O homem que disparara a seta chamava-se Pândaro.
Era um famoso arqueiro que viera da Lícia com o
Rei Glauco e seu primo Sarpedonte, ambos netos
do grande Belerofonte, matador da Quimera. Como
os gregos acorriam para empunhar armas, Pândaro
atirou outra seta contra um dos inimigos maiores
e mais fortes, que ele conhecia por ser
Diomedes, chefe dos soldados argivos e tirintos,
ferindo-o no ombro. A dor do ferimento e a cólera
provocada pela quebra da trégua, originaram em
Diomedes uma verdadeira fúria belicosa;
precipitou-se na batalha, varrendo tudo em sua
frente. Pândaro desfechou-lhe outro tiro mas
flecha foi interceptada pelo escudo de Diomedes;
um instante depois Pândaro estava morto, com
uma lança grega atravessada na cabeça.
Enéias presenciara este encontro;
enfrentou Diomedes a pé, a cavaleiro do corpo
do arqueiro estendido no solo. Porém, Diomedes
arremessou contra ele um grande pedaço de
rocha, esmagando-lhe o quadril e mandando-o ao
chão com um gemido. No momento seguinte, Enéias
teria recebido no peito um fatal golpe de lança,
não houvesse sua mãe, a deusa Afrodite,
aparecido repentinamente, protegendo-o com seu
manto. Diomedes, todavia, não estava disposto a
ser frustrado, nem mesmo por uma deusa imortal;
golpeou-a com a lança, ferindo-a no pulso.
Com um grito de dor e de indignação a
deusa pulou para trás e sumiu deixando que seu
filho fosse acudido por Apolo, contra quem
Diomedes arremessou um dardo, sem resultado.
Afrodite, enquanto isto, tomou emprestado o
carro do deus da guerra, Ares, que contemplava a
batalha, e foi transportada sem demora para o
Olimpo, onde sua mãe prontamente lhe curou o
ferimento e consolou-a da afronta que sofrera em
sua dignidade.
Enquanto isto, Zeus divertia-se
imensamente.
- Isto lhe
ensinará, minha filha, a não meter-se onde não
é chamada, disse ele. Contente-se com o
reino do amor, e deixe a guerra para os
entendidos.
- Diomedes
enlouqueceu; está não somente lutando contra
os troianos, mas ataca também os próprios
deuses! lamentou Afrodite.
- Isto é porque
está possuído de inspiração divina, replicou
Zeus. Você verá como minha esposa e
minha filha estão ambas tomando parte na
refrega. Atena, de fato, acha-se na
quadriga ao lado de Diomedes, dirigindo-a contra
o meu filho Ares, que, por alguma razão, tomou
o lado dos troianos. Ah! então Diomedes
arremessou o dardo ...
Alguns momentos depois Ares chegou em
desabalada carreira pelos céus, gritando de dor
com uma chaga no ventre. Mas, se esperava
compaixão por parte de seu divino pai, deve ter
ficado desapontado. Pois Zeus, que não tinha
amor ao seu violento e atrabiliário filho, se
ria a bandeira despregada.
- Você deve isto à sua mãe e à sua
irmã, disse-lhe ele, pois elas se acham no fogo
da batalha ajudando os gregos. Porém
agora que você deixou o campo da luta, elas virão
ter conosco prontamente, não duvide.
Chamou Peon, o divino curandeiro, que num
instante curou a ferida do deus da guerra; Ares,
porém, tinha tão pouco desejo quanto Afrodite
de voltar para a luta.
Diomedes continuava a causar devastação
entre os troianos, que se enchiam de admiração
pela sua força, e sua destreza; ninguém
conseguia enfrentá-lo até que se defrontou com
Glauco, Rei da Lícia, com quem nunca tinha
medido forças. Os dois homens
equilibravam-se em vigor; porém, aqueles que
esperavam presenciar uma luta notável entre os
dois campeões ficaram desapontados. Pois
Diomedes, ao saber o nome e a linhagem de seu
oponente, lembrou-se de que seu próprio avô, o
Rei Eneu de Calidon, tinha trocado presentes, em
penhor de amizade, com Belerofonte, avô de
Glauco; nessas condições, recusou-se a lutar
com ele, e os dois homens permutaram armaduras
em sinal de amizade, procurando, alhures, adversários
para combater.
A sorte da batalha, contudo, virava
contra os gregos, apesar de todo o esforço de
seus valorosos chefes, e eles deram graças a
Deus quando Heitor lançou um desafio para
combate singular, provocando o mais valente dos
gregos para se medir com ele. Ajax, filho
de Telamon, foi escolhido pela sorte, e,
satisfeito, adiantou-se para lutar com Heitor;
porém a hora já era avançada, e a noite que
se aproximava não permitiria que o duelo fosse
levado a cabo. Os dois homens portaram-se
com bravura. Gregos e troianos ficaram
satisfeitos quando os arautos separaram os
contendores, que se congratularam mutuamente
antes de se retirarem para os respectivos
acampamentos.
Recomeçou a refrega no dia seguinte de
manhã cedo, e se acharam os gregos em tão
grandes apuros que as deusas Hera e Atena
decidiram intervir em seu auxílio.
Subiram em seus carros e já transpunham as
portas do Olimpo quando Íris lhes embargou os
passos, com ordem terminante de Zeus para não
tomarem partido na pendência, pois era sua
divina vontade que os troianos prevalecessem
naquele dia. Esta ordem, dada com toda a
autoridade do rei dos deuses, não podia ser
infringida; conquanto zangadas e ressentidas,
tiveram que se curvar a esposa e a filha de
Zeus.
Na vasta planície, lá embaixo, os
troianos forçavam os gregos a recuarem até seu
próprio acampamento, à beira-mar. A fim de
proteger suas naus abicadas na praia, tinham os
gregos construído parapeitos de terra com
trincheiras em sua frente; porém, não constituía
isto obstáculo ao avanço dos troianos
vitoriosos, que forçaram as entradas,
conseguindo mesmo atear fogo a algumas embarcações.
Caiu a noite, entretanto, antes de eles poderem
completar o seu trabalho; retiraram-se então do
acampamento grego, conservando-se em formação
de batalha em frente das trincheiras, prontos
para reassumir o ataque ao despertar do dia.
Durante toda a noite conservaram os troianos
grandes fogos acesos; pois que, no caso de os
gregos decidirem embarcar-se na calada da noite,
e se fazerem à vela acobertados pela escuridão,
Heitor queria aproveitar a circunstância para
causar tanto dano quanto possível aos homens e
às naus do inimigo.
De fato, ponderava Agamenon a
possibilidade de retirar os gregos dessa longa,
acirrada e improfícua guerra. Estava claro que
Zeus protegia os troianos, e parecia inútil
continuar aquela luta, quando depois de tanto
tempo tinham conseguido tão pequeno resultado.
Durante a noite, portanto, reuniu um conselho de
reis. Quando, porém, sugeriu que os
gregos se retirassem, supondo que fossem todos
da sua opinião, ficou surpreendido com a forte
oposição que suas palavras suscitaram.
Diomedes ergueu-se num salto.
- Os deuses deram-lhe a
realeza, mas lhe negaram o dom da coragem,
bradou ele. Volte para sua casa se assim o
deseja, e leve consigo todos os pusilânimes que
pensam como você. Quanto a mim, ficarei
aqui, e lutarei contra Tróia até o fim, mesmo
que tenha de lutar sozinho!
Levantou-se um murmúrio de aprovação
de todas as bocas, mas competiu ao prudente
Nestor sugerir um plano que permitiria aos
gregos transformarem a derrota em vitória.
- Nossas armas não
conheceram vitória alguma desde que Aquiles
abandonou sua lança, disse ele. Esta pendência
já durou demais e custou-nos muitas vidas.
Faça as pazes com ele, sua majestade, e
convoque-o para a luta; se o fizer,
enfrentaremos os troianos com maiores forças e
mais ânimo.
Surpreendendo os outros reis, consentiu
Agamenon em fazer propostas de conciliação a
Aquiles. Mandou Ajax e Ulisses à tenda do
príncipe com oferecimento de recompensas, e a
promessa de que a formosa Briseida lhe seria
restituída. Os dois embaixadores,
contudo, encontraram Aquiles indiferente,
conquanto os tratasse com cortesia.
Explicou-lhe Ulisses a desastrosa situação do
exército grego, e lhe implorou que esquecesse
seu ressentimento. Sete mulheres, doze
cavalos, a soberania de certo número de cidades
gregas, e a mão da filha de Agamenon eram
alguns dos engodos que lhe ofereciam, além da
restituição de Briseida.
- Não sou desses que
se deixam conquistar por promessas, por mais
belas que sejam, retorquiu Aquiles com aspereza.
Agamenon já me faltou com a palavra uma vez, e
me insultou na frente de todo o exército; seria
capaz de fazê-lo de novo. Pouco se me dá
que os troianos queimem seus navios ou o enxotem
de Tróia. Não desejo casar-me com sua
filha, nem receber Briseida de volta. O
que está feito, está feito. Amanhã
embarcarei com os meus homens para regressar à
nossa pátria.
Por mais que Ulisses empregasse eloqüência
e lisonjas, não conseguiu alterar a decisão de
Aquiles. Seu amigo íntimo, Pátroclo, que
compartilhava a sua tenda, implorou-o também
sem resultado; e os dois embaixadores voltaram
com os corações pesados para o conselho dos
reis, que os aguardavam. Ao saberem que Aquiles
não se deixara persuadir, permaneceram um
instante desanimados e taciturnos, quando, de
repente, Diomedes deu um pulo.
- Foi um erro
implorarmos a Aquiles, bradou ele. Não
fizemos mais do que incentivar sua obstinação.
Sejamos homens e mostremos-lhe mesmo numa situação
desesperada podemos prescindir de sua ajuda.
Pensam os troianos que estamos desanimados e
receosos. Vamos comer e beber a fartar e
dormir a sono solto até de manhã cedo; então,
com nossas forças refeitas, daremos combate ao
inimigo, instilando nos nossos homens a vontade
de transformar a derrota em vitória!
Os outros reis inflamaram-se ao ouvir
essas palavras candentes, e resolveram que na
manhã seguinte iriam repelir os troianos para
dentro dos muros da cidade, ou morrer
gloriosamente, de preferência a se darem por
vencidos.
Com espírito impetuoso,e entusiástico os
gregos atacaram o inimigo de manhã cedo,
travando-se entre os dois exércitos, batalha
mais áspera e feroz que nenhuma outra jamais
mais ferida em planícies de Tróia.
Heitor e Enéias cobriram-se de glória por suas
façanhas valorosas, enquanto Agamenon,
Diomedes, Ajax e Ulisses se agigantavam nos
momentos mais intensos do embate. Recebeu
Diomedes uma flechada no pé, desferida pelo
arco de Páris; Ulisses manteve-se ao seu lado
para protegê-lo, porém ambos foram cercados
pelos troianos, e estariam perdidos se não
tivessem, Menelau e Ajax, conduzido uma carga
para libertá-los. Lutava Heitor em outro
setor do campo de batalha, enfrentando a Nestor
e ao valente Idomeneu de Creta; acorrendo , Páris,
em socorro de seu irmão, atirou uma flecha que
feriu no ombro um homem chamado Macaon, filho de
Esculápio, o médico famoso. E, com esta
flecha, selou Páris, definitivamente, o destino
de Tróia.
Com efeito, Nestor levou apressadamente
Macaon para fora do campo de batalha para que
lhe extraíssem a flecha, e Aquiles, em pé na
proa de sua nau, mandou Pátroclo saber quem se
achava ferido e estendido no carro de Nestor.
- Por que Aquiles quer
saber? resmungou Nestor. Que importância
tem um homem ferido quando milhares de seus patrícios
se acham estendidos, mortos ou sangrando, no
campo de batalha? Quando mesmo ele próprio,
se recusa, a lutar, não deve impedir a você de
fazê-lo, Pátroclo. Os troianos foram
detidos. Caso você os atacasse com um
destacamento de tropas frescas, talvez mudasse a
sorte da batalha, Pátroclo voltou apressadamente para a
tenda de Aquiles, lamentando sinceramente a
triste situação em que se achavam os gregos.
Implorou a Aquiles com eloqüência, para que
entrasse na luta.
- Diomedes, Ulisses e
Agamenon estão feridos, assim como muitos de
nossos melhores combatentes, disse-lhe Pátroclo.
Estão até mesmo considerando em se refugiarem
nas naus, pois Heitor já transpôs o fosso e
acomete contra o parapeito do acampamento.
Se não for em seu auxílio, empreste-me sua
armadura e permita que conduza seus homens ao
combate; um contingente de tropas frescas poderá
decidir da sorte da batalha.
- Se é verdade que os
troianos ameaçam as naus, replicou Aquiles, não
hesite e faça o que puder para detê-los; não
podemos ficar privados de comunicação com a Grécia.
Vista minha armadura. Seu simples aspecto
bastará para atemorizar os troianos e incutir
novo alento no coração dos combatentes gregos.
Todavia, Pátroclo, prometa-me que não fará
mais do que repelir o inimigo e expulsá-lo para
fora do acampamento. Por maiores que sejam
suas oportunidades de conquistar glória ou vitórias,
não lute em campo aberto sem mim.
Um grito súbito atraiu os dois homens à
porta da tenda.
- Heitor põe
fogo à frota! bradou Aquiles; vamos ver esta
couraça, enquanto chamo às armas os mirmidões!
Alguns minutos mais tarde ficavam os
troianos atônitos de ouvirem urros e tropelias,
enquanto Pátroclo, revestido da couraça de
Aquiles, arremetia contra eles à frente de mais
de dois mil homens de tropas frescas, sôfregas
por entrarem na luta. Durante alguns
instantes equilibrou-se a refrega, lutando com
ferocidade ambas as partes; começaram depois os
troianos a recuar. Sua retirada
transformou-se em debandada; precipitavam-se
pelas saídas do acampamento grego, e
atravessavam a planície correndo para se
refugiarem na cidade, enquanto os mirmidões,
urrando, perseguiam e atropelavam suas hostes
desordenadas e desfeitas.
Em vão tentavam
Heitor, Enéias, Glauco da Lícia e seu primo
Sarpedonte deter a derrocada; Pátroclo, avançando
vitoriosamente em sua biga matou a Sarpedonte
com um certeiro golpe de dardo; e uma terrífica
batalha originou-se ao redor do corpo do
liciano. Mais uma vez viram-se os troianos
obrigados a recuar, caindo a armadura de
Sarpedonte nas mãos dos gregos, enquanto os
troianos eram repelidos até às portas de sua
cidadela.
Exultante com a vitória, esqueceu-se Pátroclo
das recomendações de Aquiles. Tinha
varrido o inimigo do acampamento grego; queria
agora, retalhá-lo e abalar o seu poderio
ofensivo. Porém Heitor não se sentia
ainda derrotado. Prudente na guerra,
reagrupou os seus homens, incitando-os à luta e
arremessando sua quadriga contra a de Pátroclo,
convencido de que o guerreiro que trazia aquela
armadura de bronze era Aquiles. O golpe da sua
lança foi firme e certeiro; caiu morto Pátroclo,
com a famosa armadura de Aquiles, aos pés de
Heitor.
Com a morte de seu chefe esmoreceram os
gregos; reagruparam-se os troianos e a luta
deslocou-se, mais uma vez, na direção do
acampamento e da praia. Ouviam-se agora os
gritos de triunfo e as ovações dos troianos;
avançava Heitor em sua quadriga, brandindo sua
lança vitoriosa e encabeçando o ataque. Ele
ostentava a armadura de bronze de Aquiles.
[transcrição e adaptação do texto original
de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense,
1960.]
Moacir Índio da Costa Júnior