PÁGINA DE MITOLOGIA

 

GEORGE BAKER



Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega


Editora Brasiliense
São Paulo
1960




Quarta Parte

O Cerco de Tróia





CAPITULO XXIV

O CAVALO DE PAU
E COMO O ARCHOTE INFLAMADO PÔS FOGO ÀS TORRES DE TRÓIA


 

Ao olharem, do topo dos muros da cidade, certa manhã, admiraram-se os habitantes de Tróia de não ver nenhum sinal de vida no acampamento grego; porém, em alto mar, avistaram centenas de velas levando as naus gregas para a Ilha de Tenedos, a primeira etapa na viagem para a Grécia.

Foi inimaginável a alegria e o entusiasmo dos habitantes de Tróia. Havia muitos meses que estavam presos dentro daqueles muros, de maneira que já se achavam fartos de ver sempre as mesmas ruas e as mesmas casas, e anelavam poder passear pela planície, pelas praias e à beira rio. Finalmente, os inimigos haviam se afastado, e eles podiam sem perigo sair da cidade. Homens, mulheres e crianças jorravam pelas portas da cidadela, rindo e palrando alegremente.

Inspecionavam com curiosidade o acampamento dos gregos, passeando de um lado para o outro entre as tendas agora vazias e desertas; indicavam os lugares onde Aquiles se sentara amuado, onde Agamenon reuniu o seu conselho; onde as naus estiveram abicadas, onde os troianos transpuseram os fossos e assaltaram as entradas do acampamento, na véspera da morte de Heitor.

Parecia estranho aos troianos que aquele cerco infindável se tivesse acabado, e o inimigo retirado; que a vida normal de todos os dias tivesse recomeçado - homens e mulheres casando-se, crianças crescendo, sem nada recear. Estavam inclinados a dar graças aos deuses benevolentes; e, acima de tudo, a Atena, que se esquecera, enfim, de sua inimizade, induzindo o inimigo a levantar o cerco. Resolveram, pois, dedicar à deusa virginal a grande torre que os gregos haviam deixado no acampamento, ao se retirarem.

Essa torre, construída sobre uma armação com quatro pernas, era feita de tábuas e recoberta, de couro, possuindo uma saliência no alto. Ninguém tinha certeza do que aquilo era; afirmavam alguns que fora feito para ser colocado contra o muro da cidadela, para que os guerreiros pudessem assaltar a muralha, protegidos contra as lanças e as setas, emergindo pela saliência, na altura do parapeito da muralha. Diziam outros que se tratava de uma torre de atalaia, ou que era um monumento feito em honra de Atena, construído com a forma de torre para abrigar o Paládio subtraído de Tróia.

Qualquer que fosse a sua serventia, porém, parecia-se, em suma, com um gigantesco cavalo, de maneira que todos o chamavam assim e puseram-se logo a colocá-lo sobre rodas para levá-lo para a cidade. Os homens mais velhos e mais prudentes achavam que era melhor destruí-lo no lugar onde se achava, e Laocoonte, sacerdote de Posseidon, bradava para que o povo se precavesse contra aquele objeto.

- Acreditam vocês que os gregos tenham partido definitivamente? gritava ele, e ignoram vocês a astúcia de Ulisses? Não é sem intenção que esta torre foi construída e abandonada aqui na praia. Não se deixem enganar; não cometam a loucura de trazer esta torre para dentro dos muros da cidade!

Porém o povo estava demasiado alegre e entusiasmado para atender às recomendações do velho pontífice. Em sua cólera Laocoonte arremessou seu dardo contra o flanco do cavalo, trespassando-o, e o povo poderia ter ouvido grito de um homem ferido se outro grito, no mesmo instante não tivesse vindo de outra direção.

Tinham encontrado um grego escondido nas vizinhanças; fora agarrado, amarrado e atirado aos pés do Rei Príamo que lhe perguntou porque não se tinha embarcado com os seus companheiros.

- Meu nome, disse o grego, é Sinon. Vim para cá na companhia Palamedes, que Ulisses acusou falsamente de traição, e que foi apedrejado até morrer. Jurei vingar-me do assassino do meu parente, e o ódio de Ulisses virou-se contra mim. Há muito tempo os gregos já queriam embarcar para a sua pátria, porém o mau tempo e os ventos contrários impediram-nos de o fazer. Por fim, o adivinho Calcas disse-lhes que da mesma maneira que sua viagem da Grécia para as plagas de Tróia se tornara possível somente pelo sacrifício da filha do Rei Agamenon, Ifigênia, sua volta para a pátria só poderia efetuar-se mediante outro sacrifício. E, pelo astucioso Ulisses, fui escolhido como vítima. Fui amarrado e estava a ponto de ser sacrificado quando consegui escapar. Refugiei-me no pântano até a frota fazer-se à vela; e agora aqui estou à sua mercê; pois não tenho amigos nem lar para me receberem.

Apiedou-se o Rei Príamo, ordenando que o prisioneiro fosse libertado.

- Diga-nos, Sinon, perguntou ele, qual era a finalidade desta torre?

- Se eu lhe disser, estarei traindo meu próprio povo, respondeu Sinon, mas você foi misericordioso, e eu, não sou mais grego; pois minha nação me repudiou. Saiba, pois, que desde que Ulisses e Diomedes roubaram o Paládio, a deusa Atena, os persegue e foi para reconquistar os seus favores que os gregos erigiram esta torre para servir de santuário. Foi profetizado que se a destruírem no local em que se acha, Tróia cairá; pois os gregos pretendem voltar.

Porém, se a torre for levada para dentro dos muros de Tróia e colocada no templo da deusa, no ponto mais alto da cidade, então vocês serão inexpugnáveis, e todo o esforço dos gregos será inútil.

Impressionou-se o Rei Príamo, grandemente, com essas palavras e ordenou que se fizesse ali mesmo na praia, o sacrifício de um touro. Celebrava o sacerdote de Posseidon, Laocoonte, os ritos do sacrifício, quando repentinamente duas gigantescas serpentes marinhas saíram do mar e envolveram o ancião e seus dois filhos, matando-os e esmagando-os.

Isto acabou de convencer os troianos. Não tiveram pena das três vítimas, pois consideravam que se tratava de um castigo por ter Laocoonte arremessado o dardo contra o cavalo. Arrastaram o Cavalo de Pau para Tróia, galgando com ele as ruas íngremes até o templo de Atena que coroava o ponto mais alto da cidade; cantando e gritando de alegria e triunfo, certos da vitória e da complacência da deusa.

Somente um troiano chorava. A filha do Rei Príamo, Cassandra, tinha recebido de Apolo o dom de profecia; porém, como repelisse as propostas amorosas do deus e estando este incapacitado de revogar a sua dádiva, decretara que ninguém acreditaria nas suas profecias, pensando todos que ela era louca. Assim sendo, conquanto ela implorasse em prantos aos seus concidadãos que não trouxessem para a cidade o Cavalo de Pau, suas palavras eram ignoradas, e o Cavalo foi abandonado no átrio do templo - sob a guarda de Teano, esposa de Antenor, que conhecia perfeitamente o seu segredo.

A história contada por Sinon fora uma intrujice. Oferecera-se voluntariamente para permanecer no acampamento e representar aquele papel destinado a engambelar os troianos. Tão bem representara seu papel que ninguém dele suspeitou e lhe permitiram completa liberdade de locomoção. Durante a noite toda os troianos festejaram e se rejubilaram; porém, Sinon, arrastou-se nas sombras da noite para o silencioso e solitário Cavalo de Pau, e abriu-lhe a porta. Então, do seu bojo saiu um grupo de gregos - Menelau, Ulisses, Pirro, filho de Aquiles, e Epeu, que tinha construído a torre, junto com muitos outros. Estavam armados dos pés à cabeça e ficaram agrupados ali no átrio do templo, observando os festejos da cidade lá embaixo, e sabedores de que a frota grega tinha voltado na calada da noite e que, escondidos fora dos muros da cidade, milhares de gregos esperavam que as portas lhes fossem abertas.

Enéias estava dormindo em sua cama quando Heitor lhe apareceu em sonho.

- Fuja enquanto é tempo, disse-lhe o fantasma, pois a cidade está sendo tomada!

Tão vívida era a visão que Enéias se acordou, saltando da cama para defrontar-se com a cidade em chamas e ouvir os gritos e os brados dos troianos enquanto os gregos percorriam as ruas incendiando e matando. Assombrado e desnorteado, não podia compreender como aquilo acontecera, até que um velho pontífice chamado Panteu se refugiou em sua casa e lhe contou que um grupo de gregos que estava escondido no Cavalo de Pau, tinha matado os guardas e aberto as portas da cidade para os seus patrícios que estavam de volta, à espreita.

Às pressas, Enéias convocou todos os seus homens que se achavam em casa, comandando-os para enfrentar os gregos. Não podiam fazer grande coisa, pois eram poucos contra muitos, porém a sorte os protegia. Um grupo de gregos tomou-os por seus próprios companheiros; antes que pudessem compreender o seu engano, Enéias e os seus homens os tinham dominado. Mais que depressa, os dardânios trocaram suas armaduras e seus escudos com os dos gregos, que haviam matado; então, ignorando os gregos que eles eram troianos, e identificando eles facilmente seus inimigos, avançaram silenciosamente entre os assaltantes matando-os sem trégua e sem piedade.

Ao avistarem, porém, Cassandra arrastada aos gritos pelas ruas, se desmascararam, pois precipitaram-se em sua defesa, e rapidamente foram cercados pelos gregos que descobriram o seu embuste. Um depois do outro caíram todos exceto Enéias, que ainda lutava com vigor; achou-se ele ao lado da porta do palácio do Rei Príamo onde conseguiu refugiar-se, resolvido a defender o velho rei e a enfrentar os atacantes, enquanto tivesse forças para resistir. Príamo tinha-se armado e desembainhara a sua espada, havia muito tempo, inativa; porém, quando os gregos arrombaram as portas e se precipitaram no grande saguão do palácio, não conseguiu detê-los. Viu seu próprio filho Polites ser morto por Pirro; lançou um dardo com pouca força que ricocheteou sobre o escudo do grego. No momento seguinte Pirro saltou sobre ele, arrastou-o para o altar do seu próprio lar, e ali, enterrou-lhe o punhal no coração. Assim morreu Príamo, Rei de Tróia.

Enéias teve então de resolver um difícil problema. Seu espírito combativo impelia-o a se arrojar sobre Pirro, este filho brutal de um pai inexorável, a assassiná-lo e a matar todos aqueles que estavam com ele, até morrer por sua vez. Isto, porém, não lhe traria vantagem alguma, pois que Príamo já estava morto, e deixaria seu próprio pai já velho, sua mulher e seu pequeno filho à mercê dos gregos ferozes. O palácio de Deífobo estava em chamas; era pouco provável que alguns dos filhos de Priamo ainda estivessem com vida e Anquises era agora Rei de Tróia. Parecia, pois, a Enéias, que era melhor defender sua própria família e, se possível, levá-la para longe daquela cidade condenada, do que morrer combatendo e deixar a soberania passar para as mãos dos gregos.

Anquises estava não somente velho mas também incapacitado. Uma vez gabou-se abertamente de ser amado pela deusa Afrodite, e pretendeu que ela era mãe de Enéias. Em castigo de sua indiscrição fora atacado de paralisia, das pernas e desde então ficara, entrevado. Os pensamentos de Enéias dirigiam-se para o velho entrevado enquanto ele corria para casa através das ruas de Tróia. Passando na frente de um templo avistou o vulto de uma mulher embiocada, espreitando solitária, e reconheceu Helena - temerosa agora de que algum troiano a matasse para vingar a perda da cidade, e com mais medo, ainda, da ira de Menelau, se este a encontrasse. Estava Enéias a ponto de matá-la, quando sua mãe, a, deusa Afrodite lhe deteve o braço.

- Não foi nem a beleza de Helena nem a fraqueza de Páris que destruiu Tróia disse ela, mas a vontade dos deuses. Veja, meu filho, Hera em pé na porta da cidade, incentivando os gregos. Veja como no ponto mais alto da cidade, Atena grita triunfantemente, enquanto sob os muros da cidade, Posseidoin, deus dos terremotos, abala as torres da cidadela. Tróia está condenada, meu filho, e nada lhe resta, senão conduzir a sua família para lugar seguro. Siga-me e eu o protegerei.

Porém Anquises recusou-se a deixar a cidade, preferindo a morte ao exílio, quando de repente a sua decisão foi alterada por um milagre. Seu neto Iulo pôs-se subitamente a irradiar uma luz sobrenatural; uma chama divina brilhava sobre sua cabeça e o velho Anquises compreendendo que se tratava de um aviso do céu, pediu a Zeus que o orientasse. Enquanto falava, ouviu-se uma trovoada e uma estrela cadente riscou o firmamento, arremessando-se sobre o Monte Ida.

Constituíam estes fatos presságio bastante significativo. Estava agora Anquises tão ansioso por deixar a cidade em chamas quanto estivera, poucos minutos antes, relutante em abandoná-la; pois estava, claro que os deuses queriam que sua linhagem fosse preservada, e que seu neto Iulo se tornasse, no futuro, um grande rei. Por isso, Anquises deixou-se erguer aos ombros de Enéias, que conduzia Iulo pela mão, seguido de perto por Creusa, mãe do menino e filha de Príamo. Cautelosamente, esgueiraram-se por passagens estreitas e vielas, escondendo-se nos vãos das portas quando avistavam grupos inimigos. Quando atingiam as portas da cidade ouviram, repentinamente, gritos atrás deles; Enéias apressou o passo, porém, quando depositou seu pai no remanso de um bosque, constatou, consternado, que Creusa não mais estava em sua companhia,. Louco de ansiedade e de aflição precipitou-se, de espada em punho, pela cidade em chamas, percorrendo em sentido contrário o caminho por onde viera. Porém Creusa tinha desaparecido. Enéias correu pelas ruas bradando em altas vozes o seu nome, sem se incomodar com os gregos ocupados em amontoar tesouros no meio das praças e das ruas, ou com as mulheres troianas cativas, que aguardavam, formando grandes filas, sorumbáticas, as ordens de seus conquistadores. Exausto e desesperado, Enéias teria continuado a buscar sua bela e jovem esposa até o dia clarear, indiferente aos perigos que o cercavam se não visse, repentinamente, num turbilhão de fumaça, o rosto de Creusa desfeito em prantos. Convenceu-se então de que ela tinha morrido, e que acabava de ver o seu fantasma.

- Cesse de me procurar, Enéias, disse ela tristemente, e não se aflija por minha causa. Foi decretado pelos deuses que você atravessará os mares e reconstruirá Tróia em terras estranhas; que conquistará um reino e terá uma mulher de estirpe real; e que o filho seu e meu reinará depois de você. E agora, querido senhor meu, adeus.

Dizendo isto desapareceu e Enéias, com o coração dilacerado por tê-la perdido voltou para seu pai, e para seu filho ora órfão de mãe.

Dirigiam-se assim os lamentosos sobreviventes de Tróia para o Monte Ida, enquanto os gregos exultavam; e se elevavam as chamas do incêndio acima das torres oscilantes e das paredes esboroadas; e a mais orgulhosa cidade do mundo reduzia-se a um fumegante amontoado de escombros sem vida. Páris tinha morrido. Porém, o archote ardente com que sonhara sua mãe ao lhe dar à luz, começara, a queimar muito tempo antes, no dia em que o pastor Alexandre entregara o prêmio de beleza à deusa da formosura e do amor.
 

 

[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em

DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 

 
 
 


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