PÁGINA DE MITOLOGIA

 

GEORGE BAKER



Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega




Editora Brasiliense
São Paulo
1960

Quarta Parte

O Cerco de Tróia






CAPITULO XXI

 


COMO LUTARAM DEUSES E HERÓIS EM FRENTE AOS MUROS DE TRÓIA
 



O homem que disparara a seta chamava-se Pândaro. Era um famoso arqueiro que viera da Lícia com o Rei Glauco e seu primo Sarpedonte, ambos netos do grande Belerofonte, matador da Quimera. Como os gregos acorriam para empunhar armas, Pândaro atirou outra seta contra um dos inimigos maiores e mais fortes, que ele conhecia por ser Diomedes, chefe dos soldados argivos e tirintos, ferindo-o no ombro. A dor do ferimento e a cólera provocada pela quebra da trégua, originaram em Diomedes uma verdadeira fúria belicosa; precipitou-se na batalha, varrendo tudo em sua frente. Pândaro desfechou-lhe outro tiro mas flecha foi interceptada pelo escudo de Diomedes; um instante depois Pândaro estava morto, com uma lança grega atravessada na cabeça.

Enéias presenciara este encontro; enfrentou Diomedes a pé, a cavaleiro do corpo do arqueiro estendido no solo. Porém, Diomedes arremessou contra ele um grande pedaço de rocha, esmagando-lhe o quadril e mandando-o ao chão com um gemido. No momento seguinte, Enéias teria recebido no peito um fatal golpe de lança, não houvesse sua mãe, a deusa Afrodite, aparecido repentinamente, protegendo-o com seu manto. Diomedes, todavia, não estava disposto a ser frustrado, nem mesmo por uma deusa imortal; golpeou-a com a lança, ferindo-a no pulso.

Com um grito de dor e de indignação a deusa pulou para trás e sumiu deixando que seu filho fosse acudido por Apolo, contra quem Diomedes arremessou um dardo, sem resultado.  Afrodite, enquanto isto, tomou emprestado o carro do deus da guerra, Ares, que contemplava a batalha, e foi transportada sem demora para o Olimpo, onde sua mãe prontamente lhe curou o ferimento e consolou-a da afronta que sofrera em sua dignidade.

Enquanto isto, Zeus divertia-se imensamente.

  - Isto lhe ensinará, minha filha, a não meter-se onde não é chamada, disse ele.  Contente-se com o reino do amor, e deixe a guerra para os entendidos.

 - Diomedes enlouqueceu; está não somente lutando contra os troianos, mas ataca também os próprios deuses! lamentou Afrodite.

- Isto é porque está possuído de inspiração divina, replicou Zeus.  Você verá como minha esposa e minha filha estão ambas tomando parte na refrega.  Atena, de fato, acha-se na quadriga ao lado de Diomedes, dirigindo-a contra o meu filho Ares, que, por alguma razão, tomou o lado dos troianos. Ah! então Diomedes arremessou o dardo ...

Alguns momentos depois Ares chegou em desabalada carreira pelos céus, gritando de dor com uma chaga no ventre.  Mas, se esperava compaixão por parte de seu divino pai, deve ter ficado desapontado. Pois Zeus, que não tinha amor ao seu violento e atrabiliário filho, se ria a bandeira despregada.

- Você deve isto à sua mãe e à sua irmã, disse-lhe ele, pois elas se acham no fogo da batalha ajudando os gregos.  Porém agora que você deixou o campo da luta, elas virão ter conosco prontamente, não duvide.  Chamou Peon, o divino curandeiro, que num instante curou a ferida do deus da guerra; Ares, porém, tinha tão pouco desejo quanto Afrodite de voltar para a luta.

 Diomedes continuava a causar devastação entre os troianos, que se enchiam de admiração pela sua força, e sua destreza; ninguém conseguia enfrentá-lo até que se defrontou com Glauco, Rei da Lícia, com quem nunca tinha medido forças.  Os dois homens equilibravam-se em vigor; porém, aqueles que esperavam presenciar uma luta notável entre os dois campeões ficaram desapontados.  Pois Diomedes, ao saber o nome e a linhagem de seu oponente, lembrou-se de que seu próprio avô, o Rei Eneu de Calidon, tinha trocado presentes, em penhor de amizade, com Belerofonte, avô de Glauco; nessas condições, recusou-se a lutar com ele, e os dois homens permutaram armaduras em sinal de amizade, procurando, alhures, adversários para combater.

A sorte da batalha, contudo, virava contra os gregos, apesar de todo o esforço de seus valorosos chefes, e eles deram graças a Deus quando Heitor lançou um desafio para combate singular, provocando o mais valente dos gregos para se medir com ele.  Ajax, filho de Telamon, foi escolhido pela sorte, e, satisfeito, adiantou-se para lutar com Heitor; porém a hora já era avançada, e a noite que se aproximava não permitiria que o duelo fosse levado a cabo.  Os dois homens portaram-se com bravura.  Gregos e troianos ficaram satisfeitos quando os arautos separaram os contendores, que se congratularam mutuamente antes de se retirarem para os respectivos acampamentos.

Recomeçou a refrega no dia seguinte de manhã cedo, e se acharam os gregos em tão grandes apuros que as deusas Hera e Atena decidiram intervir em seu auxílio.  Subiram em seus carros e já transpunham as portas do Olimpo quando Íris lhes embargou os passos, com ordem terminante de Zeus para não tomarem partido na pendência, pois era sua divina vontade que os troianos prevalecessem naquele dia.  Esta ordem, dada com toda a autoridade do rei dos deuses, não podia ser infringida; conquanto zangadas e ressentidas, tiveram que se curvar a esposa e a filha de Zeus.

 Na vasta planície, lá embaixo, os troianos forçavam os gregos a recuarem até seu próprio acampamento, à beira-mar. A fim de proteger suas naus abicadas na praia, tinham os gregos construído parapeitos de terra com trincheiras em sua frente; porém, não constituía isto obstáculo ao avanço dos troianos vitoriosos, que forçaram as entradas, conseguindo mesmo atear fogo a algumas embarcações.

Caiu a noite, entretanto, antes de eles poderem completar o seu trabalho; retiraram-se então do acampamento grego, conservando-se em formação de batalha em frente das trincheiras, prontos para reassumir o ataque ao despertar do dia.  Durante toda a noite conservaram os troianos grandes fogos acesos; pois que, no caso de os gregos decidirem embarcar-se na calada da noite, e se fazerem à vela acobertados pela escuridão, Heitor queria aproveitar a circunstância para causar tanto dano quanto possível aos homens e às naus do inimigo.

De fato, ponderava Agamenon a possibilidade de retirar os gregos dessa longa, acirrada e improfícua guerra. Estava claro que Zeus protegia os troianos, e parecia inútil continuar aquela luta, quando depois de tanto tempo tinham conseguido tão pequeno resultado.  Durante a noite, portanto, reuniu um conselho de reis.  Quando, porém, sugeriu que os gregos se retirassem, supondo que fossem todos da sua opinião, ficou surpreendido com a forte oposição que suas palavras suscitaram.  Diomedes ergueu-se num salto.

 - Os deuses deram-lhe a realeza, mas lhe negaram o dom da coragem, bradou ele.  Volte para sua casa se assim o deseja, e leve consigo todos os pusilânimes que pensam como você.  Quanto a mim, ficarei aqui, e lutarei contra Tróia até o fim, mesmo que tenha de lutar sozinho!

Levantou-se um murmúrio de aprovação de todas as bocas, mas competiu ao prudente Nestor sugerir um plano que permitiria aos gregos transformarem a derrota em vitória.

 - Nossas armas não conheceram vitória alguma desde que Aquiles abandonou sua lança, disse ele.  Esta pendência já durou demais e custou-nos muitas vidas.  Faça as pazes com ele, sua majestade, e convoque-o para a luta; se o fizer, enfrentaremos os troianos com maiores forças e mais ânimo.

 Surpreendendo os outros reis, consentiu Agamenon em fazer propostas de conciliação a Aquiles.  Mandou Ajax e Ulisses à tenda do príncipe com oferecimento de recompensas, e a promessa de que a formosa Briseida lhe seria restituída.  Os dois embaixadores, contudo, encontraram Aquiles indiferente, conquanto os tratasse com cortesia.  Explicou-lhe Ulisses a desastrosa situação do exército grego, e lhe implorou que esquecesse seu ressentimento.  Sete mulheres, doze cavalos, a soberania de certo número de cidades gregas, e a mão da filha de Agamenon eram alguns dos engodos que lhe ofereciam, além da restituição de Briseida.

 - Não sou desses que se deixam conquistar por promessas, por mais belas que sejam, retorquiu Aquiles com aspereza.  Agamenon já me faltou com a palavra uma vez, e me insultou na frente de todo o exército; seria capaz de fazê-lo de novo.  Pouco se me dá que os troianos queimem seus navios ou o enxotem de Tróia.  Não desejo casar-me com sua filha, nem receber Briseida de volta.  O que está feito, está feito.  Amanhã embarcarei com os meus homens para regressar à nossa pátria.

Por mais que Ulisses empregasse eloqüência e lisonjas, não conseguiu alterar a decisão de Aquiles. Seu amigo íntimo, Pátroclo, que compartilhava a sua tenda, implorou-o também sem resultado; e os dois embaixadores voltaram com os corações pesados para o conselho dos reis, que os aguardavam. Ao saberem que Aquiles não se deixara persuadir, permaneceram um instante desanimados e taciturnos, quando, de repente, Diomedes deu um pulo.

- Foi um erro implorarmos a Aquiles, bradou ele.  Não fizemos mais do que incentivar sua obstinação.  Sejamos homens e mostremos-lhe mesmo numa situação desesperada podemos prescindir de sua ajuda.  Pensam os troianos que estamos desanimados e receosos.  Vamos comer e beber a fartar e dormir a sono solto até de manhã cedo; então, com nossas forças refeitas, daremos combate ao inimigo, instilando nos nossos homens a vontade de transformar a derrota em vitória!

Os outros reis inflamaram-se ao ouvir essas palavras candentes, e resolveram que na manhã seguinte iriam repelir os troianos para dentro dos muros da cidade, ou morrer gloriosamente, de preferência a se darem por vencidos.       Com espírito impetuoso,e entusiástico os gregos atacaram o inimigo de manhã cedo, travando-se entre os dois exércitos, batalha mais áspera e feroz que nenhuma outra jamais mais ferida em planícies de Tróia.  Heitor e Enéias cobriram-se de glória por suas façanhas valorosas, enquanto Agamenon, Diomedes, Ajax e Ulisses se agigantavam nos momentos mais intensos do embate.  Recebeu Diomedes uma flechada no pé, desferida pelo arco de Páris; Ulisses manteve-se ao seu lado para protegê-lo, porém ambos foram cercados pelos troianos, e estariam perdidos se não tivessem, Menelau e Ajax, conduzido uma carga para libertá-los.  Lutava Heitor em outro setor do campo de batalha, enfrentando a Nestor e ao valente Idomeneu de Creta; acorrendo , Páris, em socorro de seu irmão, atirou uma flecha que feriu no ombro um homem chamado Macaon, filho de Esculápio, o médico famoso.  E, com esta flecha, selou Páris, definitivamente, o destino de Tróia.

Com efeito, Nestor levou apressadamente Macaon para fora do campo de batalha para que lhe extraíssem a flecha, e Aquiles, em pé na proa de sua nau, mandou Pátroclo saber quem se achava ferido e estendido no carro de Nestor.

 - Por que Aquiles quer saber? resmungou Nestor.  Que importância tem um homem ferido quando milhares de seus patrícios se acham estendidos, mortos ou sangrando, no campo de batalha?  Quando mesmo ele próprio, se recusa, a lutar, não deve impedir a você de fazê-lo, Pátroclo.  Os troianos foram detidos.  Caso você os atacasse com um destacamento de tropas frescas, talvez mudasse a sorte da batalha, Pátroclo voltou apressadamente para a tenda de Aquiles, lamentando sinceramente a triste situação em que se achavam os gregos.  Implorou a Aquiles com eloqüência, para que entrasse na luta.

- Diomedes, Ulisses e Agamenon estão feridos, assim como muitos de nossos melhores combatentes, disse-lhe Pátroclo.  Estão até mesmo considerando em se refugiarem nas naus, pois Heitor já transpôs o fosso e acomete contra o parapeito do acampamento.  Se não for em seu auxílio, empreste-me sua armadura e permita que conduza seus homens ao combate; um contingente de tropas frescas poderá decidir da sorte da batalha.

- Se é verdade que os troianos ameaçam as naus, replicou Aquiles, não hesite e faça o que puder para detê-los; não podemos ficar privados de comunicação com a Grécia.  Vista minha armadura.  Seu simples aspecto bastará para atemorizar os troianos e incutir novo alento no coração dos combatentes gregos.  Todavia, Pátroclo, prometa-me que não fará mais do que repelir o inimigo e expulsá-lo para fora do acampamento.  Por maiores que sejam suas oportunidades de conquistar glória ou vitórias, não lute em campo aberto sem mim.

Um grito súbito atraiu os dois homens à porta da tenda.

- Heitor põe fogo à frota! bradou Aquiles; vamos ver esta couraça, enquanto chamo às armas os mirmidões!

Alguns minutos mais tarde ficavam os troianos atônitos de ouvirem urros e tropelias, enquanto Pátroclo, revestido da couraça de Aquiles, arremetia contra eles à frente de mais de dois mil homens de tropas frescas, sôfregas por entrarem na luta.  Durante alguns instantes equilibrou-se a refrega, lutando com ferocidade ambas as partes; começaram depois os troianos a recuar.  Sua retirada transformou-se em debandada; precipitavam-se pelas saídas do acampamento grego, e atravessavam a planície correndo para se refugiarem na cidade, enquanto os mirmidões, urrando, perseguiam e atropelavam suas hostes desordenadas e desfeitas. 

Em vão tentavam Heitor, Enéias, Glauco da Lícia e seu primo Sarpedonte deter a derrocada; Pátroclo, avançando vitoriosamente em sua biga matou a Sarpedonte com um certeiro golpe de dardo; e uma terrífica batalha originou-se ao redor do corpo do liciano.  Mais uma vez viram-se os troianos obrigados a recuar, caindo a armadura de Sarpedonte nas mãos dos gregos, enquanto os troianos eram repelidos até às portas de sua cidadela.

Exultante com a vitória, esqueceu-se Pátroclo das recomendações de Aquiles.  Tinha varrido o inimigo do acampamento grego; queria agora, retalhá-lo e abalar o seu poderio ofensivo.  Porém Heitor não se sentia ainda derrotado.  Prudente na guerra, reagrupou os seus homens, incitando-os à luta e arremessando sua quadriga contra a de Pátroclo, convencido de que o guerreiro que trazia aquela armadura de bronze era Aquiles. O golpe da sua lança foi firme e certeiro; caiu morto Pátroclo, com a famosa armadura de Aquiles, aos pés de Heitor.

 Com a morte de seu chefe esmoreceram os gregos; reagruparam-se os troianos e a luta deslocou-se, mais uma vez, na direção do acampamento e da praia. Ouviam-se agora os gritos de triunfo e as ovações dos troianos; avançava Heitor em sua quadriga, brandindo sua lança vitoriosa e encabeçando o ataque. Ele ostentava a armadura de bronze de Aquiles.

   







[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em

DEUSES E HERÓIS,  editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 
 
 


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