PÁGINA DE MITOLOGIA

 

GEORGE BAKER



Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega




Editora Brasiliense
São Paulo
1960


Quinta Parte

Depois da Guerra





CAPITULO XXVI

COMO OS TROIANOS SE FIZERAM À VELA À PROCURA DE NOVA PÁTRIA


 

Se o assunto fosse deixado à discrição de Enéias, talvez permanecesse ele em Ílio, para reconstruir Tróia. Porém Anquises, que por duas vezes vira a cidade destruída pelos gregos ciumentos, tendo, além disso, fé arraigada nos presságios e prodígios, estava convencido de que o futuro de sua raça residia em outras terras.

- A estrela cadente nos levou de volta para o Monte Ida, disse ele, em que pese a soberania de Tróia ter passado para minhas mãos. Obedeceremos à vontade dos deuses, orientando-nos pelos seus sagrados oráculos.

Dirigiram-se os sobreviventes de Tróia para a pequena cidade costeira de Antandros, onde Enéias, com o auxílio de seu leal e devotado amigo, Acates, reuniu os membros da nação Dardânia, da qual Anquises era rei. Puseram mãos a obra, cortando e amoldando a madeira do Monte Ida, de maneira que no começo da primavera dispunham de pequena frota para com ela singrarem os mares.

Assim, pois, zarparam de sua pátria, arruinada e devastada, vertendo lágrimas pelo passado e com esperanças no futuro. Aportaram à Ilha de Delos, onde existia um famoso oráculo de Apolo. Enéias fêz um sacrifício implorando aquela divindade.

- Oriente-nos, ó Apolo, nós, os últimos remanescentes da outrora grande raça de Tróia. Dê-nos um refúgio seguro, onde possamos viver em paz. Conduza os nossos passos.

Então, de dentro do relicário veio a voz retumbante de Apolo:

- Sigam viagem à procura da terra donde seu primeiro antepassado é oriundo; pois está escrito que a ela você deverá regressar e que nela alcançará a casa de Enéias nova e nunca sonhada grandeza.

Quando tomaram os troianos conhecimento desta profecia, encheram-se de alegria, se bem que entre eles ainda reinasse a incerteza. De que país era oriundo o fundador de sua raça? Anquises, douto nessa matéria, afirmava que em dias muito remotos, antes de o Rei Tros fundar a cidade de Tróia vivia na Frígia um rei chamado Teucro, cuja filha, Bátia, se casara com Dárdano, pai de Tros. Acreditavam que Teucro viera da ilha de Creta; estava Anquises convencido de que era este o país mencionado pelo oráculo; que para lá deveriam dirigir-se e que lá seus descendentes conquistariam a grandeza.

Durante os meses que passaram em Antandros, tinham os troiainos recebido notícias a respeito dos gregos e de tudo que lhes acontecia. Sabiam que Agamenon tinha sido assassinado; que Ulisses se tinha extraviado e Menelau naufragado nas costas do Egito; sabiam também que Idomeneu tinha sido desterrado de Creta, e que com a força de que dispunham poderiam talvez efetuar um desembarque naquela ilha e se defender, caso fossem atacados pelo usurpador Leuco.

Tudo parecia favorecê-los. Um vento fresco inflava-lhes as velas, e no terceiro dia aportaram às plagas de Creta, onde começaram imediatamente a construir uma cidade que Enéias chamou Pérgamo. Lavraram a terra e semearam-na, e parecia que poderiam estabelecer-se pacificamente, quando, inesperadamente, o fruto do seu trabalho foi destruído por um golpe da fatalidade. Uma terrível seca arruinou as colheitas e desencadeou uma epidemia que se alastrou entre os troianos. Aos olhos de Anquises pareceu isto constituir sinal tão evidente da desaprovação divina, que aconselhou a Enéias que voltasse ao templo de Apolo, na Ilha de Delos, para receber novas instruções do oráculo.

Enéias concordou; porém na véspera da partida, à noite, teve uma visão. Apareceram-lhe os numes tutelares que ele tinha salvado do incêndio de Tróia, e lhe dirigiram a palavra.

- A divindade que você invocou em Delos, o poderoso Apolo, manda-lhe suas instruções, disseram eles. Nós, seus numes tutelares, fomos designados para velar por você e zelar pelo seu destino. Foi decretado que você construirá uma cidade que, com o tempo se tornará a soberana do mundo conhecido; porém, enganou-se você ao escolher Creta para sua pátria. Não é desta terra que provém sua estirpe. Você deve ir para o lugar onde nasceu Dárdano, o país que era conhecido outrora pelo nome de Hespéria, e que se chama hoje Itália. Deste país, nós, seus numes tutelares, fomos trazidos por Dárdano há muito tempo; para lá devemos retornar.

Quando Enéias contou ao seu pai a visão que tivera, Anquises se lembrou de que Cassandra tinha profetizado uma nova Tróia que se ergueria na Hespéria; mas tanto ele como os outros pensavam que ela estivesse louca. Ignorava ele que Dárdano viera da Itália, onde a ninfa Electra, filha de Oceano, o concebera de Zeus; não discutiu, contudo, a visão de seu filho, e os troianos embarcaram-se de novo abandonando as plagas de Creta.

Pouco depois de deixarem a ilha sofreram violenta tempestade. Durante três dias e três noites estiveram em grande perigo de soçobrar devido aos vendavais e às ondas encapeladas, e se sentiram felicíssimos de aportar, no quarto dia, à ilha onde se refugiaram e desembarcaram. Parecia estar desabitada, mas havia nela abundância de gado e de corças, e os troianos famintos prontamente prepararam suculentos churrascos sobre braseiros improvisados.

Ignoravam, porém, que estavam nos domínios das Hárpias. Quando, durante a Busca do Velocino de Ouro, os Filhos do Vento do Norte expulsaram aqueles monstros do palácio do desgraçado Rei Fineu, receberam as Harpias aquela ilha para nela viverem, com rebanhos de gado grosso e corças, para se alimentarem. Ficaram, pois, os troianos atônitos quando, ao se prepararem para saborear a refeição, acorreram os monstros alados de seus recessos nas colinas, grasnando furiosamente e arrebatando em suas garras as carnes assadas. Enéias, porém, não era homem para sofrer esse revés de cabeça baixa. Ordenou aos seus homens que preparassem nova refeição, ao abrigo de árvores frondosas, escondendo suas armas no mato, ao alcance da mão, para enxotarem as Hárpias, caso estas aparecessem de novo.

Tão cedo sentiram elas o cheiro da carne assada, precipitaram-se de novo sobre os troianos. Porém, desta vez, foram rechaçadas, em que pese serem invulneráveis às armas humanas. Uma delas, pousada na ponta de uma rocha, bradou para Enéias que ele as prejudicava hostilizando-as, e consumindo seus alimentos. Enéias estava disposto a oferecer-lhes um sacrifício para apaziguá-las, quando seu pai Anquises o deteve.

- É melhor você fazer um sacrifício aos deuses, meu filho, disse ele, já que seu poderio é muito maior que a inimizade das Harpias. Por isso, Enéias ofereceu um sacrifício a Zeus e a Apolo; e, mais uma vez, embarcaram-se os troianos, fazendo-se ao mar.

Navegaram, então, para o norte, cosidos com a costa ocidental da Grécia; passando ao largo da rochosa Ítaca, donde Penélope olhava em vão para o mar, à espera de Ulisses. Continuando para o norte, foram compelidos a aportarem nas costas da Caônia. Aí se defrontaram com agradável surpresa. Se bem que o ignorassem, este era o reino onde Pirro, filho de Aquiles, reinara. Depois de sua morte, Heleno, filho de Príamo, lhe tomara o lugar; casara com Andrômaca, viúva do destemido Heitor, e eram tão felizes quanto possível, neste país estrangeiro. A presença de Enéias trouxe amargas recordações ao espírito de Andrômaca, mas, apesar disso, recebeu-o cordialmente, enquanto Heleno ofereceu sacrifícios a Apolo para conhecer a vontade dos deuses a respeito daqueles peregrinos troianos. Recebeu o oráculo do deus em seu templo, e contou a Enéias o que estava à sua espera.

- Está decretado que você alcançará a terra prometida, disse ele, porém, não facilmente, nem em breve. As terras da Itália são próximas, para oeste, porém os ventos o distanciarão delas. Você fará uma longa viagem, irá mesmo até o Mundo Subterrâneo; mas afinal chegará são e salvo ao seu reino. Preste agora, atenção ao que lhe vou revelar, e o guarde em sua memória. No lugar em que, ao lado de um regato que sai do bosque, deparar com uma porca branca e trinta leitões, todos tão brancos quanto a mãe, você fundará a sua cidade; e lá encontrará o fim de seus trabalhos e provações.

Heleno contou então a Enéias, detalhadamente, o caminho que devia seguir, e algumas das coisas que lhe aconteceriam em sua peregrinação; porém, muita coisa, confessou ele, furtava-se aos seus olhos proféticos pelo poder da deusa Hera.

- A Rainha do Olimpo ainda é hostil à sua raça, disse ele, e o perseguirá com seu ódio, conquanto seja a, vontade de Zeus que você chegue, enfim, ao seu refúgio. Ofereça sacrifícios a Hera; dirija-lhe preces e faça-lhe grandes reverências, de maneira que sua cólera seja desfeita pela sua devoção e humildade. Assim você será próspero e feliz com a bênção de Zeus e de Hera, e a raça de Tróia florescerá em novas terras.

Quando as naus estavam prontas para levantar ferros, Heleno cumulou Enéias e seus amigos de ricos presentes do tesouro de Pirro - muitos dos quais provinham de Tróia. Sentia Andrômaca especial ternura pelo jovem Iulo, que tinha a mesma idade que teria seu filho, se não tivesse sido morto pelos gregos. Como fosse Iulo filho de uma filha de Príamo, Andrômaca achou que encontrava em seus traços muita parecença, com seu falecido esposo e com seu filho assassinado; verteu lágrimas ao se despedir dele, e deu-lhe algumas roupas, que tecera e bordara com as próprias mãos para o filho querido, em dias mais felizes.

Assim, depois de comoventes despedidas, os troianos zarparam felizes por ver seus parentes prosperarem em terras herdadas de seus conquistadores; e, mais uma vez, alçaram suas velas ao capricho dos ventos.


[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em

DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 
 
 


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