Enéias e os
sobreviventes de Tróia estavam destinados a
peregrinar durante dez anos antes de chegarem
ao país onde a nova Tróia devia elevar-se; e
isto por causa do ódio de Hera pela estirpe
troiana, que descendia, de seu marido Zeus e
da ninfa Electra.
Nenhuma inimizade
divina perseguiu Ulisses quando, depois da
queda de Tróia, aproou as suas naus para sua
ilha natal. Era, olhado com favor pelos
deuses. Suas naus estavam repletas de
despojos, e escravos. Trazia no coração a
grande satisfação de pensar que aquela
guerra tão demorada tinha sido concluída
vitoriosamente, em grande parte, devido à sua
astúcia; ansiava ardentemente voltar aos
braços de sua bela e adorada Penélope, e
rever seu filho Telêmaco que devia ter
crescido muito durante a sua ausência.
Até mesmo a
violenta tempestade que Atena desencadeara
para destruir Ajax da Lócrida não prejudicou
Ulisses, conquanto tenha arrastado algumas de
suas naus, juntamente com muitas outras dos
gregos, para as costas da Eubéia, onde o Rei
Náuplio aguardara com tanta ansiedade a sua
destruição. Essa mesma tempestade fez
Menelau e Helena naufragarem nas costas do
Egito; arrastou Ulisses e suas naus
remanescentes ainda mais longe, ao longo da
costa da África, do norte, até que enfim,
exaustos, maltratados pela tempestade, quase
mortos de fome e de sede, atracaram numa bela
e remansosa enseada que lhes era desconhecida.
Precisavam antes de
tudo de água e de alimento, e estavam
decididos a lutar para conseguí-los. Não
encontraram resistência ao desembarcar,
entretanto, e Ulisses mandou um forte
destacamento reconhecer o local para se
certificar se havia habitantes na localidade e
se pretendiam atacá-los, enquanto seus
companheiros itacanos permaneceram na praia.
Os nativos,
entretanto, amistosos e pacíficos, de voz e
trato amenos, receberam bem os visitantes,
dando-lhes, para comer, frutas estranhas e
muitos doces. Essas frutas eram do loto; e,
depois de comê-las, os companheiros de
Ulisses sentiram uma doçura súbita
invadir-lhes o coração e o espírito. As
cenas de guerra e de tormenta no mar, das
quais tinham escapado havia tão pouco tempo,
desvaneceram-se como sonhos. A pugnacidade e a
ambição foram expungidas de seus corações.
Desejavam apenas descansar entre as flores,
debaixo de árvores frondosas, sonhando com
suas pátrias distantes, ao murmúrio da brisa
indolente e das águas tranqüilas. O doce
veneno da fruta do loto os intoxicava com
ilusões; tinham encontrado a paz e não
queriam nem mais pensar em enfrentar os
perigos e as fadigas do mar.
Quando Ulisses foi
pessoalmente averiguar o que retinha, os seus
homens, eles o imploraram que ficasse com eles
ou que, pelo menos, os deixasse onde estavam.
Mas Ulisses os arrastou, desfeitos em prantos,
para as naus, e alçou as velas imediatamente,
receando que outros companheiros seus também
comessem a fruta doce como mel e perdessem a
vontade de voltar com ele para sua ilha
distante.
O temporal se havia
amainado, e o vento tinha mudado. Velejando
suavemente nas asas da brisa, Ulisses chegou
com suas doze naus às costas da Sicília, a
grande ilha que fica na ponta do pé da
Itália. Ali encontraram uma ilha perto do
litoral continental, coberta de bosques e de
regatos de água cristalina; e, vivendo em
seus pastos abandonados, havia milhares de
corças, tão mansas que era evidente que
nunca tinham sido atacadas por caçadores.
Ulisses não podia
compreender por que se achava desabitada uma
ilha tão fértil, pois que para seus olhos
experimentados o solo era rico e o trigo, a
parreira e a oliveira poderiam vicejar ali,
com toda certeza. No continente, via-se a
fumaça de fogos, o que provava que havia nele
habitantes; a única explicação, seria que
eles não possuíam embarcações para
transpor o estreito, ou que desprezavam a
abundância que estava ao alcance de suas
mãos.
Espicaçado pela
curiosidade, Ulisses deixou seus companheiros
na ilha, enquanto atravessou para a costa
continental com sua própria tripulação.
Descobriu então que estava no país dos
Ciclopes, que viviam com suas famílias em
cavernas separadas, sem comunicação umas com
as outras. Eram bárbaros e ferozes, fortes e
de estatura gigantesca, possuindo cada um
deles um só olho no meio da testa. O lugar
onde Ulisses abicara sua nau, pertencia ao
maior e mais feroz deles todos que vivia
solitário numa grande e escura caverna,
distante de seu mais próximo vizinho. Seu
nome era Polifemo, e era filho do deus marinho
Posseidon e de uma ninfa chamada Toosa.
Tivesse Ulisses tido conhecimento do
parentesco divino do Ciclope solitário,
talvez se tivesse feito à vela sem se meter
com ele, pois que tinha ainda muito que
navegar através dos mares, e a coisa que
menos desejava neste mundo era atrair a
inimizade daquela divindade. Ignorando esses
fatos, contudo, decidiu examinar de mais perto
o monstro de um olho só; e desta sua
curiosidade advieram todas as situações
aflitivas com que se veria a braços durante a
sua viagem.
Ulisses escolheu
doze homens experimentados entre os itacanos,
e com eles dirigiu-se para a grande caverna
sombria onde vivia Polifemo. Levou consigo um
garrafão de vinho forte, e algum alimento
numa cesta, pois não sabia o que poderia
acontecer nem por quanto tempo ficaria
ausente. Atingiram sem dificuldade a caverna
do Ciclope, mas acharam-na vazia pois Polifemo
pastoreava suas ovelhas. Na caverna havia
cestos com queijos e algumas ovelhas e
cabritos encurralados. Os companheiros de
Ulisses propuseram pegar o que precisavam e se
afastar daquele lugar, porém, ele ansiava ver
Polifemo e, talvez mesmo, permutar presentes
com ele. Assim sendo, esperaram na caverna
pelo regresso de Polifemo. Ele tangeu suas
ovelhas para dentro da caverna, na entrada da
qual colocou um imenso bloco de pedra que só
vinte homens juntos poderiam deslocar; depois,
acendeu o fogo e pôs-se a mungir as ovelhas.
Quando terminou, apercebeu-se da presença de
Ulisses e de seus companheiros.
- Quem são vocês
e donde vêm? perguntou com voz retumbante.
Ulisses respondeu-lhe
com cortesia,
conquanto julgasse prudente não revelar ao
Ciclope seu nome nem sua estirpe. Porém,
quando reclamou os direitos de hospitalidade,
o monstro soltou uma gargalhada, estendendo as
mãos para agarrar dois de seus patrícios.
Esmagou-os, despedaçou-os, devorando-os com
ossos e tudo. Depois de beber à farta,
estendeu-se para dormir, sem receio dos homens
que se amontoavam aterrorizados no fundo da
caverna.
- Eu poderia
matá-lo enquanto ele dorme, cochicou Ulisses
para seu homens, porem isto em nada nos
adiantaria; pois não poderíamos remover o
bloco de pedra, que fecha a boca da caverna, e
viríamos a morrer, cedo ou tarde, de fome e
de sede. Precisamos esperar que o gigante
remova o rochedo; depois, então, veremos o
que podemos fazer para escapar desta horrível
caverna.
Ao nascer do dia o
monstro levantou-se e comeu mais dois homens
para o almoço da manhã. Depois de comê-los
e de beber alguns jarros de leite, removeu a
pedra da entrada da caverna e levou suas
ovelhas para o pasto. Depois de passar a
última, ovelha, pela abertura, colocou de
novo a rocha em seu lugar, deixando
prisioneiros a Ulisses seus companheiros,
durante todo o dia.
O espírito
ardiloso de Ulisses, entretanto, não estava
ocioso, e arquitetava um plano para a
conquista, da liberdade. Um tronco de árvore
estendia-se no chão, ao lado do braseiro; ele
apontou uma das extremidades da tora e
endureceu-a nas brasas ainda quentes. Escolheu
quatro itacanos para ajudá-lo. Seu plano era
tão desesperado e terrível como a sua
própria situação, e apesar de se sentirem
trêmulos de medo concordaram em prestar-lhe o
seu auxílio.
Quando Polifemo, ao
anoitecer, regressou à caverna fechou a
porta, e comeu mais dois homens. Ulisses
adiantou-se, então.
- Eis aqui algum
vinho que trouxe para você, na esperança de
que tivesse a bondade de nos ajudar a
prosseguir em nossa viagem, disse ele.
O Ciclope bebeu com
sofreguidão, e estendeu de novo a taça.
- Dê-me mais desse
vinho delicioso, rugiu ele, e em recompensa
dar-lhe-ei um presente.
Por três vezes
consecutivas Ulisses encheu-lhe a taça, até
Polifemo sentir-se tonto e abobado com aquele
vinho doce e capitoso.
- Qual é o seu
nome, forasteiro? perguntou ele.
Ulisses respondeu
sem pestanejar.
- Meu nome é
"Ninguém", disse ele.
O gigante soltou
uma gargalhada.
- Escute aqui,
Ninguém, dir-lhe-ei qual vai ser o seu
presente: comerei todos os seus companheiros
antes de você, ficando você por último;
assim terá você algumas horas mais de vida.
Dizendo isto
deitou-se de costas e caiu no sono da
embriaguez.
Então, Ulisses e
seus quatro companheiros pegaram no chão a
tora e esquentaram sua ponta no fogo. Quando
estava em brasa, enterraram-na no único olho
do monstro adormecido, enquanto ele, cego,
rugia de dor e de ódio, fazendo tremer a
caverna. Mais que depressa os itacanos se
esconderam, enquanto os gigantes das
vizinhanças acudiram à caverna, perguntando
a Polifemo o que estava acontecendo.
- Está sendo
roubado, ou alguém está tentando matá-lo?
perguntaram eles.
-
"Ninguém" me fez mal.
"Ninguém" tenta me matar, bradou
ele.
- Então por que
berra você assim, perturbando o nosso sono?
resmungaram os vizinhos, retirando-se todos
para suas cavernas.
O Ciclope afastou o
bloco da entrada da caverna, esperando apanhar
os itacanos quando tentassem fugir; porém
Ulisses tinha, pensado na maneira de
enganá-lo. Amarrou as ovelhas lado a lado, de
três em três, e pendurou um de seus homens
debaixo de cada grupo de três; o gigante
palpava com a mão a lã dos carneiros e
deixava-os passar. Um depois do outro os
homens saíram da caverna desta maneira, até
que, enfim, só ficou Ulisses. Escolheu um
grande carneiro para transportá-lo e
agarrou-se à sua, barriga; o gigante
palpou-lhe o pelo, acariciou-o e deixou-o
passar. Assim escaparam todos os companheiros
daquela caverna terrível, e apressaram-se em
voltar para, seus navios levando consigo as
ovelhas e o carneiro.
Porém Ulisses não
podia desistir do prazer de escarnecer o
Ciclope.
- Olá, Ciclope!
bradou ele do convés de sua nau. Se alguém
lhe perguntar quem o cegou e o levou no bico,
responda que foi Ulisses de Ítaca., filho de
Laertes.
- Assim fora
profetizado, respondeu a voz retumbante da
caverna da montanha, porém, pensei que iria
me defrontar com um herói de grande força, e
não com um ratinho que me estonteou com vinho
forte.
O gigante levantou
então seus braços numa prece. - Senhor
Posseidon, deus do mar, ouça-me! rugiu ele.
Se é verdade que sou seu filho, faça então
com que Ulisses de Ítaca, que me cegou, não
consiga nunca voltar para a sua casa; ou se o
conseguir, que seja depois de muitas fadigas e
sofrimentos.
Então o Ciclope
ergueu do chão um enorme bloco de pedra
atirando-o com toda a sua força na direção
da voz escarnecedora de Ulisses. A pedra caiu
perto da popa, espirrando água e fazendo uma
onda que impeliu a nau para a ilha, onde os
outros itacanos os aguardavam com ansiedade.
Apressadamente, os doze navios fizeram-se ao
mar; porém Posseidon tinha ouvido a prece de
seu terrível filho, e, desde então, a
cólera do deus marinho se manifestou contra
Ulisses e seus companheiros; e, devido à sua
inimizade, sofreram um contratempo depois do
outro, até que Ulisses se convenceu de que
era o mais infeliz e inditoso homem de todo o
mundo.
[transcrição e
adaptação do texto original de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS,
editora Brasiliense, 1960.]
Moacir Índio da
Costa Júnior