PÁGINA DE MITOLOGIA

 

GEORGE BAKER



Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega

 

Editora Brasiliense
São Paulo
1960

 

Quarta Parte

O Cerco de Tróia






CAPITULO XXII


A CÓLERA DE AQUILES

 



Aquiles chorou quando veio a saber da morte de Pátroclo. Arrependia-se amargamente da cega obstinação que lhe tinha causado a perda de seu mais querido amigo. O eco de suas lamentações estendeu-se até a gruta marinha onde sua mãe Tétis estava sentada entre as ninfas; ela apressou-se em se encaminhar para as praias de Tróia para o consolar.

-   Heitor matou Pátroclo; eu vou matar Heitor, disse ele.

 -   Neste caso, meu filho, você não terá muito tempo de vida; pois foi profetizado que morrerá pouco tempo depois de Heitor.

 -   Isto não me importa, já que Pátroclo está morto. Farei as pazes primeiro com Agamenon, depois, portar-me-ei de tal maneira na luta que os bardos cantarão o meu nome para todo o sempre. Deixe-me matar Heitor, e morrerei contente.

-   Sua esplêndida armadura está nas mãos de Heitor, meu filho. Não pense em entrar na luta enquanto eu não trouxer uma nova. Irei ter com Hefestos, o divino artífice em metais, de quem tratei quando foi posto para fora do céu e caiu na Ilha de Lemnos, machucando tanto a perna, que ficou coxo, desde então. Se eu lhe pedir, ele fará, com certeza, uma armadura para você que ficará sendo a admiração do mundo inteiro.

Tétis tinha apenas se despedido de Aquiles quando Íris, a mensageira dos deuses, apresentou-se a ele com uma ordem de Hera, rainha do Olimpo, para que entrasse imediatamente em combate para ajudar a salvar o corpo de Pátroclo que ia ser capturado pelos troianos.

 -  Eu o faria com prazer, respondeu Aquiles, porém não tenho armadura. Minha mãe foi pedir a Hefestos para me fazer uma nova; depois disto farei as pazes com Agamenon e matarei Heitor.

-  Se você não puder tomar parte na luta, pelo menos apareça sobre o parapeito, disse Íris. O seu grito de guerra mostrará aos troianos que eles terão de ajustar contas com você. Os gregos se acham em situação crítica, até mesmo uns poucos instantes para respirarem poderiam ser-lhes úteis.

Então Aquiles galgou o parapeito, e três vezes soltou seu grito de guerra. Sua voz ressoou acima do ruído da batalha, e os homens interromperam o combate para contempla-lo surpresos. A deusa Atena emprestara a sua própria voz a Aquiles, e fê-lo irradiar uma luminosidade rubra no lusco-fusco do crepúsculo. Havia qualquer coisa sobrenatural naquele terrível grito de guerra e naquela radiante figura, que se agigantava pelo poder de Atena; um súbito terror espalhou-se entre os troianos, dando aos gregos o tempo necessário para carregarem o cadáver de Pátroclo para seu acampamento.

Imprudentemente, Heitor decidiu acampar as suas hostes ao lado do fosso, para reencetar mais facilmente o ataque aos primeiros raios da aurora. Quando lhe fizeram notar que com a reconciliação de Aquiles e Agamenon os gregos estariam mais fortes e formidáveis, declarou que não temia a Aquiles, e não desejava nada mais do que defrontá-lo  e se empenhar com ele em combate mortal.

 Seu desejo seria em breve satisfeito. Durante a noite Aquiles fez as pazes com Agamenon e aprestou seus mirmidões para a batalha. Pouco depois do despontar da aurora, Tétis chegou do Olimpo com uma armadura completa - elmo, couraça, grevas para as pernas e um magnífico escudo, trabalho do deus Hefestos. Satisfeito, vestiu Aquiles a brilhante armadura, e tirou do estojo a lança que só ele podia manejar; então os gregos precipitaram-se pelas saídas do acampamento para atacar os troianos estabelecidos em nível superior.

 Os próprios deuses sentiram-se excitados à vista daquela exibição belicosa, e, com licença de Zeus, tomaram partido por um ou outro lado. Ares, deus da guerra, lutava com os troianos, que eram ajudados também por Apolo, sua irmã Ártemis e Afrodite, mãe de Enéias. Hera e Atena entraram na luta com os gregos, assim como Posseidon, o deus marinho, Hermes e Hefestos. E assim, durante as longas horas do dia a batalha oscilou. Aquiles lutava com fúria fria e assassina, matando todos os que atravessavam o seu caminho, sempre à procura de Heitor. Porém, Apolo, movendo-se entre os troianos aprazia-se em frustá-lo, até que o deus marinho, Posseidon foi levado a protestar.

-   Quando você e eu fomos banidos durante um ano do Olimpo, disse ele a Apolo, fomos obrigados a servir o Rei Laomedonte de Tróia - você, pastoreando seus grandes rebanhos; eu, reconstruindo as muralhas da cidadela. No fim do ano, não somente recusou-nos ele o pagamento prometido mas chegou a ameaçar de nos cortar as orelhas e nos vender como escravos. Príamo é filho desse pérfido Laomedonte; entretanto, eis que você defende o seu povo, protegendo seu filho contra a cólera de Aquiles.

-   Que são os homens se não folhas secas, arrastadas de um lado para outro pelo vento caprichoso? tornou Apolo.

Entretanto, conquanto evitasse o tio, continuou a ajudar os troianos; e o próprio Posseidon esqueceu-se de seu ódio pelo defunto Laomedonte quando viu Aquiles e Enéias se defrontarem. Pois o deus marinho não tinha rixa com a estirpe de Enéias e dos reis da Dardânia, e sabia, além disso, que Enéias estava destinado a salvar a dinastia e restabelece-la de novo depois da guerra. Por isso, correu para o lado do campo de batalha onde os dois homens se digladiavam; envolveu-os em neblina e aproveitou a ocasião para tirar Enéias do perigo, levando-o para a outra extremidade da planície sem dar ao jovem príncipe a oportunidade de demonstrar se estava ou não à altura de Aquiles.

Enquanto isto Agamenon tinha dividido as hostes de Tróia; metade foi repelida para a cidade, ao passo que a outra se refugiou nos pântanos do estuário. Foi para este ponto que Apolo conduziu Aquiles, que quase se afogou quando o deus do rio se ergueu contra ele; porém Aquiles percebeu que tinha sido iludido e apressou-se  em voltar para a frente da cidade.

Os troianos desbaratados e cansados precipitaram-se pelas portas da cidade a dentro para se refugiarem; porém, Heitor, não se conformando com a derrota, esperava fora dos muros, na esperança de se defrontar com Aquiles. A vitória dos gregos no combate daquele dia mostrara-lhe quão pouco acertada tinha sido sua determinação de fazer o exército acampar à beira do fosso, em vez de se abrigar atrás das muralhas da cidade; ardia de desejo de fazer alguma proeza contra o inimigo, e não prestava ouvidos aos seus amigos, nem mesmo ao Rei Príamo, que lhe pediam que entrasse na cidade. Foi assim que Aquiles defrontou com Heitor, e os dois campeões se desafiaram.

Aquiles lançou seu dardo; Heitor desviou-se e o dardo passou por ele raspando. Então Heitor lançou o seu, mas ele ricocheteou sobre o escudo de Aquiles. Puxando da espada, Heitor investiu contra o grego - sem saber que a deusa Atena tinha apanhado o dardo de Aquiles, entregando-lhe de volta. Tarde demais viu Heitor sua ponta aguçada partir do vulto agachado atrás do escudo; ele descia correndo a colina e um grito agoniado de pavor elevou-se das muralhas de Tróia, quando foi de encontro ao dardo de Aquiles, e caiu trespassado.

Com um grito de triunfo ergueu-se Aquiles. Os outros guerreiros gregos acudiram às carreiras.

Cada um deu um golpe ou uma cutilada em Heitor estendido no chão, rindo de prazer de ver morto seu mais perigoso inimigo. Tirando-lhe a armadura, Aquiles amarrou Heitor pelos pés à sua quadriga e deu três vezes a volta de Tróia , a galope, enquanto os guerreiros e os cidadãos da cidade, amontoados no topo das muralhas, choravam e se lamentavam, e o Rei Príamo estendia as mãos implorando misericórdia. Porém, naquele momento, não havia no coração de Aquiles nem compaixão nem cavalheirismo; lembrava-se de seu amor por Pátroclo e de seu ódio pelo homem que lhe tirara a vida; e ria-se com sarcasmo quando sua quadriga passava em frente à cidadela, arrastando o corpo de Heitor que rolava aos trancos na poeira.

Depois, com solenidade, procederam à cerimônia do enterro de Pátroclo. Doze nobres prisioneiros troianos foram mortos sobre o seu túmulo, pela mão de Aquiles; as labaredas elevavam-se para o céu, e as cinzas de Pátroclo foram enterradas num montículo. Jogos fúnebres foram celebrados, segundo o costume; porém, enquanto os outros gregos voltavam às suas tendas já não pensando mais no falecido Pátroclo, Aquiles não cessava de chorar o seu amigo. Todas as manhãs, durante onze dias, amarrou o corpo de Heitor ao seu carro e arrastou-o por três vezes ao redor do túmulo de Pátroclo, até que os próprios deuses - com exceção de Hera e Atena - ficaram aborrecidos e enojados com esta selvageria insensata. Zeus apelo para a deusa marinha Tétis.

-  Vá ao acampamento grego, comandou ele, e diga ao seu filho que estou descontente com a maneira pela qual ele tratou um inimigo honrado. Meu mensageiro foi falar com o Rei Príamo para dizer-lhe que procure Aquiles com valioso resgate; é meu desejo que seu filho receba o rei com cortesia e atenda ao seu pedido.

A fúria cega de Aquiles tinha cedido o lugar a um sentimento menos bárbaro, quando o velho Rei de Tróia, guiado por Apolo, apareceu de supetão no acampamento grego; e ao ver o pai de Heitor enlutado, tudo o que havia de melhor no coração de Aquiles naquele instante veio à tona. Com cortesia e afabilidade atendeu ao pedido de Príamo; o corpo de Heitor foi lavado e ungido, envolvido em branca mortalha e carregado pelo próprio Aquiles até o carro que o devia levar. Assim foi levado Heitor para a sua casa, sua esposa inconsolável, sua mãe, e os lamentosos cidadãos de Tróia; enquanto Aquiles, sentado solitário em sua tenda, chorava amargamente a perda de Pátroclo. Durante doze dias houve uma trégua entre os dois exércitos, enquanto preparavam e celebravam os funerais de Heitor.

 

[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em

DEUSES E HERÓIS,  editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 
 
 


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