PÁGINA DE MITOLOGIA



GEORGE BAKER




Deuses e Heróis

O Romance da Mitologia Grega



Editora Brasiliense
São Paulo
1960




Primeira Parte

O Advento de Pélops






CAPITULO II


DE QUE MANEIRA PROCURAVA PÉLOPS CONQUISTAR UM REINO,
E DA MALDIÇÃO QUE RECAIU SOBRE SUA CASA



Quando Pélops e seus companheiros desembarcaram na Grécia, encontraram o país mais ou menos nas mesmas condições em que os anglo-saxões encontraram a Inglaterra depois da retirada dos romanos. Havia por toda parte vestígios da antiga grandeza no meio dos quais o povo vivia quase em condição de indigência.

Muitos anos antes, vivera na Ilha de Creta, ao sul da Grécia, poderosa e rica nação, cujos habitantes colonizaram o sul da Grécia, fazendo de Micenas sua capital.  Também esta cidade tornara-se rica e poderosa, mas, com a queda da nação cretense, entrara em decadência.  Não havia nenhum rei bastante poderoso para governar o país, nem ao norte nem ao sul da estreita faixa de terra que forma o Istmo de Corinto.  Cada aldeia, vale ou planície pertencia a um chefete, que reinava sobre pouco mais que sua própria família e seus apaniguados, vivendo do produto de suas pequenas lavouras e criações.


Naquela época, de todos esses régulos, eram Pandion de Atenas e Enomau da Élida os mais famosos.  Foi na Élida, situada no quadrante noroeste da grande península, que encontrou Pélops, de início, a região onde gostaria de estabelecer seu novo lar.


Tanto ele como seus companheiros foram recebidos cordialmente pelo Rei Enomau, pai da mais formosa moça que vira Pélops em toda a sua vida. Como o Rei não tivesse filho, a princesa, cujo nome era Hipodâmia, traria por dote, ao homem que a desposasse, o reino da Élida e tudo o que o Rei possuía.  Muito admirou-se Pélops de ser Hipodâmia ainda solteira e desejou ardentemente desposá-la.  Mas, quando a pediu em casamento ao Rei Enomau, este fechou a carranca.

- Não posso recusá-lo, Pélops, conquanto não possa, tampouco, dar-lhe meu consentimento, disse ele.  Você conhece, sem dúvida, a profecia segundo a qual o homem que for meu genro há de me matar. 

Ora, não tenho o menor desejo de morrer, Pélops; assim sendo, fiz o juramento de que o homem que quiser casar com minha filha terá primeiro de me vencer numa corrida de carros.  Se o conseguir, casar-se-á com minha filha Hipodâmia; mas, se for vencido por mim, deverá estar pronto para morrer.

Então compreendeu Pélops por que razão a princesa ainda, era solteira: os corcéis do Rei Enomau eram os mais velozes do mundo, e o próprio Rei, um valente e destemido corredor.  Nada menos que 16 jovens já tinham com ele competido para conquistarem a mão da linda Hipodâmia; todos eles, entretanto, tinham sido derrotados e, conseqüentemente, condenados à morte.

Fora Pélops, em sua juventude na Frígia, hábil condutor de bigas e estava assim decidido a tentar a sorte e a arriscar a vida , na esperança de conquistar Hipodâmia, por quem se sentia profundamente apaixonado. Mas, pensando naqueles 16 jovens que haviam perdido a vida em semelhante tentativa, não desafiou de pronto o Rei para a corrida, e retirou-se para meditar calmamente antes de fazê-lo.  Foi, em seguida, à procura de Mirtilo, o homem que cuidava da coudelaria do Rei, o auriga que conduzia a sua quadriga quando não queria Enomau empunhar as rédeas pessoalmente.

Era Mirtilo um dos melhores cavalariços do mundo e, devido aos seus cuidados, os cavalos da Élida tornaram-se famosos pela sua velocidade. Travou Pélops, desde logo, amizade com ele, e perguntou-lhe quais as possibilidades que tinha de vencer o rei naquela competição.

- Nenhuma, disse Mirtilo.  Não existem, no mundo, cavalos tão velozes como os do Rei Enomau.  Além disso, é longo o percurso, de mais ou menos 100 milhas, e o Rei conhece esse trajeto palmo a palmo.  Competir com ele, na corrida, é ir ao encontro de morte certa. 

- Entretanto, um dia o próprio rei há de morrer, disse Pélops, e nesse dia que de suceder-lhe no trono da Élida?

- Ora, a Princesa terá a liberdade de se casar com quem quiser, replicou Mirtilo, e seu marido será o futuro soberano.  Porém, Enomau é vigoroso e sadio; muitos anos ainda se poderão escoar antes que ele venha a falecer.

- Isso é verdade, tornou Pélops, a menos que venha a sofrer algum acidente.  Eu daria a metade do meu reino para desposar Hípodâmia imediatamente.

- Se você está falando a sério, disse Mirtilo, e promete dar-me a metade do seu reino quando subir ao trono, ajudá-lo-ei com prazer a ganhar essa corrida.

- E de que maneira o conseguiria?

- A cavilha que prende a roda ao eixo do carro do Rei está gasta e frágil; eu ia substituí-Ia.  Mas, se eu deixar em seu lugar a cavilha velha, e o Rei competir na corrida com você, então a cavilha já gasta não resistirá e, cedo ou tarde, há de se partir.  Nestas condições, não terá você dificuldade em ganhar a corrida. Pélops aceitou a proposta, comprometendo-se a fazer doação em favor de Mirtilo da metade do seu reino, no dia em que se tornasse rei da Élida.

Escolheu para si um carro (certificando-se com cuidado de que as cavilhas estavam bem sólidas) selecionou dois cavalos velozes - dizem alguns que estes lhe foram ofertados por Poseidon, Rei do Mar - e foi ter à presença do Rei.

- Tão grande é o meu amor por sua filha, a Princesa Hipodâmia, disse-lhe ele, que apesar tudo, aceito seu desafio para a corrida, Rei Enomau, com a condição de casar-me com sua filha se vencer, sujeitando-me a morrer caso for vencido.

No dia marcado, partiram as duas bigas em desabalada carreira, do território da Élida rumo ao extremo do istmo, a leste.  Tudo correu bem, de início. Às vezes ia o Rei na dianteira e, outras vezes, Pélops, até atingirem um vale pedregoso, onde os carros pulavam e sacolejavam atrás dos cavalos que voavam.  O Rei Enomau sorria, pois tinha a impressão de que os outros corcéis já demonstravam cansaço.  Ia ele à frente, despreocupadamente, certo de conservar agora a dianteira, ganhando assim a corrida, quando, subitamente, sua biga oscilou com violência. Viu consternado soltar-se uma roda do carro; depois este pendeu para um lado arremessando-o ao longe, indo sua cabeça chocar-se contra enorme seixo que jazia à beira da estrada.  Como permanecesse estendido, aproximou-se Pélops a galope, amarrou as rédeas e pulou do carro para socorrer o Rei. Enomau - Pélops o percebera imediatamente - achava-se gravemente ferido e não poderia sobreviver.  Pélops ajoelhou-se a seu lado e o Rei abriu os olhos.

- Foi uma bela corrida, Pélops, murmurou ele, e sinto-me satisfeito qu você viva para me suceder no trono.  O patife do Mirtilo . . . avisei-o de que a cavilha, estava fraca ... disse-me que ia trocá-la por outra nova.  Castigue-o, Pélops, pois vou morrer em conseqüência de sua desídia.

Foram essas as últimas palavras proferidas por Enomau.  Pélops levou seu corpo de volta para a Élida, onde foi enterrado com ritos solenes.
Casaram-se Pélops e Hipodâmia, algum tempo depois.

Esperou, Mirtilo, com impaciência, que cumprisse o novo Rei a sua promessa de lhe, doar metade do reino, mas, passaram-se muitos dias antes que tivesse a oportunidade de falar a sós com Pélops.  Então, uma noite, saiu Pélops de carro com Mirtilo, percorrendo o alto de uma falésia, rumo a um templo onde, dizia Pélops, ia oferecer um sacrifício
em ação de graças por sua vitória e tudo o que se seguira.

- Não foi somente com a ajuda dos deuses que você ganhou a corrida, disse-lhe Mirtilo.  Fui eu que fiz com que se desprendesse a roda do carro do falecido rei.

- É verdade, tornou Pélops, puxando as rédeas para deter os corcéis. Em seus últimos instantes falou-me o Rei de você, Mirtilo, pedindo-me que o castigasse.

- Você não poderia agir por essa forma, já que foi por causa de suas promessas de recompensa que eu não consertei a cavilha.

- Quer você que eu seja perseguido pelas Fúrias, Mirtilo, por
desobedecer às ordens de um rei moribundo? Além disso, traiu você ao seu soberano, em meu benefício, somente para receber uma recompensa. Como terei certeza de que você não vai me trair, a mim também?

O auriga implorou então misericórdia, mas Pélops, com expressão inflexível em seus olhos ferozes, ergueu Mirtilo no ar e arremessou-o da beira do penhasco abrupto.  Seu corpo foi caindo, caindo batendo nas saliências rochosas, até despedaçar-se afinal, no sopé da falésia; Pélops contempla-o enquanto, lentamente, mergulhava no mar agitado. No momento em que era tragado pelas ondas, Mirtilo gritou, e sua voz ressoou estranhamente pelas fragas e os penedos.

- Caia minha maldição sobre sua cabeça, Pélops, e sobre todos da sua estirpe! Possam a desonra e a traição perseguí-lo eternamente e levá-lo à morte, assim como você me tirou a vida. Recaia minha maldição sobre você e sua família por todo o sempre!

Uma onda recobriu molemente sua boca agonizante. Mirtilo submergiu, desaparecendo para sempre.  Por longo espaço de tempo, ficou Pélops imóvel e pensativo a contemplar as rochas manchadas de sangue e o embate espumoso das ondas.  Depois, encolhendo os ombros, tornou à sua biga e, calmamente, dirigiu-se para a Élida.

- Como!  Voltou só? exclamou Hipodâmia.  Onde está Mirtilo?

- Morreu, tornou Pélops.  Foi a última vontade de seu pai.  Tanto a expressão de seu rosto como o tom de sua voz advertiram Hipodâmia de que não deveria prosseguir nas indagações.

Assim era o homem tenebroso e terrível que viera do oriente para estabelecer sua realeza na Élida, e, mais tarde, estender seu domínio a todas as terras do sul, de tal maneira que, desde a época áurea da velha Micenas, não houve outro rei tão poderoso em todo o território da Grécia.


[transcrição e adaptação do texto original de George Baker,
em
DEUSES E HERÓIS
editora Brasiliense, 1960.]

Moacir Índio da Costa Júnior

 

 
 
 


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