COMO UMA MOÇA CATIVA
LEVOU OS GREGOS À BEIRA DO DESASTRE
Era evidente para
Agamenon que ele não poderia pretender assaltar
a cidade de Tróia e conquistá-la em seu
soberbo poderio. Tinha Príamo muitos aliados
dentro dos muros da cidade, e outros tantos
milhares ou mais, aguerridos e valentes, prontos
a acorrer de suas cidades a um chamado seu. Por
isso, comandou, Agamenon , que os gregos
acampassem em suas naus abicadas na praia,
preparando-se para uma prolongada campanha.
Havia algumas escaramuças com destacamentos de
troianos aventureiros que faziam sortidas,
porém, esses encontros não levavam os gregos a
assaltarem as portas da cidade ou a escalarem os
elevados muros da cidadela.
Muito mais efetivas,
no sentido de enfraquecer a resistência de
Tróia, eram as incursões feitas pelos gregos
contra as cidades aliadas de Príamo, muitas das
quais foram tomadas de assalto e saqueadas. Isto
privava Tróia não somente de combatentes, mas,
também, de armas e alimentos que, por outro
lado, entravam livremente no acampamento do
exército grego. Cavalos, prisioneiros e
tesouros eram divididos entre os assaltantes, a
maior parte cabendo aos chefes e aos reis,
principalmente a Agamenon, na qualidade de
comandante supremo.
Este fato não
deixava de desagradar a Aquiles, pois que
Agamenon nunca tomava parte naquelas incursões
repentinas, conquanto fosse sempre o mais bem
aquinhoado quando se tratava de dividir os
despojos. Por ser esta prática aceita na
guerra, entretanto, Aquiles calava seu
descontentamento, e trazia fielmente para o
tesouro comum tudo o que era conquistado pela
sua, audácia e iniciativa. Porém, todos sabiam
que existiam ressentimentos entre Agamenon e
Aquiles, remontando à época em que Ifigênia
fôra atraída de Micenas para o altar do
sacrifício na Áulida, sob pretexto de que se
deveria casar com Aquiles. Cedo ou tarde esse
desentendimento iria manifestar-se abertamente.
Um dos mais fortes
aliados do Rei Príamo era o Rei Eecião de
Tebas, cidade situada ao sul dos domínios de
Tróia. Sua filha Andrômaca era casada com
Heitor, filho primogênito de Príamo, e general
das forças troianas. O Rei Eecião, na
qualidade de pai da futura rainha de Tróia,
fazia tudo o que estava ao seu alcance para
derrotar os gregos; porém Agamenon, sabendo
disto, enviou um forte destacamento contra
Tebas, que foi conquistada e saqueada. O rei e
seus sete filhos foram mortos e muitos
prisioneiros, homens e mulheres, trazidos como
escravos e distribuídos entre os gregos.
Como parte de sua
participação nos despojos, recebeu Agamenon
uma bela donzela chamada Criseida, pela qual se
apaixonou loucamente. Ela era em tudo diferente
da fria e majestosa Clitemnestra, e Agamenon
dava mais valor a esta conquista que a todos
seus outros despojos de guerra. Criseida,
contudo, odiava-o e vertia lágrimas amargas por
ter sido arrancada ao seu lar e entregue como
escrava a um conquistador estrangeiro. Por seu
quinhão na partilha, Aquiles recebeu uma
donzela chamada Briseida; foi mais afortunado
que Agamenon, pois Briseida o amava com ternura
e não conhecia maior felicidade que a de estar
em sua companhia.
Algum tempo depois do
saque de Tebas, chegou ao acampamento dos gregos
um ancião à procura de Agamenon. Chamava-se
Crises e fora, grande pontífice de Apolo, em
Tebas; Criseida era sua filha. Tinha vindo,
dizia ele, oferecer um rico resgate se
concedessem os gregos a liberdade à sua filha.
Agamenon, todavia, não queria, por nada,
desfazer-se da moça, expulsando o ancião com
palavras ameaçadoras e insultuosas.
Afastou-se Crises
pedindo a Apolo que castigasse os gregos. Alguns
dias depois, manifestou-se uma epidemia no
acampamento, alastrando-se rapidamente; mais uma
vez recorreram ao adivinho Calcas, para saber a
causa da peste, e de que maneira se lhe poderia
pôr um paradeiro. Lembrando-se da cólera de
Agamenon na Áulida, Calcas, prudentemente
recorreu à proteção de Aquiles antes de
enunciar a sua mensagem.
- O pontífice de
Apolo foi tratado sem consideração, e, por
esta, razão, o deus está irritado, disse ele.
Nada poderá dominar esta peste a não ser a
restituição da filha do pontífice, livre de
resgate, e a doação de presentes a Crises,
para que ele os ofereça em sacrifício no altar
de Apolo.
Felizmente para
Calcas, Aquiles prometera protegê-lo, porque ao
ouvir isto ficou Agamenon completamente fora de
si.
- Você diverte-se
profetizando calamidades bradou ele furioso.
Recusei o resgate oferecido pelo pontífice
porque desejo conservar a sua filha. Mais uma
vez, entretanto, obedecerei à vontade dos
deuses em consideração de meu povo. Para
debelar esta peste restituirei a moça ao seu
pai. Mas, devo receber em troca uma recompensa,
pois não é justo que somente eu fique de mãos
vazias.
- Os espólios já
foram distribuídos, redargüiu Aquiles, e não
seria justo tirar a parte de alguém para
compensá-lo de sua perda. Foi um infortúnio
caber-lhe esta moça na partilha; mas, por outro
lado, Agamenon, atraiu você esta praga sobre os
gregos insultando ao seu pai, o pontífice de
Apolo. Restitua a moça, como ordenam os deuses,
e você receberá uma recompensa quádrupla
quando conquistarmos a cidade.
- Abrirei mão da
moça, disse Agamenon, trêmulo de ódio, mas
não hei de esperar que Tróia seja conquistada
para ser recompensado. Você, Aquiles, que está
sempre pronto a me dizer o que devo ou não devo
fazer, já é tempo que você saiba quem é o
comandante. Assim, pois, quando Criseida for
restituída ao seu pai, deverá Briseida tomar o
seu lugar junto de mim.
Ficou Aquiles
possesso, começando a desembainhar a espada. A
deusa Atena, porém, aconselhou-o a dominar a
sua cólera. Em vez de agredir Agamenon,
enfrentou-o com altivez.
- Na verdade é você
o comandante, mas quanto tempo ainda terá você
homens para comandar, tratando-os desta maneira?
Não tenho rixa pessoal com os troianos, que
não me fizeram mal nenhum; aqui estou porque
você disse que precisava de mim. Mas agora,
quer me parecer que estou sendo insultado e
roubado. Muito bem; não falemos mais nisso. Mas
no futuro, você terá que lutar sem mim e meus
companheiros. Voltaremos para a Ftia; e o dia
virá, Agamenon, em que você se arrependerá do
que fez hoje, implorando-me para voltar. Mas
implorará em vão.
Agamenon estava
colérico demais para poder pensar
razoavelmente; contentou-se em dizer a Aquiles
que podia voltar para casa quando quisesse,
levando consigo seus companheiros. A moça
Criseida foi levada para a casa do pai, com
presentes valiosos e animais para os
sacrifícios; e os arautos de Agamenon tiraram
Briseida da tenda de Aquiles, trazendo-a para a
de Agamenon.
Aquiles não opôs
resistência; porém, quando levaram a moça,
pôs-se a andar sozinho na praia invocando sua
mãe, a deusa marinha Tétis. Ela atendeu ao seu
chamado e veio confortá-lo; mas tão grande era
o seu pesar, que depois de pedir-lhe a deusa
para que permanecesse no acampamento mesmo sem
tomar parte nos combates, ela se dirigiu a Zeus,
que prometeu que os troianos ganhariam a
próxima batalha para punir Agamenon das
injúrias e insultos assacados contra Aquiles.
Zeus estava disposto a agir assim, porque não
havia cidade no mundo que ele amasse mais do que
Tróia; além disso, sabia que esta contenda
tivera suas raízes num ato de sua própria
vontade, quando raptou Ganimedes, filho do Rei
Tros, para viver entre os deuses.
Porém Hera,
sua ciumenta e vigilante esposa, e Atena, sua
orgulhosa filha, não perdoavam ao Príncipe
Páris por haver dado o prêmio de beleza à
Afrodite, e estavam determinadas, por
conseguinte, a fazer tudo o que pudessem para
ajudar os gregos a destruírem Tróia. Sabia
Hera que Tétis tinha pedido um favor a Zeus, e
adivinhava do que se tratava; para conservar a
paz na mansão dos deuses ele precisava agir
secretaraente. Os deuses e as deusas
interessavam-se intensamente por aquela guerra,
pois que quase todos tinham motivos para amar ou
detestar os reis e os guerreiros que lutavam de
ambos os lados, e estavam inclinados a decidir,
por conta própria, aquela pendência.
Embora Hera e Atena
odiassem os troianos, Afrodite tinha razão de
sobra para olhá-los com benevolência. A
aventura amorosa de Párís com a bela Helena
tinha sido provocada por ela, e, para Afrodite,
era um ponto de honra que eles não fossem
separados um do outro. Por outro lado tinha a
deusa um filho que lutava nas hostes troianas; e
ela pretendia protegê-lo particularmente, pois
rezava uma antiga profecia que seu filho estava
destinado a salvar sua linhagem real do
desaparecimento.
O nome do jovem era
Enéias, filho de Anquises, Rei de Dardânia, a
quem Afrodite aparecera no Monte Ida. Anquises
fora o mais belo príncipe de seu tempo, e a
deusa gostara tanto dele que lhe dera um filho.
Descendia Anquises do
Rei Tros, e era neto de Assáraco, segundo filho
do velho rei. Sua família herdara Dardânia,
enquanto o primogênito dos filhos de Ilo,
reinava em Tróia. Acontecia, assim, que
Anquises era primo do Rei Príamo; as duas
famílias, porém, não viviam em bons termos,
porque Príamo suspeitava que Anquises
conspirara para incorporar o reino de Tróia aos
seus próprios domínios.
Anquises não
alimentava tais ambições. Mas como seu primo o
tratasse com frieza, conservou Dardânia fora da
contenda quando os gregos vieram acampar às
portas de Tróia. Uma expedição chefiada por
Aquiles, entretanto, invadira Dardânia
repentinamente. Se bem que os gregos fossem
repelidos, antes de terem causado muito dano,
Enéias ficou tão encolerizado que Anquises lhe
permitiu comandar seus guerreiros em auxílio de
Tróia. E Enéias demonstrou logo ser um dos
mais valentes e adestrados guerreiros do campo
troiano.
Depois de meditar
cuidadosamente sobre a maneira de levar a efeito
os seus desígnios sem provocar o rancor de sua
mulher e de sua filha, Zeus decidiu enviar a
Agamenon um sonho no qual lhe prometia uma
grande vitória, se os gregos empreendessem um
assalto geral contra a cidadela, no dia
seguinte, já que os deuses estavam todos de seu
lado. Ao mesmo tempo Zeus mandou, secretamente,
sua mensageira Íris, a deusa do arco-íris, de
pés ágeis, avisar a Heitor do próximo ataque,
para que lançasse todas as suas forças na
batalha, pois Zeus queria que os troianos fossem
vitoriosos.
De manhã cedo, pois,
dezenas de milhares de gregos marcharam contra a
cidade, confiantes na vitória; enquanto que,
não menos confiantes, os guerreiros troianos se
precipitavam para fora das portas da cidade,
soltando seus gritos de guerra e brandindo suas
armas em desafio ao agressor.
Antes de iniciada
a batalha, entretanto, o Príncipe Paris
arremessou-se para fora das portas da cidade,
numa quadriga veloz, percorrendo o espaço entre
os dois exércitos e desafiando os gregos para
que mandassem quem quisessem para fazer com ele
um combate singular. A este desafio respondeu
imediatamente Menelau; os soldados depuseram as
armas formando círculo, enquanto os dois homens
se preparavam para a luta.
Isto constituía,
porém, mais do que um simples duelo entre dois
guerreiros e ficou combinado que o resultado da
luta decidiria da pendência. Se Páris
vencesse, ficaria ele com Helena, embarcando-se
os gregos para o seu país; se Menelau, porém,
fosse o vencedor, Helena lhe seria entregue, e
pagaria Tróia as despesas da expedição grega.
Tanto Agamenon, como Heitor, tinham confiança
na vitória de seus homens, pois que os sonhos
lha haviam prometido. Não seria menor a
vitória, por ser conquistada sem batalha, pois
que o duelo poria ponto final à guerra, para
gáudio de gregos e troianos.
Assim, enfrentaram-se
na liça Páris e Menelau, armados dos pés à
cabeça enquanto milhares de combatentes os
contemplavam prendendo a respiração. Páris, e
depois, Menelau, lançaram seus dardos, que
foram aparados pelos escudos. A espada de
Menelau partiu-se em pedaços sobre o casco de
Páris; mas Menelau empunhou a crista do
capacete de Páris tentando arrastá-lo para a
linha dos gregos, quase estrangulando o
príncipe troiano com a alça que lhe apertava a
garganta. Mas a alça rompeu-se, e parecia que
Páris conquistaria fácil vitória contra o rei
espartano desarmado, quando ocorreu uma
interrupção inesperada. Do campo troiano
partiu uma flecha e Menelau caiu, com o sangue
jorrando de sua coxa.
Com esta violação
da trégua elevou-se um rugido selvagem das
hostes gregas que prontamente empunharam armas e
escudos, lançando-se contra os troianos. No
ardor do combate, tanto Menelau como Páris
foram esquecidos, exceto pelo furioso
desapontamento dos combatentes, por não haver
concluído o duelo que deveria por ponto final
no conflito.
[transcrição e
adaptação do texto original de George Baker,
em