PÁGINA DE MITOLOGIA

 

GEORGE BAKER



Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega

 

Editora Brasiliense
São Paulo
1960

Quinta Parte

Depois da Guerra





CAPITULO XXVIII

COMO O PEREGRINO CAIU NO CATIVEIRO
 



Pouco depois de deixar o país dos Ciclopes, aportou Ulisses numa ilha onde vivia o Rei Éolo, soberano dos Quatro Ventos. Deu ele de presente a Ulisses um saco de couro contendo os ventos do céu, para, que lhe servissem segundo suas necessidades; depois, ordenou à brisa que levasse as naus itacanas suavemente até o seu destino.

Navegaram durante nove dias até chegarem à vista da rochosa Ítaca, e Ulisses, exausto de trabalhos e de ansiedades, adormeceu. Acreditando que o saco de couro contivesse um tesouro, seus companheiros o abriram furtivamente, e, no mesmo instante, os ventos nele aprisionados arrojaram-se para fora, provocando um temporal de grandes proporções. Em pouco tempo perderam de vista a ilha de Ítaca e o vendaval arremessou os navios, que jogavam como cascas de nozes, de volta para a ilha, de Éolo. Desta vez, porém, o Rei dos Ventos repeliu os infelizes viajantes, com rancor.

- É manifesto que os deuses lhe são contrários, disse ele, pois você tinha tudo o de que precisava para voltar para sua casa toda com a segurança.

Tristes e desanimados, fizeram-se os itacanos de novo ao mar, para enfrentar, porém, calamidade ainda maior. Depois de remarem durante sete dias com afinco - pois não havia mais vento para encher as velas de seus barcos - chegaram a um país onde o dia seguia de tão perto os passos da noite que não havia, praticamente escuridão. Aqui viviam os lestrigões, canibais bárbaros e de porte gigantesco. Das doze naus que chegaram àquela terra, só uma conseguiu salvar-se; pois Ulisses não seguiu os outros até a enseada, mas amarrou seu barco a uma rocha na extremidade de um braço da baía. Foi o que lhe valeu, pois quando vieram os indígenas a saber que naus carregadas de homens tinham ancorado na enseada, milhares deles cobriram as falésias marginais atirando pedras até que as onze naus ficassem despedaçadas e soçobrassem. Em seguida arpoaram os náufragos que nadavam até a margem, um depois do outro, levando-os para terra com gritos de triunfo, para com eles se banquetearem. O que Ulisses vendo e se sabendo impotente para prestar auxílio aos seus companheiros, fez-se ao largo, ordenando à tripulação que se atracasse aos remos. Assim conseguiu escapar. Porém, seu coração sangrava pelos companheiros sacrificados, que tivera de abandonar à sanha dos antropófagos.

Perigo tão grande quanto este, conquanto de natureza diferente, esperava-o em breve, pois chegaram à Ilha de Éia, onde vivia a feiticeira chamada Circe, irmã do Rei Aetes da Cólquida, que os. Argonautas já tinham encontrado quando navegavam na Busca do Velocino de Ouro. Isto, porém , eles ignoravam, antes de um grupo de homens chefiados por Euríloco se aventurar em terra, à procura de seus habitantes. Depois de algum tempo voltou Euríloco sozinho, contando estranha história.

- No meio de um bosque encontramos um castelo de pedra, disse ele, no qual se ouvia cantar a voz de uma mulher. Ao batermos na porta ela abriu-se, e uma bela dama convidou-nos para entrar. Meus companheiros, mais que depressa, entraram no saguão, porém eu, temendo uma cilada, permaneci de fora. Esperei por muito tempo, mas não havia sinal deles, e voltei para dizer-lhe que eles estão perdidos., Partamos desta ilha maldita antes que nós também sejamos apanhados; porque não conseguiremos salvar aos nossos companheiros e teremos talvez dificuldade em nos salvar a nós mesmos.

Ulisses, porém, não era homem para abandonar seus amigos sem tentar salvá-los; empunhou a espada e o arco e dirigiu-se para o castelo no meio da floresta. Em caminho, topou com Hermes, mensageiro dos deuses.

- Seus companheiros foram transformados em porcos, pela arte mágica da feiticeira, disse ele. Vou dizer-lhe como é que ela procede. Oferece alimentos aos quais acrescenta poderosa droga; depois de a pessoa comer toca-a com uma vara mágica, transformando-a em animal, se bem que conserve o espírito humano. Ao redor de seu castelo existem leões e lobos que outrora foram homens, e seus chiqueiros estão repletos de porcos. Tome esta erva prodigiosa, Ulisses; chama-se móli, e contra ela não prevalece a mágica de Circe. Depois de comer o alimento que ela lhe der e que ela o tocar com sua vara mágica, empunhe a espada e ameace matá-la; ela fará então tudo o que você quiser. Porém, faça-lhe, primeiro, jurar que não empregará sua mágica contra você, pois pode acontecer que eu não esteja a seu lado para ajudá-lo uma segunda vez.

De coração grato seguiu Ulisses os conselhos de seu divino mensageiro; e quando a feiticeira percebeu que sua mágica não prevalecia contra ele, concordou em restituir a aparência humana aos meus companheiros. Cumpriu, também, fielmente, a sua promessa de não lhe fazer mal algum; e durante um ano todo os itacanos viveram felizes na ilha mágica dando festas, bebendo, e amando as mulheres que serviam a feiticeira Circe.

Chegou o dia, porém, em que Ulisses convocou os seus homens para continuarem a viagem; e quando Circe veio a saber de que ele pretendia abandoná-la não lhe opôs nenhum obstáculo.

- Porém, disse ela, está decretado que você não seguirá diretamente para sua ilha rochosa de Ítaca. Primeiro, terá de visitar o Mundo Subterrâneo, onde Perséfone reina como rainha. Lá encontrará você um profeta cego chamado Tirésias, que lhe desvendará o seu destino.

- Mas quem me ensinará o caminho? indagou Ulisses.

- Abra a sua vela ao vento do norte; ele o levara à caverna que dá entrada ao Mundo Subterrâneo.

Sentiram-se os itacanos descoroçoados quando souberam da provação a que se tinham de submeter; porém Ulisses os reanimou com a sua coragem e a sua fé, e a nau zarpou da ilha encantada. Mandou a feiticeira uma brisa favorável encher a sua vela, e levá-los aos distantes confins do mundo terreno, onde reina sempre uma, neblina espessa e as trevas da noite. Aqui ofereceram um sacrifício às almas dos mortos, que se aglomeravam ao seu redor; porém Ulisses não os deixou se aproximarem antes de confabular com o cego Tirésias, o profeta que, muito tempo atrás, vivera em Tebas. Depois de participar do sacrifício, dirigiu-se a Ulisses.

- Majestade, disse êle, não lhe posso prometer viagem fácil e segura para a rochosa ilha de itaca, pois que Posseidon, deus dos terremotos, ainda o odeia por ter cegado seu filho amado. Você, porém, poderá atingir a sua pátria se tiver cuidado em não ofender aos deuses. Em seu caminho passará por uma ilha na qual encontrará boiadas e rebanhos de ovelhas pertencentes a Hélio, deus do sol. Siga seu caminho sem molestar as reses, e nada lhe acontecera; porém, se matar o mais insignificante animal, por maior que seja a sua necessidade, então perderá sua nau e seus homens, e voltará só e sem amigos para o seu reino.

Prometeu Ulisses acolher os seus conselhos, e impedir que seus homens molestassem as manadas e os rebanhos do deus do sol. Quando o velho profeta se retirou de novo para o reino das sombras, apareceu-lhe Anticléia, sua própria mãe. Não podia ela ouvir o que ele dizia, nem dirigir-lhe a palavra antes de ter participado do sacrifício; quando porém Ulisses lhe permitiu achegar-se, e participar do sacrifício, ela o reconheceu e verteu lágrimas por vê-lo naquele horrível lugar. Pressuroso, pediu-lhe ele notícias de sua esposa e de seu lar e disseram-lhe que Penélope o esperava, recusando-se a acreditar em sua morte, apesar de muitos pretendentes quererem desposá-la. Seu filho, disse-lhe Anticléia, tornara-se um belo rapaz, e governava o reino de seu pai; porém o velho Laertes, pai de Ulisses, tinha deixado o seu lar e vivia numa miserável cabana entre os camponeses, onde se entregava à tristeza e à saudade de seu filho.

- Porém você, minha mãe, que deixei com vida e saúde quando parti para Tróia, como veio parar aqui?

- Meu coração ficou despedaçado de dor por sua causa, meu querido filho, respondeu ela.

Ulisses a teria tomado em seus braços para consolá-la, não fosse ela apenas um fantasma em pé na sua frente, de maneira que quando a quis estreitar contra o peito abraçou apenas o vácuo.

Viu Ulisses outras pessoas que conhecera sobre a terra. Agamenon adiantou-se para contar-lhe a traição de Egisto e de Clitemnestra, em conseqüência da qual perdera a vida. Pediu com sofreguidão notícias de seu filho Orestes, no qual nem sequer pusera os olhos antes de ser assassinado, ao voltar para Micenas. Porém, Ulisses nada sabia a respeito do rapaz, pois não tinha tocado na Grécia desde que deixara Tróia.

Também viu a Ajax, neto de Telamon. Aquiles pediu noticias de seu velho pai Peleu e dos amigos que deixara na terra, e Ulisses dizia-lhe o que sabia. Ajax, porém, não o saudara, nem o encarava de frente. Ele e Ulisses tinham brigado por causa da armadura de Aquiles, nos campos de Tróia. Quando a armadura fora adjudicada a Ulisses, louco de raiva e de despeito Ajax se tinha apunhalado a si próprio. Levara consigo para além túmulo o despeito e o ódio e, apesar de Ulisses tentar fazer as pazes com ele, renovando a velha amizade que os ligara, Ajax virou-lhe as costas, voltando a passos lentos para as trevas donde saíra.

Ulisses tornou com o coração pesado, para a luz do dia e a nau que lhe ficara à espera. Sabia que o aguardavam longos anos de perigos e de fadigas, e que estes poderiam prolongar-se caso seus companheiros não lhe obedecessem fielmente, e não evitassem ofender a divindade. A viagem de retorno para a sua pátria achava-se cercada de terríveis perigos, alguns deles familiares e evitáveis, outros, porém, inesperados e que teriam de ser enfrentados no momento em que se apresentassem.

O primeiro obstáculo em seu caminho não se fez esperar, pois que ao deixarem aquelas regiões de neblina tenebrosa velejou a nau rumo à Ilha, das Sereias. Eram as sereias, formosas donzelas possuidoras das mais lindas e melodiosas vozes do mundo. Tão maravilhoso era o seu canto que os navegantes que passavam ao seu alcance se aproximavam da ilha insensivelmente, até seus navios naufragarem nos escolhos da costa. Amontoavam-se naquelas praias encantadas as ossadas desses náufragos e, apesar disso, era tal o fascínio das sereias, que atraíam todos os dias novos mareantes para morrerem miseravelmente naquela ilha árida. Avisado por Circe, todavia, Ulisses tapou os ouvidos de sua tripulação com cera, e, desejando ouvir o maravilhoso canto das sereias sem correr o risco de ser seduzido, mandou que seus companheiros o amarrassem firmemente ao mastro do navio. O vento se tinha amainado; seus homens arcavam com os remos, e, pouco depois, o canto das sereias chegou até eles por sobre a placidez das águas. Chamavam Ulisses pelo seu nome, mencionando suas proezas e convidando-o a repousar em sua ilha deleitosa. Pouco a pouco, sentia-se ele empolgar pelo seu diabólico encantamento; lutava para se libertar das cordas que o prendiam, e bradava aos tripulantes que desfizessem os seus laços. Porém, seu amigo fiel Euríloco amarrava-o ainda mais fortemente, e os remos feriam as águas com mais vigor para que a nau transpusesse aquele passo perigoso até que a voz das sereias se perdesse na distância. Então Ulisses foi libertado; a cera foi retirada dos ouvidos de seus companheiros, e eles alçaram a vela ao sopro do vento, felizes por terem escapado a um perigo que já havia custado a vida a tantos nautas.

Agora, contudo, perigo ainda maior se lhes antolhava, tão terrível que Ulisses, prevenido por Circe, não ousara desvendá-lo aos seus companheiros. Tinha ele a escolha entre dois caminhos, cheios de perigo mortal, tanto um como o outro. O primeiro passava entre as Rochas Estrepitosas, que levaram os Argonautas à beira do desastre. O menor erro por parte do piloto, o mais leve engano na apreciação do momento exato em que podiam passar pelos estreitos traiçoeiros, levaria o barco a ser apanhado pelos escolhos movediços, e a ser esmagado como uma casca de ovo. Eram tão pequenas as possibilidades de transporem eles este canal perigoso com segurança, que Ulisses, conquanto trêmulo de medo, escolheu o caminho que passava entre Caribde e Cila.

Cila era o mais terrível monstro que jamais existira. Tinha seis compridos pescoços, cada um deles com uma cabeça cheia de dentes cruéis e afiados; a metade de seu corpo estava dissimulada dentro de uma caverna que ia até o centro da terra, mas a parte superior e os seis pescoços projetavam-se para fora da boca da caverna, situada no alto de um alcantilado penhasco, que surgia da superfície do mar. A caverna estava fora do alcance das setas lançadas por arcos humanos, mas os compridos pescoços de Cila atingiam as águas do mar, e as horríveis cabeças pescavam, dentro das ondas, os delfins e os tubarões de que se alimentavam.

Ora, seria fácil evitar este monstro perigoso, não fosse a existência de outro monstro chamado Caribde, que vivia no fundo mar, do outro lado do estreito. Debaixo de um rochedo, no topo do qual havia uma figueira, jazia o monstro, sentado no fundo do mar. Três vezes por dia sorvia as águas, formando um grande redemoinho onde qualquer navio naufragaria, com certeza.

Sopesando as duas terríveis ameaças, Ulisses achou melhor pilotar sua nau rente ao penhasco de Cila, em vez de enfrentar os perigos de Caribde. Sabia ele que, passando por ali, as seis cabeças malvadas investiriam para baixo, abocanhando, cada uma delas, um tripulante, para matá-lo e devorá-lo na caverna do alto da falésia. Porém, se bem que seis homens estariam assim perdidos, a nau, com o restante da tripulação, conseguiria transpor o passo perigoso. Sem dizer nada aos seus companheiros a respeito de Cila, ele apontou para o redemoinho de Caribde. Observou o piloto, com cautela, as águas revoltas do sorvedouro, aproximando seu barco o mais possível do penhasco que se elevava do lado oposto. Dirigiam todos, os olhares para o sorvedouro quando, de repente, ouviram em suas costas um ruído sibilante. Seis homens soltaram gritos desesperados enquanto eram arrebatados nas bocas do monstro para a terrível caverna de Cila. Durante algum tempo imploraram, angustiosamente, a Ulisses que os salvasse. Mas a pouco e pouco emudeceram suas vozes agoniadas, compreendendo, seus companheiros, que se tinham calado para todo o sempre.

Os restantes, porém, conseguiram transpor o estreito sãos e salvos, e a nau deslizava impelida por forte brisa, quando avistaram os itacanos a ilha onde Hélio, o deus do Sol, guardava suas boiadas e seus rebanhos de ovelhas. Lembrou-se Ulisses dos conselhos recebidos e dirigiu a palavra a seus companheiros.

- Já viajamos muito, enfrentando grandes perigos, disse ele. Passemos ao largo desta ilha, pois grandes desastres nos esperam se matarmos a mais insignificante das reses pertencentes ao deus do Sol, por mais premente, aliás, que sejam as nossas necessidades.

Queixaram-se seus homens, contudo, do cansaço que os assoberbava e de não saberem quantos dias mais teriam de navegar para encontrar nova terra onde pudessem aportar para passar a noite. Além disso, diziam eles, sopra o vento com mais força, podendo uma tempestade colher-nos ao cair da noite arrastando-nos para rotas desconhecidas. Desembarquemos na ilha do deus do Sol. Damos a nossa palavra, de que não molestaremos as suas reses, e que comeremos somente dos alimentos que levamos conosco. Seguramente não haverá mal nenhum nisto.

Não havia mal nenhum, na verdade, se houvesse apenas isto. Tão cedo, porém, tinham eles desembarcado, e eis que se desencadeou um temporal. Bramiu o vendaval durante a noite toda, de maneira que na manhã seguinte não puderam prosseguir em sua viagem. Dia após dia uivou o vento, encapelando as ondas, até esgotar-se a reserva de alimentos que tinham trazido, vindo eles a sofrer as agruras da fome. Tornou-se premente a sua penúria. Não lhes permitiu Ulisses, apesar de tudo, matarem nenhuma das reses gordas, que abundavam, na ilha sagrada. Com o passar dos dias começaram seus homens a rezingar e a se amotinar.

- Ulisses é um amo duro e cruel - resmungavam, enquanto Ulisses exausto de cansaço e de fome, dormia. - Naturalmente, nem o próprio deus do Sol é capaz de contar as cabeças de tão numeroso rebanho. Nunca daria na vista a falta de uma ou outra ovelha. Além disto, seria preferível incorrermos imediatamente na cólera do deus do Sol do que nos consumirmos miseravelmente de fome, à vista de tanta abundância. Acordando, Ulisses ficou horrorizado ao sentir o aroma apetitoso da carne assada no braseiro. Desculparam-se os companheiros alegando que haviam sacrificado a mais bela vaca aos deuses imortais, e feito o voto de que, se chegassem sãos e salvos a Ítaca construiriam um belo templo dedicado ao deus do Sol, repleto de ricos presentes. Recriminou-os Ulisses pela sua desobediência, conquanto não tivesse esta mais remédio, àquela altura. Soubera o deus do Sol da morte de uma de suas reses e queixara-se a Zeus, ameaçando, caso não fossem os itacanos punidos, deixar de iluminar a terra, refugiando-se no Mundo Subterrâneo.

- Não tenha receio, disse-lhe Zeus. Eles serão punidos.

Cumpriu sem tardança sua divina promessa,. Passada a tormenta, Ulisses e seus companheiros fizeram-se à vela sob um céu de anil. Todavia, quando se achavam em alto mar, uma nuvem tempestuosa se formou repentinamente em cima de suas cabeças. Uma rajada de vento acorreu bramindo, do oeste. Partiu-se o mastro matando o piloto. No mesmo instante um raio deslumbrante fulminou a nau. Partiu-se e se desintegrou o madeiramento. Ondas furiosas invadiram-na e os itacanos apavorados foram arrojados ao mar, enquanto se despedaçava o navio e flutuavam os seus destroços ao sabor do vento e das ondas encapeladas.

Somente Ulisses conseguiu salvar-se. Agarrou-se a um destroço da quilha ao qual atou um fragmento do mastro quebrado, aproveitando um tirante de couro para prende-lo. Depois, flutuou desamparado, derivando à mercê do vento e das ondas, privado de alimento e de água durante nove dias e nove noites, até dar às costas da ilha de Ogígia, onde habitava a deusa Calipso. Encontrou-o, esta, estendido na praia, exausto, levando-o para sua casa, e cuidando de sua saúde até que recuperasse as forças perdidas.

Em que pese ter escapado à morte, verificou Ulisses que perdera a liberdade. Apaixonou-se a bela Calipso profundamente por ele, e não o teria deixado partir, mesmo que houvesse um barco para levá-lo para Ítaca. Mas não havia nenhum, e ele teve que permanecer escravo da deusa , naquela ilha, durante sete longos anos, quisesse-o ele ou não.

 


[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em

DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 

 

 
 
 


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