PÁGINA DE MITOLOGIA

 

GEORGE BAKER



Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega




Editora Brasiliense
São Paulo
1960



Quarta Parte

O Cerco de Tróia






CAPITULO XXIII


A ISCA, A EMBOSCADA E AS SETAS DE HÉRACLES

 



Se os gregos esperavam que, com a morte de Heitor, os troianos fariam propostas de paz, enganavam-se. A única diferença era que em vez de fazerem surtidas para combaterem em campo aberto, os troianos e seus aliados permaneciam por trás das muralhas, deixando que os gregos se desgastassem com ataques infrutíferos às portas inexpugnáveis da cidadela.

Os habitantes da cidade, porém, estavam cansados daquela guerra interminável, que lhes tinha consumido todos os tesouros com subsídios aos aliados e o provimento de armas e víveres às forças armadas. Um dos mais importantes e ricos mercadores, um homem chamado Antenor, sugerira de fato, ao conselho do rei, que Helena fosse entregue aos gregos, e que se lhes oferecesse um valioso presente para que voltassem para o seu país. Não se conformou com isso, entretanto, o Rei Príamo, e Páris, tão apaixonado por Helena como quando a raptara de Esparta, opinava que cedo ou tarde os gregos seriam compelidos a desistir do cerco, quando mesmo não fossem derrotados em batalha campal.

Porém, Antenor, que era casado com Teano, irmã da Rainha Hécuba, resolveu fazer tudo o que pudesse para abreviar a guerra, mesmo que tivesse, para isto, de contrariar o rei e seus filhos. Conhecera ele Ulisses e Diomedes antes da guerra, quando vieram como embaixadores pedir a devolução de Helena; tinham-se, naquela ocasião, hospedado durante três dias em sua casa. Tinha, também, Antenor, muitos anos antes, ido à Salamina com embaixador de Príamo, para pedir a restituição de Hesíone; conhecia ele, portanto, melhor que a maioria dos troianos, todo o rancor existente no coração dos gregos. Ficou altamente apreensivo quando Aquiles fez as pazes com Agamenon e reassumiu a luta no comando dos mirmidões; pensava ele em Aquiles, o mais poderoso dos inimigos, quando tentava descobrir um meio de por termo ao conflito.

Tinha o Rei Príamo uma formosa e jovem filha chamada Polixena que acompanhara o pai ao acampamento grego quando ali fora resgatar o corpo de Heitor. Sentira-se Aquiles grandemente atraído pelos encantos da jovem princesa, e pensou Antenor que se Aquiles se apaixonasse sinceramente por Polixena e recebesse a promessa de com ela se casar quando a guerra terminasse, poderia então recorrer à sua influência para concluírem a paz.

Desde o começo do cerco, Antenor estivera secretamente em contacto com Ulisses, pois que ambos desejavam por fim ao conflito, o mais cedo possível, e procuravam incessantemente os meios de o conseguir. Antenor mandou uma mensagem a Ulisses, dizendo que proveria os meios de Aquiles encontrar-se com Polixena, no templo de Apolo, situado fora das portas da cidade; acolheu Aquiles com satisfação essa proposta.

Tudo teria corrido bem e, talvez, conseguissem concluir a paz, não tivesse o príncipe Páris, por acaso, tomado conhecimento do plano. Sem dizer nada a Antenor, esperou de Atalaia que Aquiles viesse encontrar-se com a princesa. Páris, um dos mais hábeis arqueiros das hostes troianas, sabia que Aquiles fora banhado, quando criança, nas águas do rio Estige e só podia ser morto por uma ferida no calcanhar; dormiu na pontaria até ficar certo de não errar o alvo, desfechando então a seta que atingiu Aquiles em seu único ponto vulnerável.

Grandes foram as lamentações dos gregos quando Aquiles, agonizante, foi carregado para o acampamento. Ou era a flecha envenenada, ou então ele se havia esvaído em sangue; seja como for, os cuidados dos médicos mais competentes não puderam salvar-lhe a vida, e Aquiles veio a falecer.

Aquela seta fatal, contudo, causou mais maleficios do que benefícios à causa troiana, pois que acirrou o ódio dos gregos contra Páris, determinando-se eles a conquistar Tróia, qualquer que fosse o tempo necessário para isso. Heitor tinha sido morto em combate leal, porém, Aquiles fora assassinado por traição; o que, para eles, era imperdoável.

Isso era fácil de dizer, porém, conquistar Tróia era outra história, tanto mais quanto os troianos não faziam mais surtidas para lutar em campo aberto. Começava Agamenon, de novo, a desesperar da vitória; apelou para o adivinho Calcas para saber o que devia fazer para conquistar o apoio dos deuses.

-         Nunca conquistará você a cidade de Tróia, respondeu Calcas, enquanto não tiver, nas suas hostes, o famoso arqueiro Filoctetes, amigo de Héracles, de quem recebera o famoso arco do Rei Eurito, e as setas envenenadas com a bílis da Hidra de cem cabeças.

 -         E onde poderei encontrar o arqueiro? Indagou Agamenon.

-         Na Ilha de Lemnos. Feriu-se com uma de suas próprias setas que lhe caiu sobre o pé; a ferida não quer sarar, e se não o trouxerem, prontamente, poderá morrer.

Um tanto desanimado, Agamenon chamou a Ulisses e mandou-o à Ilha de Lemnos, donde voltou com o arqueiro ferido, que ainda não se podia suster de pé. O sábio médico Macaon curou-o e Filoctetes usou seu poderoso arco, com efeitos mortíferos contra os troianos que se apresentavam sobre as muralhas da fortaleza. Reservava as setas de Héracles, todavia, para aqueles que pela sua armadura mostravam ser homens importantes, e, entre estes, achava-se o próprio Príncipe Páris. A flecha envenenada arranhou seu antebraço, mas ele não deu importância à ferida, até que o braço começou a inchar e doer; a esta altura o veneno tinha-lhe passado para o sangue, e não havia nada que o pudesse salvar.

Quando compreendeu que ia morrer, Páris lembrou-se dos dias remotos e felizes, quando era um simples pastor, ignorando sua origem principesca. Lembrou-se, também, de que sua esposa Enone tinha aprendido o segredo das ervas medicinais com seu pai, o deus do rio Cebren. Em seu sofrimento e desespero, recordava-se com amor e saudade da pobre Enone abandonada, e resolveu, como último recurso, pedir-lhe socorro. Foi levado para a cabana solitária do Monte Ida, onde Enone ainda vivia; mas era tarde demais. O veneno de seu sangue atingira-lhe o coração. No momento em que era depositado em frente a Enone, faleceu; e ela ficou tão empolgada pela dor que pôs fim à existência. Assim, como ela havia profetizado com grande antecipação, Páris lhe voltara na hora da necessidade; e os dois estavam ali, mortos, lado a lado, naquela cabana que presenciara a felicidade de seus anos de casamento.

O segundo filho do Rei Príamo, Deífobo, assumiu o comando do exército troiano depois da morte de Heitor. Era natural, por conseguinte, que se casasse com Helena agora que Paris falecera. Isto, porém, não agradava ao outro filho de Príamo, o adivinho Heleno, que amava a Helena e tinha muito ciúme de seu irmão mais velho; a tal ponto, que preferiu deixar Tróia, para viver como eremita no Monte Ida, a ver Helena casada com Deífobo.

Nada disto era ignorado do adivinho Calcas, que se desesperava com as exigências de Agamenon no sentido de saber como poderia conquistar Tróia. Calcas aconselhou Ulisses a capturar Heleno, que, por se achar ressentido, poderia ser persuadido a ajudar os gregos.

 -         Se prometer poupar-me a vida, e uma participação nos espólios, disse Heleno,dar-lhe-ei o segredo da invencibilidade de Tróia.

Concordaram os gregos com essas condições.

 -         Pois bem, começou Heleno. No templo de Atena, situado no ponto mais alto da cidade, existe um monumento da deusa chamado Paládio. Fora presenteado a Dárdano, fundador da nossa família e da nossa nação, pela sua mãe Electra, amada de Zeus. Enquanto este monumento permanecer no templo, Tróia não poderá ser conquistada.

Ulisses não perdeu tempo para mandar uma mensagem a Antenor, cuja esposa Teano era sacerdotisa do referido templo. Antenor estava disposto a fazer qualquer coisa para por fim à contenda; depois de obter a promessa de segurança pessoal e de participação no espólio da cidade, facilitou, a Ulisses e Diomedes, a entrada no templo de Atena. Eles mataram os guardas e carregaram a famosa estátua. Contam que o Paládio se agitava em suas mãos, como se fosse um ser vivo, e que raios de luz partiam de seus olhos; e, se bem que a deusa detestasse Tróia pelo menosprezo demonstrado por Páris, quando atribuiu o prêmio de beleza à Afrodite; estando ele morto encolerizou-se a deusa contra os gregos, por profanarem o seu templo, - como viria Ulisses a verificar em dias futuros, para mal de seus pecados.

Entretanto, não davam, ainda, os troianos, sinais de submissão; e, mais uma vez, Agamenon chamou Calcas.

 -         E agora, que devo fazer, inquiriu, para vencer Tróia? Você fez uma profecia depois da outra, mas nem por isso estamos mais próximos da vitória.

-         O deus que eu sirvo, o poderoso Apolo, também é deus dos troianos, replicou Calcas. Pode ser atraído à nossa causa por meio de grandes sacrifícios.

-         Ele terá considerável participação nos despojos da cidade, respondeu Agamenon. Já fiz esta promessa há muito tempo. Entretanto, a cidade ainda não caiu em minhas mãos.

-         Neste caso precisamos obter a ajuda do filho de Aquiles, nascido da princesa Deidamia, filha do Rei Licomedes de Ciros.

Assim, pois, Ulisses foi enviado à Ilha de Ciros, encarregado de mais uma missão, e voltou trazendo um rapazelho chamado Pirro, filho de Aquiles, muito parecido com o pai tanto no físico como no moral. Pirro teria sem dúvida, prontamente, demonstrado seu valor, se tivesse adversários para combater; porém, Deífobo, conservava prudentemente os troianos dentro dos muros da cidade; e mais uma vez sentiu Agamenon a raiva do desespero, ao contemplar, aquelas muralhas inexpugnáveis.

Ulisses, também, pensava que não se devia nada  esperar daquele cerco; porém, apesar de todo o rancor e ansiedade de que se ressentia por estar, já havia tanto tempo, longe de sua casa e de sua esposa Penélope, nunca se esquecera de que devia isto a Palamedes. Detestava cruelmente o homem que havia desmascarado sua simulação de loucura, obrigando-o a tomar parte na expedição; em seu espírito ardiloso arquitetou um plano de vingança.

Secretamente, enterrou um grande tesouro embaixo da tenda de Palamedes, quando este se achava ausente, no desempenho de uma missão; forjou então uma carta, supostamente escrita pelo Rei Príamo e dirigida a Palamedes. A carta pedia a Palamedes que traísse o exército grego em favor dos troianos, como havia prometido, e pela qual promessa, tinha recebido o tesouro. Exibiu Ulisses essa carta forjada a Agamenon e ao Conselho dos Reis, que intimaram Palamedes, para que desse explicações. Palamedes jurou que era inocente, mas quando o tesouro foi encontrado sob sua tenda, ninguém nele acreditou. Foi condenado à morte e lapidado pelos gregos revoltados. Assim vingou-se Ulisses.

Isto, entretanto, era uma rixa particular, e não contribuiu em nada para a conquista de Tróia; aplicou então Ulisses seu espírito astucioso à elaboração de um plano para terminar a guerra e permitir-lhe retornar à Ítaca. Confabulou com um homem chamado Epeu, que tinha construído diversas máquinas de guerra para os gregos, tais como catapultas e aríetes; e, conjuntamente, elaboraram um plano que, conquanto bastante perigoso, prometia resultados. Comunicaram a idéia a Agamenon que, de início, não se interessou por ela; porém, pouco a pouco, tanto ele como os outros reis foram se convencendo de que a idéia era boa, já que era melhor tentar qualquer coisa do que permanecer indefinidamente acampados às portas de Tróia.

Pôs Epeu mãos à obra, enquanto Ulisses mandava uma mensagem secreta a Antenor, indicando-lhe o papel que ele e sua mulher Teano deviam representar na traição da inexpugnável cidade de Tróia.
 



[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em

DEUSES E HERÓIS,  editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 

 

 

 


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