Hélio,
o deus do Sol, guardava suas boiadas e seus
rebanhos de ovelhas. Lembrou-se Ulisses dos
conselhos recebidos e dirigiu a palavra a seus
companheiros.
- Já viajamos muito,
enfrentando grandes perigos, disse ele. Passemos
ao largo desta ilha, pois grandes desastres nos
esperam se matarmos a mais insignificante das
reses pertencentes ao deus do Sol, por mais
premente, aliás, que sejam as nossas
necessidades.
Queixaram-se seus
homens, contudo, do cansaço que os assoberbava
e de não saberem quantos dias mais teriam de
navegar para encontrar nova terra onde pudessem
aportar para passar a noite. Além disso, diziam
eles, sopra o vento com mais força, podendo uma
tempestade colher-nos ao cair da noite
arrastando-nos para rotas desconhecidas.
Desembarquemos na ilha do deus do Sol. Damos a
nossa palavra, de que não molestaremos as suas
reses, e que comeremos somente dos alimentos que
levamos conosco. Seguramente não haverá mal
nenhum nisto.
Não havia mal
nenhum, na verdade, se houvesse apenas isto.
Tão cedo, porém, tinham eles desembarcado, e
eis que se desencadeou um temporal. Bramiu o
vendaval durante a noite toda, de maneira que na
manhã seguinte não puderam prosseguir em sua
viagem. Dia após dia uivou o vento, encapelando
as ondas, até esgotar-se a reserva de alimentos
que tinham trazido, vindo eles a sofrer as
agruras da fome. Tornou-se premente a sua
penúria. Não lhes permitiu Ulisses, apesar de
tudo, matarem nenhuma das reses gordas, que
abundavam, na ilha sagrada. Com o passar dos
dias começaram seus homens a rezingar e a se
amotinar.
- Ulisses é um amo
duro e cruel - resmungavam, enquanto Ulisses
exausto de cansaço e de fome, dormia. -
Naturalmente, nem o próprio deus do Sol é
capaz de contar as cabeças de tão numeroso
rebanho. Nunca daria na vista a falta de uma ou
outra ovelha. Além disto, seria preferível
incorrermos imediatamente na cólera do deus do
Sol do que nos consumirmos miseravelmente de
fome, à vista de tanta abundância. Acordando,
Ulisses ficou horrorizado ao sentir o aroma
apetitoso da carne assada no braseiro.
Desculparam-se os companheiros alegando que
haviam sacrificado a mais bela vaca aos deuses
imortais, e feito o voto de que, se chegassem
sãos e salvos a Ítaca construiriam um belo
templo dedicado ao deus do Sol, repleto de ricos
presentes. Recriminou-os Ulisses pela sua
desobediência, conquanto não tivesse esta mais
remédio, àquela altura. Soubera o deus do Sol
da morte de uma de suas reses e queixara-se a
Zeus, ameaçando, caso não fossem os itacanos
punidos, deixar de iluminar a terra,
refugiando-se no Mundo Subterrâneo.
- Não tenha receio,
disse-lhe Zeus. Eles serão punidos.
Cumpriu sem tardança
sua divina promessa,. Passada a tormenta,
Ulisses e seus companheiros fizeram-se à vela
sob um céu de anil. Todavia, quando se achavam
em alto mar, uma nuvem tempestuosa se formou
repentinamente em cima de suas cabeças. Uma
rajada de vento acorreu bramindo, do oeste.
Partiu-se o mastro matando o piloto. No mesmo
instante um raio deslumbrante fulminou a nau.
Partiu-se e se desintegrou o madeiramento. Ondas
furiosas invadiram-na e os itacanos apavorados
foram arrojados ao mar, enquanto se despedaçava
o navio e flutuavam os seus destroços ao sabor
do vento e das ondas encapeladas.
Somente Ulisses
conseguiu salvar-se. Agarrou-se a um destroço
da quilha ao qual atou um fragmento do mastro
quebrado, aproveitando um tirante de couro para
prende-lo. Depois, flutuou desamparado,
derivando à mercê do vento e das ondas,
privado de alimento e de água durante nove dias
e nove noites, até dar às costas da ilha de
Ogígia, onde habitava a deusa Calipso.
Encontrou-o, esta, estendido na praia, exausto,
levando-o para sua casa, e cuidando de sua
saúde até que recuperasse as forças perdidas.
Em que pese ter
escapado à morte, verificou Ulisses que perdera
a liberdade. Apaixonou-se a bela Calipso
profundamente por ele, e não o teria deixado
partir, mesmo que houvesse um barco para
levá-lo para Ítaca. Mas não havia nenhum, e
ele teve que permanecer escravo da deusa ,
naquela ilha, durante sete longos anos,
quisesse-o ele ou não.
[transcrição e adaptação do texto original
de George Baker,
em