PÁGINA DE MITOLOGIA

 

GEORGE BAKER



Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega

 

Editora Brasiliense
São Paulo
1960


Quinta Parte

Depois da Guerra





CAPITULO XXVII

O MONSTRO DE UM SÓ OLHO NA TESTA E A FÚRIA DO DEUS MARINHO


 

Enéias e os sobreviventes de Tróia estavam destinados a peregrinar durante dez anos antes de chegarem ao país onde a nova Tróia devia elevar-se; e isto por causa do ódio de Hera pela estirpe troiana, que descendia, de seu marido Zeus e da ninfa Electra.

Nenhuma inimizade divina perseguiu Ulisses quando, depois da queda de Tróia, aproou as suas naus para sua ilha natal. Era, olhado com favor pelos deuses. Suas naus estavam repletas de despojos, e escravos. Trazia no coração a grande satisfação de pensar que aquela guerra tão demorada tinha sido concluída vitoriosamente, em grande parte, devido à sua astúcia; ansiava ardentemente voltar aos braços de sua bela e adorada Penélope, e rever seu filho Telêmaco que devia ter crescido muito durante a sua ausência.

Até mesmo a violenta tempestade que Atena desencadeara para destruir Ajax da Lócrida não prejudicou Ulisses, conquanto tenha arrastado algumas de suas naus, juntamente com muitas outras dos gregos, para as costas da Eubéia, onde o Rei Náuplio aguardara com tanta ansiedade a sua destruição. Essa mesma tempestade fez Menelau e Helena naufragarem nas costas do Egito; arrastou Ulisses e suas naus remanescentes ainda mais longe, ao longo da costa da África, do norte, até que enfim, exaustos, maltratados pela tempestade, quase mortos de fome e de sede, atracaram numa bela e remansosa enseada que lhes era desconhecida.

Precisavam antes de tudo de água e de alimento, e estavam decididos a lutar para conseguí-los. Não encontraram resistência ao desembarcar, entretanto, e Ulisses mandou um forte destacamento reconhecer o local para se certificar se havia habitantes na localidade e se pretendiam atacá-los, enquanto seus companheiros itacanos permaneceram na praia.

Os nativos, entretanto, amistosos e pacíficos, de voz e trato amenos, receberam bem os visitantes, dando-lhes, para comer, frutas estranhas e muitos doces. Essas frutas eram do loto; e, depois de comê-las, os companheiros de Ulisses sentiram uma doçura súbita invadir-lhes o coração e o espírito. As cenas de guerra e de tormenta no mar, das quais tinham escapado havia tão pouco tempo, desvaneceram-se como sonhos. A pugnacidade e a ambição foram expungidas de seus corações. Desejavam apenas descansar entre as flores, debaixo de árvores frondosas, sonhando com suas pátrias distantes, ao murmúrio da brisa indolente e das águas tranqüilas. O doce veneno da fruta do loto os intoxicava com ilusões; tinham encontrado a paz e não queriam nem mais pensar em enfrentar os perigos e as fadigas do mar.

Quando Ulisses foi pessoalmente averiguar o que retinha, os seus homens, eles o imploraram que ficasse com eles ou que, pelo menos, os deixasse onde estavam. Mas Ulisses os arrastou, desfeitos em prantos, para as naus, e alçou as velas imediatamente, receando que outros companheiros seus também comessem a fruta doce como mel e perdessem a vontade de voltar com ele para sua ilha distante.

O temporal se havia amainado, e o vento tinha mudado. Velejando suavemente nas asas da brisa, Ulisses chegou com suas doze naus às costas da Sicília, a grande ilha que fica na ponta do pé da Itália. Ali encontraram uma ilha perto do litoral continental, coberta de bosques e de regatos de água cristalina; e, vivendo em seus pastos abandonados, havia milhares de corças, tão mansas que era evidente que nunca tinham sido atacadas por caçadores.

Ulisses não podia compreender por que se achava desabitada uma ilha tão fértil, pois que para seus olhos experimentados o solo era rico e o trigo, a parreira e a oliveira poderiam vicejar ali, com toda certeza. No continente, via-se a fumaça de fogos, o que provava que havia nele habitantes; a única explicação, seria que eles não possuíam embarcações para transpor o estreito, ou que desprezavam a abundância que estava ao alcance de suas mãos.

Espicaçado pela curiosidade, Ulisses deixou seus companheiros na ilha, enquanto atravessou para a costa continental com sua própria tripulação. Descobriu então que estava no país dos Ciclopes, que viviam com suas famílias em cavernas separadas, sem comunicação umas com as outras. Eram bárbaros e ferozes, fortes e de estatura gigantesca, possuindo cada um deles um só olho no meio da testa. O lugar onde Ulisses abicara sua nau, pertencia ao maior e mais feroz deles todos que vivia solitário numa grande e escura caverna, distante de seu mais próximo vizinho. Seu nome era Polifemo, e era filho do deus marinho Posseidon e de uma ninfa chamada Toosa. Tivesse Ulisses tido conhecimento do parentesco divino do Ciclope solitário, talvez se tivesse feito à vela sem se meter com ele, pois que tinha ainda muito que navegar através dos mares, e a coisa que menos desejava neste mundo era atrair a inimizade daquela divindade. Ignorando esses fatos, contudo, decidiu examinar de mais perto o monstro de um olho só; e desta sua curiosidade advieram todas as situações aflitivas com que se veria a braços durante a sua viagem.

Ulisses escolheu doze homens experimentados entre os itacanos, e com eles dirigiu-se para a grande caverna sombria onde vivia Polifemo. Levou consigo um garrafão de vinho forte, e algum alimento numa cesta, pois não sabia o que poderia acontecer nem por quanto tempo ficaria ausente. Atingiram sem dificuldade a caverna do Ciclope, mas acharam-na vazia pois Polifemo pastoreava suas ovelhas. Na caverna havia cestos com queijos e algumas ovelhas e cabritos encurralados. Os companheiros de Ulisses propuseram pegar o que precisavam e se afastar daquele lugar, porém, ele ansiava ver Polifemo e, talvez mesmo, permutar presentes com ele. Assim sendo, esperaram na caverna pelo regresso de Polifemo. Ele tangeu suas ovelhas para dentro da caverna, na entrada da qual colocou um imenso bloco de pedra que só vinte homens juntos poderiam deslocar; depois, acendeu o fogo e pôs-se a mungir as ovelhas. Quando terminou, apercebeu-se da presença de Ulisses e de seus companheiros.

- Quem são vocês e donde vêm? perguntou com voz retumbante. Ulisses respondeu-lhe

com cortesia, conquanto julgasse prudente não revelar ao Ciclope seu nome nem sua estirpe. Porém, quando reclamou os direitos de hospitalidade, o monstro soltou uma gargalhada, estendendo as mãos para agarrar dois de seus patrícios. Esmagou-os, despedaçou-os, devorando-os com ossos e tudo. Depois de beber à farta, estendeu-se para dormir, sem receio dos homens que se amontoavam aterrorizados no fundo da caverna.

- Eu poderia matá-lo enquanto ele dorme, cochicou Ulisses para seu homens, porem isto em nada nos adiantaria; pois não poderíamos remover o bloco de pedra, que fecha a boca da caverna, e viríamos a morrer, cedo ou tarde, de fome e de sede. Precisamos esperar que o gigante remova o rochedo; depois, então, veremos o que podemos fazer para escapar desta horrível caverna.

Ao nascer do dia o monstro levantou-se e comeu mais dois homens para o almoço da manhã. Depois de comê-los e de beber alguns jarros de leite, removeu a pedra da entrada da caverna e levou suas ovelhas para o pasto. Depois de passar a última, ovelha, pela abertura, colocou de novo a rocha em seu lugar, deixando prisioneiros a Ulisses seus companheiros, durante todo o dia.

O espírito ardiloso de Ulisses, entretanto, não estava ocioso, e arquitetava um plano para a conquista, da liberdade. Um tronco de árvore estendia-se no chão, ao lado do braseiro; ele apontou uma das extremidades da tora e endureceu-a nas brasas ainda quentes. Escolheu quatro itacanos para ajudá-lo. Seu plano era tão desesperado e terrível como a sua própria situação, e apesar de se sentirem trêmulos de medo concordaram em prestar-lhe o seu auxílio.

Quando Polifemo, ao anoitecer, regressou à caverna fechou a porta, e comeu mais dois homens. Ulisses adiantou-se, então.

- Eis aqui algum vinho que trouxe para você, na esperança de que tivesse a bondade de nos ajudar a prosseguir em nossa viagem, disse ele.

O Ciclope bebeu com sofreguidão, e estendeu de novo a taça.

- Dê-me mais desse vinho delicioso, rugiu ele, e em recompensa dar-lhe-ei um presente.

Por três vezes consecutivas Ulisses encheu-lhe a taça, até Polifemo sentir-se tonto e abobado com aquele vinho doce e capitoso.

- Qual é o seu nome, forasteiro? perguntou ele.

Ulisses respondeu sem pestanejar.

- Meu nome é "Ninguém", disse ele.

O gigante soltou uma gargalhada.

- Escute aqui, Ninguém, dir-lhe-ei qual vai ser o seu presente: comerei todos os seus companheiros antes de você, ficando você por último; assim terá você algumas horas mais de vida.

Dizendo isto deitou-se de costas e caiu no sono da embriaguez.

Então, Ulisses e seus quatro companheiros pegaram no chão a tora e esquentaram sua ponta no fogo. Quando estava em brasa, enterraram-na no único olho do monstro adormecido, enquanto ele, cego, rugia de dor e de ódio, fazendo tremer a caverna. Mais que depressa os itacanos se esconderam, enquanto os gigantes das vizinhanças acudiram à caverna, perguntando a Polifemo o que estava acontecendo.

- Está sendo roubado, ou alguém está tentando matá-lo? perguntaram eles.

- "Ninguém" me fez mal. "Ninguém" tenta me matar, bradou ele.

- Então por que berra você assim, perturbando o nosso sono? resmungaram os vizinhos, retirando-se todos para suas cavernas.

O Ciclope afastou o bloco da entrada da caverna, esperando apanhar os itacanos quando tentassem fugir; porém Ulisses tinha, pensado na maneira de enganá-lo. Amarrou as ovelhas lado a lado, de três em três, e pendurou um de seus homens debaixo de cada grupo de três; o gigante palpava com a mão a lã dos carneiros e deixava-os passar. Um depois do outro os homens saíram da caverna desta maneira, até que, enfim, só ficou Ulisses. Escolheu um grande carneiro para transportá-lo e agarrou-se à sua, barriga; o gigante palpou-lhe o pelo, acariciou-o e deixou-o passar. Assim escaparam todos os companheiros daquela caverna terrível, e apressaram-se em voltar para, seus navios levando consigo as ovelhas e o carneiro.

Porém Ulisses não podia desistir do prazer de escarnecer o Ciclope.

- Olá, Ciclope! bradou ele do convés de sua nau. Se alguém lhe perguntar quem o cegou e o levou no bico, responda que foi Ulisses de Ítaca., filho de Laertes.

- Assim fora profetizado, respondeu a voz retumbante da caverna da montanha, porém, pensei que iria me defrontar com um herói de grande força, e não com um ratinho que me estonteou com vinho forte.

O gigante levantou então seus braços numa prece. - Senhor Posseidon, deus do mar, ouça-me! rugiu ele. Se é verdade que sou seu filho, faça então com que Ulisses de Ítaca, que me cegou, não consiga nunca voltar para a sua casa; ou se o conseguir, que seja depois de muitas fadigas e sofrimentos.

Então o Ciclope ergueu do chão um enorme bloco de pedra atirando-o com toda a sua força na direção da voz escarnecedora de Ulisses. A pedra caiu perto da popa, espirrando água e fazendo uma onda que impeliu a nau para a ilha, onde os outros itacanos os aguardavam com ansiedade. Apressadamente, os doze navios fizeram-se ao mar; porém Posseidon tinha ouvido a prece de seu terrível filho, e, desde então, a cólera do deus marinho se manifestou contra Ulisses e seus companheiros; e, devido à sua inimizade, sofreram um contratempo depois do outro, até que Ulisses se convenceu de que era o mais infeliz e inditoso homem de todo o mundo.

 

[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em

DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 
 
 


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