Se os gregos esperavam que, com a morte
de Heitor, os troianos fariam propostas de
paz, enganavam-se. A única diferença era que
em vez de fazerem surtidas para combaterem em
campo aberto, os troianos e seus aliados
permaneciam por trás das muralhas, deixando
que os gregos se desgastassem com ataques
infrutíferos às portas inexpugnáveis da
cidadela.
Os habitantes da cidade, porém,
estavam cansados daquela guerra interminável,
que lhes tinha consumido todos os tesouros com
subsídios aos aliados e o provimento de armas
e víveres às forças armadas. Um dos mais
importantes e ricos mercadores, um homem
chamado Antenor, sugerira de fato, ao conselho
do rei, que Helena fosse entregue aos gregos,
e que se lhes oferecesse um valioso presente
para que voltassem para o seu país. Não se
conformou com isso, entretanto, o Rei Príamo,
e Páris, tão apaixonado por Helena como
quando a raptara de Esparta, opinava que cedo
ou tarde os gregos seriam compelidos a
desistir do cerco, quando mesmo não fossem
derrotados em batalha campal.
Porém, Antenor, que era casado com
Teano, irmã da Rainha Hécuba, resolveu fazer
tudo o que pudesse para abreviar a guerra,
mesmo que tivesse, para isto, de contrariar o
rei e seus filhos. Conhecera ele Ulisses e
Diomedes antes da guerra, quando vieram como
embaixadores pedir a devolução de Helena;
tinham-se, naquela ocasião, hospedado durante
três dias em sua casa. Tinha, também,
Antenor, muitos anos antes, ido à Salamina
com embaixador de Príamo, para pedir a
restituição de Hesíone; conhecia ele,
portanto, melhor que a maioria dos troianos,
todo o rancor existente no coração dos
gregos. Ficou altamente apreensivo quando
Aquiles fez as pazes com Agamenon e reassumiu
a luta no comando dos mirmidões; pensava ele
em Aquiles, o mais poderoso dos inimigos,
quando tentava descobrir um meio de por termo
ao conflito.
Tinha o Rei Príamo uma formosa e jovem
filha chamada Polixena que acompanhara o pai
ao acampamento grego quando ali fora resgatar
o corpo de Heitor. Sentira-se Aquiles
grandemente atraído pelos encantos da jovem
princesa, e pensou Antenor que se Aquiles se
apaixonasse sinceramente por Polixena e
recebesse a promessa de com ela se casar
quando a guerra terminasse, poderia então
recorrer à sua influência para concluírem a
paz.
Desde o começo do cerco, Antenor
estivera secretamente em contacto com Ulisses,
pois que ambos desejavam por fim ao conflito,
o mais cedo possível, e procuravam
incessantemente os meios de o conseguir.
Antenor mandou uma mensagem a Ulisses, dizendo
que proveria os meios de Aquiles encontrar-se
com Polixena, no templo de Apolo, situado fora
das portas da cidade; acolheu Aquiles com
satisfação essa proposta.
Tudo teria corrido bem e, talvez,
conseguissem concluir a paz, não tivesse o príncipe
Páris, por acaso, tomado conhecimento do
plano. Sem dizer nada a Antenor, esperou de
Atalaia que Aquiles viesse encontrar-se com a
princesa. Páris, um dos mais hábeis
arqueiros das hostes troianas, sabia que
Aquiles fora banhado, quando criança, nas águas
do rio Estige e só podia ser morto por uma
ferida no calcanhar; dormiu na pontaria até
ficar certo de não errar o alvo, desfechando
então a seta que atingiu Aquiles em seu único
ponto vulnerável.
Grandes foram as lamentações dos
gregos quando Aquiles, agonizante, foi
carregado para o acampamento. Ou era a flecha
envenenada, ou então ele se havia esvaído em
sangue; seja como for, os cuidados dos médicos
mais competentes não puderam salvar-lhe a
vida, e Aquiles veio a falecer.
Aquela seta fatal, contudo, causou mais
maleficios do que benefícios à causa
troiana, pois que acirrou o ódio dos gregos
contra Páris, determinando-se eles a
conquistar Tróia, qualquer que fosse o tempo
necessário para isso. Heitor tinha sido morto
em combate leal, porém, Aquiles fora
assassinado por traição; o que, para eles,
era imperdoável.
Isso era fácil de dizer, porém,
conquistar Tróia era outra história, tanto
mais quanto os troianos não faziam mais
surtidas para lutar em campo aberto. Começava
Agamenon, de novo, a desesperar da vitória;
apelou para o adivinho Calcas para saber o que
devia fazer para conquistar o apoio dos
deuses.
- Nunca conquistará você a cidade de Tróia,
respondeu Calcas, enquanto não tiver, nas
suas hostes, o famoso arqueiro Filoctetes,
amigo de Héracles, de quem recebera o famoso
arco do Rei Eurito, e as setas envenenadas com
a bílis da Hidra de cem cabeças.
-
E onde poderei encontrar o arqueiro? Indagou
Agamenon.
-
Na Ilha de Lemnos. Feriu-se com uma de suas próprias
setas que lhe caiu sobre o pé; a ferida não
quer sarar, e se não o trouxerem,
prontamente, poderá morrer.
Um tanto desanimado, Agamenon chamou a
Ulisses e mandou-o à Ilha de Lemnos, donde
voltou com o arqueiro ferido, que ainda não
se podia suster de pé. O sábio médico
Macaon curou-o e Filoctetes usou seu poderoso
arco, com efeitos mortíferos contra os
troianos que se apresentavam sobre as muralhas
da fortaleza. Reservava as setas de Héracles,
todavia, para aqueles que pela sua armadura
mostravam ser homens importantes, e, entre
estes, achava-se o próprio Príncipe Páris.
A flecha envenenada arranhou seu antebraço,
mas ele não deu importância à ferida, até
que o braço começou a inchar e doer; a esta
altura o veneno tinha-lhe passado para o
sangue, e não havia nada que o pudesse
salvar.
Quando compreendeu que ia morrer, Páris
lembrou-se dos dias remotos e felizes, quando
era um simples pastor, ignorando sua origem
principesca. Lembrou-se, também, de que sua
esposa Enone tinha aprendido o segredo das
ervas medicinais com seu pai, o deus do rio
Cebren. Em seu sofrimento e desespero,
recordava-se com amor e saudade da pobre Enone
abandonada, e resolveu, como último recurso,
pedir-lhe socorro. Foi levado para a cabana
solitária do Monte Ida, onde Enone ainda
vivia; mas era tarde demais. O veneno de seu
sangue atingira-lhe o coração. No momento em
que era depositado em frente a Enone, faleceu;
e ela ficou tão empolgada pela dor que pôs
fim à existência. Assim, como ela havia
profetizado com grande antecipação, Páris
lhe voltara na hora da necessidade; e os dois
estavam ali, mortos, lado a lado, naquela
cabana que presenciara a felicidade de seus
anos de casamento.
O segundo filho do Rei Príamo, Deífobo,
assumiu o comando do exército troiano depois
da morte de Heitor. Era natural, por
conseguinte, que se casasse com Helena agora
que Paris falecera. Isto, porém, não
agradava ao outro filho de Príamo, o adivinho
Heleno, que amava a Helena e tinha muito ciúme
de seu irmão mais velho; a tal ponto, que
preferiu deixar Tróia, para viver como
eremita no Monte Ida, a ver Helena casada com
Deífobo.
Nada disto era ignorado do adivinho
Calcas, que se desesperava com as exigências
de Agamenon no sentido de saber como poderia
conquistar Tróia. Calcas aconselhou Ulisses a
capturar Heleno, que, por se achar ressentido,
poderia ser persuadido a ajudar os gregos.
-
Se prometer poupar-me a vida, e uma participação
nos espólios, disse Heleno,dar-lhe-ei o
segredo da invencibilidade de Tróia.
Concordaram os gregos com essas condições.
- Pois bem, começou Heleno. No templo de Atena,
situado no ponto mais alto da cidade, existe
um monumento da deusa chamado Paládio. Fora
presenteado a Dárdano, fundador da nossa família
e da nossa nação, pela sua mãe Electra,
amada de Zeus. Enquanto este monumento
permanecer no templo, Tróia não poderá ser
conquistada.
Ulisses não perdeu tempo para mandar
uma mensagem a Antenor, cuja esposa Teano era
sacerdotisa do referido templo. Antenor estava
disposto a fazer qualquer coisa para por fim
à contenda; depois de obter a promessa de
segurança pessoal e de participação no espólio
da cidade, facilitou, a Ulisses e Diomedes, a
entrada no templo de Atena. Eles mataram os
guardas e carregaram a famosa estátua. Contam
que o Paládio se agitava em suas mãos, como
se fosse um ser vivo, e que raios de luz
partiam de seus olhos; e, se bem que a deusa
detestasse Tróia pelo menosprezo demonstrado
por Páris, quando atribuiu o prêmio de
beleza à Afrodite; estando ele morto
encolerizou-se a deusa contra os gregos, por
profanarem o seu templo, - como viria Ulisses
a verificar em dias futuros, para mal de seus
pecados.
Entretanto, não davam, ainda, os
troianos, sinais de submissão; e, mais uma
vez, Agamenon chamou Calcas.
-
E agora, que devo fazer, inquiriu, para vencer
Tróia? Você fez uma profecia depois da
outra, mas nem por isso estamos mais próximos
da vitória.
-
O deus que eu sirvo, o poderoso Apolo, também
é deus dos troianos, replicou Calcas. Pode
ser atraído à nossa causa por meio de
grandes sacrifícios.
- Ele terá considerável participação nos
despojos da cidade, respondeu Agamenon. Já
fiz esta promessa há muito tempo. Entretanto,
a cidade ainda não caiu em minhas mãos.
- Neste caso precisamos obter a ajuda do filho
de Aquiles, nascido da princesa Deidamia,
filha do Rei Licomedes de Ciros.
Assim, pois, Ulisses foi enviado à
Ilha de Ciros, encarregado de mais uma missão,
e voltou trazendo um rapazelho chamado Pirro,
filho de Aquiles, muito parecido com o pai
tanto no físico como no moral. Pirro teria
sem dúvida, prontamente, demonstrado seu
valor, se tivesse adversários para combater;
porém, Deífobo, conservava prudentemente os
troianos dentro dos muros da cidade; e mais
uma vez sentiu Agamenon a raiva do desespero,
ao contemplar, aquelas muralhas inexpugnáveis.
Ulisses, também, pensava que não se
devia nada esperar daquele cerco; porém,
apesar de todo o rancor e ansiedade de que se
ressentia por estar, já havia tanto tempo,
longe de sua casa e de sua esposa Penélope,
nunca se esquecera de que devia isto a
Palamedes. Detestava cruelmente o homem que
havia desmascarado sua simulação de loucura,
obrigando-o a tomar parte na expedição; em
seu espírito ardiloso arquitetou um plano de
vingança.
Secretamente, enterrou um grande
tesouro embaixo da tenda de Palamedes, quando
este se achava ausente, no desempenho de uma
missão; forjou então uma carta, supostamente
escrita pelo Rei Príamo e dirigida a
Palamedes. A carta pedia a Palamedes que traísse
o exército grego em favor dos troianos, como
havia prometido, e pela qual promessa, tinha
recebido o tesouro. Exibiu Ulisses essa carta
forjada a Agamenon e ao Conselho dos Reis, que
intimaram Palamedes, para que desse explicações.
Palamedes jurou que era inocente, mas quando o
tesouro foi encontrado sob sua tenda, ninguém
nele acreditou. Foi condenado à morte e
lapidado pelos gregos revoltados. Assim
vingou-se Ulisses.
Isto, entretanto, era uma rixa
particular, e não contribuiu em nada para a
conquista de Tróia; aplicou então Ulisses
seu espírito astucioso à elaboração de um
plano para terminar a guerra e permitir-lhe
retornar à Ítaca. Confabulou com um homem
chamado Epeu, que tinha construído diversas máquinas
de guerra para os gregos, tais como catapultas
e aríetes; e, conjuntamente, elaboraram um
plano que, conquanto bastante perigoso,
prometia resultados. Comunicaram a idéia a
Agamenon que, de início, não se interessou
por ela; porém, pouco a pouco, tanto ele como
os outros reis foram se convencendo de que a
idéia era boa, já que era melhor tentar
qualquer coisa do que permanecer
indefinidamente acampados às portas de Tróia.
Pôs Epeu mãos à obra, enquanto
Ulisses mandava uma mensagem secreta a
Antenor, indicando-lhe o papel que ele e sua
mulher Teano deviam representar na traição
da inexpugnável cidade de Tróia.
[transcrição e adaptação do texto original
de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense,
1960.]
Moacir Índio da Costa Júnior