Ao
olharem, do topo dos muros da cidade, certa
manhã, admiraram-se os habitantes de Tróia de
não ver nenhum sinal de vida no acampamento
grego; porém, em alto mar, avistaram centenas
de velas levando as naus gregas para a Ilha de
Tenedos, a primeira etapa na viagem para a
Grécia.
Foi
inimaginável a alegria e o entusiasmo dos
habitantes de Tróia. Havia muitos meses que
estavam presos dentro daqueles muros, de maneira
que já se achavam fartos de ver sempre as
mesmas ruas e as mesmas casas, e anelavam poder
passear pela planície, pelas praias e à beira
rio. Finalmente, os inimigos haviam se afastado,
e eles podiam sem perigo sair da cidade. Homens,
mulheres e crianças jorravam pelas portas da
cidadela, rindo e palrando alegremente.
Inspecionavam
com curiosidade o acampamento dos gregos,
passeando de um lado para o outro entre as
tendas agora vazias e desertas; indicavam os
lugares onde Aquiles se sentara amuado, onde
Agamenon reuniu o seu conselho; onde as naus
estiveram abicadas, onde os troianos
transpuseram os fossos e assaltaram as entradas
do acampamento, na véspera da morte de Heitor.
Parecia
estranho aos troianos que aquele cerco
infindável se tivesse acabado, e o inimigo
retirado; que a vida normal de todos os dias
tivesse recomeçado - homens e mulheres
casando-se, crianças crescendo, sem nada
recear. Estavam inclinados a dar graças aos
deuses benevolentes; e, acima de tudo, a Atena,
que se esquecera, enfim, de sua inimizade,
induzindo o inimigo a levantar o cerco.
Resolveram, pois, dedicar à deusa virginal a
grande torre que os gregos haviam deixado no
acampamento, ao se retirarem.
Essa
torre, construída sobre uma armação com
quatro pernas, era feita de tábuas e recoberta,
de couro, possuindo uma saliência no alto.
Ninguém tinha certeza do que aquilo era;
afirmavam alguns que fora feito para ser
colocado contra o muro da cidadela, para que os
guerreiros pudessem assaltar a muralha,
protegidos contra as lanças e as setas,
emergindo pela saliência, na altura do
parapeito da muralha. Diziam outros que se
tratava de uma torre de atalaia, ou que era um
monumento feito em honra de Atena, construído
com a forma de torre para abrigar o Paládio
subtraído de Tróia.
Qualquer que fosse a sua
serventia, porém, parecia-se, em suma, com um
gigantesco cavalo, de maneira que todos o
chamavam assim e puseram-se logo a colocá-lo
sobre rodas para levá-lo para a cidade. Os
homens mais velhos e mais prudentes achavam que
era melhor destruí-lo no lugar onde se achava,
e Laocoonte, sacerdote de Posseidon, bradava
para que o povo se precavesse contra aquele
objeto.
-
Acreditam vocês que os gregos tenham partido
definitivamente? gritava ele, e ignoram vocês a
astúcia de Ulisses? Não é sem intenção que
esta torre foi construída e abandonada aqui na
praia. Não se deixem enganar; não cometam a
loucura de trazer esta torre para dentro dos
muros da cidade!
Porém
o povo estava demasiado alegre e entusiasmado
para atender às recomendações do velho
pontífice. Em sua cólera Laocoonte arremessou
seu dardo contra o flanco do cavalo,
trespassando-o, e o povo poderia ter ouvido
grito de um homem ferido se outro grito, no
mesmo instante não tivesse vindo de outra
direção.
Tinham
encontrado um grego escondido nas vizinhanças;
fora agarrado, amarrado e atirado aos pés do
Rei Príamo que lhe perguntou porque não se
tinha embarcado com os seus companheiros.
- Meu
nome, disse o grego, é Sinon. Vim para cá na
companhia Palamedes, que Ulisses acusou
falsamente de traição, e que foi apedrejado
até morrer. Jurei vingar-me do assassino do meu
parente, e o ódio de Ulisses virou-se contra
mim. Há muito tempo os gregos já queriam
embarcar para a sua pátria, porém o mau tempo
e os ventos contrários impediram-nos de o
fazer. Por fim, o adivinho Calcas disse-lhes que
da mesma maneira que sua viagem da Grécia para
as plagas de Tróia se tornara possível somente
pelo sacrifício da filha do Rei Agamenon,
Ifigênia, sua volta para a pátria só poderia
efetuar-se mediante outro sacrifício. E, pelo
astucioso Ulisses, fui escolhido como vítima.
Fui amarrado e estava a ponto de ser sacrificado
quando consegui escapar. Refugiei-me no pântano
até a frota fazer-se à vela; e agora aqui
estou à sua mercê; pois não tenho amigos nem
lar para me receberem.
Apiedou-se
o Rei Príamo, ordenando que o prisioneiro fosse
libertado.
-
Diga-nos, Sinon, perguntou ele, qual era a
finalidade desta torre?
- Se
eu lhe disser, estarei traindo meu próprio
povo, respondeu Sinon, mas você foi
misericordioso, e eu, não sou mais grego; pois
minha nação me repudiou. Saiba, pois, que
desde que Ulisses e Diomedes roubaram o
Paládio, a deusa Atena, os persegue e foi para
reconquistar os seus favores que os gregos
erigiram esta torre para servir de santuário.
Foi profetizado que se a destruírem no local em
que se acha, Tróia cairá; pois os gregos
pretendem voltar.
Porém, se a torre for levada
para dentro dos muros de Tróia e colocada no
templo da deusa, no ponto mais alto da cidade,
então vocês serão inexpugnáveis, e todo o
esforço dos gregos será inútil.
Impressionou-se
o Rei Príamo, grandemente, com essas palavras e
ordenou que se fizesse ali mesmo na praia, o
sacrifício de um touro. Celebrava o sacerdote
de Posseidon, Laocoonte, os ritos do
sacrifício, quando repentinamente duas
gigantescas serpentes marinhas saíram do mar e
envolveram o ancião e seus dois filhos,
matando-os e esmagando-os.
Isto
acabou de convencer os troianos. Não tiveram
pena das três vítimas, pois consideravam que
se tratava de um castigo por ter Laocoonte
arremessado o dardo contra o cavalo. Arrastaram
o Cavalo de Pau para Tróia, galgando com ele as
ruas íngremes até o templo de Atena que
coroava o ponto mais alto da cidade; cantando e
gritando de alegria e triunfo, certos da
vitória e da complacência da deusa.
Somente
um troiano chorava. A filha do Rei Príamo,
Cassandra, tinha recebido de Apolo o dom de
profecia; porém, como repelisse as propostas
amorosas do deus e estando este incapacitado de
revogar a sua dádiva, decretara que ninguém
acreditaria nas suas profecias, pensando todos
que ela era louca. Assim sendo, conquanto ela
implorasse em prantos aos seus concidadãos que
não trouxessem para a cidade o Cavalo de Pau,
suas palavras eram ignoradas, e o Cavalo foi
abandonado no átrio do templo - sob a guarda de
Teano, esposa de Antenor, que conhecia
perfeitamente o seu segredo.
A
história contada por Sinon fora uma intrujice.
Oferecera-se voluntariamente para permanecer no
acampamento e representar aquele papel destinado
a engambelar os troianos. Tão bem representara
seu papel que ninguém dele suspeitou e lhe
permitiram completa liberdade de locomoção.
Durante a noite toda os troianos festejaram e se
rejubilaram; porém, Sinon, arrastou-se nas
sombras da noite para o silencioso e solitário
Cavalo de Pau, e abriu-lhe a porta. Então, do
seu bojo saiu um grupo de gregos - Menelau,
Ulisses, Pirro, filho de Aquiles, e Epeu, que
tinha construído a torre, junto com muitos
outros. Estavam armados dos pés à cabeça e
ficaram agrupados ali no átrio do templo,
observando os festejos da cidade lá embaixo, e
sabedores de que a frota grega tinha voltado na
calada da noite e que, escondidos fora dos muros
da cidade, milhares de gregos esperavam que as
portas lhes fossem abertas.
Enéias
estava dormindo em sua cama quando Heitor lhe
apareceu em sonho.
- Fuja
enquanto é tempo, disse-lhe o fantasma, pois a
cidade está sendo tomada!
Tão
vívida era a visão que Enéias se acordou,
saltando da cama para defrontar-se com a cidade
em chamas e ouvir os gritos e os brados dos
troianos enquanto os gregos percorriam as ruas
incendiando e matando. Assombrado e desnorteado,
não podia compreender como aquilo acontecera,
até que um velho pontífice chamado Panteu se
refugiou em sua casa e lhe contou que um grupo
de gregos que estava escondido no Cavalo de Pau,
tinha matado os guardas e aberto as portas da
cidade para os seus patrícios que estavam de
volta, à espreita.
Às
pressas, Enéias convocou todos os seus homens
que se achavam em casa, comandando-os para
enfrentar os gregos. Não podiam fazer grande
coisa, pois eram poucos contra muitos, porém a
sorte os protegia. Um grupo de gregos tomou-os
por seus próprios companheiros; antes que
pudessem compreender o seu engano, Enéias e os
seus homens os tinham dominado. Mais que
depressa, os dardânios trocaram suas armaduras
e seus escudos com os dos gregos, que haviam
matado; então, ignorando os gregos que eles
eram troianos, e identificando eles facilmente
seus inimigos, avançaram silenciosamente entre
os assaltantes matando-os sem trégua e sem
piedade.
Ao
avistarem, porém, Cassandra arrastada aos
gritos pelas ruas, se desmascararam, pois
precipitaram-se em sua defesa, e rapidamente
foram cercados pelos gregos que descobriram o
seu embuste. Um depois do outro caíram todos
exceto Enéias, que ainda lutava com vigor;
achou-se ele ao lado da porta do palácio do Rei
Príamo onde conseguiu refugiar-se, resolvido a
defender o velho rei e a enfrentar os atacantes,
enquanto tivesse forças para resistir. Príamo
tinha-se armado e desembainhara a sua espada,
havia muito tempo, inativa; porém, quando os
gregos arrombaram as portas e se precipitaram no
grande saguão do palácio, não conseguiu
detê-los. Viu seu próprio filho Polites ser
morto por Pirro; lançou um dardo com pouca
força que ricocheteou sobre o escudo do grego.
No momento seguinte Pirro saltou sobre ele,
arrastou-o para o altar do seu próprio lar, e
ali, enterrou-lhe o punhal no coração. Assim
morreu Príamo, Rei de Tróia.
Enéias
teve então de resolver um difícil problema.
Seu espírito combativo impelia-o a se arrojar
sobre Pirro, este filho brutal de um pai
inexorável, a assassiná-lo e a matar todos
aqueles que estavam com ele, até morrer por sua
vez. Isto, porém, não lhe traria vantagem
alguma, pois que Príamo já estava morto, e
deixaria seu próprio pai já velho, sua mulher
e seu pequeno filho à mercê dos gregos
ferozes. O palácio de Deífobo estava em
chamas; era pouco provável que alguns dos
filhos de Priamo ainda estivessem com vida e
Anquises era agora Rei de Tróia. Parecia, pois,
a Enéias, que era melhor defender sua própria
família e, se possível, levá-la para longe
daquela cidade condenada, do que morrer
combatendo e deixar a soberania passar para as
mãos dos gregos.
Anquises
estava não somente velho mas também
incapacitado. Uma vez gabou-se abertamente de
ser amado pela deusa Afrodite, e pretendeu que
ela era mãe de Enéias. Em castigo de sua
indiscrição fora atacado de paralisia, das
pernas e desde então ficara, entrevado. Os
pensamentos de Enéias dirigiam-se para o velho
entrevado enquanto ele corria para casa através
das ruas de Tróia. Passando na frente de um
templo avistou o vulto de uma mulher embiocada,
espreitando solitária, e reconheceu Helena -
temerosa agora de que algum troiano a matasse
para vingar a perda da cidade, e com mais medo,
ainda, da ira de Menelau, se este a encontrasse.
Estava Enéias a ponto de matá-la, quando sua
mãe, a, deusa Afrodite lhe deteve o braço.
- Não
foi nem a beleza de Helena nem a fraqueza de
Páris que destruiu Tróia disse ela, mas a
vontade dos deuses. Veja, meu filho, Hera em pé
na porta da cidade, incentivando os gregos. Veja
como no ponto mais alto da cidade, Atena grita
triunfantemente, enquanto sob os muros da
cidade, Posseidoin, deus dos terremotos, abala
as torres da cidadela. Tróia está condenada,
meu filho, e nada lhe resta, senão conduzir a
sua família para lugar seguro. Siga-me e eu o
protegerei.
Porém
Anquises recusou-se a deixar a cidade,
preferindo a morte ao exílio, quando de repente
a sua decisão foi alterada por um milagre. Seu
neto Iulo pôs-se subitamente a irradiar uma luz
sobrenatural; uma chama divina brilhava sobre
sua cabeça e o velho Anquises compreendendo que
se tratava de um aviso do céu, pediu a Zeus que
o orientasse. Enquanto falava, ouviu-se uma
trovoada e uma estrela cadente riscou o
firmamento, arremessando-se sobre o Monte Ida.
Constituíam
estes fatos presságio bastante significativo.
Estava agora Anquises tão ansioso por deixar a
cidade em chamas quanto estivera, poucos minutos
antes, relutante em abandoná-la; pois estava,
claro que os deuses queriam que sua linhagem
fosse preservada, e que seu neto Iulo se
tornasse, no futuro, um grande rei. Por isso,
Anquises deixou-se erguer aos ombros de Enéias,
que conduzia Iulo pela mão, seguido de perto
por Creusa, mãe do menino e filha de Príamo.
Cautelosamente, esgueiraram-se por passagens
estreitas e vielas, escondendo-se nos vãos das
portas quando avistavam grupos inimigos. Quando
atingiam as portas da cidade ouviram,
repentinamente, gritos atrás deles; Enéias
apressou o passo, porém, quando depositou seu
pai no remanso de um bosque, constatou,
consternado, que Creusa não mais estava em sua
companhia,. Louco de ansiedade e de aflição
precipitou-se, de espada em punho, pela cidade
em chamas, percorrendo em sentido contrário o
caminho por onde viera. Porém Creusa tinha
desaparecido. Enéias correu pelas ruas bradando
em altas vozes o seu nome, sem se incomodar com
os gregos ocupados em amontoar tesouros no meio
das praças e das ruas, ou com as mulheres
troianas cativas, que aguardavam, formando
grandes filas, sorumbáticas, as ordens de seus
conquistadores. Exausto e desesperado, Enéias
teria continuado a buscar sua bela e jovem
esposa até o dia clarear, indiferente aos
perigos que o cercavam se não visse,
repentinamente, num turbilhão de fumaça, o
rosto de Creusa desfeito em prantos.
Convenceu-se então de que ela tinha morrido, e
que acabava de ver o seu fantasma.
-
Cesse de me procurar, Enéias, disse ela
tristemente, e não se aflija por minha causa.
Foi decretado pelos deuses que você
atravessará os mares e reconstruirá Tróia em
terras estranhas; que conquistará um reino e
terá uma mulher de estirpe real; e que o filho
seu e meu reinará depois de você. E agora,
querido senhor meu, adeus.
Dizendo
isto desapareceu e Enéias, com o coração
dilacerado por tê-la perdido voltou para seu
pai, e para seu filho ora órfão de mãe.
Dirigiam-se
assim os lamentosos sobreviventes de Tróia para
o Monte Ida, enquanto os gregos exultavam; e se
elevavam as chamas do incêndio acima das torres
oscilantes e das paredes esboroadas; e a mais
orgulhosa cidade do mundo reduzia-se a um
fumegante amontoado de escombros sem vida.
Páris tinha morrido. Porém, o archote ardente
com que sonhara sua mãe ao lhe dar à luz,
começara, a queimar muito tempo antes, no dia
em que o pastor Alexandre entregara o prêmio de
beleza à deusa da formosura e do amor.
[transcrição
e adaptação do texto original de George Baker,
em
DEUSES
E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]
Moacir
Índio da Costa Júnior