Aquiles chorou quando veio a saber da
morte de Pátroclo. Arrependia-se amargamente da
cega obstinação que lhe tinha causado a perda
de seu mais querido amigo. O eco de suas lamentações
estendeu-se até a gruta marinha onde sua mãe Tétis
estava sentada entre as ninfas; ela apressou-se
em se encaminhar para as praias de Tróia para o
consolar.
- Heitor matou Pátroclo; eu vou matar Heitor,
disse ele.
- Neste caso, meu filho, você não terá muito
tempo de vida; pois foi profetizado que morrerá
pouco tempo depois de Heitor.
- Isto não me importa, já que Pátroclo está
morto. Farei as pazes primeiro com Agamenon,
depois, portar-me-ei de tal maneira na luta que
os bardos cantarão o meu nome para todo o
sempre. Deixe-me matar Heitor, e morrerei
contente.
- Sua esplêndida armadura está nas mãos de
Heitor, meu filho. Não pense em entrar na luta
enquanto eu não trouxer uma nova. Irei ter com
Hefestos, o divino artífice em metais, de quem
tratei quando foi posto para fora do céu e caiu
na Ilha de Lemnos, machucando tanto a perna, que
ficou coxo, desde então. Se eu lhe pedir, ele
fará, com certeza, uma armadura para você que
ficará sendo a admiração do mundo inteiro.
Tétis tinha apenas se despedido de
Aquiles quando Íris, a mensageira dos deuses,
apresentou-se a ele com uma ordem de Hera,
rainha do Olimpo, para que entrasse
imediatamente em combate para ajudar a salvar o
corpo de Pátroclo que ia ser capturado pelos
troianos.
- Eu o faria com prazer, respondeu Aquiles, porém
não tenho armadura. Minha mãe foi pedir a
Hefestos para me fazer uma nova; depois disto
farei as pazes com Agamenon e matarei Heitor.
- Se você não puder tomar parte na luta, pelo
menos apareça sobre o parapeito, disse Íris. O
seu grito de guerra mostrará aos troianos que
eles terão de ajustar contas com você. Os
gregos se acham em situação crítica, até
mesmo uns poucos instantes para respirarem
poderiam ser-lhes úteis.
Então Aquiles galgou o parapeito, e três
vezes soltou seu grito de guerra. Sua voz
ressoou acima do ruído da batalha, e os homens
interromperam o combate para contempla-lo
surpresos. A deusa Atena emprestara a sua própria
voz a Aquiles, e fê-lo irradiar uma
luminosidade rubra no lusco-fusco do crepúsculo.
Havia qualquer coisa sobrenatural naquele terrível
grito de guerra e naquela radiante figura, que
se agigantava pelo poder de Atena; um súbito
terror espalhou-se entre os troianos, dando aos
gregos o tempo necessário para carregarem o cadáver
de Pátroclo para seu acampamento.
Imprudentemente, Heitor decidiu acampar
as suas hostes ao lado do fosso, para reencetar
mais facilmente o ataque aos primeiros raios da
aurora. Quando lhe fizeram notar que com a
reconciliação de Aquiles e Agamenon os gregos
estariam mais fortes e formidáveis, declarou
que não temia a Aquiles, e não desejava nada
mais do que defrontá-lo e se empenhar com
ele em combate mortal.
Seu desejo seria em breve satisfeito.
Durante a noite Aquiles fez as pazes com
Agamenon e aprestou seus mirmidões para a
batalha. Pouco depois do despontar da aurora, Tétis
chegou do Olimpo com uma armadura completa -
elmo, couraça, grevas para as pernas e um magnífico
escudo, trabalho do deus Hefestos. Satisfeito,
vestiu Aquiles a brilhante armadura, e tirou do
estojo a lança que só ele podia manejar; então
os gregos precipitaram-se pelas saídas do
acampamento para atacar os troianos
estabelecidos em nível superior.
Os próprios deuses sentiram-se excitados
à vista daquela exibição belicosa, e, com
licença de Zeus, tomaram partido por um ou
outro lado. Ares, deus da guerra, lutava com os
troianos, que eram ajudados também por Apolo,
sua irmã Ártemis e Afrodite, mãe de Enéias.
Hera e Atena entraram na luta com os gregos,
assim como Posseidon, o deus marinho, Hermes e
Hefestos. E assim, durante as longas horas do
dia a batalha oscilou. Aquiles lutava com fúria
fria e assassina, matando todos os que
atravessavam o seu caminho, sempre à procura de
Heitor. Porém, Apolo, movendo-se entre os
troianos aprazia-se em frustá-lo, até que o
deus marinho, Posseidon foi levado a protestar.
- Quando você e eu fomos banidos durante um ano
do Olimpo, disse ele a Apolo, fomos obrigados a
servir o Rei Laomedonte de Tróia - você,
pastoreando seus grandes rebanhos; eu,
reconstruindo as muralhas da cidadela. No fim do
ano, não somente recusou-nos ele o pagamento
prometido mas chegou a ameaçar de nos cortar as
orelhas e nos vender como escravos. Príamo é
filho desse pérfido Laomedonte; entretanto, eis
que você defende o seu povo, protegendo seu
filho contra a cólera de Aquiles.
- Que são os homens se não folhas secas,
arrastadas de um lado para outro pelo vento
caprichoso? tornou Apolo.
Entretanto, conquanto evitasse o tio,
continuou a ajudar os troianos; e o próprio
Posseidon esqueceu-se de seu ódio pelo defunto
Laomedonte quando viu Aquiles e Enéias se
defrontarem. Pois o deus marinho não tinha rixa
com a estirpe de Enéias e dos reis da Dardânia,
e sabia, além disso, que Enéias estava
destinado a salvar a dinastia e restabelece-la
de novo depois da guerra. Por isso, correu para
o lado do campo de batalha onde os dois homens
se digladiavam; envolveu-os em neblina e
aproveitou a ocasião para tirar Enéias do
perigo, levando-o para a outra extremidade da
planície sem dar ao jovem príncipe a
oportunidade de demonstrar se estava ou não à
altura de Aquiles.
Enquanto isto Agamenon tinha dividido as
hostes de Tróia; metade foi repelida para a
cidade, ao passo que a outra se refugiou nos pântanos
do estuário. Foi para este ponto que Apolo
conduziu Aquiles, que quase se afogou quando o
deus do rio se ergueu contra ele; porém Aquiles
percebeu que tinha sido iludido e apressou-se
em voltar para a frente da cidade.
Os troianos desbaratados e cansados
precipitaram-se pelas portas da cidade a dentro
para se refugiarem; porém, Heitor, não se
conformando com a derrota, esperava fora dos
muros, na esperança de se defrontar com
Aquiles. A vitória dos gregos no combate
daquele dia mostrara-lhe quão pouco acertada
tinha sido sua determinação de fazer o exército
acampar à beira do fosso, em vez de se abrigar
atrás das muralhas da cidade; ardia de desejo
de fazer alguma proeza contra o inimigo, e não
prestava ouvidos aos seus amigos, nem mesmo ao
Rei Príamo, que lhe pediam que entrasse na
cidade. Foi assim que Aquiles defrontou com
Heitor, e os dois campeões se desafiaram.
Aquiles lançou seu dardo; Heitor
desviou-se e o dardo passou por ele raspando.
Então Heitor lançou o seu, mas ele ricocheteou
sobre o escudo de Aquiles. Puxando da espada,
Heitor investiu contra o grego - sem saber que a
deusa Atena tinha apanhado o dardo de Aquiles,
entregando-lhe de volta. Tarde demais viu Heitor
sua ponta aguçada partir do vulto agachado atrás
do escudo; ele descia correndo a colina e um
grito agoniado de pavor elevou-se das muralhas
de Tróia, quando foi de encontro ao dardo de
Aquiles, e caiu trespassado.
Com um grito de triunfo ergueu-se
Aquiles. Os outros guerreiros gregos acudiram às
carreiras.
Cada um deu um golpe ou uma cutilada em
Heitor estendido no chão, rindo de prazer de
ver morto seu mais perigoso inimigo. Tirando-lhe
a armadura, Aquiles amarrou Heitor pelos pés à
sua quadriga e deu três vezes a volta de Tróia
, a galope, enquanto os guerreiros e os cidadãos
da cidade, amontoados no topo das muralhas,
choravam e se lamentavam, e o Rei Príamo
estendia as mãos implorando misericórdia. Porém,
naquele momento, não havia no coração de
Aquiles nem compaixão nem cavalheirismo;
lembrava-se de seu amor por Pátroclo e de seu
ódio pelo homem que lhe tirara a vida; e ria-se
com sarcasmo quando sua quadriga passava em
frente à cidadela, arrastando o corpo de Heitor
que rolava aos trancos na poeira.
Depois, com solenidade, procederam à
cerimônia do enterro de Pátroclo. Doze nobres
prisioneiros troianos foram mortos sobre o seu túmulo,
pela mão de Aquiles; as labaredas elevavam-se
para o céu, e as cinzas de Pátroclo foram
enterradas num montículo. Jogos fúnebres foram
celebrados, segundo o costume; porém, enquanto
os outros gregos voltavam às suas tendas já não
pensando mais no falecido Pátroclo, Aquiles não
cessava de chorar o seu amigo. Todas as manhãs,
durante onze dias, amarrou o corpo de Heitor ao
seu carro e arrastou-o por três vezes ao redor
do túmulo de Pátroclo, até que os próprios
deuses - com exceção de Hera e Atena - ficaram
aborrecidos e enojados com esta selvageria
insensata. Zeus apelo para a deusa marinha Tétis.
- Vá ao acampamento grego, comandou ele, e diga
ao seu filho que estou descontente com a maneira
pela qual ele tratou um inimigo honrado. Meu
mensageiro foi falar com o Rei Príamo para
dizer-lhe que procure Aquiles com valioso
resgate; é meu desejo que seu filho receba o
rei com cortesia e atenda ao seu pedido.
A fúria cega de Aquiles tinha cedido o
lugar a um sentimento menos bárbaro, quando o
velho Rei de Tróia, guiado por Apolo, apareceu
de supetão no acampamento grego; e ao ver o pai
de Heitor enlutado, tudo o que havia de melhor
no coração de Aquiles naquele instante veio à
tona. Com cortesia e afabilidade atendeu ao
pedido de Príamo; o corpo de Heitor foi lavado
e ungido, envolvido em branca mortalha e
carregado pelo próprio Aquiles até o carro que
o devia levar. Assim foi levado Heitor para a
sua casa, sua esposa inconsolável, sua mãe, e
os lamentosos cidadãos de Tróia; enquanto
Aquiles, sentado solitário em sua tenda,
chorava amargamente a perda de Pátroclo.
Durante doze dias houve uma trégua entre os
dois exércitos, enquanto preparavam e
celebravam os funerais de Heitor.
[transcrição e adaptação do texto original
de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense,
1960.]
Moacir Índio da Costa Júnior