PÁGINA DE MITOLOGIA

 

GEORGE BAKER



Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega

 

Quarta Parte

O Cerco de Tróia


 

CAPITULO XX

COMO UMA MOÇA CATIVA LEVOU OS GREGOS À BEIRA DO DESASTRE




Era evidente para Agamenon que ele não poderia pretender assaltar a cidade de Tróia e conquistá-la em seu soberbo poderio. Tinha Príamo muitos aliados dentro dos muros da cidade, e outros tantos milhares ou mais, aguerridos e valentes, prontos a acorrer de suas cidades a um chamado seu. Por isso, comandou, Agamenon , que os gregos acampassem em suas naus abicadas na praia, preparando-se para uma prolongada campanha. Havia algumas escaramuças com destacamentos de troianos aventureiros que faziam sortidas, porém, esses encontros não levavam os gregos a assaltarem as portas da cidade ou a escalarem os elevados muros da cidadela.

Muito mais efetivas, no sentido de enfraquecer a resistência de Tróia, eram as incursões feitas pelos gregos contra as cidades aliadas de Príamo, muitas das quais foram tomadas de assalto e saqueadas. Isto privava Tróia não somente de combatentes, mas, também, de armas e alimentos que, por outro lado, entravam livremente no acampamento do exército grego. Cavalos, prisioneiros e tesouros eram divididos entre os assaltantes, a maior parte cabendo aos chefes e aos reis, principalmente a Agamenon, na qualidade de comandante supremo.

Este fato não deixava de desagradar a Aquiles, pois que Agamenon nunca tomava parte naquelas incursões repentinas, conquanto fosse sempre o mais bem aquinhoado quando se tratava de dividir os despojos. Por ser esta prática aceita na guerra, entretanto, Aquiles calava seu descontentamento, e trazia fielmente para o tesouro comum tudo o que era conquistado pela sua, audácia e iniciativa. Porém, todos sabiam que existiam ressentimentos entre Agamenon e Aquiles, remontando à época em que Ifigênia fôra atraída de Micenas para o altar do sacrifício na Áulida, sob pretexto de que se deveria casar com Aquiles. Cedo ou tarde esse desentendimento iria manifestar-se abertamente.

Um dos mais fortes aliados do Rei Príamo era o Rei Eecião de Tebas, cidade situada ao sul dos domínios de Tróia. Sua filha Andrômaca era casada com Heitor, filho primogênito de Príamo, e general das forças troianas. O Rei Eecião, na qualidade de pai da futura rainha de Tróia, fazia tudo o que estava ao seu alcance para derrotar os gregos; porém Agamenon, sabendo disto, enviou um forte destacamento contra Tebas, que foi conquistada e saqueada. O rei e seus sete filhos foram mortos e muitos prisioneiros, homens e mulheres, trazidos como escravos e distribuídos entre os gregos.

Como parte de sua participação nos despojos, recebeu Agamenon uma bela donzela chamada Criseida, pela qual se apaixonou loucamente. Ela era em tudo diferente da fria e majestosa Clitemnestra, e Agamenon dava mais valor a esta conquista que a todos seus outros despojos de guerra. Criseida, contudo, odiava-o e vertia lágrimas amargas por ter sido arrancada ao seu lar e entregue como escrava a um conquistador estrangeiro. Por seu quinhão na partilha, Aquiles recebeu uma donzela chamada Briseida; foi mais afortunado que Agamenon, pois Briseida o amava com ternura e não conhecia maior felicidade que a de estar em sua companhia.

Algum tempo depois do saque de Tebas, chegou ao acampamento dos gregos um ancião à procura de Agamenon. Chamava-se Crises e fora, grande pontífice de Apolo, em Tebas; Criseida era sua filha. Tinha vindo, dizia ele, oferecer um rico resgate se concedessem os gregos a liberdade à sua filha. Agamenon, todavia, não queria, por nada, desfazer-se da moça, expulsando o ancião com palavras ameaçadoras e insultuosas.

Afastou-se Crises pedindo a Apolo que castigasse os gregos. Alguns dias depois, manifestou-se uma epidemia no acampamento, alastrando-se rapidamente; mais uma vez recorreram ao adivinho Calcas, para saber a causa da peste, e de que maneira se lhe poderia pôr um paradeiro. Lembrando-se da cólera de Agamenon na Áulida, Calcas, prudentemente recorreu à proteção de Aquiles antes de enunciar a sua mensagem.

- O pontífice de Apolo foi tratado sem consideração, e, por esta, razão, o deus está irritado, disse ele. Nada poderá dominar esta peste a não ser a restituição da filha do pontífice, livre de resgate, e a doação de presentes a Crises, para que ele os ofereça em sacrifício no altar de Apolo.

Felizmente para Calcas, Aquiles prometera protegê-lo, porque ao ouvir isto ficou Agamenon completamente fora de si.

- Você diverte-se profetizando calamidades bradou ele furioso. Recusei o resgate oferecido pelo pontífice porque desejo conservar a sua filha. Mais uma vez, entretanto, obedecerei à vontade dos deuses em consideração de meu povo. Para debelar esta peste restituirei a moça ao seu pai. Mas, devo receber em troca uma recompensa, pois não é justo que somente eu fique de mãos vazias.

- Os espólios já foram distribuídos, redargüiu Aquiles, e não seria justo tirar a parte de alguém para compensá-lo de sua perda. Foi um infortúnio caber-lhe esta moça na partilha; mas, por outro lado, Agamenon, atraiu você esta praga sobre os gregos insultando ao seu pai, o pontífice de Apolo. Restitua a moça, como ordenam os deuses, e você receberá uma recompensa quádrupla quando conquistarmos a cidade.

- Abrirei mão da moça, disse Agamenon, trêmulo de ódio, mas não hei de esperar que Tróia seja conquistada para ser recompensado. Você, Aquiles, que está sempre pronto a me dizer o que devo ou não devo fazer, já é tempo que você saiba quem é o comandante. Assim, pois, quando Criseida for restituída ao seu pai, deverá Briseida tomar o seu lugar junto de mim.

Ficou Aquiles possesso, começando a desembainhar a espada. A deusa Atena, porém, aconselhou-o a dominar a sua cólera. Em vez de agredir Agamenon, enfrentou-o com altivez.

- Na verdade é você o comandante, mas quanto tempo ainda terá você homens para comandar, tratando-os desta maneira? Não tenho rixa pessoal com os troianos, que não me fizeram mal nenhum; aqui estou porque você disse que precisava de mim. Mas agora, quer me parecer que estou sendo insultado e roubado. Muito bem; não falemos mais nisso. Mas no futuro, você terá que lutar sem mim e meus companheiros. Voltaremos para a Ftia; e o dia virá, Agamenon, em que você se arrependerá do que fez hoje, implorando-me para voltar. Mas implorará em vão.

Agamenon estava colérico demais para poder pensar razoavelmente; contentou-se em dizer a Aquiles que podia voltar para casa quando quisesse, levando consigo seus companheiros. A moça Criseida foi levada para a casa do pai, com presentes valiosos e animais para os sacrifícios; e os arautos de Agamenon tiraram Briseida da tenda de Aquiles, trazendo-a para a de Agamenon.

Aquiles não opôs resistência; porém, quando levaram a moça, pôs-se a andar sozinho na praia invocando sua mãe, a deusa marinha Tétis. Ela atendeu ao seu chamado e veio confortá-lo; mas tão grande era o seu pesar, que depois de pedir-lhe a deusa para que permanecesse no acampamento mesmo sem tomar parte nos combates, ela se dirigiu a Zeus, que prometeu que os troianos ganhariam a próxima batalha para punir Agamenon das injúrias e insultos assacados contra Aquiles. Zeus estava disposto a agir assim, porque não havia cidade no mundo que ele amasse mais do que Tróia; além disso, sabia que esta contenda tivera suas raízes num ato de sua própria vontade, quando raptou Ganimedes, filho do Rei Tros, para viver entre os deuses.

Porém Hera, sua ciumenta e vigilante esposa, e Atena, sua orgulhosa filha, não perdoavam ao Príncipe Páris por haver dado o prêmio de beleza à Afrodite, e estavam determinadas, por conseguinte, a fazer tudo o que pudessem para ajudar os gregos a destruírem Tróia. Sabia Hera que Tétis tinha pedido um favor a Zeus, e adivinhava do que se tratava; para conservar a paz na mansão dos deuses ele precisava agir secretaraente. Os deuses e as deusas interessavam-se intensamente por aquela guerra, pois que quase todos tinham motivos para amar ou detestar os reis e os guerreiros que lutavam de ambos os lados, e estavam inclinados a decidir, por conta própria, aquela pendência.

Embora Hera e Atena odiassem os troianos, Afrodite tinha razão de sobra para olhá-los com benevolência. A aventura amorosa de Párís com a bela Helena tinha sido provocada por ela, e, para Afrodite, era um ponto de honra que eles não fossem separados um do outro. Por outro lado tinha a deusa um filho que lutava nas hostes troianas; e ela pretendia protegê-lo particularmente, pois rezava uma antiga profecia que seu filho estava destinado a salvar sua linhagem real do desaparecimento.

O nome do jovem era Enéias, filho de Anquises, Rei de Dardânia, a quem Afrodite aparecera no Monte Ida. Anquises fora o mais belo príncipe de seu tempo, e a deusa gostara tanto dele que lhe dera um filho.

Descendia Anquises do Rei Tros, e era neto de Assáraco, segundo filho do velho rei. Sua família herdara Dardânia, enquanto o primogênito dos filhos de Ilo, reinava em Tróia. Acontecia, assim, que Anquises era primo do Rei Príamo; as duas famílias, porém, não viviam em bons termos, porque Príamo suspeitava que Anquises conspirara para incorporar o reino de Tróia aos seus próprios domínios.

Anquises não alimentava tais ambições. Mas como seu primo o tratasse com frieza, conservou Dardânia fora da contenda quando os gregos vieram acampar às portas de Tróia. Uma expedição chefiada por Aquiles, entretanto, invadira Dardânia repentinamente. Se bem que os gregos fossem repelidos, antes de terem causado muito dano, Enéias ficou tão encolerizado que Anquises lhe permitiu comandar seus guerreiros em auxílio de Tróia. E Enéias demonstrou logo ser um dos mais valentes e adestrados guerreiros do campo troiano.

Depois de meditar cuidadosamente sobre a maneira de levar a efeito os seus desígnios sem provocar o rancor de sua mulher e de sua filha, Zeus decidiu enviar a Agamenon um sonho no qual lhe prometia uma grande vitória, se os gregos empreendessem um assalto geral contra a cidadela, no dia seguinte, já que os deuses estavam todos de seu lado. Ao mesmo tempo Zeus mandou, secretamente, sua mensageira Íris, a deusa do arco-íris, de pés ágeis, avisar a Heitor do próximo ataque, para que lançasse todas as suas forças na batalha, pois Zeus queria que os troianos fossem vitoriosos.

De manhã cedo, pois, dezenas de milhares de gregos marcharam contra a cidade, confiantes na vitória; enquanto que, não menos confiantes, os guerreiros troianos se precipitavam para fora das portas da cidade, soltando seus gritos de guerra e brandindo suas armas em desafio ao agressor.

Antes de iniciada a batalha, entretanto, o Príncipe Paris arremessou-se para fora das portas da cidade, numa quadriga veloz, percorrendo o espaço entre os dois exércitos e desafiando os gregos para que mandassem quem quisessem para fazer com ele um combate singular. A este desafio respondeu imediatamente Menelau; os soldados depuseram as armas formando círculo, enquanto os dois homens se preparavam para a luta.

Isto constituía, porém, mais do que um simples duelo entre dois guerreiros e ficou combinado que o resultado da luta decidiria da pendência. Se Páris vencesse, ficaria ele com Helena, embarcando-se os gregos para o seu país; se Menelau, porém, fosse o vencedor, Helena lhe seria entregue, e pagaria Tróia as despesas da expedição grega. Tanto Agamenon, como Heitor, tinham confiança na vitória de seus homens, pois que os sonhos lha haviam prometido. Não seria menor a vitória, por ser conquistada sem batalha, pois que o duelo poria ponto final à guerra, para gáudio de gregos e troianos.

Assim, enfrentaram-se na liça Páris e Menelau, armados dos pés à cabeça enquanto milhares de combatentes os contemplavam prendendo a respiração. Páris, e depois, Menelau, lançaram seus dardos, que foram aparados pelos escudos. A espada de Menelau partiu-se em pedaços sobre o casco de Páris; mas Menelau empunhou a crista do capacete de Páris tentando arrastá-lo para a linha dos gregos, quase estrangulando o príncipe troiano com a alça que lhe apertava a garganta. Mas a alça rompeu-se, e parecia que Páris conquistaria fácil vitória contra o rei espartano desarmado, quando ocorreu uma interrupção inesperada. Do campo troiano partiu uma flecha e Menelau caiu, com o sangue jorrando de sua coxa.

Com esta violação da trégua elevou-se um rugido selvagem das hostes gregas que prontamente empunharam armas e escudos, lançando-se contra os troianos. No ardor do combate, tanto Menelau como Páris foram esquecidos, exceto pelo furioso desapontamento dos combatentes, por não haver concluído o duelo que deveria por ponto final no conflito.

 

[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em

DEUSES E HERÓIS, editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior



Editora Brasiliense
São Paulo
1960

 

 
 
 


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