PÁGINA DE MITOLOGIA

 

GEORGE BAKER



Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega
 

Editora Brasiliense
São Paulo
1960

 

Quinta Parte

Depois da Guerra





CAPITULO XXV

O REGRESSO DO CONQUISTADOR


 

Nada restava de Tróia quando se fizeram os gregos à vela, de volta para sua pátria; nada, a não ser pedras tostadas pelo fogo enegrecidas pelo fumo e paredes derruídas. Estavam as naus carregadas de espólios e de prisioneiros. De toda a raça de Príamo somente Heleno, de seus filhos, e Cassandra, de suas filhas, se salvaram com vida. Polixena tinha sido morta por Pirro, sobre o túmulo de seu pai Aquiles. O filho de Heitor (Astianax) tinha sido arrojado do alto do parapeito para se despedaçar no sopé rochoso da muralha da cidadela. Andrômaca, mãe do menino, foi levada por Pirro; Cassandra, por Agamenon. Coube a Rainha Hécuba a Ulisses, a quem odiava mais que a qualquer outro ser humano. Em sua viagem de regresso desembarcou Ulisses no litoral da Trácia, aos cuidados de cujo rei, Polimnestror, ficara o pequeno filho de Príamo e Hécuba. Aquele rei traiçoeiro, entretanto, tinha matado o menino, e Hécuba chegou a tempo de ver o corpo de seu filho morto boiar ao sabor das ondas. Precipitou-se então pelo palácio de Polimnestor adentro e o teria matado, não tivessem os guardas acorrido para defendê-lo. Expulsaram-na, e dizem alguns que, ao correr, transformou-se em cadela, precipitando-se nas águas do mar.

Pouco tempo depois desencadeou-se um temporal no qual se perderam muitas naves gregas. Fora a tempestade enviada por Atena, para destruir um homem chamado Ajax, que apelidaram de Locriano para o distinguir do filho de Telamon. Durante o saque de Tróia, Ajax havia profanado o templo de Atena, e tão encolerizada ficara a deusa que pediu de empréstimo os raios de seu pai Zeus e os vendavais e tempestades de Posseidon, para aniquilar Ajax, o lócrio. Foi o navio em que este viajava atingido por um raio e reduzido a destroços, conseguindo porém Ajax alcançar a nado uma rocha que emergia da superfície do mar. Soltou ele então uma gargalhada e, brandindo o punho fechado para o céu, gabou-se de se ter salvado apesar dos deuses. A este desafio respondeu Atena com seu poderio esmagador; um raio fulminou o rochedo, sendo Ajax tragado pelo mar enfurecido.

Ao longo da costa rochosa da grande ilha de Eubéia a tempestade açoitava e bramia, arrojando um barco depois do outro contra os perigosos arrecifes. Reinava na ilha o Rei Náuplio, pai de Palamedes; com cruel satisfação contemplava as naus se despedaçarem contra os escolhos, e ria-se porque se achava, assim, vingado do assassínio de seu filho. Mandou acender fogos despistadores para atrair mais navios à sua perda, com promessas ilusórias de segurança; e esperava com ansiedade que a nau de Ulisses viesse espatifar-se contra os penedos. Ulisses, porém, afastou se daquela costa perigosa. Ficou Náuplio tão enraivecido de vê-lo escapar, que se atirou ao mar do alto de um penhasco. Tão entranhado era seu ódio pelos gregos que fizera tudo o que pudera para indispor contra eles os seus próprios parentes. Quando Idomeneu, o mais cavalheiresco de todos os guerreiros gregos, retornou para o seu reino na ilha de Creta, descobriu que o Rei Náuplio tinha atraído em prol de sua causa o amigo a quem Idomeneu confiara seu reino e sua mulher. O nome deste homem era Leuco, e lhe tinha sido prometida a filha de Idomeneu, para se casarem quando terminasse a guerra de Tróia. Influenciado por Náuplio, ele tinha matado a mulher do rei e sua filha, apoderando-se do trono de Creta. Idomeneu foi exilado de seu país e viveu o resto de seus dias no desterro.

Tal era a beleza de Helena - e o poder de sua protetora, a deusa Afrodite - que, ao encontra-la em Tróia, sentiu Menelau sua antiga paixão renascer, perdoando-lhe o mal que tinha feito. Mas ele, também, foi colhido pela tempestade que causou a morte de Ajax; sua nau desgarrou-se, distanciando-se para o sul, naufragando nas costas do Egito. E foi por caminhos árduos e desviados que ele e Helena, afinal, voltaram para Esparta.

De todos os reis e chefes da expedição foi Agamenon o único que atingiu o continente grego facilmente e sem percalços. Fogueiras foram acendidas no alto das colinas para anunciar sua chegada, e mensageiros precederam-no no caminho de Micenas para noticiarem a sua vitória e a queda de Tróia. Agamenon contemplou com satisfação e orgulho as carradas de despojos aguardando transporte para Micenas, e pensava como lhe seria agradável passar o resto de seus dias pacificamente, na ociosidade e na segurança de seu lar, em companhia da esposa Clitemnestra e de seus filhos.

Cassandra, entretanto, implorava-lhe que não voltasse já para Micenas.

- Se for para lá, dizia-lhe ela, encontrará a morte às mãos de sua mulher.

Agamenon, porém, se contentava em rir do que ela dizia.

- Por que razão haveria minha, mulher de me querer matar? perguntou. Não volto eu para casa vitorioso? E não será ela a rainha mais rica e poderosa do mundo? Ouvindo isto, Cassandra baixou a cabeça, pois sabia, que suas profecias estavam fadadas ao descrédito, muito embora fossem verdadeiras.

Por menos que Agamenon o acreditasse, sua mulher Clitemnestra temia, realmente, o seu retorno. Não lhe perdoava a perda de sua amada Ifigênia e, à medida que seu ódio por Agamenon crescera, mais se aproximara de seu primo Egisto, que Agamenon nomeara regente do reino durante sua ausência. De Egisto tivera uma filha chamada Erígone. O receio do que faria Agamenon quando viesse a saber disto, assim como o ódio que tinha do marido, por causa da morte de Ifigênia, incitou em seu coração a resolução desesperada de eliminá-lo e fazer de Egisto seu esposo e Rei de Micenas. Concordou Egisto com este plano e foi ao encontro de Agamenon quando este desembarcou, viajando juntos para Micenas.

Conseguira Egisto atrair à sua causa muitos rapazes que não tinham tomado parte na guerra de Tróia por serem demasiado jovens. Organizou uma grande festa em honra de Agamenon, para a qual convidou todos os seus partidários. Quando, em meio da noite, a festa atingia o auge, estando todos sob os efeitos de abundantes libações, Egisto deu o sinal combinado.

No mesmo instante todos os jovens que se achavam na sala do festim arremessaram-se sobre os guerreiros recém-chegados, trucidando-os. Ergueu-se Clitemnestra de seu trono, onde estava sentada ao lado de Agamenon, matando com as próprias mãos o marido e Cassandra. Proclamou em seguida a Egisto seu senhor e Rei de Micenas, distribuindo uma parte do tesouro de Tróia entre os que participaram da chacina.

Pouco tempo depois casaram-se Clitemnestra e Egisto, aceitando Micenas pacificamente o novo reinado. Porém, todos sabiam que Orestes, filho de Agamenon, ainda estava vivo e que nunca se sentiriam seguros em seu trono o novo monarca e sua traiçoeira, rainha. Nas mãos de Orestes repousava agora o dever de vingar o assassínio de seu pai. Egisto teria eliminado também Orestes, não tivesse o menino sido escondido por sua irmã Electra e enviado para a Fócida, fora do alcance do seu cruel padrasto. Era a rainha da Fócida irmã de Agamenon e seu marido, o Rei Estrófio, concordou de bom grado em proteger e educar Orestes, até ele atingir a idade viril. Orestes foi, pois, educado na companhia de seu primo Pilades, que se tornou seu amigo certo e companheiro de todos os instantes; enquanto isto vivia Electra escondida em Micenas, à espera do dia em que fosse vingada a morte de seu adorado pai.

Desta maneira foi o conquistador de Tróia derrotado na hora do triunfo, e levado á morte pelo engodo e a traição. Mais um membro da raça de Pélops caía assim vitimado pela maldição do esquecido auriga Mirtilo.

 

[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em

DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 

 
 
 


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