Quando Pélops e seus companheiros desembarcaram
na Grécia, encontraram o país mais ou menos
nas mesmas condições em que os anglo-saxões
encontraram a Inglaterra depois da retirada dos
romanos. Havia por toda parte vestígios da
antiga grandeza no meio dos quais o povo vivia
quase em condição de indigência.
Muitos anos antes, vivera na Ilha de Creta, ao
sul da Grécia, poderosa e rica nação, cujos
habitantes colonizaram o sul da Grécia, fazendo
de Micenas sua capital. Também esta
cidade tornara-se rica e poderosa, mas, com a
queda da nação cretense, entrara em decadência.
Não havia nenhum rei bastante poderoso para
governar o país, nem ao norte nem ao sul da
estreita faixa de terra que forma o Istmo de
Corinto. Cada aldeia, vale ou planície
pertencia a um chefete, que reinava sobre pouco
mais que sua própria família e seus
apaniguados, vivendo do produto de suas pequenas
lavouras e criações.
Naquela época, de todos esses régulos, eram
Pandion de Atenas e Enomau da Élida os mais
famosos. Foi na Élida, situada no
quadrante noroeste da grande península, que
encontrou Pélops, de início, a região onde
gostaria de estabelecer seu novo lar.
Tanto ele como seus companheiros foram recebidos
cordialmente pelo Rei Enomau, pai da mais
formosa moça que vira Pélops em toda a sua
vida. Como o Rei não tivesse filho, a princesa,
cujo nome era Hipodâmia, traria por dote, ao
homem que a desposasse, o reino da Élida e tudo
o que o Rei possuía. Muito admirou-se Pélops
de ser Hipodâmia ainda solteira e desejou
ardentemente desposá-la. Mas, quando a
pediu em casamento ao Rei Enomau, este fechou a
carranca.
- Não posso recusá-lo, Pélops, conquanto não
possa, tampouco, dar-lhe meu consentimento,
disse ele. Você conhece, sem dúvida, a
profecia segundo a qual o homem que for meu
genro há de me matar.
Ora, não tenho o
menor desejo de morrer, Pélops; assim sendo,
fiz o juramento de
que o homem que quiser casar com minha filha terá
primeiro de me vencer numa corrida de carros.
Se o conseguir, casar-se-á com minha filha
Hipodâmia; mas, se for vencido por mim, deverá
estar pronto para morrer.
Então compreendeu Pélops por que razão a
princesa ainda, era solteira: os corcéis do Rei
Enomau eram os mais velozes do mundo, e o próprio
Rei, um valente e destemido corredor. Nada
menos que 16 jovens já tinham com ele competido
para conquistarem a mão da linda Hipodâmia;
todos eles, entretanto, tinham sido derrotados
e, conseqüentemente, condenados à morte.
Fora Pélops, em sua juventude na Frígia, hábil
condutor de bigas e estava assim decidido a
tentar a sorte e a arriscar a vida , na esperança
de conquistar Hipodâmia, por quem se sentia
profundamente apaixonado. Mas, pensando naqueles
16 jovens que haviam perdido a vida em
semelhante tentativa, não desafiou de pronto o
Rei para a corrida, e
retirou-se para meditar calmamente antes de fazê-lo.
Foi, em seguida, à procura de Mirtilo, o homem
que cuidava da coudelaria do Rei, o auriga que
conduzia a sua quadriga quando não queria
Enomau empunhar as rédeas pessoalmente.
Era Mirtilo um dos melhores cavalariços do
mundo e, devido aos seus cuidados, os cavalos da
Élida tornaram-se famosos pela sua velocidade.
Travou Pélops, desde logo, amizade com ele, e
perguntou-lhe quais as possibilidades que tinha
de vencer o rei naquela competição.
- Nenhuma, disse Mirtilo. Não existem, no
mundo, cavalos tão velozes como os do Rei
Enomau. Além disso, é longo o percurso,
de mais ou menos 100 milhas, e o Rei conhece
esse trajeto palmo a palmo. Competir com
ele, na corrida, é ir ao encontro de morte
certa.
-
Entretanto, um dia o próprio rei há de morrer,
disse Pélops, e nesse dia que de suceder-lhe no
trono da Élida?
- Ora,
a Princesa terá a liberdade de se casar com
quem quiser, replicou Mirtilo, e seu marido será
o futuro soberano. Porém, Enomau é
vigoroso e sadio; muitos anos ainda se poderão
escoar antes que ele venha a falecer.
- Isso
é verdade, tornou Pélops, a menos que venha a
sofrer algum acidente. Eu daria a metade
do meu reino para desposar Hípodâmia
imediatamente.
- Se
você está falando a sério, disse Mirtilo, e
promete dar-me a metade do seu reino quando
subir ao trono, ajudá-lo-ei com prazer a ganhar
essa corrida.
- E de
que maneira o conseguiria?
- A
cavilha que prende a roda ao eixo do carro do
Rei está gasta e frágil; eu ia substituí-Ia.
Mas, se eu deixar em seu lugar a cavilha velha,
e o Rei competir na corrida com você, então a
cavilha já gasta não resistirá e, cedo ou
tarde, há de se partir. Nestas condições,
não terá você dificuldade em ganhar a
corrida. Pélops aceitou a proposta,
comprometendo-se a fazer doação em favor de
Mirtilo da metade do seu reino, no dia em que se
tornasse rei da Élida.
Escolheu para si um carro (certificando-se com
cuidado de que as cavilhas estavam bem sólidas)
selecionou dois cavalos velozes - dizem alguns
que estes lhe foram ofertados por Poseidon, Rei
do Mar - e foi ter à presença do Rei.
- Tão
grande é o meu amor por sua filha, a Princesa
Hipodâmia, disse-lhe ele, que apesar tudo,
aceito seu desafio para a corrida, Rei Enomau,
com a condição de casar-me com sua filha se
vencer, sujeitando-me a morrer caso for vencido.
No dia marcado, partiram as duas bigas em
desabalada carreira, do território da Élida
rumo ao extremo do istmo, a leste. Tudo
correu bem, de início. Às vezes ia o Rei na
dianteira e, outras vezes, Pélops, até
atingirem um vale pedregoso, onde os carros
pulavam e sacolejavam atrás dos cavalos que
voavam. O Rei Enomau sorria, pois tinha a
impressão de que os outros corcéis já
demonstravam cansaço. Ia ele à frente,
despreocupadamente, certo de conservar agora a
dianteira, ganhando assim a corrida, quando,
subitamente, sua biga oscilou com violência.
Viu consternado soltar-se uma roda do carro;
depois este
pendeu para um lado arremessando-o ao longe,
indo sua cabeça chocar-se contra enorme seixo
que jazia à beira da estrada. Como
permanecesse estendido, aproximou-se Pélops a
galope, amarrou as rédeas e pulou do carro para
socorrer o Rei. Enomau - Pélops o percebera
imediatamente - achava-se gravemente ferido e não
poderia sobreviver. Pélops ajoelhou-se a
seu lado e o Rei abriu os olhos.
- Foi uma bela corrida, Pélops, murmurou ele, e
sinto-me satisfeito qu você viva para me
suceder no trono. O patife do Mirtilo . .
. avisei-o de que a cavilha, estava fraca ...
disse-me que ia trocá-la por outra nova.
Castigue-o, Pélops, pois vou morrer em conseqüência
de sua desídia.
Foram essas as últimas palavras proferidas por
Enomau. Pélops levou seu corpo de volta
para a Élida, onde foi enterrado com ritos
solenes.
Casaram-se Pélops e Hipodâmia, algum tempo
depois.
Esperou, Mirtilo, com impaciência, que
cumprisse o novo Rei a sua promessa de lhe, doar
metade do reino, mas, passaram-se muitos dias
antes que tivesse a oportunidade de falar a sós
com Pélops. Então, uma noite, saiu Pélops
de carro com Mirtilo, percorrendo o alto de uma
falésia, rumo a um templo onde, dizia Pélops,
ia oferecer um sacrifício
em ação de graças por sua vitória e tudo o
que se seguira.
- Não foi somente com a ajuda dos deuses que
você ganhou a corrida, disse-lhe Mirtilo.
Fui eu que fiz com que se desprendesse a roda do
carro do falecido rei.
- É
verdade, tornou Pélops, puxando as rédeas para
deter os corcéis. Em seus últimos instantes
falou-me o Rei de você, Mirtilo, pedindo-me que
o castigasse.
- Você
não poderia agir por essa forma, já que foi
por causa de suas promessas de recompensa que eu
não consertei a cavilha.
- Quer
você que eu seja perseguido pelas Fúrias,
Mirtilo, por
desobedecer às ordens de um rei moribundo? Além
disso, traiu você ao seu soberano, em meu benefício,
somente para receber uma recompensa. Como terei
certeza de que você não vai me trair, a mim
também?
O auriga implorou então misericórdia,
mas Pélops, com expressão inflexível em seus
olhos ferozes, ergueu Mirtilo no ar e
arremessou-o
da beira do penhasco abrupto. Seu corpo
foi caindo, caindo batendo nas saliências
rochosas, até despedaçar-se afinal, no sopé
da falésia; Pélops contempla-o enquanto,
lentamente, mergulhava no mar agitado. No
momento em que era tragado pelas ondas, Mirtilo
gritou, e sua voz
ressoou estranhamente pelas fragas e os penedos.
- Caia minha maldição sobre sua cabeça, Pélops,
e sobre todos da sua estirpe! Possam a
desonra e a traição perseguí-lo eternamente e
levá-lo à morte, assim como você me tirou a
vida. Recaia minha maldição sobre você e sua
família por todo o sempre!
Uma onda recobriu molemente sua boca agonizante. Mirtilo submergiu, desaparecendo para sempre.
Por longo espaço de tempo, ficou Pélops imóvel
e pensativo a contemplar as rochas manchadas de
sangue e o embate espumoso das ondas.
Depois, encolhendo os ombros, tornou à sua biga
e, calmamente, dirigiu-se para a Élida.
- Como! Voltou só? exclamou Hipodâmia.
Onde está Mirtilo?
-
Morreu, tornou Pélops. Foi a última
vontade de seu pai. Tanto a expressão de
seu rosto como o tom de sua voz advertiram Hipodâmia
de que não deveria prosseguir nas indagações.
Assim era o homem tenebroso e terrível que
viera do oriente para estabelecer sua realeza na
Élida, e, mais tarde, estender seu domínio a
todas as terras do sul, de tal maneira que,
desde a época áurea da velha Micenas, não
houve outro rei tão poderoso em todo o território
da
Grécia.
[transcrição e adaptação do texto original
de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS
editora Brasiliense, 1960.]
Moacir Índio da Costa Júnior